Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

quinta-feira, outubro 16, 2014

A maior tragédia de mineração do Brasil

Era uma segunda-feira,  10 de setembro de 1984, a  equipe de mineiros escalada para o primeiro turno de trabalho na Mina Santana, da extinta Companhia Carbonífera de Urussanga, havia acabado de descer para o subsolo. Por volta das 5h houve a explosão. Todos os 31 trabalhadores do painel seis, que estavam a 80 metros de profundidade, morreram.

PIOR ACIDENTE DA MINERAÇÃO BRASILEIRA
Até hoje, 30 anos depois, este ainda é considerado o pior acidente da mineração brasileira – e um marco para a normatização da atividade. Na época havia muito mais trabalho (eram quase 13 mil mineiros e a indústria produzia o dobro do que atualmente) e quase não existiam regras. A extração do carvão era manual, usava-se explosivos e não havia sequer a proibição de fumar na mina.

CAUSAS DA EXPLOSÃO
As causas da explosão nunca foram, de fato, esclarecidas. Perícias feitas na época indicaram acúmulo de gás metano (um gás inflamável, presente na camada de carvão, que em determinada quantidade causa explosões).
A situação pode ter agravado por falta de ventilação na mina devido a queda de energia ocorrida na véspera do acidente  que pode ter comprometido o funcionamento dos exaustores que carregam o ar da superfície para o subsolo.

MORTES
Os mineiros morreram por asfixia e queimaduras. Nos dois primeiros dias de resgate, segundo consta em publicações da época, todos os que se aproximaram da mina deixaram o local intoxicados. A operação para a retirada dos corpos só foi encerrada cinco dias depois do acidente e reuniu bombeiros de Criciúma, Itajaí, Florianópolis e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA,
A evolução da indústria, desde a tragédia em Urussanga, avançou: tanto em tecnologia quanto em segurança. A produção é quase totalmente mecanizada, o que melhorou – e muito – as condições de trabalho. Os casos de pneumoconiose, doença pulmonar causada pela inalação de poeira que assombrou as últimas gerações de mineiros, praticamente inexistem. Isso porque o maquinário usado para extrair carvão borrifa água enquanto opera, o que aumenta a umidade no subsolo e diminui o pó. Além disso, máscaras faciais são itens obrigatórios para o serviço.

REGRAS DE SEGURANÇA MAIS CRITERIOSA
A evolução da indústria, desde a tragédia em Urussanga, avançou: tanto em tecnologia quanto em segurança. A produção é quase totalmente mecanizada, o que melhorou – e muito – as condições de trabalho.

Hoje ninguém desce para o subsolo sem equipamento de segurança e treinamento adequado. A atividade é regida por uma norma específica à mineração e a cada seis meses as mineradoras são fiscalizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral – autarquia ligada ao Ministério das Minas e Energia.

Um técnico de segurança mede a quantidade de gases tóxicos durante os turnos de trabalho. Essa tecnologia que não existia há 30 anos. As regras de segurança da mina também ficaram mais criteriosas. "A utilização dos equipamentos de segurança é obrigatória. Quem trabalha diretamente com a mineração ou perto da extração não pode ficar sem máscara", afirma Jonathann Hoffmann, engenheiro de segurança de trabalho de uma mina em Içara.
O Ministério Público do Trabalho recebe os relatórios e, se necessário, firma Termos de Ajuste de Conduta (TAC) com as empresas. A região carbonífera de SC responde por metade da produção de carvão mineral do país. É interligada por Criciúma, Forquilhinha, Içara, Lauro Müller, Siderópolis e Treviso.

PROFISSÃO DE ALTO RISCO
Quem atua em contato direto com a extração do minério tem no máximo 15 anos de profissão. O que, segundo o Sindicato dos Mineiros, é um atrativo do serviço. A aposentadoria precoce permite a quem inicia na atividade aos 21 anos ser amparado pela Previdência Social aos 36.
Não é qualquer pessoa que tem estrutura física e emocional para desenvolver a atividade. É escuro, isolado e não se tem diálogo com muitas pessoas.
Dados da Previdência Social mantém a profissão de mineiro como uma das mais perigosas do país, ao lado dos que atuam nas plataformas de petróleo. E por um motivo: as chances de acidentes fatais são maiores em locais isolados, onde é difícil escapar.

PRINCIPAIS CAUSAS DOS ACIDENTES RECENTES
■ desmoronamento de rochas do teto e das laterais da mina
■ e choque elétrico.
Para diminuir os acidentes, a Associação Brasileira do Carvão discute a criação de um centro de tecnologia na área da segurança em mineração.
Fonte: Diário Catarinense - 06/09/2014

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segunda-feira, outubro 13, 2014

História do Sistema Cantareira

A história do aproveitamento dos mananciais da Cantareira, ao norte da Capital, remonta ao final do século passado, quando foram construídos os primeiros tanques de reservação. A água proveniente da serra abastecia precariamente o centro da cidade através do antigo reservatório da  Consolação. A capacidade do primitivo sistema implantado no local foi posteriormente ampliada. Entretanto, com a entrada em funcionamento de outros sistemas, o seu papel no abastecimento da cidade tornou-se pouco significativo.
Em 1966, teve início a construção do atual Sistema Cantareira destinado a desempenhar um papel fundamental na solução do problema do abastecimento da Grande São Paulo. O conjunto dessas obras permitirá a utilização dos  recursos hídricos de uma grande área ao Norte da Capital,

As obras de aproveitamento dos rios  Juqueri, Cachoeira e Atibainha   já estão concluídas.   Nesta primeira etapa, o sistema tem capacidade para produzir 11 mil litros de água por segundo. As represas dos rios Jaguari e Jacareí, a 70 quilômetros de São Paulo, serão construídas posteriormente completando o conjunto. O Sistema Cantareira deverá fornecer então 33 mil litros de água por segundo.
Desde o início de 1974, com a  entrada do sistema em operação, está sendo possível normalizar progressivamente o abastecimento dos bairros das Zonas Norte e Leste da Capital, antes submetidos a racionamentos, e ainda abastecer novas áreas. Com os 33 mil litros a serem produzidos após o represamento dos rios Jaguari e Jacarei, o Sistema Cantareira estará capacitado a suprir as necessidades de 10 milhões de pessoas.







Quatro grandes represas; 48 km de túneis e canais; uma elevatória de 80.000 HP, quatro conjunto de moto-bomba, com motor de 20.000 HP/cada. A maior estação de tratamento de água da América Latina

A ÁGUA DO CANTAREIRA JÁ ESTÁ CHEGANDO
O Cantareira, quando completo, será um dos maiores sistemas produtores de água do mundo. Os seus reservatórios estarão situados em diferentes níveis e serão interligados. De tal maneira que, desde o Jaguari e o Jacarei, as águas passarão por gravidade pelos reservatórios do Cachoeira, Atibainha e Juqueri, e chegarão à Estação Elevatória de Santa Inês, onde todo o volume produzido será bombeado para o Reservatório de Águas Claras, construído no alto da Serra da Cantareira.
Desse reservatório as águas passarão, por gravidade, à Estação de Tratamento do Guaraú.

RESERVATÓRIOS
As barragens do Jaguari e Jaca rei darão origem ao maior reservatório do Sistema Cantareira, que será também o mais distante e localizado em maior altitude, a 848 metros acima do nível
do mar. Este reservatório contribuirá para a vazão do sistema com 22 mil litros de água por segundo.
O Reservatório do Cachoeira tem seu nível a 821,5 metros acima do nível do mar e foi projetado tendo em vista uma produção de 5 mil litros de água por segundo, enquanto que o Atibainha, a 787 metros, tem capacidade para 4 mil litros por segundo.
Finalmente, o Reservatório do Juqueri, formado pela Barragem Engo Paulo de Paiva Castro e com nível a 745 metros, é capaz de fornecer 2 mil litros de água por segundo.

TÚNEIS E CANAIS
As interligações entre os reservatórios serão feitas por túneis e canais. Entre o Reservatório do Jaguari e o do Jacareí haverá um canal de 1 quilômetro de extensão. O Jacareí e o Cachoeira serão ligados por um túnel de 5,6 quilômetros. Outro túnel, este de 5 quilômetros, já faz,a
ligação entre os reservatórios do Cachoeira e Atibainha. Mais dois túneis, de 10 e de 1 quilômetro, ligam, respectivamente,o Reservatório do Atibainha ao do Juqueri, e este à Estação Elevatória de Santa Inês.

ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE SANTA INÊS
A Serra da Cantareira era o grande obstáculo natural entre as fontes produtoras de água e a Estação de Tratamento do Guaraú. Para vencer esse obstáculo foi construída a Estação Elevatória de Santa Inês, com quatro grupos de recalque de 20.000 HP. Três desses grupos já estão prontos e capacitados a bombear os 33 mil litros de água por segundo a serem produzidos ao final da construção do Sistema Cantareira. O quarto grupo, a ser instalado, ficará como unidade de reserva. Impulsionada pelas bombas a água proveniente dos reservatórios é elevada a 120 metros, até o alto da serra. Por gravidade, através de um canal de 950 metros e um túnel de 800 metros, atinge o Reservatório de Aguas Claras.

RESERVATÓRIO DE ÁGUAS CLARAS
Trata-se de reservatório de segurança, cujo nível está a 860 metros: Em caso de paralisação da Estação Elevatória de Santa Inês, o Reservatório de Águas Claras pode manter um fluxo contínuo de 33 mil litros por segundo durante três horas. Esse reservatório está ligado à Estação de Tratamento de Água do Guaraú (ETA-Guaraú) por um túnel de 4,8 quilômetros.

ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DO GUARAÚ
Dotada da mais moderna tecnologia de purificação de água, a ETA-Guaraú tratará eficientemente toda a água produzida pelo Cantareira. Com os equipamentos já instalados está capacitada a purificar 16 mil litros por segundo.

CONTROLANDO OS RIOS
Além de possibilitar um radical aumento na adução de água para a Grande São Paulo, o Sistema Cantareira trará outros benefícios. A regularização da vazão dos rios à jusante é um exemplo. O represamento do Juqueri, Atibainha, Cachoeira, Jaguari e Jacareí permitirá o controle do fluxo das águas desses rios, mantendo-o num volume constante na estiagem, evitando enchentes na época das chuvas, beneficiando assim a população e favorecendo a agropecuária de uma grande região que abrange setores dos municípios de Campinas, Piracicaba, Americana, Bragança Paulista, Atibaia, Paulínia, Franco da Rocha, Caieiras, Perus, Santa Bárbara d'Oeste. Piracaia, Bom Jesus dos Perdões, Jari nu, Morungaba, Pedreira, Cosmopolis e Jaguariuna.

MANANCIAIS PROTEGIDOS
Para assegurar a pureza natural dos mananciais do Sistema Cantareira e de seus reservatórios, a área que envolve as nascentes dos rios será protegida. Nessa área não será permitido o estabelecimento de indústrias ou residências. Com isso, ficará livre de detritos ou quaisquer agentes poluidores.

REFLORESTAM ENTO
A vegetação existente será preservada, o que transformará o Cantareira numa grande reserva florestal. Os terrenos das antigas propriedades rurais serão reflorestados. Há um projeto preparado por especialistas em paisagismo e ecologia que prevê a reposição, nesses setores, de espécies vegetais da região.

LAZER
Os locais próximos às represas receberão tratamento paisagístico, terão parques, "play-qrounds" e áreas para pique-niques. Desta forma, o Sistema Cantareira não será apenas um elemento importante da infra-estrutura da metrópole, mas também um centro de lazer e de atração turística.
Fonte: Prospecto técnico da Sabesp da época da construção
Comentário:
DESMATAMENTO HÁ 30 ANOS AINDA PREJUDICA SISTEMA
O desmatamento na bacia hidrográfica do sistema Cantareira, que passa atualmente por sua maior crise, alcançou 78% de sua cobertura florestal nativa há 30 anos, prejudicando a capacidade de produção de água de seus reservatórios, segundo levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica.
Nas últimas três décadas, diz a ONG, pouco se fez para recuperar as áreas degradadas de mata atlântica dessa região. Hoje restam 48,8 mil hectares, ou 21,5% do que havia em oito municípios paulistas e oito mineiros.
Essa área original de floresta cobria 64,3% dos municípios de Camanducaia, Extrema, Sapucaí Mirim e Itapeva, em Minas Gerais; e Franco da Rocha, Joanópolis, Mairiporã, Nazaré Paulista, Piracaia, Bragança Paulista, Caieiras, e Vargem, em São Paulo.
As bacias que compõem o Sistema Cantareira ocupam uma área total de 2.270 quilômetros quadrados. Desta forma, as áreas com cobertura vegetal somam apenas 488 quilômetros quadrados. Da área total do sistema, 75 quilômetros quadrados correspondem a áreas inundadas dos reservatórios e 18 quilômetros quadrados à ocupação urbana consolidada.

PAPEL DE PREVENÇÃO
"A floresta tem papel essencial na prevenção de secas, pois reabastece os lençóis freáticos e impede a erosão do solo e o assoreamento de rios", afirmou Marcia Hirota, diretora-executiva da ONG e responsável pelo mapeamento que a entidade elabora desde 1986 em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Em todo o Brasil, restaram 16,4 mil hectares de mata atlântica, ou seja, 12,5% de todos os 130,9 mil hectares do domínio original, segundo a fundação.
Nas últimas décadas, São Paulo foi um dos Estados que mais preservaram o bioma.

MUNICÍPIOS PAULISTAS
A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo contestou a estimativa da SOS Mata Atlântica, afirmando que a cobertura vegetal nativa aumentou de 41,8 mil hectares para 64,6 mil hectares de 2005 a 2010 nos oito municípios paulistas, segundo o Instituto Florestal.
Desse modo, a área desmatada seria 74,5%.
A ANA (Agência Nacional de Águas) informou que promove em várias regiões, inclusive na do sistema Cantareira, o programa Produtor de Água, que apoia, orienta e certifica iniciativas de recuperação e preservação florestal de produtores rurais, com previsão de remuneração por resultados. Fonte: Folha de São Paulo- 9 de outubro de 2014

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sexta-feira, outubro 10, 2014

Histórico:Crise no abastecimento em São Paulo

REGISTROS HISTÓRICOS
Represa Jaguari, que integra o Sistema da Cantareira da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) fica com solo seco e rachado devido à falta de chuvas no Estado. O reservatório fica em Bragança Paulista (SP) e é o principal fornecedor de água para a capital e regulador da vazão dos mais importantes rios da região de Campinas

1900-1910-Em 1903, São Paulo enfrenta grande crise no abastecimento, em função de estiagem prolongada. Em 1907, é inaugurado o reservatório do Araçá, que aproveita a canalização do reservatório Cantareira, ligada à linha de sobras e que se prolonga até o espigão da avenida Paulista. Um ano depois, a companhia de energia elétrica Light and Power represa o rio Guarapiranga, na cabeceira do rio Pinheiros. A represa Santo Amaro, também chamada Guarapiranga, tinha na época capacidade para 196 milhões de metros cúbicos de água.

1910-1920-Em 1914, a cidade enfrenta uma epidemia de febre tifóide, circunscrita aos bairros baixos situados às margens do rio Tietê, provocada pelo uso das já então poluídas águas daquele rio. No mesmo ano se iniciam as obras para a adução das águas do rio Cotia. A primeira etapa previa a adução na Cachoeira da Graça, com reforço dos bairros altos da cidade. A segunda etapa – a adutora Água Branca-Cotia, é construída em 1920 e, assim a cidade passa a receber 156 mil metros cúbicos por dia. Este volume sofria reduções por conta de estiagens.

1920-1930-A água distribuída na cidade passa a ter cloramento obrigatório em 1925. Nesse mesmo ano, uma grande estiagem provoca crise no abastecimento e o governo, então, inicia as obras do sistema rio Claro, afluente do Tietê. Manancial situado na Serra do Mar, o sistema poderia fornecer água na razão de 6 metros cúbicos por segundo. Dois anos depois, começa o projeto de canalização e reversão do rio Pinheiros para gerar energia elétrica na Usina Henry Borden, por meio da construção das represas Billings e Rio das Pedras. Em 1928, agrava-se a falta d´água e a represa Guarapiranga passa a ser utilizada para abastecimento. No ano seguinte, a cidade sofre uma das maiores inundações de sua história com o transbordamento dos rios Tietê e Pinheiros.

Foto - Salto de Pirapora- Rio Tietê cheio e seco
1930-1940-Em 1934, o governo brasileiro decreta o Código das Águas, que prevê a utilização prioritária dos rios e bacias hidrográficas do País para a geração de energia elétrica. Em 1937, o reservatório da Moóca é concluído e, no ano seguinte, o sistema Rio Claro é reformado e passa a fornecer vazão de 3,3 metros cúbicos por segundo. No ano seguinte, inicia-se a canalização do rio Tietê.

1940-1950-Começa, em 1940, a operação de reversão do rio Pinheiros, para levar água do Tietê para a Billings para aumentar a capacidade de geração de energia da Usina Henry Borden. Em 1942, termina a construção da represa Billings e a reversão do rio Pinheiros.

1950-1960-O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) é criado em 1951. Dois anos depois, é a vez do Conselho Estadual de Controle de Poluição das Águas do estado de São Paulo e tem início na cidade a construção de duas estações de tratamento de esgoto. Em 1954 a cidade de São Paulo completa 400 anos e é criado o Departamento de Águas e Esgotos (DAE). Em 1958, nova crise de abastecimento na cidade inicia a captação das águas do Rio Grande, na represa Billings. O governo estadual firma novo convênio com a Light para a retirada de 9,5 m3/s de águas da represa Guarapiranga. Essa meta, entretanto, só seria alcançada na década de 1970. Até lá apenas 4m3/s eram retirados e tratados.

Respresa  Atibainha
1960-1970-Durante a década começa o aterramento das várzeas do rio Tietê e a construção das pistas marginais. Em 1967, começam as obras no sistema Cantareira e, no ano seguinte, é criada a Companhia Metropolitana de Água de São Paulo (Comasp), empresa de economia mista, cujo principal acionista é o governo do estado, com o objetivo de captar, tratar e vender água potável no atacado aos 37 municípios que constituíam a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e também ao DAE. Ainda em 1968 é criado o Centro Tecnológico de Saneamento Básico (Cetesb), com a finalidade de dar suporte tecnológico ao setor.
Em 1966 teve início a construção do Sistema Cantareira, com entrada em operação em 1974.

1970-1980-A Companhia Metropolitana de Saneamento de São Paulo (Sanesp) é fundada em 1970 para interceptar e tratar os esgotos da Grande São Paulo. O DAE passa, então, a operar o sistema distribuidor de água e a coletar os esgotos do município, comprando água da Comasp, distribuindo-a aos seus consumidores, coletando esgotos e entregando-os à Sanesp para tratamento e disposição final. Nesse mesmo ano, a poluição das águas dos rios Tietê e Pinheiros provocam as primeiras florações de algas na Billings.

Em 1973, é criado o Plano Nacional de Saneamento (Planasa) com a missão de elaborar um planejamento de metas até 1980. Por conta desse planejamento, é criada a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), com o objetivo de planejar, construir e operar os sistemas de abastecimento de água e de coleta de esgotos em todo o estado. Em 1974, entra em operação a primeira etapa do sistema Cantareira, responsável por 4,5mil litros por segundo. Nos dois anos seguintes, cria-se a legislação que disciplina o uso do solo para a proteção de mananciais e outros recursos hídricos da RMSP.

Em 1975 tem início o Programa de Abastecimento de Água para a RMSP e cria-se o Parque Ecológico do Tietê. No ano seguinte, a Sabesp elabora o Plano Diretor de Suprimento de Água Potável para a RMSP e, em 1978, faz convênio com a prefeitura para atender favelas e núcleos de periferia.

Com a criação da Eletropaulo – Eletricidade de São Paulo, em 1980, a Light deixa de atuar na cidade. Com o aumento da poluição na Billings, em 1982 é construída a barragem Anchieta, separando o Braço do Rio Grande do resto da represa, para garantir a qualidade da água e o abastecimento público. Em 1983, é criado o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema).

No ano seguinte, por conta da pressão de organizações ambientalistas, o governo estadual diminui a quantidade de água bombeada do rio Tietê para a Billings. Em 1986, a Sabesp faz o abastecimento metropolitano de água por meio dos sistemas Cantareira, Guarapiranga, Rio Claro, Billings, Alto e Baixo Cotia.

Em 1989, a Constituição de São Paulo assegura o princípio de preservação e recuperação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, com prioridade ao abastecimento público. Restabelece ainda o prazo de três anos para a paralisação total do bombeamento das águas do Tietê para a Billings.

Com a criação da Eletropaulo – Eletricidade de São Paulo, em 1980, a Light deixa de atuar na cidade. Com o aumento da poluição na Billings, em 1982 é construída a barragem Anchieta, separando o Braço do Rio Grande do resto da represa, para garantir a qualidade da água e o abastecimento público. Em 1983, é criado o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema).

No ano seguinte, por conta da pressão de organizações ambientalistas, o governo estadual diminui a quantidade de água bombeada do rio Tietê para a Billings. Em 1986, a Sabesp faz o abastecimento metropolitano de água por meio dos sistemas Cantareira, Guarapiranga, Rio Claro, Billings, Alto e Baixo Cotia.

Em 1989, a Constituição de São Paulo assegura o princípio de preservação e recuperação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, com prioridade ao abastecimento público. Restabelece ainda o prazo de três anos para a paralisação total do bombeamento das águas do Tietê para a Billings.

Em 1991, é aprovada a Política Estadual de Recursos Hídricos. No ano seguinte, entra em operação o sistema Alto Tietê, formado por três reservatórios erguidos no alto da Serra do Mar, para captar água limpa para abastecimento da RMSP. Começa também a primeira etapa do projeto de despoluição do rio Tietê. Tem início o Programa Guarapiranga. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente restringe o bombeamento Tietê-Billings à situações emergenciais, como enchentes e colapso de energia elétrica. Um ano depois, por pressão das indústrias de Cubatão, é retomado o bombeamento Tietê-Billings, mas restrito à ameaça de enchente.

Em 1997, é aprovada a lei de proteção e recuperação de mananciais. Em 1999, o projeto Tietê conta com interceptadores, coletores-tronco e algumas estações de tratamento de esgoto. Tem início a elaboração do Programa de Recuperação Ambiental da Bacia Hidrográfica da Billings. Em 2000, a Billings passa a ser utilizada para o abastecimento de São Paulo. O governo estadual apresenta proposta de retomar o bombeamento da represa para aumentar a geração de energia na Usina Henry Borden, por meio da despoluição do rio Pinheiros com a tecnologia de flotação.

Em 2003, a estiagem torna crítico o nível armazenamento nos reservatórios do sistema Cantareira trazendo risco de colapso ao abastecimento de 50% da RMSP. Em 2004, Projeto de Lei que define a Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais da Bacia Hidrográfica do Guarapiranga (Lei Específica do Guarapiranga) é encaminhada à Assembléia Legislativa do Estado de SP.

Seca atual em São Paulo é a maior em 45 anos

A seca em São Paulo no último período chuvoso, que vai de outubro a março, foi uma das mais graves já registradas. Segundo dados do IAG (Instituto de Astronomia e Geofísica) da USP (Universidade de São Paulo), esta foi a temporada com menos chuvas desde 1969. É o 13º ano mais seco desde que as medições começaram, em 1934, e também a pior desde a criação do Sistema Cantareira, em 1973.

As análises de falta de chuva dependem dos pontos meteorológicos escolhidos para o cálculo. De acordo com o local onde foi contabilizada a quantidade de chuva, tem-se um resultado maior ou menor para indicar quão severa é esta seca atual. No caso, o ponto considerado para a coleta de dados fica no próprio IAG, cuja sede está localizada na capital paulista.

OS ANOS MAIS SECOS
"Os três anos mais secos em 81 anos de dados do IAG USP foram 1941, 1934 e 1964. O professor Augusto José Pereira Filho, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG/USP, diz que até novembro de 2013, as chuvas foram bem próximas ou acima do normal. A seca atingiu uma área muito significativa do Sudeste. Na região onde está o posto do IAG/USP e a bacia de interesse [que abastece o Sistema Cantareira], os índices ficaram em torno de 50% abaixo do normal".
A Região Metropolitana de São Paulo, onde está o posto do IAG, tende a receber mais chuva em razão da ilha de calor urbano, lembra o professor.

CHOVE MENOS NOS ENTORNO DA REGIÃO DOS MANANCIAIS
"Chove menos nos entorno da região, onde estão os mananciais que suprem a demanda por água da capital", afirma Pereira Filho. "Todo essa chuva sobre São Paulo poderia ser aproveitada se não fosse a poluição das superfícies (lixo urbano), córregos e rios (esgoto)".
Fonte: Sabesp-Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sócio Ambiental  e UOL-16/05/2014

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terça-feira, outubro 07, 2014

Mega-desastre: Ruptura de tanque de melaço em Boston

O Desastre de Melaço em Boston, também conhecido como o Grande Dilúvio de Melaço e a Grande Tragédia de Melaço de Boston, ocorreu  em 15 de janeiro de 1919, no bairro de North End em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos. A ruptura do tanque de armazenamento de melaço  despejou todo o  melado, que correu como se fosse uma onda pelas ruas da cidade, destruindo tudo,  numa velocidade de 56 km/h, matando 21 pessoas e ferindo 150 O evento entrou para a história local, e durante muitas décadas, os moradores alegaram que em dias quentes de verão, a área ainda cheirava melaço.

DESASTRE


O desastre ocorreu na instalação Purity Distilling Company em 15 de janeiro de 1919.  A temperatura subiu acima de 4,4 ° C, rapidamente, em relação às temperaturas frias dos dias anteriores.  Na época, o melaço era o  adoçante padrão nos Estados Unidos.
O melaço também pode ser fermentado para produzir cachaça e etanol, o ingrediente ativo em outras bebidas alcoólicas e um componente-chave na fabricação de munições. O melaço armazenado estava aguardando transferência para a fábrica situada entre Willow Street e que hoje é chamada  de Evereteze Way, em Cambridge.

Por volta das 12h 30min, o tanque de melaço  de 15 m de altura e  27 m de diâmetro e contendo 8,7 milhões de melaço entrou em colapso. Testemunhas afirmaram que durante o colapso, houve um estrondo alto, como se fosse uma sequencia de tiros de metralhadora e o chão tremeu como se tivesse passando um trem.
O colapso do tanque desencadeou uma onda de melaço  de 7,6 m de altura em seu pico, deslocando a uma velocidade de 56 km / h.  A onda de melaço tinha força suficiente para danificar as vigas da estrutura do elevado da ferrovia situada  à   avenida Atlantic, deslocando um vagão de trem. Os edifícios próximos foram deslocados de seus alicerces e destruídos. Vários edifícios foram inundados com uma camada de 60 a 90 cm de melaço.
Jornalista do Boston Post disse: Que o melaço, na altura da cintura, cobriu a rua e girava como turbilhão e borbulhava sobre os destroços ... Aqui e ali  era impossível de dizer se era  animal ou ser humano que lutava. Era uma massa pegajosa, quanto mais lutava, mais profunda era a massa envolta na pessoa ou no animal.
 O jornal Boston Globe disse que as pessoas "foram apanhados por uma corrente de ar e lançadas.." Outros tinham detritos arremessados contra eles a partir do movimento do ar com cheiro doce. Um caminhão foi jogado no porto de Boston. Cerca de 150 pessoas ficaram feridas; 21 pessoas e vários cavalos morreram, alguns foram esmagados e afogados pelo melaço.
Os feridos incluíram pessoas, cavalos e cães.

CONSEQUÊNCIA
Detalhe da área de inundação de melaço.
1. Tanque de melaço
2 Corpo de Bombeiros (danos pesados)
3.Departamento de Obras Públicas e Delegacia
4. Escritórios da fábrica (arrasada)
5. Edifício-  Terraço Copps Hill
6 Concessionária de gás e luz Boston (danificado)
7 Armazém da fábrica (danos leves)
8 Área residencial (danos leves)

SOCORRO
Os primeiros que vieram em auxílio  foram os 116 cadetes, sob o comando do capitão-tenente HJ Copeland  do navio de treinamento do USS Nantucket, da Escola Náutica de Massachusetts (que é agora a Academia Marítima de Massachusetts), que estava atracado nas proximidades do cais. Eles correram vários quarteirões em direção ao acidente. Eles isolaram a área até a chegada da Polícia, Cruz Vermelha, do exército e  da marinha para o resgate. Os feridos eram tantos que os médicos improvisaram um ambulatório em um prédio vizinho.
A equipe de resgate encontrou dificuldade para caminhar no melaço para ajudar as vítimas. Muitos dos mortos ficaram envoltos no melaço endurecido, difícil para o reconhecimento. A busca por vítimas continuou por quatro dias.

AÇÃO JUDICIAL
Os moradores entraram com um processo de ação coletiva, um dos primeiros realizado em Massachusetts, contra United States Industrial Alcohol Company(USIA), que comprou Purity Distilling em  1917.
Apesar das tentativas da empresa alegar que o tanque tinha sido explodido por anarquistas ( porque uma parte do álcool produzido era para ser utilizado na fabricação de munições). Após três anos  de audiência,  a Corte considerou USIA responsável pelo acidente, condenando-a a pagar US$ 600,000.00 em indenizações  (pelo menos US $ 10,7 milhões em 2012 dólares). Sobreviventes das vítimas fatais receberam US $ 7, 000.00  por vítima (cerca de US$ 125.000 dólares em 2012).

LIMPEZA
Equipes de limpeza usaram água salgada de um barco de combate de incêndio para lavar o melaço à distância, e areia para tentar absorvê-lo. O porto era marrom com melaço até o verão.
A limpeza nas áreas próximas levou semanas, com mais de 300 pessoas. A limpeza na Grande Boston e subúrbios demoraria um tempo indefinidamente longo.
Equipes de resgate, equipes de limpeza, curiosos, turistas, acompanharam o melaço pelas ruas e ajudaram a espalhá-lo  nas plataformas de metrô, os assentos dentro trens e bondes, em casas.
"Tudo o que um cidadão tocava era pegajoso”.
O proprietário não reconstruiu o tanque. A propriedade tornou-se pátio de manobra da  Boston Elevated Railway (antecessora da Autoridade de Transporte de  Massachusetts), e atualmente o local é um campo de beisebol  cidade.

CAUSAS
Vários fatores que ocorreram naquele dia e nos dias anteriores podem  ter contribuído para o desastre.
O tanque foi montado inadequadamente  e testado insuficientemente. Devido à ocorrência de fermentação no interior do  tanque, a produção de dióxido de carbono aumentou a pressão interna. O aumento da temperatura  externa que ocorreu ao longo do dia anterior também teria ajudado na elevação dessa pressão. Os registros mostraram que a temperatura do ar aumentou de -17 a 5,0 ° C durante esse período. A falha ocorreu a partir da janela de inspeção perto da base do tanque. É possível que a fissura da fadiga cresceu até o ponto de criticalidade. A tensão de arco é maior perto da base de um tanque cilíndrico cheio.
O tanque foi utilizado apenas oito vezes com capacidade máxima, desde sua construção, colocando as paredes sob uma carga intermitente, cíclica.

Um inquérito após o desastre revelou que Arthur Jell, que supervisionou a construção, negligenciou na montagem do tanque;
■ O tanque não foi inspecionado adequadamente durante sua construção.
■ O tanque não foi testado após sua construção e antes de ser enchido  com melaço.
■ O tanque tinha apresentado vazamento nas soldas entre as placas de aço antes da sua ruptura.
Finalmente as deficiências estruturais que o tanque apresentou, combinado com temperatura excepcionalmente quente contribuíram para o desastre.
Fonte: Wikipedia - 16 July 2014 

Comentário:
 Desastres de tanques de armazenagem ainda acontecem hoje em dia. Os tanques são muito frágeis. Uma grande quantidade de qualquer líquido,  inflamável ou não,  pode ser perigoso, se liberado em grandes quantidades, devido a seu grande volume e massa.
Acidentes com tanque envolvem; corrosão, colapso, transbordamento, sobrepressão, falha de revestimento, teste, etc.

O que você pode fazer
■ Se você observar vazamento, corrosão, ou qualquer outro sinal de falha potencial em um tanque de armazenagem, relate-os imediatamente para o responsável pela operação.
■ Certifique-se de que todo tanque novo, ou que tenha retornado ao serviço após manutenção, ou após um período de inatividade, seja adequadamente inspecionado e testado antes de receber produto.
■ Certifique-se das capacidades de operação dos tanques e verifique duas vezes o nível antes de enchê-los. Fonte: Process Safety Beacon

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sexta-feira, outubro 03, 2014

Imagens de satélite da Nasa mostram Mar de Aral secando

Agência registrou como lago salgado na Ásia foi perdendo água por causa de projeto soviético de irrigação. O Mar de Aral, um imenso lago salgado que fica na fronteira entre Cazaquistão e Uzbequistão na Ásia Central  está morrendo porque as águas que o alimentariam são usadas para irrigação, como mostra a sequencia  de  imagens de satélite feitas pela agencia espacial americana Nasa ao longo dos últimos 15 anos.
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A destruição começou em 1918 para fins agrícolas.A exploração das águas para fins agrícolas foi um sucesso, mas o impacto ambiental para o lago tem sido catastrófico.
As águas vêm recuando ano a ano, deixando o leito seco exposto com poeira misturada com agrotóxicos e fertilizantes.  

HISTÓRICO
Mar de Aral é um lago de água salgada, localizado na Ásia Central, entre Cazaquistão (ao norte), e Uzbequistão (ao sul).  O lago já foi o quarto maior lago do mundo com 68 000 km² de superfície e 1100 km³ de volume de água, mas em 2007 já havia se reduzido a apenas 10% de seu tamanho original, e em 2010 estava dividido em três porções menores, em avançado processo de desertificação.

A outrora próspera indústria pesqueira foi praticamente destruída, provocando desemprego e dificuldades econômicas. A região também foi fortemente poluída, com graves problemas de saúde pública como consequência. O recuo do mar também já teria provocado a mudança climática local com verões cada vez mais quentes e secos, e invernos mais frios e longos.

INÍCIO DO DESVIO E ENCOLHIMENTO
EM 1918
O governo soviético começou a desviar parte das águas dos rios que alimentavam o Mar de Aral, em 1918 . Com o fim da I Guerra Mundial havia a necessidade de aumentar a produção de alimentos, tais como arroz, cereais e melões. Havia também planos de se produzir algodão no deserto próximo ao lago; o algodão sempre valorizado era chamado “ouro branco”.

ANOS 40
Nos anos 40 acelerou-se a construção dos canais de irrigação que captavam água dos afluentes do Mar de Aral. O conhecimento rudimentar da técnica e engenharia produziu canais ineficientes (mal construídos), e havia perda de até 75% de toda água captada em vazamentos e evaporação.

1960 a 2000
No início, a irrigação das plantações consumia aproximadamente 20 km³ de água a cada ano, porém, em ritmo crescente. Já na década de 1960, a maior parte do abastecimento de água do lago tinha sido desviado e o Mar de Aral começou a perder tamanho. De 1961 a 1970 o lago baixou 20 cm por ano, e essa taxa cresceu 350% até 1990.
Em 1987, a redução contínua do nível da água levou ao aparecimento de grandes bancos de areia, causando uma separação em duas massas de água, formando o Aral do Norte (ou Pequeno Aral) e o Aral do Sul (ou Grande Aral).

A quantidade de água retirada dos rios que abasteciam o Mar de Aral duplicou entre 1960 e 2000, assim como a produção de algodão. No mesmo período, o Uzbequistão tornou-se o 3º maior exportador de algodão do mundo. Como consequência da redução do volume de água, a salinidade do lago quase quintuplicou e matou a maior parte de sua fauna e flora naturais. A próspera indústria pesqueira faliu, assim como as cidades ao longo das margens.  

As poucas águas do Mar de Aral também ficaram fortemente poluídas, em grande parte como resultado de testes com armamentos e projetos industriais, e o uso intensivo de pesticidas e fertilizantes.  Nos últimos anos, o vento tem soprado sal a partir do solo seco e poluído, e causado danos à saúde pública.

ALTA SALINIDADE
O ecossistema do Mar de Aral e dos deltas dos rios que deságuam nele está praticamente destruído, em grande parte pela alta salinidade. Além da terra em torno do mar ser muito poluída, as pessoas que vivem na região sofrem de escassez de água doce, juntamente com vários problemas de saúde. A contração do mar fez extensas planícies cobertas com sal e produtos químicos tóxicos, que são levadas pelo vento para as áreas habitadas. A população perto do Mar de Aral tem uma alta incidência de certas formas de câncer e doenças pulmonares, entre outras doenças, possivelmente devido a alterações no DNA. 
A situação do Mar de Aral e região são descritas como a maior catástrofe ambiental da história.
Fontes:Wikipédia e G1-30/09/2014 

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terça-feira, setembro 30, 2014

Cesp: Investigação de um grande incêndio deixa muitas lições

Em maio de 1987, ocorreu em São Paulo um dos incêndios mais monumentais de toda a sua história, que atingiu dois edifícios altos de escritórios onde se localizavam a sede administrativa da Companhia Energética de São Paulo – CESP. A investigação minuciosa de um incêndio que atingiu tão avantajada proporção certamente possibilita o levantamento de dados que auxiliam na compreensão da problemática dos incêndios altos de escritórios que tem se constituído, em São Paulo, em questão de fundamental gravidade. Daí pode-se obter informações suficientemente precisas para o encaminhamento de soluções.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS EDIFÍCIOS ATINGIDOS
Os dois edifícios envolvidos no incêndio, denominados Sede I e Sede II faziam parte de um condomínio com acessos pela rua Augusta, rua Luiz Coelho e avenida Paulista. Considerando o andar térreo como sendo aquele ao nível da avenida Paulista, o condomínio possuía três subsolos (dois dos quais eram utilizados como garagem) e duas sobrelojas que ocupavam toda a área do terreno. Acima desse bloco, localizavam-se os edifícios Sede I e Sede II que possuíam, respectivamente, 19 e 21 pavimentos, com aproximadamente 80 m e 87 m de altura total (em relação à avenida Paulista), e área bruta dos pavimentos-tipo de 358 m2 e 708 m2.

Os edifícios possuíam estrutura de concreto armado, constituída por pórticos múltiplos e lajes nervuradas. Os pavimentos tinham plantas livres, subdivididas por divisórias baixas compostas, principalmente, por chapas duras de madeira. O forro do edifício Sede I era composto, em todos os pavimentos, por placas de fibras celulósicas aglomeradas, enquanto que, no edifício Sede 11, os forros eram todos compostos por placas de gesso. Em ambos os casos, acima do forro, estavam presentes as fôrmas de madeira das lajes nervuradas (que não haviam sido retiradas). A maior parte dos revestimentos dos pisos era constituída por carpete colado sobre tacos de madeira.
As fachadas dos dois edifícios eram predominantemente compostas por caixilhos de alumínio envidraçados. No edifício Sede I, os caixilhos estavam posicionados além dos limites das lajes e apresentavam, na parte inferior de cada pavimento, chapas de aço em substituição aos vidros. No edifício Sede 11, os caixilhos se  localizavam entre as vigas externas das lajes nervuradas, sendo totalmente envidraçados.

SISTEMA DE INCÊNDIO
Os dois edifícios possuíam um sistema de detecção automática de incêndio, composto basicamente por detectores do tipo térmico, conectados a uma única estação central de controle, localizada no pavimento térreo em uma sala próxima dos elevadores de acesso ao edifício Sede I.

Em todos os pavimentos, existiam acionadores manuais de alarme, ligados à mesma central. O sistema de detecção incorporava, ainda, outros tipos de detectores (de fumaça e termovelocimétricos) instalados em setores especiais do condomínio, como por exemplo, sala de computadores, central telefônica e auditório, Em atendimento às regulamentações vigentes, os dois edifícios eram dotados de hidrantes e extintores (de água e gás carbônico) em todos os pavimentos.

Para a fuga dos ocupantes em caso de Incêndio, o edifício Sede I possuía duas escadas comuns (uma das quais atingia somente até o 8 ° andar) e o edifício Sede II possuía uma única escada, pretensamente enclausurada. Os dois edifícios eram interligados por seis passarelas elevadas, localizadas no 4º, 7º, 10º , 13°, 16º e 19º andares,

INÍCIO DO INCÊNDIO
O incêndio teve início no 5º andar do edifício Sede I, a partir da ocorrência de problemas elétricos em um reator de lâmpada fluorescente, que ocasionou a ignição do forro combustível sob o qual estava instalado (diretamente em contato), O incêndio desenvolveu-se rapidamente a partir daí, devido a: ignição das formas de madeira sob a laje, acima do forro, e desprendimento de porções ignizadas do forro sobre os materiais combustíveis contidos no escritório, ignizando‑os.

Os fatores intervenientes no processo de início do incêndio no edifício Sede I dizem respeito a: características frente ao fogo do forro combustível; risco apresentado pelo reator de tornar-se uma fonte de ignição; e proximidade entre o forro combustível e o reator.
Verificou-se em laboratório que o forro apresentava susceptibilidade de, ignizado, sustentar a combustão, além de ter capacidade considerável de propagar superficialmente as chamas, Verificou-se também que o envelhecimento do reator está efetivamente associado à elevação de temperatura de sua carcaça e que temperaturas relativamente altas podem ser atingidas até a ocorrência de falhas,

Na situação do edifício Sede I, a elevação da temperatura da carcaça do reator poderia, sem dúvida, ocasionar a elevação localizada da temperatura do forro. Dessa forma, a emissão de faíscas, por parte do reator ou dos fios instalados na luminária, seria capaz de provocar a ignição do forro, Esses eventos de fato ocorreram,
A manutenção preventiva de reatores, além de ser um procedimento de difícil concepção, não seria uma medida suficientemente efetiva, uma vez que até mesmo os reatores novos podem, eventualmente, apresentar falhas (decorrentes, por exemplo, de defeitos de fabricação) capazes de originar um incêndio, Uma solução mais adequada envolve a utilização de reatores capazes de desarmarem-se quando atingem temperaturas excessivas e o afastamento seguro entre reatores e forros combustíveis,

DETECÇÃO DE COMBATE INICIAL
Os detectores existentes nos pavimentos de ambos os edifícios eram do tipo térmico, com temperatura de acionamento fixa de 58°C. Tais detectores estavam instalados junto ao forro e distribuídos de maneira razoavelmente homogênea em cada pavimento; no 5° andar do edifício Sede I, existia um total de 20 detectores.
Sabe-se que os sistemas  de detecção automática de incêndio não possuem isoladamente nenhum valor efetivo, do ponto de vista de prevenir ou controlar o desenvolvimento do incêndio. Devem, portanto, estar associados a outras medidas que visem garantir o combate rápido e eficaz do incêndio (descoberto no estágio inicial devido à atuação dos detectores) e que impeçam a sua propagação,

A rapidez com que o detector atua, enviando sinais para uma central de controle, é influenciada por fatores intrínsecos e extrínsecos ao sistema de detecção utilizado, Quando o detector utilizado é do tipo térmico, os fatores intrínsecos dizem respeito, principalmente, à temperatura de acionamento dos detectores, à posição dos detectores no ambiente (área de supervisão de cada detector). Com relação a isso, pode-se dizer que o sistema existente nos dois edifícios atendia aos critérios estipulados em recomendações internacionalmente aceitas, existindo inclusive, no edifício Sede I, um número de detectores superior ao recomendado para a situação.

Com relação aos fatores extrínsecos ao sistema de detecção, capazes de ocasionar retarde de sua ativação, pode-se dizer, especificamente para o caso do edifício Sede I, que existiam condições propícias para isto suceder. A seguir está apresentada uma situação hipotética em que fatores extrínsecos podem ter ocasionado retarde. Para esta situação ser considerada, tomaram-se por base fatos relatados no laudo do Instituto de Criminalística e no relatório do Corpo de Bombeiros. Adicionalmente, teve-se em conta que o local de origem do incêndio não se situava nas imediações de nenhum detector.
Primeiramente, considerando-se que o incêndio teve início no forro, pode-se imaginar que quando este sofreu ignição, já se encontrava parcialmente destruído em função do processo
de pirólise sofrido durante seu aquecimento (decorrente do aquecimento do reator). Além disso, pode-se supor que a propagação das chamas na superfície do forro não se deu imediatamente a partir daí e que, anteriormente,teria ocorrido a ignição da madeira localizada no espaço imediatamente acima na laje nervurada (a maneira de instalação do forro não permitia a intercomunicação desses espaços).

Ocorrendo tais fatos, o calor gerado neste espaço poderia não se transferir imediatamente para o ambiente a ponto de estabelecer uma situação capaz de sensibilizar os detectores existentes nas proximidades, caracterizando dessa forma o retarde. O foco do incêndio estaria nesta situação potencializando-se de forma a, em função das características do material constituinte do forro, propiciar uma propagação rápida das chamas em uma área externa, o que com certeza propiciará a atuação dos detectores (já sem chances de efetuar-se um combate com extintores portáteis).

Antes desse fato ocorrer, a fumaça já teria se acumulado junto à superfície inferior do forro, donde se poderia concluir que os detectores de fumaça seriam mais apropriados que os térmicos, pois seriam sensibilizados rapidamente e dificilmente propiciariam retarde.
Evidencia-se desta forma a necessidade de adequar-se o sistema de detecção às características do local que objetiva proteger, de forma a garantir efetivamente o rápido alerta do incêndio, pois, em caso contrário, não estará realmente cumprindo sua função.

Pior que isto, estará contribuindo para o estabelecimento de uma falsa idéia de segurança contra incêndio, o que representa um perigo adicional. Não é somente o tipo de detector apropriado que soluciona tal questão, mas a apropriação do sistema como um todo, onde se considera desde a localização e tipo dos detectores até a concepção da estação central de controle no que se relaciona às funções que deve cumprir.

O incêndio no edifício Sede I foi descoberto por ocupantes, antes que atingisse condições suficientes para a sensibilização do sistema de detecção. Apesar disso, o alarme manual não foi acionado. Deve-se considerar, entretanto, que uma série de situações não relativas à detecção do incêndio propriamente dita podem comprometer os benefícios alcançados pela descoberta do incêndio em estágio incipiente (quer esta seja através do sistema de detecção automática ou não).

Podem-se prever aqui as seguintes situações críticas:
■ que o incêndio se desenvolva tão rapidamente que não possa ser combatido em um estágio incipiente;
■ que o desenvolvimento do incêndio acarrete a formação de vários focos de incêndio;
■ que as providências adotadas para extinguir o foco de incêndio não sejam suficientemente
rápidas; 
■ que o incêndio se desenvolva em local de difícil combate:
■ que os meios disponíveis para combate não sejam adequados;
■ que o acesso ao local do incêndio fique rapidamente comprometido devido à presença de fumaça ou chamas.

Se cada um dos eventos mencionados tem capacidade de comprometer as ações de combate desenvolvidas a partir da detecção, a conjugação de dois ou mais destes eventos é potencialmente capaz de restringir até mesmo a adoção de qualquer atitude, no sentido de estabelecer o primeiro estágio de intervenção (desenvolvido pelo próprio usuário). Tal fato ocorreu no incêndio do edifício Sede I, agravado sobremaneira pela confluência de quase todas as situações mencionadas. O início do incêndio no próprio forro combustível, associado à ignição das fôrmas de madeira da laje (imediatamente acima), seguidos da rápida propagação das chamas na superfície do forro e da queda de porções do forro em chamas sobre os materiais combustíveis contidos no escritório, representa a um só tempo o rápido desenvolvimento do incêndio e a formação simultânea de focos subsidiários de incêndio; ambos capazes de inviabilizar integralmente o uso de extintores portáteis.

Os meios de combate existentes no edifício Sede I eram compostos por extintores portáteis e hidrantes. O início do incêndio localizado sobre o forro e a laje, envolvendo também grande porção de madeira não deformada, pode, sem qualquer dúvida, ser considerado, pela sua posição, como de difícil combate, partindo-se da premissa de que serão utilizados para isso os extintores portáteis. Primeiramente, seria necessário posicionar-se sob o foco do incêndio; em segundo lugar, a quantidade limitada de agente extintor expelido e sua retenção sobre a região onde a combustão se processava, diminui sensivelmente (senão anula) a eficiência do combate.

A utilização de hidrantes nesta situação poderia ser eficiente desde que fosse feita com rapidez por uma equipe treinada, associada à existência de condições adequadas de segurança no local. Condição esta que não se cumpriu, pois além do hidrante estar posicionado nas proximidades do foco, as condições ambientais não favoreciam o seu manuseio.

Sabe-se que o início do incêndio no edifício Sede I esteve associado ao desenvolvimento de grande quantidade de fumaça, a ponto de dificultar a localização precisa do foco, ameaçar a sobrevivência humana e dificultar a fuga do local. Quando a primeira tentativa de combate
foi efetuada, a fumaça já circulava entre os andares, atingindo inclusive o andar abaixo (4º  andar). Nessas circunstâncias, as ações de combate ao princípio de incêndio tornam-se difíceis e assumem baixa probabilidade de êxito, além de introduzirem riscos para a vida dos que a executam. De fato, esta tentativa não obteve sucesso e teve que ser rapidamente descartada.

É importante considerar que os extintores portáteis têm a vantagem de serem facilmente utilizáveis, podendo ser colocados em ação com grande rapidez; mas, como dispõem de quantidade limitada de agente extintor, destinam‑se ao combate de princípios de incêndio. Os hidrantes, que apresentavam a vantagem de dispor de agente extintor em grande quantidade, são de difícil manuseio, requerendo mais de uma pessoa para seu acionamento, pessoal treinado e um tempo maior em relação aos extintores para dar início ao combate. Portanto, são mais apropriados para o combate a incêndios em estágios avançados.

Deve-se destacar a existência de um outro equipamento de combate manual, denominado mangotinho, que se caracteriza pelo manuseio simplificado e pela disposição de grande quantidade de agente extintor. Este equipamento se coloca como um meio de combate intermediário entre os extintores portáteis e os hidrantes, contando, para o caso de princípio de incêndio, com as vantagens associadas de ambos e eliminando as desvantagens dos mesmos.
Frente à necessidade de combater com rapidez o início de incêndio em edifícios altos de escritório, o mangotinho se apresenta como um dispositivo importante no sentido de garantir uma ação mais eficaz. Deveria, portanto, ter seu emprego assegurado nos edifícios dessa categoria.

EVOLUÇÃO DO INCÊNDIO NO PAVIMENTO DE ORIGEM
A propagação das chamas na superfície inferior do forro, a formação de focos de incêndio subsidiários (decorrentes\ da queda de materiais ignizados do forro) e a queima das fôrmas da laje foram capazes de criar uma situação que gerou a inflamação em cadeia dos materiais combustíveis nas proximidades do local de origem do incêndio.

Ao mesmo tempo que os vidros das janelas se quebraram (possibilitando a ocorrência da inflamação generalizada), as divisórias de vidro, que integravam os vãos das duas escadas que serviam o andar, também se quebraram. Com isso, o fogo dominou mais esses dois ambientes, que também continham grande quantidade de materiais combustíveis, representados pelo forro e pelas fôrmas da laje nervurada.

As características frente ao fogo dos materiais constituintes do teto têm um papel de fundamental importância para a evolução do incêndio, uma vez que a transferência de calor, a partir do foco de incêndio, é muito mais intensa no teto, já que os gases quentes se acumulam ali. Caso os materiais que compõem o teto tenham a capacidade de ignizar-se facilmente, de sustentar a combustão, de propagar rapidamente as chamas em sua superfície, de desprender porções ignizadas e de desenvolver grande quantidade de calor durante a combustão, com toda certeza, a situação torna-se crítica e muito rapidamente será alcançada a inflamação generalizada dos materiais combustíveis contidos no recinto.

O forro combustível do edifício Sede I, associado às fôrmas de madeira mantidas sob a laje, apresentou todos os eventos indesejáveis exemplificados, adicionalmente ao fato de se constituir no local em que o incêndio teve início. Disso decorreu a evolução rápida do incêndio, onde os materiais combustíveis contidos no 5° andar se inflamaram e queimaram com rapidez. Fica claro, portanto, que quando o comportamento do teto possibilita a ocorrência de qualquer um dos eventos mencionados, ele irá influenciar preponderantemente na evolução do incêndio. Portanto, os seus materiais constituintes devem ser objeto de especial atenção e o ideal, para o caso de edifícios altos de escritório, é a utilização de materiais incombustíveis.

PROPAGAÇÃO DO FOGO ENTRE PAVIMENTOS
O incêndio se propagou entre pavimentos no edifício Sede I com grande facilidade através de dois caminhos: pelo interior do edifício, através das escadas; e pelo exterior do edifício, através das janelas com caixilhos de alumínio e parapeitos de aço. Os seguintes fatores contribuíram para isto:
■ severidade do incêndio no pavimento de origem;
■ alta velocidade de vento por ocasião do incêndio;
■ ausência de abas verticais e/ou horizontais resistentes ao fogo entre as janelas de pavimentos consecutivos;
■ existência de forros combustíveis junto às janelas;
■ existência das fôrmas de madeira da laje;
■ existência de escadas comuns (não enclausuradas);
■ existência de forros combustíveis nos halls das escadas.

A propagação do incêndio no interior do edifício se deu de maneira intensa, a partir do momento em que o fogo atingiu, no andar de origem, os halls de acesso às escadas. A severidade do fogo, associada à existência de grande quantidade de material combustível nestes halls (forro e fôrmas da laje), facilitou a convecção de calor através das escadas abertas, que produziu a ignição dos forros (e, posteriormente, das fôrmas das lajes) em vários andares superiores a um só tempo.

Os halls dos andares superiores aqueceram-se rapidamente pelo calor gerado na queima de seus próprios forros e, também, em função do calor convectivo intenso do 5º andar. Tal processo ocasionou a quebra dos vidros, quebra das portas e divisórias de vidro, que conformavam esses halls, e o fogo atingiu os demais pavimentos. Até o 8° andar, a propagação ocorreu ainda mais rapidamente devido a uma das escadas que aí termina.

A severidade do incêndio, a pequena altura dos andares, a existência de materiais combustíveis junto ao topo das janelas e a presença de fortes ventos propiciaram a ocorrência de grandes labaredas no exterior do edifício, durante toda a fase de inflamação generalizada. Uma vez que não existiam barreiras (abas verticais e/ou horizontais) capazes de afastar tais chamas da fachada, esta foi intensamente atingida, ocasionando a quebra dos vidros, a fusão dos caixilhos de alumínio e o desprendimento dos parapeitos de aço. Desta forma, o forro adjacente à fachada nos pavimentos superiores sofreu ignição, ao mesmo tempo, que os gases penetravam intensamente nestes andares.

Através da ocorrência concomitante dos dois fenômenos descritos, o incêndio propagou-se verticalmente, de tal forma, que todos os pavimentos do edifício (acima do 5° andar com sua inclusão) tiveram coincidência da fase de inflamação generalizada, ou seja, queimaram intensamente ao mesmo tempo.

Um dos requisitos mais importantes relativos à segurança contra incêndio de edifícios de múltiplos pavimentos (destacadamente os de escritório) é o de não ocorrer a propagação do incêndio entre pavimentos, ou seja, o incêndio não deve propagar-se além do andar de origem.

As escadas não enclausuradas, além de permitirem a livre circulação de fumaça em todo o edifício, mesmo no estágio inicial do incêndio (dificultando ou impedindo a fuga dos ocupantes), podem se transformar em importante meio para a propagação do incêndio entre pavimentos. Fica evidenciado, portanto, que tais situações devem ser evitadas, sendo necessária para isso a utilização de escadas de segurança. Adicionalmente, deve-se evitar a utilização de materiais combustíveis nos halls de acesso às escadas.
Tendo em conta a necessidade de evitar a propagação do incêndio através da fachada do edifício, duas medidas são absolutamente fundamentais. Uma é a provisão de separação entre janelas de pavimentos consecutivos, através de abas verticais ou horizontais dotadas de resistência ao fogo de pelo menos duas horas. A outra é a não utilização de materiais combustíveis nos revestimentos das fachadas ou no interior do edifício nas proximidades das
janelas, tais como, mobiliários, cortinas, forros etc. Deve-se destacar que a adoção de apenas uma destas duas medidas, isoladamente, não tem a capacidade de restringir a propagação do incêndio pelo exterior do edifício.

EVACUAÇÃO  DO EDIFÍCIO SEDE I
No momento em que o incêndio se iniciou (aproximadamente às 19h35), estava presente
no edifício um número reduzido de funcionários, que conseguiu abandoná-lo rapidamente através das passarelas elevadas.

A fuga dos ocupantes do edifício podia se dar através de duas escadas não enclausuradas com 1,10 m de largura (uma das quais servia somente até o 8° andar) e seis passarelas elevadas com 0,90m de largura e 9,5m de extensão, conectadas ao edifício Sede II e intercaladas a cada três pavimentos.

Conforme já foi mencionado, o incêndio propagou-se verticalmente com grande rapidez, valendo-se também das caixas das escadas, que se transformaram em canais condutores, no sentido ascendente, de grande quantidade de fumaça e gases quentes.
Sabe-se que o edifício contava, em horário comercial, com uma população fixa de 580 funcionários, que deveriam obrigatoriamente circular através das escadas para alcançar as passarelas. Percebe-se, assim, a magnitude do risco a que estas pessoas estariam submetidas, caso o incêndio tivesse ocorrido no período de expediente de trabalho. O grande número de pessoas que se utilizaria das escadas poderia ocasionar um trânsito lento e muitos poderiam se defrontar com a atmosfera altamente nociva que ali se formou.
Percebe-se, dessa forma, o perigo introduzido pelas escadas não enclausuradas nos edifícios altos de escritório, que podem propiciar, desde o estágio inicial do incêndio, a livre circulação da fumaça em todo o edifício, comprometendo totalmente a fuga dos ocupantes. A circulação de gases quentes através da escada é duplamente grave, pois, além de impedir a permanência humana em seu interior, ainda possibilita a propagação vertical do incêndio.

Conclui-se, portanto, que nos edifícios altos de escritório todas as escadas devem ser de segurança, devendo para isso atenderem às seguintes disposições:
■ serem construídas integralmente com materiais incombustíveis;
■ serem enclausuradas com paredes e portas contra-fogo;
■ serem dotadas de antecâmaras de acesso em todos os pavimentos, que devem ser enclausuradas da mesma maneira que a escada; e
■ o conjunto composto pela escada e antecâmara de acesso deve ser dotado de dispositivo visando remover ou dispersar a fumaça que penetre nas antecâmaras ou impedir sua entrada nesses recintos (evitando desta forma a entrada da fumaça na escada).

Além das escadas de segurança, todo o caminho a ser percorrido pelos ocupantes, para atingir o exterior do edifício, deve atender a um conjunto de diretrizes para ser considerado seguro, tais como: número adequado de rotas de fuga, distâncias máximas a percorrer para alcançar a escada, largura adequada dos corredores e das escadas etc.

PROPAGAÇÃO DO INCÊNDIO ENTRE EDIFÍCIOS
Apesar da distância entre as fachadas dos edifícios Sede I e Sede II ser de 9,5m, ocorreu a propagação do incêndio entre ambos. Deve-se notar que os fortes ventos predominantes por ocasião do incêndio (antes do edifício Sede II ter sido atingido) não favoreciam a emissão de chamas pela fachada (do edifício Sede I) imediatamente frontal ao edifício Sede II. Apesar disso, pode-se notar, vez por outra, a emissão de grandes labaredas que se aproximavam perigosamente do edifício Sede II. Entretanto, pode-se afirmar que, fundamentalmente, a propagação do incêndio entre os edifícios se deu por radiação térmica.
Para isso, colaboraram decisivamente os seguintes fatores:
■ severidade do incêndio do edifício Sede I, onde altas temperaturas foram atingidas e, portanto, a intensidade de radiação térmica emitida atingiu valores elevados;
■ grande área de superfície radiante, pois toda a fachada (do 5º andar para cima) do edifício Sede I, adjacente ao edifício SedeII, foi capaz de emitir a um só tempo alta intensidade de radiação térmica; isso aconteceu primeiramente, devido à coincidência da fase crítica do incêndio em um grande número de pavimentos e, ainda, porque a fachada do edifício Sede I, constituída integralmente por caixilhos de alumínio, foi rapidamente destruída (incluindo o parapeito de aço), não oferecendo, portanto, nenhum obstáculo à emissão da radiação térmica;
■ pequena distância entre fachadas, frente à intensidade da radiação térmica emitida e a grande área da superfície radiante; o edifício Sede II foi atingido por níveis de radiação que possibilitaram a ignição espontânea de materiais existentes em seu interior:
■ grande área de janelas na fachada exposta, que permitiu a ignição de materiais combustíveis no interior do edifício Sede II, concomitantemente em vários pavimentos.

A partir do edifício Sede I, o incêndio também se propagou para os andares localizados junto à fachada do outro edifício adjacente (em fase final de construção), através de convecção e radiação térmica, ocasionando grandes danos ao revestimento.
A separação entre edifícios deve ser dimensionada, tendo-se em conta a necessidade de evitar a ocorrência da propagação de incêndio por radiação térmica.

Nos edifícios altos de escritório, as seguintes condições básicas devem ser atendidas:
■ a não utilização de materiais combustíveis no revestimento das fachadas e
■ a resistência ao fogo das fachadas (excluindo as janelas) não inferior a 2 horas;
Isso significa que a superfície radiante no edifício incendiado será composta unicamente pela área das janelas, e que a ignição dos materiais combustíveis no edifício adjacente só poderá ocorrer em seu interior. A partir disso, a distância de separação entre os edifícios será vinculada à severidade do incêndio e à área das janelas.

A menos que a compartimentação vertical do edifício seja garantida, isto é, que o incêndio não se propague além do pavimento de origem, muito difícilmente se viabilizariam implantações de edifícios altos de escritório nos lotes urbanos convencionais de São Paulo, tendo-se em conta a necessidade de evitar a propagação do incêndio entre edifícios.

No caso do Edifício Sede I, por exemplo, considerando-se que foi emitida, através das fachadas, a radiação térmica de 4 cal/cm2/s , concomitantemente por todos os pavimentos acima do 5º andar, a distância mínima para evitar a propagação do incêndio para o edifício Sede II deveria ser de, aproximadamente, 62cm para o caso de ignição-piloto e 35 m para o caso de ignição espontânea. Tais distâncias diminuiriam para, respectivamente, 13,5 m e 7 m, caso o incêndio se mantivesse apenas no 5º andar.

EVOLUÇÃO E PROPAGAÇÃO NO EDIFÍCIO II
O incêndio no edifício Sede II pode ser considerado como atípico, pelas seguintes razões:
■ teve início em vários andares ao mesmo tempo, transferido do edifício Sede I por radiação térmica;
■ o início do fogo em cada andar deu-se a partir de grandes áreas afetadas, ou seja, ao longo de grande parte da fachada exposta; e
■ a combustão dos materiais no início do incêndio foi afetada pela radiação térmica incidente.
O incêndio, iniciado em distintos andares, não encontrou obstáculos para atingir toda a área dos mesmos, visto que os andares só apresentavam subdivisões do lado oposto ao edifício Sede I, onde se localizavam a escada, os elevadores, as copas e os banheiros.
A grande quantidade de materiais combustíveis existente no edifício Sede II, composta basicamente por mesas, cadeiras, poltronas, estantes, papéis e as fôrmas de madeira das lajes, associada à grande área de ventilação (devido à quebra dos vidros das janelas) propiciou a evolução de um incêndio bastante severo e a presença constante de grandes labaredas no exterior, junto às fachadas.

Através das fachadas e da escada, cujas portas estavam abertas, o incêndio propagou-se verticalmente, atingindo vários pavimentos que ainda não haviam sido afetados pela radiação térmica emitida pelo edifício Sede I (a ponto de dar início ao fogo).
No incêndio do edifício Sede II, as lições que se tiram com relação à propagação do fogo entre andares são semelhantes às do edifício Sede I. Apesar de o edifício possuir forro incombustível (de gesso), este era bastante susceptível à ação do fogo, desprendendo-se facilmente do teto e expondo as fôrmas de madeira da laje.

Com relação à escada do edifício Sede II, dois aspectos devem ser destacados. Primeiro, suas portas permaneceram abertas, pois dependiam de fechamento manual, o que demonstra a necessidade de tais portas serem dotadas de fechamento automático, de forma que estejam garantidamente fechadas no momento do incêndio. Segundo, no enclausuramento da escada, uma das paredes não atingia a superfície inferior da laje, alcançando somente o forro de gesso não resistente ao fogo; durante o incêndio, o forro foi destruído, propiciando a comunicação direta da escada com o ambiente incendiado, o que não pode ser admitido.

COMBATE AO INCÊNDIO
O combate ao incêndio no edifício Sede I foi iniciado tardiamente, uma vez que o Corpo de Bombeiros foi chamado às 19h54, quando já se passavam, aproximadamente, 19 minutos da descoberta do incêndio. Quando os bombeiros iniciaram o combate no edifício Sede I, o incêndio já dominava integralmente o 5° andar e já havia se propagado para alguns andares superiores. Apesar disso, foi feita a tentativa de iniciar-se o combate ao fogo através de duas frentes: pelo interior do edifício, a partir de andares imediatamente acima dos já atingidos, e pelo exterior do edifício.

O combate ao fogo pelo interior do edifício teve que ser abandonado rapidamente em razão, principalmente, da vertiginosa progressão vertical do incêndio e da inexistência de um local seguro no interior do edifício a partir do qual o incêndio pudesse ser combatido.

O combate ao incêndio pelo exterior do edifício mostrou-se também totalmente ineficiente, em razão dos seguintes fatores:
■ rápida progressão vertical do incêndio, a ponto de vários andares do edifício queimarem intensamente ao mesmo tempo;
■ existência de vários andares afetados pelo fogo, localizados em níveis fora do alcance dos equipamentos disponíveis para o combate (plataformas aéreas e escadas mecânicas);
■ impossibilidade de aproximação adequada dos equipamentos de combate a qualquer das fachadas do edifício; a fachada frontal, junto à qual se tentou efetuar o combate, estava recuada aproximadamente, 25m em relação à fachada das sobrelojas, o que restringiu em muito a aplicação de jatos d'água.

Com relação ao combate ao incêndio do edifício Sede II, pode-se dizer que as várias frentes de fogo que tiveram início concomitantemente e a inexistência de um local seguro no interior do edifício, inviabilizaram qualquer tentativa de combate que pudesse ser efetuada internamente.
O combate ao incêndio pelo exterior do edifício Sede II  mostrou-se da mesma maneira que no edifício Sede I, totalmente ineficiente.
As razões encontradas para isto são as seguintes:
■ o incêndio se desenvolveu simultaneamente em várias regiões do edifício;
■ existência de vários andares afetados pelo fogo, localizados em níveis fora do alcance dos equipamentos disponíveis para o combate; e
■ a única fachada que permitia a aproximação dos equipamentos de combate (fachada da Av. Paulista) era muito estreita em relação ao comprimento do edifício, não sendo possível atingir o fogo com os jatos d'água na metade posterior do edifício.

Tendo em conta que os edifícios altos de escritório devem possibilitar o combate externo e interno, os problemas observados durante o incêndio permitem concluir que duas disposições são fundamentais para que haja chances de sucesso das operações de combate.
■ A primeira diz respeito à aproximação dos equipamentos de cornbate às fachadas do edifício;
■ A segunda se refere ao adentramento dos bombeiros no edifício incendiado e à disposição de meios apropriados de combate.

Os equipamentos de combate devem se aproximar ao máximo das fachadas do edifício afetado pelo incêndio. Para isso ser possível, o edifício deve estar localizado ao longo de vias públicas ou privadas que possibilitem a livre circulação e o posicionamento adequado dos veículos de combate em relação às fachadas (tais vias devem ser preparadas para suportar os esforços provenientes da circulação, estacionamento e manobras desses veículos).
Para que os bombeiros adentrem nos edifícios altos de escritório, estes devem dispor de meios rápidos e seguros para se alcançar o local incendiado, representados pelas escadas de segurança e pelos elevadores de emergência. Isso, evidentemente, não existia em nenhum dos dois edifícios e foi fator decisivo para o fracasso das operações de combate ao incêndio.

RUÍNAS DO EDIFÍCIO SEDE II
Aproximadamente 2 horas após o início do incêndio no edifício Sede II, ocorreu o desabamento da parte central da edificação.
A estrutura do edifício Sede II era composta por uma série de pórticos múltiplos de concreto armado, cujos elementos horizontais consistiam de vigas T, dotadas de grande rigidez. O travamento entre os pórticos era promovido por lajes nervuradas dos pisos.
O incêndio, anteriormente à ruína, desenvolvia‑se mais intensamente nos andares superiores e à meia altura do edifício. Nessas regiões, os elementos verticais dos pórticos estavam sujeitos a esforços decorrentes da dilatação térmica das vigas T, e os seus materiais constituintes estavam perdendo gradativamente a resistência mecânica por atingirem temperaturas elevadas.

A ruína de parte do edifício se deveu ao incêndio que se desenvolvia à sua meia altura, tendo sido decorrente dos esforços de dilatação introduzidos por duas vigas T consecutivas, em pavimentos consecutivos, nos elementos verticais dos seus respectivos pórticos. Tais esforços ocasionaram cisalhamento dos elementos verticais, que se romperam, permitindo a ruína da parte central do edifício (dois pórticos múltiplos foram destruídos). Apesar de ter ocorrido a ruína de somente uma parte da estrutura de um dos edifícios, o incêndio danificou seriamente toda a estrutura dos dois edifícios.

O efeito global das mudanças promovidas pelas altas temperaturas sobre a estrutura de um edifício é a diminuição progressiva sua capacidade portante e a introdução de novos esforços nos elementos estruturais. Durante esse processo, pode ser alcançada, em determinado elemento estrutural, uma situação em que o limite último de tensão se iguala à tensão aplicada, possibilitando então a sua falência.

Para as estruturas de concreto armado, são aspectos fundamentais na garantia de seus elementos constituintes (determinada principalmente pela seção da peça, recobrimento da armadura e a diferença, em uso normal, entre a tensão aplicada e o limite último de tensão) a homogeneidade da distribuição de cargas na estrutura e o sistema estrutural adotado. Todos esses aspectos devem ser devidamente considerados na fase de projeto da estrutura da edificação.

Verificou-se nos edifícios Sede I e Sede II que os elementos estruturais horizontais (vigas e lajes) apresentavam dois problemas capazes de comprometer seriamente a estabilidade das estruturas. Um deles se relaciona ao recobrimento das armaduras, de maneira geral muito reduzido, sendo que as armaduras encontravam-se aparentes em algumas regiões. O outro se relacionava às seções transversais reduzidas das vigas das lajes nervuradas, que eram insuficientes para assegurar resistência ao fogo superior a uma hora. Com isso, grande parte dos elementos estruturais horizontais atingiu o colapso.
Apesar disso, a ruína parcial do edifício Sede II se deveu, principalmente, ao sistema estrutural adotado. Os pórticos múltiplos eram dotados de elementos horizontais de grande comprimento (aproximadamente 12 m) e de seção transversal avantajada, cuja dilatação térmica provocou esforços que foram transferidos aos elementos verticais. Esses, por sua vez, não estavam dimensionados para suportá-los e o sistema estrutural não possibilitava a sua distribuição.

REINÍCIO DO INCÊNDIO NO EDIFÍCIO SEDE I
Após a decorrência de um período considerável da extinção do incêndio no edifício Sede I (que se desenvolveu do 5° andar para cima), ocorreu o reinício do incêndio nos pavimentos inferiores (1 ° ao 4°). Isso se deveu, novamente, à transferência do fogo entre edifícios (agora no sentido contrário).
O mecanismo que levou à ocorrência desse evento foi idêntico ao anterior (quando o incêndio propagou-se do edifício Sede I para o edifício Sede II), ou seja, o fogo foi transmitido por radiação térmica intensa emitida pelo edifício Sede II (que nesta ocasião já havia sofrido a ruína parcial) que queimava intensamente nos andares inferiores.
O reinício do incêndio no edifício Sede I foi a última etapa da catástrofe ocorrida, cuja duração total foi de aproximadamente sete horas. Ainda que esta fase do incêndio tenha sido desenvolvida nos andares inferiores do edifício, o que teoricamente permitiria a execução do combate pelo exterior, isto não foi possível, pois as sobrelojas avançadas, novamente, constituíram-se em um obstáculo para a aproximação dos equipamentos dos bombeiros. Mais uma vez evidenciou-se no edifício Sede I o efeito nocivo da inexistência de pelo menos uma fachada de aproximação.

INFLUÊNCIA DO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO DOS EDIFÍCIOS
Os dois edifícios haviam recebido da administração municipal, alguns meses antes do incêndio, o Auto de Verificação de Segurança (que se constitui no documento comprobatório do atendimento das regulamentações compulsórias de segurança contra incêndio), após passarem pelo processo de adaptação regulamentar. Por isso, pode causar estranheza que edifícios adaptados para atenderem aos requisitos de segurança ao fogo regulamentares e, portanto, considerados seguros tenham sido envolvidos em um incêndio de tão grandes proporções. Tal fato, entretanto, é perfeitamente explicável, já que, na verdade, o processo de adaptação dos edifícios (que culminou com a emissão do Auto de Verificação de Segurança) foi afetado fundamentalmente pelas próprias falhas da regulamentação que visou atender, agravado ainda pela adaptação incorreta dos dois edifícios à referida regulamentação.

Quanto à adaptação incorreta, pode-se dizer que medidas importantes de proteção contra incêndio (explicitamente recomendadas na regulamentação) não foram atendidas. Essas medidas atuariam no sentido de dificultar a propagação do incêndio entre pavimentos e melhorar as condições de fuga dos ocupantes do edifício.

Com relação à propagação do incêndio entre pavimentos, duas falhas devem ser destacadas:
■ os hall dos elevadores do edifício Sede I, que se constituíam em áreas de circulação do edifício, e davam acesso às escadas, servindo inclusive como patamares de mudança de direção, mantinham-se com forros cuja superfície acabada apresentava rapidez de expansão de fogo classe C, enquanto que a regulamentação permitia somente material classe A.
■ não existia nos dois edifícios a separação regulamentar de 1,20m de altura (perfeitamente solidarizada às lajes e possuindo resistência ao fogo mínimo de 4 horas) entre janelas de pavimentos consecutivos, de modo a dificultar a propagação do incêndio através da fachada.
Com relação à melhoria das condições de fuga dos ocupantes, pode-se dizer que a adaptação dos edifícios não inclui a disposição de duas caixas de escada para cada edifício, das quais pelo menos uma deveria ser de segurança.

REGULAMENTAÇÃO COMPULSÓRIA .
Para enfrentamento do problema da segurança contra incêndio, o poder público (atribuído da obrigação de salvaguardar a vida humana e de, na medida do possível, evitar a ocorrência de catástrofe) se baseia fundamentalmente no estabelecimento de regulamentações. Ocorre que os incêndios possuem caráter acidental, por isso, os gastos envolvidos na prevenção e proteção contra incêndios, via de regra, não resultam de imediato em benefícios palpáveis, o que influencia preponderantemente na discriminação da questão da segurança contra incêndio.

Por essa razão, as regulamentações devem ser dotadas de caráter compulsório e a aplicação direta de seus requisitos deve resultar em níveis adequados de segurança contra incêndio para as distintas situações abrangidas. A regulamentação compulsória aplicada no município de São Paulo não possui essa característica essencial, de tal forma que a sua aplicação direta não resulta em níveis adequados de segurança contra incêndio para os edifícios altos de escritório.
Pode-se citar como exemplo para isto os seguintes aspectos falhos da regulamentação:
■ com relação à compartimentação vertical no interior do edifício, admite-se a utilização de escadas de segurança conjuntamente com escadas comuns (não enclausuradas), não se atentando para o risco que estas estabelecem de favorecer a rápida propagação do incêndio entre pavimentos;
■ ainda com relação às escadas não enclausuradas, admite-se que elas sejam incluídas nas rotas de fuga, sem qualquer proteção especial, sem atentar-se para o grande risco de se tornarem canais condutores de fumaça, introduzindo um perigo inaceitável para os ocupantes do edifício;
■ com relação às rotas de fuga, as falhas que merecem destaque (além da aceitação de escadas não enclausuradas) são;  o não estabelecimento de rotas de fuga distinta (pelo menos duas) nos pavimentos; a aceitação de uma única escada de segurança; a admissão de elevadores comuns nas rotas de fuga;
■ as condições para garantir o distanciamento entre edifícios não se relacionam com o risco de propagação do incêndio através da fachada, mas unicamente com as questões de iluminação e ventilação; levando para grande parte dos edifícios (aqueles dotados de grandes áreas de janelas) a distâncias extremamente perigosas;
■ a questão da aproximação dos equipamentos de combate e acesso dos bombeiros ao interior do edifício não é abordada, permitindo que os edifícios altos de escritório assumam características tais que um incêndio, que porventura se desenvolva, seja impossível de ser combatido com eficiência.

Diante do exposto, é possível perceber com clareza a importância das deficiências apresentadas pela regulamentação de segurança contra incêndio aplicada no município de São Paulo. Nos edifícios altos de escritório, onde o incêndio implica grandes riscos à vida humana e à propriedade (inclusive aos edifícios vizinhos), tais deficiências tornam‑se críticas, pois conduzem a um sistema de segurança contra incêndio bastante precário.

Não se pode deixar de considerar como grave  o fato da regulamentação compulsória, aplicada pelo poder público, não garantir um nível adequado de segurança contra incêndio, principalmente porque, em decorrência disso, os ocupantes dos edifícios acabam, muitas vezes, sendo expostos a situações anormais de risco, das quais raramente se dão conta.

CONCLUSÃO
A segurança contra incêndio de um edifício é alcançada através de um conjunto de medidas de prevenção e de proteção contra incêndio, adotadas na sua fase de projeto ou de adaptação. Todas essas medidas se inter‑relacionam, conformando um sistema global de segurança, frente ao qual ficam extremamente reduzidas as possibilidades de ocorrência de um incêndio de grandes proporções.
A magnitude alcançada pelo incêndio dos edifícios Sede I e Sede II indica que o sistema de segurança, adotado quando da adaptação do edifício às regulamentações vigentes, era incompleto e insuficiente. Pode-se imaginar que grande parte das medidas que configurariam um sistema de segurança mais completo, e que não foram incorporadas no processo de adaptação (algumas das quais se destacam por estarem indicadas na regulamentação) tenha sido considerada como de menor importância. Os eventos envolvidos no incêndio, entretanto, trataram de provar o contrário.
Pode-se levantar também a hipótese de que se considerou, quando da adaptação dos edifícios, que a existência de um sistema de detecção automática de incêndio ou de passarelas entre edifícios, ou ambas, fosse capaz de suprir as deficiências ocasionadas pela ausência de medidas de proteção contra incêndio. Deve-se destacar, entretanto, que o sistema de detecção automática não tem o sentido de substituir qualquer outra medida de proteção contra incêndio. Visa, unicamente, reforçar as medidas adotadas no sentido de garantir a agilização da evacuação do edifício e das ações de combate. As passarelas, por sua vez, além de não substituírem nenhuma outra medida de proteção contra incêndio, não podem dispensar a utilização de escadas de segurança através das quais são alcançadas.

O incêndio ocorrido nos dois edifícios evidencia a necessidade de medidas corretivas urgentes no sentido de alterar o quadro atual. Deve-se pensar em rever o processo de concessão do Auto de Verificação de Segurança, de forma que as vistorias e os projetos de adaptação elaborados pelos peritos sejam abrangentes e criteriosos, e que estejam subordinados a equipes de fiscalização especializadas. Adicionalmente, as adaptações devem ser baseadas em uma regulamentação completa e coerente, cuja aplicação direta permita a conformação de um sistema global de segurança que resulte em um nível aceitável de segurança contra incêndio, para qualquer tipo de edificação.

Dessa forma, torna-se premente a concentração de esforços no sentido de introduzir no município de São Paulo (e em todos os outros municípios brasileiros) uma nova regulamentação que possa eliminar as inúmeras falhas existentes na atual. Paralelamente a isso, devem ser destacadas pela administração pública equipes competentes de fiscalização que, através de mecanismos bem estruturados, sejam capazes de garantir a aplicação dessa regulamentação.
Em complementação a essas atividades deveria também ser introduzida uma regulamentação compulsória aplicável à fase de uso dos edifícios, já que na hipótese de não existir a preocupação com a segurança contra incêndio durante o uso do edifício, tudo aquilo que foi provido em sua construção pode ser amplamente comprometido. Fonte: Gerência de Riscos – 1989 – Itsemap do Brasil - Antonio Fernando Berta e José Carlos Tomina- engenheiros civis e pesquisadores do IPT na área de segurança contra incêndio.

Vídeo: Implosão parcial do prédio Sede II


Observação:
Desde a ocorrência do incêndio em 1987, as duas torres do prédio da antiga sede da CESP (Companhia Energética de São Paulo), estavam desocupadas  e foram adquiridas  em dia 5 de maio de 2010, pela WTorre por R$ 91,5 milhões. As torres passaram por reforma no valor estimado de R$ 58 milhões .

Comentário: Situação das torres quanto a prevenção de incêndio em 1987 e valores atualizados
Área do terreno: 990 m2
Área ocupada: 990 m2
Área construída: 22.278,56 m2


Sistema de prevenção e combate a incêndio: 49 hidrantes internos instalados nos edifícios Sede I e Sede II

Abastecimento:
Edifício Sede I – reserva  de incêndio: 60 m3
Edifício Sede II – reserva de incêndio: 50 m3

Extintores:
Edifício Sede I – 91 extintores distribuídos  nos andares
Edifício Sede II – 149 extintores distribuídos  nos andares

Extintores de reservas: 50, diversos tipos e capacidade

Equipamentos auxiliares: proporcionadores de espuma, máscaras autônomas, esguichos reguláveis e jatos sólidos, cordas, capacetes, luvas e lances de mangueiras

Brigada de incêndio: 01 bombeiro profissional e 130 brigadistas

Central de alarme com detectores tipo térmico, acionadores manuais de alarme, detectores de  fumaça e termovelocimétricos.

Laudo policial
O incêndio, segundo o laudo pericial do Instituto de Criminalística, foi causado por superaquecimento das luminárias do 5° andar do edifício Sede Um. O relatório cita que "a propagação do fogo e os danos decorrentes" ocorreram devido às falhas do sistema de alarme por terem os responsáveis pelo setor,  desligado o interruptor de acionamento da campainha, sobre a porta da sala do Centro de Detecção, Alarme e Megafonia,
Um mês antes do incêndio de 21 de maio, houve um principio de fogo, durante a madrugada, na luminária do 13º  andar do Sede I, em circunstâncias idênticas ao do 5º  andar. O relatório indica que o problema teria ocorrido no reator, pois um deles estava superaquecido, "mas limitou-se a determinar o reparo da área afetada e nada mais".  O relatório criticou também a falta de integrantes da Brigada de Incêndio no dia do incêndio,  já que as pessoas que estavam no local não sabiam "operar os equipamentos". O relatório aponta: os funcionários da manutenção e operação do centro de.Detecção trabalhavam somente das 8 às 17h30.
Obs: Eram trocados de 10 a 12 reatores mensalmente nos dois edifícios, que possuíam aproximadamente 7 mil reatores.

Danos materiais
O fogo destruiu dezenas de projetos que consumiram muito tempo para serem feitos, milhares de documentos,  parte das fitas de computador, sem contar móveis e outros objetos. Aos prejuízos físicos, deve-se   acrescentar os decorrentes das horas  e de serviço dos funcionários que trabalhavam nos prédios.

Entulho
A implosão parcial do edifício Sede II ( 7 de junho de 1987)resultou 8.400 toneladas de entulho. Prazo de retirada 40 dias.

Reabertura do shopping
O shopping Center 3 abriu parcialmente em 02 de junho de 1987. 

Vítima
Após 48 dias do incêndio foi encontrado o corpo do vigia (única vítima fatal)  soterrado nos escombros no 3º subsolo.

Valores atualizados pelo IGP-DI -  até set/2014
Seguro dos edifícios:
R$ 112.075.000,00
Prejuízos da Cesp:
R$ 373.482.000,00
Recuperação da estrutura do edifício Sede II:
R$ 36.886.000,00
Custo da implosão:
R$ 2.342.000,00
Danos contra terceiros: Indenização:
R$ 8.000.000,00

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