Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

terça-feira, maio 24, 2016

Anatomia do desastre – Incêndio no túnel Palermo-Punta Raisi

RESUMO
No dia 18 de março de 1996 ao longo do túnel rodoviário Palermo-Punta Raisi, Itália, um caminhão tanque transportando 2.500 litros de GLP envolveu-se em acidente. O caminhão foi atingido por um ônibus, cuja parte superior penetrou  na traseira do caminhão,  provocando vazamento do gás e em questão de minutos pegou fogo. As labaredas do GLP  aquecia internamente o tanque e causou um “Bleve” (Boiling liquid expanding vapour and explosion” que significa: explosão do vapor líquido em ebulição, onde o líquido se evapora rapidamente, transformando se em vapor e se inflamando). No momento do acidente, havia 22 carros e um microônibus no túnel, além do ônibus causador da colisão, com um total de 50 pessoas.
O tempo de demora entre a ignição do gás e a explosão permitiu que numerosos passageiros escapassem. Entretanto, cinco pessoas morreram queimadas e 25 com ferimentos graves (queimaduras). Dez pessoas apresentaram queimaduras superficiais e outros traumas.

Foram analisados os seguintes aspectos:
■A dinâmica do acidente
■A dinâmica da operação de resgate
■Acompanhamento das vítimas com queimaduras graves tratadas no Hospital para Queimaduras, na cidade de Palermo

O desastre do túnel de Palermo, com terrível dinâmica, confirma a tese que o único caminho para neutralizar a impossibilidade de predizer esse tipo de acidente é através  de uma ação de coordenação de um plano de emergência para todos os níveis, desde a população em geral, médicos, enfermeiros, grupos de voluntários, defesa civil, policia, bombeiros, etc, que devem ser treinados adequadamente, com campanhas educativas para prevenir desastres de incêndio em túneis.
Este acidente, o primeiro caso descrito de um “Bleve” no meio ambiente restrito e fechado, pode fornecer informações valiosas para estudo e discussão no intuito de buscar soluções,  avaliação das operações e treinamento, com vista à execução de um plano de preparação de desastre com maior segurança.

CENÁRIO DO DESASTRE
O túnel com 148 m de comprimento, com sentido de mão única de direção para Punta Raisi – Palermo. No meio do túnel,  há uma curva para direita de 25 graus. A pista possui uma inclinação da esquerda para direita para facilitar o escoamento de água para o sistema de drenagem. A uma distancia de 100 metros da entrada do túnel, há sinais de tráfego, limitando a velocidade no túnel
em 80 km/h. O túnel não possui avisos de emergências (painéis que informam ao motorista sobre quebra de veículos ou colisão ou sinais de perigo). Próxima à entrada do túnel há sinais advertindo motorista sobre a presença de radares.
Paralelo ao túnel existe outro com mesmo comprimento e com sentido contrário de tráfego (figura 1). Eles estão interligados por uma passagem de 5 m por 10m. O túnel está a 10 km de Palermo e 7 km do aeroporto de Punta Raisi . As saídas mais próximas da rodovia são : Carini, Capaci e Isola delle Femmine. As cidades mais próximas com hospitais são :
■Carini – distante 4 km,  com um pequeno hospital
■Palermo – distante 10 km, com  hospital especializado em queimaduras e os hospitais de emergência de Villa Sofia e G. Cervello.

Diariamente aproximadamente 40.000 veículos trafegam em cada sentido da estrada, atingindo o pico na época de verão e algumas vezes ao dia (acima de 10.000 veículos por hora). No momento do desastre (14h30min), o tráfego estava intenso, com  muitas pessoas retornando das regiões próximas em direção à  cidade ou vice versa. Naquele instante, havia vários ônibus escolares e inúmeros vôos charter tinham aterrissado no aeroporto de Punta Raisi.
Os dois túneis paralelos, envolvidos no desastre. O fogo estava no túnel à direita

DINÂMICA DO DESASTRE
No dia 18 de março de 1996 estava chovendo na região. Cerca de 14h 30 min, devido à pista estar escorregadia ou devido à velocidade excessiva, um carro derrapou e bateu no guard-rail e capotou na pista. Outros veículos atrás, incluindo um microônibus envolveram‑se no acidente e o túnel ficou bloqueado (seis veículos envolvidos). No instante do acidente, aproximava o caminhão tanque transportando 2.500 litros de GLP. 

O motorista conseguiu parar o caminhão sem provocar colisão. Ele imediatamente acionou o pisca alerta para avisar os demais veículos sobre o perigo na pista. Entretanto, um ônibus com 14 pessoas a bordo, não estava tão próximo, mas o motorista não conseguiu controlá‑lo, derrapando para esquerda e batendo violentamente no caminhão tanque. Imediatamente, após a batida do ônibus, sucessivas colisões foram ocorrendo. Dezenove  carros, um microônibus, um ônibus de passageiros e um caminhão tanque estavam parados no túnel com cerca de 50 pessoas.

Reconstituição do desastre no túnel
1 – ônibus bate e derrapa para esquerda e bate no caminhão
2 – caminhão tanque parado
3 – passagem de interligação
4 – local da primeira batida, que obstruiu a pista e provocou o desastre

O impacto entre o ônibus e o caminhão tanque foi violento. Como resultado, havia vazamento de gás do tanque devido ao dano provocado na parte superior, que rompeu (testemunhas notaram uma névoa branca de vapor acima do tanque). Após segundos, de acordo com informações de testemunhas, houve a primeira explosão. Provavelmente, devido à ignição da nuvem de gás, provocada por alguma fagulha de um motor em funcionamento ou devido ao contato com o motor quente  ou com a mistura do ar mais o gás. As testemunhas disseram que foram envolvidos por uma bola de fogo que causou queimaduras horríveis nas partes expostas do corpo, sem causar muito dano nos veículos, onde estava a maioria das pessoas.

O fogo envolveu principalmente o ônibus de passageiros, que se incendiou.. O motorista, mais tarde, informou que ele viu de repente uma nuvem negra e um grande “flash” no lado externo do ônibus e gritou imediatamente aos passageiros para se moverem para trás. Ele não conseguiu a abrir a porta do ônibus. Alguns passageiros quebraram o vidro traseiro e escaparam.

O túnel estava completamente envolvido por uma fumaça negra e muito provável cinco pessoas que estavam à esquerda do ônibus, não conseguiram escapar da fumaça. O fogo continuava  alimentar a queima de gás, que escapava do tanque. Após 6 a 7 minutos, quando a maioria conseguiu escapar do túnel (exceto para as quatro pessoas que não conseguiram escapar da fumaça, os corpos foram encontrados completamente carbonizados e um foi encontrado entre o caminhão tanque e o ônibus), ocorreu uma tremenda explosão com chamas violentas com fumaça negra e ondas de choque para as saídas do túnel e também para o túnel adjacente.

A segunda explosão foi provavelmente um caso de “Bleve” causado pela ação direta do calor do tanque. Isto poderia conduzi à ebulição do gás líquido, devido à formação de mais gás e o aumento de pressão e como conseqüência, o rompimento do tanque, com vazamento de GLP ainda em estado líquido, que imediatamente evaporou. A nuvem  de gás e o pequeno vazamento de GLP podem pegar fogo imediatamente, causando a explosão do tanque .

COMO OCORRE O BLEVE ?
Um Bleve ocorre quando há ruptura de um tanque sob pressão.
Mas que fenômeno físico ocorre?
Para compreender o fenômeno, devemos levar em consideração os seguintes fatores:
1-A pressão interior do reservatório
2-Quando o reservatório está aquecido, há um aumento de pressão no seu interior.
3-Quantidade de líquido
Quando o reservatório está aquecido, a substância em seu interior se transforma do estado líquido em estado gasoso. Há uma diminuição da quantidade de líquido no reservatório, aumentando bruscamente a temperatura bem acima do ponto de ebulição.
4-Superfície exposta
O líquido no interior do tanque pode absorver uma parte do calor das paredes do reservatório e diminui a velocidade de seu enfraquecimento. Porém a quantidade de líquido diminui e a superfície do reservatório, exposta e sem defesa, aumenta a sua temperatura.
5-Resistência material do reservatório
A superfície  do reservatório superaquece gradativamente, a resistência do reservatório diminui cada vez mais. A 400o C  o aço perde 30% de sua resistência . A 700o C o aço perde 90% de sua resistência. 
Em geral a superfície do reservatório superaquece e perde suas propriedades mecânicas, levando à ruptura. Quando a pressão interior aumenta além do que pode suportar o tanque, ele se rompe e o Bleve  ocorre. É  preciso igualmente compreender quanto menor o tanque, mais rapidamente ocorrerá o Bleve, devido à facilidade de aquecimento, a pressão aumentará no seu interior e as paredes do tanque enfraquecerão.

O Bleve pode ocorrer em pequenos reservatórios

Dimensões do reservatório
Tempo de resistência do reservatório antes que ocorra o BLEVE
400 litros
 3 – 4 minutos
4000 litros
 5 – 7 minutos
40.000 litros
 8 – 12 minutos
Fonte : Université Queen’s, Kingston – Ontário – Canadá –  A.M. Birk – pesquisador
Pesquisa financiada por Transport Canadá, direction du transport dês marchandises dangereuses – 1996

As conseqüências do BLEVE são as seguintes:




BOLA DE FOGO
Se o conteúdo do tanque é inflamável, há nesse caso uma ignição da substância e o resultado será uma bola de fogo. Dos ensaios experimentais efetuados com reservatório contendo propano foram produzidas bolas de fogo com as seguintes características:

Dimensões do reservatório
Raio da bola de fogo
400 litros
18 metros
4000 litros
38 metros
40.000 litros
81 metros

Fonte : Université Queen’s, Kingston – Ontário – Canadá –  A.M. Birk – pesquisador
Pesquisa financiada por Transport Canadá, direction du transport dês marchandises dangereuses - 1996

É igualmente  possível que uma substância não se inflame, após o BLEVE e se disperse sob a forma de nuvem na direção do vento. Ela pode se inflamar, subitamente, a qualquer momento, com conseqüências catastróficas. Se o conteúdo do reservatório não é inflamável (por exemplo, um cilindro de oxigênio líquido) não haverá bola de fogo.

RADIAÇÃO TÉRMICA
Se uma bola de fogo for gerada durante o BLEVE, uma importante radiação térmica será produzida. Os intervenientes devem respeitar as distancias mínimas em relação ao reservatório a fim de evitar a radiação. Esta distancia é estabelecida quatro vezes o raio da bola.

Dimensões do reservatório
Raio da bola de fogo
400 litros
Mais ou menos 90 metros
4000 litros
150 metros
40.000 litros
320  metros

Fonte : Université Queen’s, Kingston – Ontário – Canadá –  A.M. Birk – pesquisador
Pesquisa financiada por Transport Canadá, direction du transport dês marchandises dangereuses - 1996

ONDA DE CHOQUE
O Bleve sendo uma explosão é acompanhada de uma detonação e deslocamento de ar.
A única maneira de não ser afetado pela onda de choque é manter se afastado mais longe possível do local da explosão. Respeitando as normas mínimas de aproximação,  os intervenientes permanecem fora de alcance dos efeitos da detonação.

PROJEÇÃO  DE FRAGMENTOS
Uma das conseqüências mais perigosas do Bleve é a projeção ou lançamento de fragmentos ou estilhaços. A única constatação que os testes podem estabelecer em face de projeção de fragmentos é que estes são impulsionados principalmente para o lado das extremidades do reservatório. Esta projeção é tão imprevisível  e poucas vezes atingem grandes proporções. Mas nesses ensaios, os fragmentos podem atingir a cerca de 230 metros  do local do BLEVE. Um acidente que ocorreu no Texas – USA, os fragmentos foram encontrados a mais de 1 quilômetro.  É necessário lembrar, mesmo que os intervenientes respeitem as distancias mínimas de aproximação , os fragmentos podem atingi los. A melhor solução é  portanto proceder à evacuação para uma zona estabelecida como segura a 22 vezes o raio da bola de fogo.

Dimensões do reservatório
Raio de evacuação
400 litros
400  metros
4000 litros
800 metros
40.000 litros
1800 metros

Fonte : Université Queen’s, Kingston – Ontário – Canadá –  A.M. Birk – pesquisador
Pesquisa financiada por Transport Canadá, direction du transport dês marchandises dangereuses - 1996

Em resumo, as conseqüências de um BLEVE são devastadores. A melhor solução de se proteger dos seus efeitos é afastar quanto mais longe possível.

Análise de vulnerabilidade

■Danos físicos: avaliação de morte e ferimentos
   Causas predominantes: radiação térmica,  onda de choque e efeitos tóxicos
■ Danos materiais: danos a equipamentos, instalações, etc
   Causas predominantes: ondas de choque e radiação térmica

Após exames de quatro pedaços do tanque encontrados após o desastre, foi confirmado que a explosão ocorreu no interior do tanque, na parte central ( fig. 3a, 3b e 3c)


O fogo propagou-se por todo o túnel e foi finalmente extinto pelos bombeiros após duas horas (fig. 4a, 4b, 4c e 4d)


O Bleve durou 5 a 6 segundos alcançando a temperatura de 1000º C. Testemunhas disseram que após a colisão entre os veículos, o fogo iniciou em um dos veículos (o motorista do caminhão tanque disse que tentou extingui‑lo com extintor). Seis ou sete minutos mais tarde, quando os sobreviventes deixaram o túnel, houve uma segunda grande explosão, com grandes chamas, uma
grande onda de choque e também uma fumaça negra,  em direção às saídas do túnel e também no outro túnel (Bleve).

SITUAÇÃO DO HOSPITAL ESPECIALIZADO EM QUEIMADURAS NO MOMENTO DO DESASTRE E A PREPARAÇÃO DO PLANO DE EMERGÊNCIA
O Centro para Queimadura de Palermo possui 12 camas para cuidados intensivos,  18 camas para pacientes com queimaduras menos sérias, para convalescença ou para pós operatório e, adjacente, o centro de operação de  emergência . O centro está localizado no segundo piso de um novo edifício,  no  qual o primeiro andar é ocupado pelo centro de operação plástica (com 50 camas). Na unidade de terapia intensiva (UTI) as camas estão localizadas aos pares, em seis alas, cada uma delas,  climatizadas com unidades autônomas.
Cada paciente é monitorada visualmente através de uma estação de enfermagem por meio  de circuito de TV.

O monitoramento das demais funções do paciente é também centralizado e controlado por uma estação de enfermagem.
A unidade de terapia intensiva (UTI) é cercado por um corredor externo, de onde os visitantes podem ver os pacientes através de janelas e conversar por intercomunicadores. Essa área é auto-suficiente, tem laboratório para análise química e farmácia. Por um  elevador pode se acessar o centro de operação. Oito camas da UTI ocupam a outra metade do andar.

No terceiro andar localiza se o complexo operacional para funcionamento do departamento.
Há também uma sala de operação para tratamento de queimadura  e duas salas de operação para as atividades de operação plástica.
No térreo é o setor de emergência, com duas salas de operação de emergência, escritório e biblioteca. O centro de reabilitação se localiza no subsolo.
Utilizando equipamentos de alta tecnologia, o Centro para Queimadura de Palermo é reconhecido como um dos mais modernos da Itália.
As  14h 40 min o Centro para Queimadura  foi alertado para a possível chegada de inúmeras vítimas de queimaduras  (Tabela I)
Tabela I – Seqüência cronológica do desastre e esforços do resgate
14: 15 min
Inicia o engavetamento de veículos no túnel
14 : 25 min
O ônibus colide com o caminhão tanque
14: 26 min
Primeira explosão e ignição  da nuvem de gás 32 queimados e feridos
14: 30min
Parte dianteira do ônibus pega fogo
14: 32min
Polícia chega ao local e avisa ao comando geral
14: 36 min
Bleve
14: 37 min
Corpo de Bombeiros, polícia, hospital especializado para queimadura, outros hospitais e serviços de emergência são alertados
14: 40 min
Os feridos com menos gravidade são levados pela policia e por veículos particulares para os hospitais mais próximos (Carim - 4 km, Cervello - 7 km)
14: 45
Mais três carros da policia chegam ao local e os feridos são levados aos hospitais mais próximos
14: 50 min
Duas ambulâncias chegam ao local
14: 55min
Mais de dez ambulâncias chegam ao local e também o Corpo de Bombeiros
Primeira ambulância do Centro para Queimadura de Palermo chega ao local ,seguidas de outras ambulâncias
15: 40 min
Primeira ambulância chega ao Centro para Queimadura
Centro com dois pacientes
15: 45min
Mais dois pacientes  chegam ao Centro
15: 50 min
Mais sete pacientes chegam ao Centro
15: 55 min
Mais cinco pacientes chegam ao Centro
16: 30 min
Mais dois pacientes chegam ao Centro e são dispensados após medicados
17: 00
Mais dois pacientes chegam ao Centro e são dispensados após medicados


18: 15 min
Mais dois pacientes com queimadura, envolvidos em outro acidente
(explosão de cilindro de gás), chegam ao  Centro
19: 00
Mais dois pacientes com queimaduras e feridos chegam ,provocados por acidentes de fogueira
Ao todo, 24  pessoas com ferimentos chegaram em 4 horas e 20 foram hospitalizados. Desses 20 feridos, 16  eram do desastre no túnel

Logo que as notícias do desastre chegaram no Centro para Queimadura (14h50min), o plano de emergência para tal evento foi colocado em execução. Naquele momento havia três médicos em serviço no departamento e outros médicos foram chamados. O chefe do departamento foi comunicado imediatamente e outros seis médicos foram colocados em sobreaviso. Os  leitos dos setores de Unidade Terapia Intensiva e pós-operatório foram colocados à disposição.  As chefes das enfermeiras foram avisadas e os grupos de enfermagem foram reforçados.

Todas as roupas esterilizadas  em conjunto com outros equipamentos necessários para utilização em pacientes foram transferidos do departamento para o Centro para Queimaduras.  A farmácia do hospital foi instruída para agilizar o envio de medicamentos básicos para pacientes com queimaduras. O pronto socorro do hospital foi instruído para agilizar o procedimento necessário para admissão dos feridos e atendimento dos primeiros socorros (profilaxia).
Dos quatro médicos em serviço no pronto socorro, dois permaneceram no local e outros dois foram deslocados para o centro para queimaduras.
As 15h 40 min chegaram os dois primeiros pacientes (sendo um deles, com cinqüenta por cento do corpo com queimaduras e outro com apenas quinze por  cento). Ambos tinham queimaduras na face, mãos e outras partes do corpo. Eles foram levados imediatamente para o Centro para Queimaduras. Eles disseram, que inalaram gases quentes e fumaça. Os pacientes foram examinados para checar o grau de queimadura. O tratamento médico foi iniciado imediatamente.
Às 17h 30min, todos os pacientes (16)  foram examinados e efetuados exames clínicos.

DISCUSSÃO   
Sobre a análise básica dos fatores que combinaram para causa o acidente, isto é, a colisão inicial e sua conseqüência (engavetamento), o tipo de explosão (Bleve), o lugar onde o acidente ocorreu (túnel), o número de pessoas envolvidas (mais de 50) e a operação resgate (imediata, situação de emergência), podemos efetuar as seguintes considerações:

1.O engavetamento no túnel bloqueou considerável quantidade de veículos (22) e pessoas (mais de 50) no meio ambiente fechado e pessimamente iluminado.

2. Todos as pessoas permaneceram próximas ou no interior dos respectivos veículos, esperando o tráfego se mover novamente. Ninguém pensou em sair do túnel, pois estava chovendo. Ninguém considerou a paralisação total do tráfego.

3. Ao longo do túnel, próximo à metade, entre os carros bloqueados na pista estava um caminhão tanque transportando 2.500 litros de GLP.

4. As pessoas perceberam o iminente risco somente após a primeira explosão, com a ignição da nuvem de gás e a visão das chamas envolvendo a parte superior do ônibus.

5. A ignição do gás, as testemunhas descreveram como uma rajada de vento quente, causando queimaduras graves nas partes expostas do corpo (rosto e mãos) em 14 pessoas, algumas distantes do foco inicial, porém sem causar nenhum dano aos veículos. Muito provável, como o dia estava frio e chuvoso, as pessoas estavam usando agasalhos,  que evitou  danos mais graves no corpo. (Figs 5a, b, c, d)


6. As duas pessoas gravemente queimadas foram o motorista do ônibus e do caminhão tanque, que estava muito próximo do fogo. O motorista do ônibus foi a última pessoa a deixar o veículo, pois estava ajudando os passageiros; o motorista do caminhão tanque, inicialmente percebeu o tráfego parado, viu o ônibus se aproximando e desgovernado,  moveu se em direção à saída, mas estava envolto em chamas.

7. Após a primeira explosão, todas as pessoas tiveram tempo suficiente para escapar do túnel em direção a uma das duas saídas, numa distancia máxima de 70 m do centro do túnel.

8. O Bleve foi extremamente violento, ocorrendo não mais do que 6 a 7 minutos após a primeira explosão (todas as opiniões concordaram com isso) e os danos físicos comprovaram esse efeito (cinco corpos foram  totalmente carbonizados). O dano ao túnel foi considerável. A onda de choque enviou fumaça direta para a galeria de conexão com outro túnel adjacente, que ficou totalmente enegrecido. Tudo que estava no túnel, onde o BLEVE ocorreu ficou totalmente  destruído. Lembramos que 1 kg de gás líquido produz 500 litros de gás, que misturado com o ar, torna-se altamente explosivo.

9. O serviço de resgate e de emergência foi rápido e efetivo. O carro patrulha em serviço na estrada  acionou inicialmente o alarme,  comunicando ao quartel central e ao serviço de emergência e resgate, que alertou o Centro para Queimaduras e dois outros hospitais em Palermo. O serviço de emergência também foi alertado pelos motoristas através de celulares.

10. As pessoas com ferimentos leves foram levados para  o hospital em Carini (distando 4 km) e outros hospitais mais próximos em Palermo.

11. Várias pessoas ajudaram a polícia,  comunicando ou entrando em contato com os familiares e amigos das vítimas.

12. As primeiras  ambulâncias (4) chegaram ao local em 35 minutos e outras (10) demoraram mais de 45 minutos. As chegadas das ambulâncias foram facilitadas  pelas proximidades das cidades à estrada.

13. Dezesseis feridos foram levados para o Centro para Queimaduras de Palermo. Não  havia atendimentos básicos  durante o trajeto.

14. O primeiro paciente em estado grave chegou ao Centro em 70 minutos após o acidente e o último no máximo em duas horas. Após duas horas e trinta minutos, os feridos graves estavam recebendo no hospital tratamento adequado.

15. O Centro para Queimados foi capaz lidar com a chegada de inúmeras vítimas, devido à existência de um plano de emergência, que foi testado  em várias ocasiões e principalmente do grau de conhecimento e estado de preparação do plano de emergência  para desastre por parte das equipes médicas e de enfermagem.
Fonte: @ZR, Annals of Burns and Fire Disasters , 1997  - Fire disaster in a motorway tunnel-Masellis Michele., laia A., Sferrazza G., Pirillo E., D'Arpa N., Cucchiara P., Sucameli M., Napoli B., Alessandro G., Giairni S.; Divisione Chirurgia Plastica e Terapia delle Ustioni, Ospedale Civico, Palermo, ltaly


Conclusão :
Não há dúvida, que o desastre de incêndio que ocorreu no túnel da rodovia Palermo-Punta Raisi, houve uma combinação de fatores circunstanciais, fortuitos e sorte e tudo isso limitado ao número de vítimas. Tal episódio fornece informações direcionadas  à análise e formulação de hipóteses, avaliação de resultados e treinamento contínuo em busca de melhor nível de preparação do plano de emergência .

No acidente de Palermo, por exemplo, estava presente o Bleve em meio ambiente fechado e reduzido (extensão túnel), que poderia ter conseqüências catastróficas se o túnel fosse mais extenso e se as pessoas não tivessem tempo para escapar.

Outro aspecto é a prevenção de cargas perigosas. Explosões de tanques de GLP têm causado vários desastres em diferentes partes do mundo e uma análise dessa dinâmica tem conduzido para numerosas medidas no plano internacional para regulamentação de materiais altamente perigosos. Entretanto, os acidentes continuam ocorrer e a causa mais comum é a colisão.

Tem sido proposto que os caminhões tanques deveriam ser obrigados a seguir uma rota especial, todavia, se um acidente ocorresse,  o meio ambiente circunvizinho sofreria considerável dano. É indispensável que todo país ou estado ou cidade tenha  planos de emergência para esse tipos de desastres e que esses planos conduzam  à  melhoria do nível técnico em geral, à preparação logística e também à preparação  da comunidade. É extremamente importante que esses planos não permaneçam apenas no papel, mas sejam continuamente testados na prática,  reforçados  por cursos e atualização de informações, envolvendo especialistas, médicos,  enfermeiros, organizações  voluntárias, bombeiros, polícia e público em geral.

Comentário :
Este artigo focalizou, de maneira objetiva, a dinâmica de desastre em túnel, desde o seu início (colisão e engavetamento),  até a  primeira explosão e a corrida das pessoas para alcançarem a saída do túnel, que era por sinal um túnel pequeno e finalmente o Bleve. Tudo isso em questão de minutos.
E no Brasil, especificamente no Estado de São Paulo, temos as rodovias Anchieta e Imigrantes, com vários túneis ao longo do percurso, por onde transitam diariamente inúmeros caminhões transportando produtos altamente perigosos.
Se ocorresse um acidente em um dos túneis, envolvendo incêndio e explosão comum em caminhão tanque transportando GLP líquido ou outro tipo de produtos inflamáveis, as empresas responsáveis pela administração da rodovia em conjunto com as autoridades públicas, teriam um plano de emergência  para atender esse tipo de desastre ?
E os hospitais especializados em queimaduras  teriam leitos suficientes para atenderem esse tipo de desastre?
Os hospitais estariam preparados para atenderem simultaneamente inúmeras vítimas?
Os hospitais teriam planos de emergência para esse tipo de situação ?

Os acidentes ocorrem e sempre ocorrerão. Portanto, os responsáveis deverão estar preparados com um plano de emergência definido, envolvendo todos os setores da comunidade, desde a população em geral, médicos, enfermeiros, grupos de voluntários, defesa civil, policia, bombeiros, etc, que devem ser treinados adequadamente,  incluindo campanhas educativas para prevenir desastres em túneis.

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terça-feira, maio 17, 2016

Manuseio de pedras industrializadas aumenta risco de doenças

Enquanto as elegantes bancadas feitas com as chamadas “pedras industrializadas” se popularizam, especialistas em segurança alertam que os operários que as manuseiam se tornam especialmente propensos a um velho risco profissional — a sílica, um mineral associado à silicose, doença pulmonar debilitante e potencialmente letal.

As bancadas são feitas de quartzo processado, um material que contém até 90% de sílica, o dobro do teor dessa substância no granito.

SILICOSE
Quando placas de pedra industrializada são cortadas e polidas para se encaixarem numa cozinha ou banheiro específico, grandes quantidades de partículas de sílica são inaladas. Isso pode dar início a um processo que leva à silicose e também ao câncer pulmonar e a doenças renais.

Os riscos trazidos por essas bancadas estão sendo analisados mais atentamente desde que a Administração de Saúde e Segurança Ocupacional dos EUA anunciou regras para reduzir a exposição dos trabalhadores à sílica.

Fora dos Estados Unidos, há numerosos casos de silicose. Em Israel, por exemplo, cerca de 300 operários receberam o diagnóstico dessa doença, incluindo 22 pacientes que precisaram se submeter a transplantes de pulmão, segundo o médico Mordechai Kramer, diretor do Instituto de Pneumologia de Petah Tikva, em Israel.

As bancadas não representam riscos para os consumidores em suas casas. Mas os operários que manuseiam a pedra industrializada podem ter uma exposição significativa à sílica, especialmente se estiverem trabalhando sem os equipamentos adequados. “São as pessoas que pegam as placas e as cortam sob medida que estão em risco”, disse o professor de medicina Paul Blanc, da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

As pedras industrializadas são populares porque são atraentes, duráveis, fáceis de limpar e mais baratas que as bancadas de granito natural. Para produzi-las, pedras de quartzo são trituradas, misturadas com plástico e moldadas em placas. Os principais fabricantes desses produtos, vendidos sob marcas como Zodiaq, Caesarstone e Silestone, incluem DuPont (EUA) Caesarstone (Israel) e Cosentino (Espanha).

Em um artigo publicado em 2014 na revista “The International Journal of Occupational and Environmental Health”, pesquisadores relataram que o número total de casos de silicose na Espanha, depois de cair entre 2003 e 2007, voltou a subir, por causa da pedra industrializada.

Nos EUA, um estudo de 2013 da Universidade de Oklahoma sobre o equipamento de segurança usado em fábricas de bancadas nesse Estado constatou que a maioria das proteções era inadequada.

Há dois anos, as autoridades de saúde do Texas relataram o primeiro caso documentado nos EUA de silicose entre operários que fabricam bancadas. O paciente, Ublester Rodriguez, havia passado quase uma década trabalhando com pedra industrializada e outros produtos de sílica.

Rodriguez, 39, pai de três filhos e morador da região de Houston, não quis ser entrevistado, já que o assunto é objeto de uma ação judicial. No entanto, num depoimento preliminar à Justiça, Rodriguez, que hoje respira com a ajuda de um balão de oxigênio, afirmou que frequentemente deixava o trabalho coberto de poeira branca. “Quando a gente saía daquela sala, os olhos estavam brancos”, declarou. “Brancos. O cabelo da gente ficava totalmente branco por causa da poeira.”

Blanc disse que os casos já relatados de silicose relacionados à pedra industrializada podem ser o prenúncio de muitos outros.

Além dos EUA, o uso da pedra industrializada está se popularizando também na China, onde frequentemente há pouquíssima segurança nos ambientes de trabalho. “Dá para imaginar o que está acontecendo por lá”, afirmou. Fonte: @ZR, Folha de Sao Paulo - The New York Times- Maio 13, 2016

Marmorarias Manual de Referência
Recomendações de Segurança e Saúde no Trabalho

Artigo publicado
Morte Silenciosa



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terça-feira, maio 10, 2016

Combate a incêndio começa com treinamento e planejamento pré-incidente

Durante a preparação do plano estratégico para uma operação segura e efetiva, o Comandante do Incidente (CI) primeiro avalia a situação, depois faz uma análise de risco-benefício, e finalmente lança os recursos disponíveis. Quando tudo vai bem, o objetivo de salvar vidas e bens é atingido sem que nenhum bombeiro seja ferido. O CI e todos os outros envolvidos devem se esforçar para atingir esse objetivo.

PLANEJAMENTO PRÉ-INCIDENTE E DE TREINAMENTO CONTÍNUO.
É óbvio que a segurança durante um incêndio depende do planejamento pré‑incidente e de treinamento contínuo. Dentre as principais informações que o CI necessita para a preparação de um plano estratégico está a organização dos recursos disponíveis no local do incêndio. Planejamento pré‑incidente, treinamento realista e um Sistema de Comando de Incidente (SCI) bem gerido são os principais responsáveis por uma operação segura durante o incêndio. Entretanto, mesmo os melhores planos podem dar errado,  quando as condições mudam. O CI deve ser preparado para fornecer os recursos necessários para resgatar os bombeiros.

EVACUAÇÃO
Quando há necessidade de evacuar os bombeiros, deve ser soado um sinal de evacuação de emergência para avisá-los que devem evacuar o edifício.

Esse sinal deve ser diferente de todos os outros, e deve ser facilmente distinguível de outros sons e ruídos no local. De modo geral, utiliza-se um número pré‑determinadado de buzinadas com a buzina a ar de uma viatura.

Para eliminar possibilidade de confusão, os corpos de bombeiros que querem usar esse tipo de sinal devem limitar o uso da buzina a ar quando suas viaturas chegarem ao local do incêndio. A buzina deve ser usada de uma maneira pré-determinada, como, por exemplo, 10 acionamentos de 3 segundos de duração cada.

Como esse tipo de sinal de evacuação pode não ser escutado dentro de grandes estruturas, os bombeiros também devem ser notificados via rádio. Se o sistema de rádio possui tons de alerta, um tom específico e distinguível deve ser usado para a evacuação de emergência. Em qualquer caso, uma mensagem de rádio específica deve também ser transmitida.

Os comandantes devem também treinar o pessoal para reagir de maneira correta a dois tipos de sinais de alerta. Um para que todos os bombeiros interrompam o que estão fazendo imediatamente e evacuem o edifício o mais rápido possível, enquanto o outro para iniciar uma evacuação de emergência seqüencial e controlada.

Às vezes é necessário uma retirada do tipo “largar tudo e correr”, como quando há o risco iminente de desabamento do edifício. Na maioria das vezes, entretanto, uma retirada controlada é preferível, pois permite que os bombeiros que estão controlando o fogo e realizando outras tarefas permaneçam em suas posições até que as equipes em áreas perigosas possam ser retiradas.

Por exemplo, bombeiros posicionados em uma escada interna do edifício e lançando água em um apartamento no segundo andar estão protegendo outros bombeiros que estão realizando buscas no andar de cima. Nesse exemplo, a busca primária já foi feita e o CI deve reavaliar uma análise de risco-benefício. Se a busca primária indicar que não há mais ocupantes no edifício, e que as condições estão se deteriorando, o CI pode determinar que o risco para os bombeiros não é justificável e iniciar uma evacuação controlada. A menos que os bombeiros operando a mangueira no segundo andar estivessem em risco iminente, seria uma boa idéia continuar a controlar o fogo no segundo andar até que os bombeiros de cima tivessem saído do andar incendiado.

Os comandantes de corpos de bombeiros devem treinar seu pessoal sobre como reagir a dois sinais de alerta diferentes. Como no exemplo anterior, um sinal exigiria que todos os bombeiros parassem tudo imediatamente e evacuassem o edifício o mais rápido possível, e outro sinal serviria para iniciar uma evacuação de emergência seqüencial e controlada.

À medida que o edifício é evacuado, um Relatório de Presença de Pessoal (RPP) deve ser completado para garantir que todos saíram em segurança do edifício. Esse é um componente integral de um SCI eficiente, e um SCI bem conduzido é essencial para uma operação de evacuação controlada.

A garantia da segurança dos bombeiros no local do incêndio começa com procedimentos bem planejados e treinamento constante. O desenvolvimento e treinamento de sinais de evacuação de emergência são importantes componentes que não devem ser esquecidos.
Fonte: @ZR, NFPA Journal Latinoamericano- Klaene & Russ Sanders

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terça-feira, maio 03, 2016

Enfermeira aplica insulina em vez de vacina contra gripe

Cinquenta funcionários do Hospital Municipal de Maringá receberam, por engano, doses de insulina na manhã de quinta-feira (28 de abril). Eles deveriam receber vacina contra a gripe, mas a enfermeira responsável pelo procedimento pegou a caixa errada da geladeira onde os medicamentos são mantidos.  
Segundo a prefeitura de Maringá, a insulina e a vacina contra a gripe são mantidas na mesma geladeira. A enfermeira responsável pela vacinação dos funcionários do hospital se confundiu com as embalagens e aplicou a substância errada nos colegas e nela própria. A aplicação das vacinas começou às 9h, e o erro foi constatado por volta das 10h.
Ainda de acordo com a administração municipal, a falha foi identificada pela própria servidora logo após a aplicação. Ela está grávida e também aplicou insulina em si mesma. Conforme a prefeitura, a mulher alegou ter confundido as embalagens, que, para ela, são parecidas.

INTERNAMENTO
Ao constatar o erro, os funcionários que foram “vacinados” com insulina receberam uma injeção de glicose. Para evitar problemas, todos foram internados sob observação durante a quinta‑feira, e foram liberadas no final da noite. Nenhum deles teve complicações em decorrência do erro, segundo a prefeitura.
Segundo a prefeitura, apesar do acidente, o atendimento no hospital não deve ser prejudicado, visto que em média 100 funcionários trabalham por turno.  

INSULINA
A insulina é um hormônio responsável por reduzir a taxa de glicose no sangue, e é usada como medicamento para pessoas que sofrem de diabete. Quando tomada sem necessidade, ela causa hipoglicemia – os sintomas são tontura, dificuldades de fala e até mesmo perda de consciência.

SINDICÂNCIA É ABERTA
O caso será investigado pela comissão de Recursos Humanos da secretaria de Saúde e pelo Conselho Regional de Enfermagem (Corem). Fonte: Gazeta do Povo - 28/04/2016

Comentário:
ERRO: EFEITO DOMINÓ
Para os pesquisadores, muitas são as condições que favorecem os erros no âmbito hospitalar. Há uma interdependência entre os profissionais e cada um acredita que o outro fez sua parte.
O farmacêutico acredita que o médico prescreveu o remédio certo; quem o prepara acredita que o farmacêutico já fez a triagem; a área de enfermagem, que administra a droga, não faz a dupla checagem, pois crê que quem preparou confirmou todos os itens (medicamento correto, dose, hora e paciente). Até que o erro é detectado. A partir daí, surge uma grande pressão para se descobrir o culpado.

Quem é o culpado? Certamente não é um único indivíduo. A falha é de todo um processo. A boa notícia é que já existem várias ferramentas que, se não coíbem por completo, minimizam muito a chance de erro.

Atualmente, alguns hospitais brasileiros, seguindo tendência mundial, têm procurado empresas certificadoras para a avaliação de suas rotinas e seguido modelos em busca de mais segurança.
Para evitar erros de medicação, por exemplo, são usadas várias estratégias. Desde trancar as drogas mais envolvidas em erros em um cofre -só pessoas autorizadas têm a senha- até personalizar o remédio desde a farmácia do hospital, com o nome do paciente, posologia e horários.

No leito, a enfermagem checa todos os dados. Os pacientes usam pulseiras com um código de barras onde as informações são rechecadas.
Evitar a operação de membros errados é outra preocupação. As recomendações internacionais são para que os pacientes já cheguem ao centro cirúrgico com o local da cirurgia demarcado.
O médico checa, o enfermeiro pergunta e o paciente-antes de ser anestesiado-confirma o membro a ser operado. Parece exagero, mas não é. Nos EUA, do total de eventos que acabam em morte ou lesões sérias nos hospitais, 13,1% são cirurgias em local errado.

PROCEDIMENTOS
No Brasil, não existem normas claras que obriguem os hospitais a notificar as falhas ou a investirem na segurança do paciente. Impera a cultura de ocultar problemas para evitar punições.
Outro erro, na avaliação do médico Allen Kachalia, professor-assistente de medicina da Harvard Medical School; “Começar a falar dos nossos erros faz com que outras pessoas aprendam com eles e deixem de cometê-los".
Para impedir que mais Stephanies, Helenas e Verônicas morram por erros evitáveis, seria salutar que mais pessoas o escutassem. Fonte: @ZR, Folha de São Paulo - 12 de dezembro de 2010

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domingo, maio 01, 2016

Chernobyl, trinta anos depois da tragédia

Ucrânia, Bielorrússia e Rússia lembram separadamente o 30º aniversário da tragédia de Chernobyl, a maior de toda a história da exploração civil de energia nuclear. Os três países eslavos envolvidos recordam o acidente de 26 de abril de 1986 cada um a seu modo, conforme suas diferentes referências políticas e econômicas.

CHERNOBYL ESTÁ EM PROCESSO DE ENCERRAMENTO DESDE 2000
Chernobyl está em processo de encerramento de atividades e fechamento desde 2000. Em novembro será instalado o chamado arco, uma construção única em seu gênero, que deverá proteger o sarcófago construído sobre o quarto reator (o que sofreu o acidente) contra qualquer possível vazamento radioativo, segundo afirmou ao semanário Zérkalo Nedelii o diretor da central, Igor Gramotkin. O projeto do arco, destacou ele, custa 2,5 bilhões de euros (cerca de 10 bilhões de reais) e dele participam 28 países, além do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, que é o administrador do fundo de Chernobyl. Gramotkin explicou que o terceiro reator já pode ser considerado uma instalação não nuclear; o segundo e o primeiro blocos também passarão a essa categoria neste ano, quando se concluirá a eliminação de todo o combustível radioativo ainda existente dentro deles.

“Quando a decisão de fechar Chernobyl foi tomada, a Ucrânia não estava preparada para isso, seja do ponto de vista organizacional, seja técnico ou financeiro”, comentou o funcionário.
A região de Chernobyl, segundo explicou, pode ser utilizada para duas diferentes atividades: o tratamento de materiais radioativos ou a construção de instalações para produção de energia alternativa, em especial energia solar. A ideia de se construir uma área verde no local da central é vista como inadequada devido ao alto teor de contaminação existente em torno dela, em um perímetro de dez quilômetros, afirmou.

RÚSSIA E BIELORRÚSSIA
Na Rússia, quinze regiões foram afetadas pela nuvem radioativa de Chernobyl. A radiação continua muito elevada em alguns pontos que o Governo russo excluiu das zonas mais atingidas, segundo afirmou Alla Yaroshinskaya, autora de várias obras sobre Chernobyl. Segundo ela, 554 localidades foram retiradas em 2015 da relação de territórios atingidos, o que significa a perda dos subsídios recebidos por seus habitantes.

A Bielorrússia foi, proporcionalmente, o país mais atingido pelo acidente (23% da área do país, especialmente as regiões de Gómel e Magiliov, onde viviam 2 milhões de pessoas). Cerca de 1,4 milhão de pessoas (12% do total da população) viviam na zona contaminada (dado de 1 de janeiro), segundo a agência russa de notícias Tass.

Apesar disso, a Bielorrússia parece ser o país mais disposto a enterrar o acidente: ela constrói, atualmente, a sua primeira central nuclear com tecnologia russa e planeja reinstituir a produção agrícola em uma região atingida pela tragédia, segundo afirmou em Minsk o ministro das Relações Exteriores, Vladimir Makei. Na sua avaliação, “podemos chorar, sofrer e lamentar, mas é preciso tentar mudar a situação” e escolher entre organizar a ajuda humanitária entre os atingidos e “tentar recuperar esta terra para viver e cultivar produtos aptos para o consumo”.

CHERNOBYL: VIDA NA ZONA INTERDITADA
Após catástrofe de 1986, 115 mil moradores em torno da usina foram evacuados. Apesar de proibições e dificuldades, algumas pessoas voltaram a viver na área atingida. Entre pomar, pesca e religião, não lamentam a decisão.

No centro de Chernobyl está localizada a administração de toda a zona interditada. A cidade, que contava milhares de habitantes até o desastre de 1986, está hoje abandonada. Devido à contaminação radioativa, foram removidos mais de 115 mil moradores, num raio de 30 quilômetros em torno da usina nuclear.
Casas baixas de tijolos com os telhados tombados e janelas quebradas rangendo ao vento lembram cenas de filme de terror. Embora os seres humanos a tenham abandonado 30 anos atrás, a vida continua na localidade: a vegetação cobre as ruas, e os cães vira-latas que vagam parecem quase lobos.

UM POVOADO, 16 MORADORES
Ao todo, 180 pessoas moram atualmente na zona interditada: 80 em Chernobyl e os restantes em quatro aldeias vizinhas. Kupovate, a 47 quilômetros da antiga usina, tem 16 habitantes. No pátio de uma casa torta de madeira, à entrada do povoado, o casal Viktor Tchausov e Maria Sapura amontoa lenha. Antes da catástrofe, ela trabalhava como ordenhadora, ele como operário de construções, tendo participado da construção da cidade de Pripyat, destinada aos funcionários da usina nuclear.
Também Maria e Viktor retornaram secretamente ao local após a evacuação. Ninguém mais vive na rua deles. Quase sempre tem eletricidade, mas água é preciso ir buscar no poço. Uma vez por mês, um carteiro traz o dinheiro da aposentadoria; duas ou três vezes vem o carro do quitandeiro, e eles compram pão e cevada perolada. "Não temos filhos, por isso ninguém nos visita. Vamos sobrevivendo como dá", conta Maria.

Viktor vai fazer 80 anos em breve. Acendendo um cigarro, ele relembra a evacuação. "Nós fomos todos reunidos como gado. Primeiro nos colocaram por três meses nos abrigos, depois em casas." "Mas nós só ganhamos um quarto, com cortinas em vez de portas" prossegue Maria. "Só tinha um sofá. E várias famílias ficavam alojadas em uma casa, as pessoas tinham que dormir no chão. Agora a estamos velhos e temos que trabalhar duro. Mas nós temos pepinos, tomates e batatas."
Os 30 anos passaram depressa, ela se acostumou a tudo e diz não estar mal. "Não dou conta de comer tudo o que eu tenho", brinca, apontando para um armário repleto de conservas de tomate, pepino, maçã, batata e cebola. "É claro que eu escutei que era proibido cultivar qualquer coisa depois do acidente nuclear. Mas fizeram as medições da radioatividade, e me disseram que estava tudo dentro dos limites permitidos."

MORTES, DOENÇAS E HERÓIS
Na época do acidente, mais de meio milhão de civis e militares foram convocados em toda a ex‑União Soviética para limpar e conter a disseminação de material radioativo. Eles eram chamados de "liquidadores" – muitos deles sofreram diversos efeitos causados pela radioatividade, milhares morreram, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Trinta e um trabalhadores da usina e bombeiros morreram em imediata consequência do acidente, principalmente devido a síndrome aguda da radiação.
Ao longo das últimas três décadas, milhares de pessoas têm sucumbido a doenças relacionadas à radiação, como o câncer, embora o número total de mortes e os efeitos de longa data sobre a saúde continuam a ser um assunto de intenso debate.
Um controverso relatório da ONU, publicado em 2005, estimou que "até 4 mil pessoas" poderiam eventualmente morrer em consequência do veneno invisível na Ucrânia e nos países vizinhos Rússia e Belarus.

UNIÃO SOVIÉTICA ACUSOU OCIDENTE DE PROPAGANDA
O desastre e a reação do então governo destacaram as falhas do sistema soviético com seus burocratas irresponsáveis e a enraizada cultura de segredos e sigilo. Cerca de 48 mil habitantes de Prypyat, por exemplo, foram orientados a deixar a cidade somente 36 horas depois do desastre.
O acidente em Chernobyl foi noticiado pela primeira vez na Alemanha, dois dias após a tragédia. A televisão soviética tentou convencer a população local de que tudo estava em ordem em Chernobyl e que as informações do exterior não passavam de propaganda estrangeira.
"Como você pode ver, a enorme destruição sobre a qual os meios de comunicação ocidentais continuam a falar sem parar, não estão lá", dizia um clipe em preto e branco que mostrava áreas da planta nuclear logo após o colapso. "Um elemento essencial das operações em Chernobyl é a absoluta segurança de todos que trabalham lá."
Fonte: @ZR, Deutsche Welle – 26/04/2016, El País – 26/04/2016

Artigos publicados
Chernobyl: O Legado terrível de 23 anos e o balanço
Chernobyl: Os efeitos e seqüelas para o ser humano
Chernobyl:


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