Acidentes, Desastres, Segurança, Meio Ambiente, Riscos, Ciência e Tecnologia
terça-feira, agosto 18, 2026
CÉSIO-137: VEJA CRONOLOGIA DO MAIOR ACIDENTE RADIOLÓGICO
Contaminação que aconteceu em
setembro de 1987 deixou quatro pessoas mortas e mais de mil afetadas. Acidente
marcou a história de Goiânia e do Brasil.
A contaminação do Césio-137, em Goiânia,
marcou para sempre a história da cidade e também do Brasil. O caso foi o maior
acidente radiológico do mundo, deixando quatro pessoas mortas e mais de mil
pessoas afetadas.
Para se ter uma ideia do
perigo representado por aquela substância azul brilhante, o acidente de 1987
foi classificado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) como nível 5
, em uma escala de 1 a 7. Ele só não fez mais vítimas porque houve a atuação de
pessoas da população e de especialistas, como o físico Walter Mendes, que se
deram conta da gravidade da situação.
Mesmo contida a contaminação
e passadas quase quatro décadas desde que aconteceu, o episódio ficou marcado
na memória da sociedade goianiense, ainda que a cidade tenha tentado apagá-la.
Confira abaixo a cronologia
do acidente radioativo, de acordo com o livro "Césio 137", da
Secretaria de Estado de Saúde de Goiás:
13 DE SETEMBRO DE 1987
Wagner Mota Pereira e Roberto
Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado das ruínas do
IGR, no Setor Central, em um terreno que pertencia à Santa Casa de
Misericórdia. O objetivo era vender a peça para um ferro-velho. Por isso, eles
removem o lacre da cápsula, na qual estava a substância até então desconhecida.
18 DE SETEMBRO
Nesse dia, Devair Alves Ferreira,
dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, comprou a
peça e a deixou em seu depósito. À noite, ao passar pelo pátio do local, ele
percebeu que a emissão de um brilho azul. Era o pó de Césio-137. Impressionado,
ele levou a peça para casa. Nos dias seguintes, a substância brilhante foi
distribuída entre amigos e familiares que o visitaram.
28 DE SETEMBRO
Depois de as pessoas que
manipularam a substância começaram a apresentar problemas de saúde, como
coceiras, vômitos e diarreia, a esposa de Devair, Maria Gabriela, pegou a
cápsula e levou, de ônibus, em uma sacola plástica, à Vigilância Sanitária,
também no Setor Aeroporto.
29 De Setembro
Nesse dia, o físico Walter
Mendes Ferreira foi chamado para analisar a substância desconhecida deixada na
Vigilância Sanitária. Com um aparelho de medição de radiações ionizantes, ele
identificou o risco e orientou a evacuação imediata. O acidente foi
oficialmente reconhecido e notificado à Comissão Nacional de Energia Nuclear
(Cnen), que depois comunicou o caso à Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA).
30 DE SETEMBRO
Técnicos da Cnen chegaram a
Goiânia e, com o auxílio de medidores de radiação, mapearam outros locais contaminados
na cidade. Entre eles estava o físico José de Júlio Rozental, que ficou
responsável por coordenar as ações de controle e na mitigação das consequências
do acidente.
OUTUBRO DE 1987
Ao longo de todo o mês de
outubro, o Estádio Olímpico, atual Centro de Excelência do Esporte, foi palco
de um gigantesco esquema de triagem e monitoramento, pelo qual passaram 112.800
pessoas. Dessas, 249 foram identificadas com contaminação, em menor ou maior
nível. No final, 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
23 DE OUTUBRO
Morrem Leide das Neves
Ferreira, de 6 anos, e Maria Gabriela Ferreira, sobrinha e esposa de Devair, o
dono do ferro-velho. Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, foi visitá-lo no dia 24
de setembro e levou fragmentos de césio para a casa da família. A filha pequena
foi a mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. Já Maria
Gabriela foi a responsável por evitar que a tragédia fosse ainda maior por ter
desconfiado de que havia algo errado com a substância.
25 DE OUTUBRO
Os rejeitos do Césio 137
chegam ao então distrito de Abadia de Goiás, a pouco mais de 20 km da capital,
e são armazenados em um depósito provisório, embaixo de um piso de concreto a
céu aberto.
27 DE OUTUBRO
Morre a terceira vítima do
acidente, Israel Batista dos Santos, de 20 anos, funcionário de Devair. Ele
trabalhou na remoção do chumbo da fonte.
28 DE OUTUBRO
Admilson Alves de Souza se
torna a quarta vítima fatal. Ele também era um funcionário do ferro-velho, que
manipulou a fonte radioativa. Ele perdeu a vida com apenas 18 anos. Ele e as
outras três vítimas foram enterradas em caixões revestidos de chumbo.
30 DE SETEMBRO A 21 DE
DEZEMBRO
Durante todo esse período,
foi feito o processo de descontaminação de Goiânia, que envolveu 40 técnicos da
Cnen, que trabalhavam em um revezamento de dez técnicos por semana. No total,
sete casas foram demolidas e 41 evacuadas, por focos terem sido identificados.
10 DE MARÇO DE 1988
Em uma audiência no Congresso
Nacional à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, o presidente da
Cnen, Rex Nazaré Alves, apresenta o "Relatório do Acidente Radiológico de
Goiânia”. O fato é considerado o marco da conclusão da descontaminação da
capital.
1989
Fica decidido que o
repositório construído em Abadia de Goiás seria o local definitivo dos rejeitos
radioativos. E no dia 1º de junho daquele ano, foi criado o Centro Regional de
Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) para representar regionalmente a
Cenen. Somente em 1991 começou a construção do depósito definitivo que
abrigaria os rejeitos e do complexo administrativo que sediaria o CRCN-CO.
5 DE JUNHO DE 1997
Quase uma década após o
acidente radiológico, foi inaugurado o Depósito de Rejeitos Radioativos de
Abadia de Goiás. O espaço abriga dois depósitos: um com 40% do total de
rejeitos, considerada a parcela menos radioativa, e outro nos quais foram
abrigados 60% dos rejeitos, considerados efetivamente radioativos. Nesse
segundo local estão os restos da fonte principal que originou o acidente de
Goiânia. Fonte: g1 Goiás-05/04/2026
10 ANOS: O DIA EM QUE O JAPÃO FOI ATINGIDO POR TERREMOTO
Em 2004, o mundo enfrentou
uma tragédia dupla de proporções monumentais. Um poderoso terremoto no Oceano
Índico foi seguido de um tsunami destruidor, que deixou mais de 260 mil mortos
em 14 países.
Sete anos depois, um
acontecimento semelhante teria não apenas dois, mas três atos. Um desastre
triplo castigou o Japão, quando um terremoto tão intenso quanto o do Oceano
Índico, mas desta vez no Pacífico, provocou um tsunami também devastador,
contra o qual as sólidas defesas japonesas não tiveram chance.
A fúria do mar, por sua vez,
provocou um acidente nuclear na usina de Fukushima, 260 quilômetros ao norte de
Tóquio. Mais de 18 mil pessoas foram mortas pelo tsunami, e o acidente em
Fukushima forçou a retirada de 160 mil pessoas que moravam nas imediações.
Foi a maior catástrofe
enfrentada pelo Japão desde as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e
Nagasaki, em 1945.
O GRANDE TERREMOTO
O dia 11 de março de 2011,
uma sexta-feira, dificilmente será esquecido pelos japoneses. Às 14h46, horário
local, num ponto do Oceano Pacífico a 130 quilômetros ao leste da cidade de
Sendai, um terremoto não apenas sacudiu como também deslocou o Japão. Com 9
graus de magnitude, o "Grande Terremoto do Leste do Japão" — também
conhecido como "Grande Terremoto de Sendai" ou apenas "Terremoto
de Tohoku" —, o maior já registrado no país, empurrou em 2,4 metros para
leste a ilha de Honshu, a maior do Japão.
No ponto exato do abalo
sísmico, 24,4 quilômetros abaixo do fundo do mar, o atrito entre as placas
tectônicas da Eurásia e do Pacífico causou a maior movimentação de terra já
registrada num terremoto, de 50 metros — no abalo de 2004, no Índico, ela foi
de 25 metros. Essa movimentação forçou o mar para cima, causando o tsunami —
uma série de ondas gigantes. Acostumado a grandes tremores seguidos de
destruição em larga escala, — como em Tóquio, em 1923, e em Kobe, em 1995 —, o
Japão começava a enfrentar uma sucessão de eventos inédita em sua história.
O terremoto em si já era
excepcional mesmo para padrões japoneses. A área do país mais atingida foi a
região de Tohoku. Em sua capital, Sendai, as pessoas que estavam nas ruas
rapidamente perceberam que não havia para onde fugir. Imagens registradas em
vídeo mostraram muitos tentando escapar de pedaços de edifícios que caíam sobre
a calçada e trabalhadores apavorados em escritórios, onde objetos e móveis eram
lançados ao chão. A longa duração do tremor — cerca de seis minutos — tornou o
momento ainda mais assustador. "Oh, meu Deus, o prédio vai cair!",
diz um homem, em inglês, em um dos momentos de maior vibração do local onde
estava.
O Japão é considerado o país
mais bem preparado do mundo contra terremotos. Depois da tragédia de 1923, que
matou 140 mil pessoas, os edifícios japoneses passaram a ser construídos para
absorver a energia de um abalo sísmico e, assim, são capazes de manter-se de
pé. O processo, chamado de "isolamento sísmico", envolve a presença
de proteções na base das construções, como blocos de borracha, e amortecedores
na estrutura dos edifícios.
Os avanços em tecnologia,
porém, não protegem as cidades japonesas de qualquer dano — e, no caso do
terremoto de Tohoku, eles foram muitos e de grande alcance. Houve destruição na
capital, Tóquio, a 373 quilômetros do epicentro, onde o abalo sacudiu o
Parlamento nacional. A leste de Tóquio, na cidade de Ichihara, o abalo fez com
que uma refinaria pegasse fogo e explodisse. Nada disso, porém, seria comparado
ao que estava prestes a atingir a costa leste do país.
O TSUNAMI
O Japão já conhecia muito bem
os tsunamis — a palavra é japonesa, formada pela união de "tsu", que
significa "porto", e "nami", que significa
"onda". O Serviço Nacional Oceânico dos Estados Unidos define o
fenômeno tsunami como "uma série de ondas gigantes causadas por terremotos
ou erupções vulcânicas sob o mar".
E o órgão acrescenta: "No
meio do oceano, ondas de tsunami não aumentam enormemente em altura. Mas,
conforme as ondas atingem a costa, elas vão adquirindo mais e mais altura com a
diminuição da profundidade do mar".
O Japão já contava com um
desenvolvido sistema de alerta e uma ampla estrutura de proteção. Às 14h49,
três minutos depois do terremoto, um primeiro aviso de tsunami foi disparado.
Essa notificação, entretanto, subestimou o tamanho do problema. A magnitude do
terremoto foi inicialmente estimada em apenas 7,9, e acreditava-se que as ondas
que pudessem chegar à costa teriam alturas entre 3 e 6 metros.
Na verdade, como se veria
pouco depois, as ondas chegaram a 10 metros de altura, em alguns pontos até 15,
e o abalo havia sido muito mais intenso, de 9 graus de magnitude. Essas falhas
no aviso ficariam claras durante uma investigação sobre a tragédia. Um relatório
da Agência Meteorológica do Japão, produzido em outubro de 2013, disse que os
erros do alerta inicial podem ter contribuído para o alto número de vítimas.
"Isso pode ter levado
algumas pessoas a pensar que as ondas do tsunami não ultrapassariam as muralhas
de proteção e possivelmente contribuiu para demoras na evacuação." Um
segundo alerta chegou a ser divulgado, às 15h10, aumentando a previsão do
tamanho das ondas para até 10 metros. Nesse momento, porém, o tsunami já estava
perto demais.
Meia-hora depois do
terremoto, as ondas chegaram à costa de Tohoku e outras regiões do leste do
Japão. Do alto de prédios muitos japoneses viam, impotentes, o momento em que
as primeiras ondas venciam os muros de proteção como se estes não existissem.
Paredes de água invadiram as cidades do litoral, carregando e destruindo
barcos, carros e casas, que de longe pareciam de brinquedo.
O porto e o aeroporto de
Sendai foram totalmente tomados pelas águas — embarcações, aeronaves,
helicópteros, caminhões, vans e outros automóveis eram facilmente arrastados
pelas ondas. Muitos momentos foram registrados por câmeras japonesas, em
imagens que impressionaram o mundo. Cerca de 250 quilômetros ao norte de
Sendai, o tsunami chegava à cidade de Miyako, onde a destruição foi igualmente
espantosa. A montanha de água negra do mar logo venceu as barreiras de 5 metros
de altura, arrastando com ela carros, barcos, casas e os postes de eletricidade.
No dia seguinte, 12 de março,
as equipes de resgate esforçavam-se para encontrar sobreviventes e retirar pessoas
de regiões alagadas. Segundo balanço da BBC News, cerca de um terço da cidade
de Kesennuma, em Miyagi, de 74 mil habitantes, estava submersa, e havia vários
focos de incêndio. Na província de Iwate, a cidade de Rikuzentakata, de 23 mil
habitantes, havia sido totalmente tomada pelas águas — e mais de 300 corpos já
haviam sido encontrados.
Os serviços de monitoramento
de abalos sísmicos haviam registrado 125 tremores secundários, decorrentes do
grande terremoto — um deles de 6,8 de magnitude. O total de construções
destruídas, completa ou parcialmente, chegava a 3,4 mil. Cinco milhões e meio
de moradias estavam sem eletricidade, e mais 200 mil pessoas estavam em abrigos
provisórios, entre muitos outros aspectos da tragédia.
O terremoto seguido de
tsunami deixou um total de 15.853 mortos e 3.282 desaparecidos, a maioria
devido ao avanço do mar. A região com mais vítimas fatais foi a de Miyagi.
Um ano depois do desastre,
330 mil pessoas ainda viviam em algum tipo de acomodação temporária. Mais de
300 mil prédios foram destruídos, e outros 1 milhão, danificados - pelo
tsunami, por incêndios ou pelo terremoto -, além de 4 mil estradas, 78 pontes e
29 linhas férreas.
A devastação gerou
impressionantes 25 milhões de toneladas de detritos. Parte deles foi levada
pelo oceano e acabou nos litorais do Canadá e dos Estados Unidos. Entre elas,
uma motocicleta Harley-Davidson, uma bola de futebol e pequenos barcos. O custo
financeiro do desastre chegou a cerca de US$ 200 bilhões.
O ACIDENTE NUCLEAR
As terríveis imagens que
chegavam do Japão geraram solidariedade internacional, com líderes do mundo
todo expressando apoio e anunciando ajuda aos japoneses. Depois do terremoto e
do tsunami, a tragédia ainda teria, porém, um terceiro capítulo.
Já no dia 11, pouco depois do
tsunami, surgiram as primeiras preocupações com duas usinas nucleares no leste
do país, próximas ao epicentro do terremoto: Onagawa, na província de Miyagi, e
Fukushima Daiishi, na província de Fukushima. Em Onagawa, a usina mais próxima
do epicentro do terremoto, um incêndio começou no salão de turbinas, uma área
separada do reator, mas foi rapidamente apagado. Em Fukushima, a situação seria
bem mais grave.
A localização da usina de
Onagawa, protegida por um muro de 14 metros de altura e construída numa parte
mais alta do terreno, garantiu que o prédio não sofresse grandes danos com o
tsunami.
A estrutura que protegia
Fukushima, por outro lado, mostrou-se precária. A usina de Fukushima tinha
quatro reatores, dos quais três — as unidades 1 a 3 — estavam operando naquele
dia. Com o terremoto, as três unidades se desligaram automaticamente, como previam
seus sistemas de segurança. O abalo danificou as seis linhas de transmissão de
energia que alimentavam a usina, o que ativou o funcionamento de seus geradores
a diesel para movimentar as bombas responsáveis pelo resfriamento dos reatores.
Às 15h42 do dia 11, no
entanto, a usina foi castigada por uma primeira grande onda do tsunami — uma
segunda viria oito minutos depois. As ondas chegaram a 15 metros de altura, mas
Fukushima não estava preparada para tanto. Erguida a 10 metros acima do nível
do mar, a usina era cercada por uma muralha de proteção de apenas pouco mais de
5 metros. As águas alagaram imediatamente o subsolo do prédio, exatamente onde
estavam os geradores. Toda a base da usina ficou alagada, situação que deu
início ao maior desastre nuclear desde a explosão em Chernobyl, na Ucrânica, em
1985 — no mesmo país que sofreu dois bombardeios atômicos na Segunda Guerra
Mundial.
Com o alagamento do subsolo,
os geradores deixaram de funcionar — outros equipamentos importantes para a
operação, como bombas e baterias, também ficaram inoperantes. Sem energia e com
equipamentos danificados, o processo de resfriamento dos três reatores parou. O
acesso à usina também estava prejudicado, devido aos danos causados pelo
tsunami e pelo terremoto nas estradas.
Na noite do dia 11, foram
anunciados um estado de emergência nuclear e a evacuação de moradores num raio
de 2 quilômetros da usina. A área foi logo estendida para 3, depois 10
quilômetros, e no dia seguinte a evacuação atingiu a 20 quilômetros.
VAZAMENTO
O quadro se agravou no dia
12, como noticiou a BBC News: "Uma poderosa explosão atingiu uma usina
nuclear no nordeste do Japão que havia sido seriamente danificada no terremoto
e tsunami de sexta-feira". A explosão ocorreu durante tentativas das
equipes de emergência de retomar o resfriamento dos reatores e ventilar o
compartimento de contenção.
Como explicou em relatório a
Associação Nuclear Mundial, que representa o setor de energia nuclear: "Às
15h36 do sábado, dia 12, houve uma explosão de hidrogênio no andar de serviço
do prédio sobre a contenção do reator unidade 1, destruindo o teto e a
cobertura no topo do prédio". Ao longo dos dias seguintes ao tsunami,
vapor radioativo acabou liberado na atmosfera, tanto por vazamento como em
tentativas de reduzir a pressão interna nos reatores. Também houve vazamento de
água radioativa no Pacífico.
Nos primeiros três dias do
acidente, os núcleos dos reatores de Fukushima derreteram, e o vazamento de
radiação continuou por seis dias. O trabalho das equipes técnicas visava
basicamente tentar esfriar os reatores 1, 2 e 3, utilizando água, e interromper
o vazamento de material radioativo. Demorou duas semanas até que os reatores
fossem considerados estáveis novamente. Não houve mortes decorrentes do
acidente - em 2018, porém, o governo japonês confirmaria uma primeira morte de
um trabalhador de Fukushima, de câncer decorrente da exposição à radiação.
A usina de Fukushima ficou
inutilizada. Com o passar dos anos, cerca de 1 milhão de toneladas de água
contaminada foram acumuladas em seu interior — água da chuva e vinda do solo
que era contaminada ao entrar em contato com a água usada no resfriamento dos
reatores. Em outubro de 2020, nove anos depois do acidente, o governo japonês
preparava-se para decidir o que fazer com esse material. A opção mais provável
era lançá-lo no Oceano Pacífico, a partir de 2022, medida criticada por
ambientalistas e entidades do setor de pesca.
O acidente nuclear levou à evacuação
de 160 mil pessoas da região, com a área afetada estendida de 20 para 30
quilômetros no final de março de 2011. Grande parte foi autorizada a voltar,
com a redução do risco, mas as áreas mais próximas à usina de Fukushima
continuaram interditadas. Duas pequenas cidades, Okuma e Futaba, de 11 mil e 7
mil habitantes, respectivamente, continuaram fechadas durante anos.
Em 2019, as autoridades
permitiram o retorno dos moradores a 40% de Okuma, considerada segura depois de
anos de descontaminação. Muitas pessoas, no entanto, ainda questionavam a
segurança e não se sentiam confortáveis para voltar. Em março de 2020, Futaba
foi reaberta, mas ainda apenas para a entrada de trabalhadores envolvidos em
sua reconstrução. O retorno permanente de moradores só estava previsto para
2022.
Depois do acidente, o Japão
iniciou detalhadas inspeções de segurança em todos os seus cerca de 50 reatores
nucleares. Devido às inspeções, em maio de 2012 todas as usinas do país foram
fechadas, sendo reabertas aos poucos a partir de 2015. Entre elas, a usina de
Onagawa, fechada desde 2011 e cujo funcionamento estava previsto para ser
retomado no final de 2020. A pressão para que o país reduzisse sua produção de
energia nuclear aumentou, e o Japão pretendia diminuir a participação dessa
fonte, de 30%, na época do acidente em Fukushima, para previstos 20% em 2030.
JAPÃO MAIS PREPARADO
Os efeitos do Grande
Terremoto do Leste do Japão duraram muito mais do que se imaginava.
Em novembro de 2016, um
tremor de 7,4 graus de magnitude atingiu as regiões de Fukushima e Miyagi.
Segundo técnicos, não se tratava de um novo terremoto, mas sim de um abalo
secundário ainda decorrente do grande tremor de 2011. O evento, que não causou
danos significativos, foi mais uma lembrança da dimensão do desastre de cinco
anos antes — e da necessidade de o país se preparar melhor para futuras
tragédias.
A partir de 2011, as defesas
japonesas contra tsunamis, ao longo do litoral leste do país, foram ampliadas.
Em vez de 5 metros de altura, os muros para conter futuras ondas gigantes
passaram a ter cerca de 13 metros. A geografia da cidade de Rikuzentakata, uma
das mais atingidas pelo tsunami, foi reformulada, como parte de sua
reconstrução. O centro da cidade, completamente destruído pelo mar, foi refeito
sobre um imenso aterro que cobriu a antiga estrutura. A área, com isso, foi
elevada em 10 metros, tornando-a muito mais segura, mais protegida do alcance
de possíveis ondas gigantes.
Além de tsunamis, o Japão
segue se preparando para uma outra grande tragédia: um novo terremoto, possivelmente
em sua capital, Tóquio -—uma região metropolitana com 37 milhões de habitantes.
O último grande tremor a
castigar a cidade, em 1923, está prestes a completar cem anos, e especialistas
avaliam que um desastre semelhante deva ocorrer cerca de um século depois. As
chances de um novo terremoto atingir a cidade antes de 2050 são avaliadas em
cerca de 70%. Enquanto seus prédios estão preparados para resistir a um forte
tremor, um terremoto em Tóquio seria um desafio enorme para os serviços de
socorro e resgate, seu sistema de transporte e para a população. Por isso a
cidade testa regularmente sua estrutura de comunicação, que envolve centenas de
alto-falantes espalhados em espaços públicos.
A certeza de que o Japão
continuará a ser alvo de tremores de terra, alguns graves, faz com que a
população no país esteja sempre a postos para uma emergência.
Os inúmeros desastres
naturais da história japonesa ficam sempre na memória de todos no país -
especialmente o tsunami de 2011. Cada terremoto representa um novo teste de
sobrevivência. Com sua tecnologia, sua arquitetura e a resistência de sua
população, o Japão está em constante aprendizado, até porque não tem escolha.
Seu permanente e eterno embate com a natureza é uma realidade da qual o país
não pode fugir. Fonte: BBC Brasil - 10 março 2021, autor: Rogério Simões
CAMARÕES RADIOATIVOS: EUA DETECTAM CÉSIO EM PRODUTO IMPORTADO DA INDONÉSIA
O governo
indonésio reforçou os controles em uma zona industrial na ilha de Java, onde
uma fonte de contaminação radioativa foi recentemente detectada, afetando um
carregamento de camarões exportados para os Estados Unidos, informou o porta-voz.
A administração de saúde dos
EUA anunciou em agosto que havia recolhido pacotes de camarão congelado
importados da Indonésia após descobrir que estavam contaminados com o isótopo
radioativo césio 137.
Após o início de uma
investigação, descobriu-se que a fonte de contaminação estava em uma área
industrial em Cikande, 60 km a oeste de Jacarta.
Pelo menos 22 instalações
naquela área estão contaminadas, disse Bara Hasibuan, porta-voz da célula de
crise criada pelo governo.
"Estamos reforçando as
restrições de circulação na área e continuamos as buscas para inspecionar a
instalação onde a contaminação pode ter ocorrido", explicou.
Funcionários da área e
moradores próximos foram examinados por médicos e nove pessoas testaram
positivo para césio 137, de acordo com Bara Hasibuan.
O porta-voz afirmou que o
governo indonésio imporá restrições à importação de sucata suspeita de ter
causado a contaminação. Fonte: UOL - 08/10/2025
WINDSCALE: O POUCO CONHECIDO ACIDENTE NUCLEAR NA INGLATERRA
Com Chernobyl, Fukushima e
Three Mile Island, trata-se de um dos piores desastres nucleares da história,
embora você talvez nunca tenha ouvido falar dele.
O incêndio que atingiu a
usina nuclear de Windscale (hoje conhecida como Sellafield), no noroeste da
Inglaterra, em 10 de outubro de 1957, continua sendo o pior acidente nuclear já
ocorrido no Reino Unido, um desastre cujo impacto o governo da época tentou
minimizar.
Durante anos, no entanto,
acreditou-se que o vazamento radioativo poderia ter sido responsável por 240
casos de câncer, algo que estudos subsequentes agora questionam.
Mas o número e as
consequências desse acidente poderiam ter sido muito maiores, e o norte da
Inglaterra poderia ter se tornado um deserto nuclear se não fosse pela
"loucura" de um ganhador do Prêmio Nobel.
Apesar disso, o incêndio de
Windscale foi classificado como nível 5 (em uma escala de 1 a 7) na Escala Internacional
de Eventos Nucleares, determinada pela Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA).
Em 10 de outubro de 1957, um
incêndio descontrolado devastou, durante três dias, um dos reatores da usina
nuclear de Windscale, construída no auge da corrida armamentista nuclear.
A construção havia sido
planejada dez anos antes, durante a Guerra Fria e em consonância com a política
do governo britânico de fabricar armas atômicas de forma independente no Reino
Unido na década de 1940.
A Windscale foi projetada
para fabricar plutônio para armas e consistia em dois reatores, também
conhecidos como "pilhas" ou torres.
O processo foi
surpreendentemente rápido. Do início da construção em 1947 até o Reino Unido
conseguir realizar seu primeiro teste nuclear, conhecido como "Operação
Furacão", em 3 de outubro de 1952, na Austrália, usando plutônio da
Windscale, apenas cinco anos se passaram.
Essa velocidade teve suas
consequências, alertam os especialistas, e a mais grave delas foi o acidente de
1957.
COMO O INCÊNDIO COMEÇOU
Os eventos que levaram ao
acidente ocorreram dois dias antes, em 8 de outubro, durante uma liberação
rotineira de energia armazenada no moderador de grafite, resultante da operação
normal do Reator 1, de acordo com o relatório preparado na época pela Comissão
de Inquérito nomeada pela Autoridade Britânica de Energia Atômica.
A comissão concluiu que o
acidente foi causado pelo superaquecimento dos elementos combustíveis de
urânio, cujo revestimento posteriormente falhou, expondo o urânio e permitindo
sua oxidação.
As temperaturas nos canais
afetados continuaram a subir, causando a combustão do grafite.
A quantidade exata de
radioatividade liberada durante o acidente é desconhecida.
As chamas atingiram 1.300 °C,
então os trabalhadores tiveram que lutar arduamente para evitar que toda a
instalação explodisse.
Trabalhadores em trajes de
proteção contra radiação chegaram a usar tubos de andaimes para tentar empurrar
as barras de combustível em chamas para fora do reator de grafite e para dentro
da piscina de resfriamento. Mas isso se mostrou impossível, e os tubos
emergiram incandescentes e até pingando metal derretido.
Devido aos altos níveis de
radiação, eles só conseguiram permanecer no reator por algumas horas e tiveram
que sair para encontrar mais voluntários, chegando a recrutar pessoas em um
cinema próximo.
A água não conseguiu
extinguir as chamas, e o fogo só foi extinto quando os trabalhadores desligaram
o ar da sala do reator.
O incêndio durou três dias,
durante os quais quantidades significativas de material radioativo,
principalmente iodo-131, foram liberadas, espalhando-se pelo Reino Unido e pela
Europa.
No entanto, estima-se que o
nível de material radioativo que escapou foi um milésimo do que no caso de
Chernobyl, a usina nuclear ucraniana cujo reator explodiu em 26 de abril de
1986, no pior acidente nuclear da história.
Os reatores de Windscale
foram desligados e selados até o final da década de 1980, quando a
descontaminação do local começou.
AS CONSEQUÊNCIAS
Durante décadas, estimou-se
que o vazamento radioativo havia causado cerca de 240 casos de câncer,
incluindo câncer de tireoide, leucemia e outros.
No entanto, estudos mais
recentes, como o publicado pela Universidade de Newcastle em 2017, questionam
isso.
De acordo com suas
conclusões, o incêndio no reator nuclear de Windscale liberou iodo-131, o que
aumentou o risco de câncer de tireoide no noroeste da Inglaterra, especialmente
entre as crianças expostas.
No entanto, o estudo, que
analisou a incidência de câncer de tireoide nas regiões de Cumbria e
Lancashire, mais próximas ao acidente, não encontrou evidências consistentes de
que a exposição ao iodo-131 tenha causado um aumento significativo nos casos de
câncer nessas áreas. A quantidade exata de radioatividade liberada no acidente
é desconhecida.
As autoridades realizaram um
amplo monitoramento ambiental após o incidente, e estimativas foram feitas a
partir de medições de iodo radioativo depositado no solo e em filtros de ar no
Reino Unido e na Europa continental.
Como medida de precaução,
todo o leite produzido em um raio de 800 km² foi destruído por um mês, e sua
distribuição foi proibida ao longo de uma faixa costeira em Cumbria devido à
presença de iodo-131, o principal risco radiológico.
Embora não houvesse limites
estabelecidos para a quantidade de iodo-131 no leite na época, um limite de 0,1
µCi/L foi estabelecido para proteger as crianças, particularmente contra danos
à tireoide.
A decisão de proibir o leite,
com base nesses cálculos, foi "corajosa e sábia", pois evitou uma
dose coletiva maior entre a população local, de acordo com o físico britânico
Richard Wakeford em um artigo de 2007 no Journal of Radiological Protection.
"O acidente dificilmente
pode ser considerado trivial: é classificado como um acidente de nível 5 na
Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES, na sigla em inglês) e poderia
ter sido muito pior", segundo Wakeford.
O incêndio de Windscale teve
profundas repercussões políticas, e a Autoridade de Energia Atômica do Reino
Unido nunca mais seria a mesma, de acordo com o professor da Universidade de
Manchester.
O governo britânico abriu um
inquérito sobre o ocorrido em Windscale, presidido pelo matemático William
Penney.
O Comitê Penney apresentou
seu relatório ao governo em 26 de outubro, logo após o acidente.
O primeiro-ministro da época,
Harold Macmillan, cujo governo estava imerso em delicadas negociações para
restaurar a cooperação com os Estados Unidos em armas nucleares, decidiu, no
entanto, que apenas um resumo do Relatório Penney seria publicado.
O relatório completo só foi
tornado público 30 anos depois.
O acidente foi esquecido por
muitos, até mesmo no Reino Unido, embora um novo videogame inspirado no
desastre de Windscale, Atomfall, tenha reavivado o interesse por este episódio
sombrio da história nuclear britânica.
A 'LOUCURA' DE VENCEDOR DO
PRÊMIO NOBEL
Certamente, as consequências
poderiam ter sido muito mais graves se não fosse a persistência do físico
nuclear britânico John Cockcroft, que havia recebido o Prêmio Nobel de Física
alguns anos antes, em 1951, com Ernest Walton, por conseguirem pela primeira
vez a desintegração de um núcleo atômico.
Cockcroft, então diretor do
Atomic Energy Research Establishment, um think tank do governo britânico,
insistiu na instalação de filtros nas chaminés da Windscale, ressaltando que
seriam a única proteção contra vazamentos radioativos em caso de incêndio.
Os construtores da usina
acreditavam que era uma medida exagerada e um desperdício de tempo e dinheiro,
mas, por insistência do famoso físico, acabaram adicionando-os de última hora.
"Ele percebeu que, se
ocorresse um incêndio, o que era provável, não haveria como impedir que a
poeira radioativa escapasse para a atmosfera", disse seu filho,
Christopher Cockcroft, em uma entrevista à BBC em 2014, quando foi anunciado
que as torres da usina nuclear seriam desmontadas.
Como a construção já estava
bem adiantada, os filtros foram colocados de última hora no topo das chaminés
de 110 metros de altura, em vez de na base, dando à usina seu perfil
característico.
Os engenheiros acharam que o
ganhador do Prêmio Nobel estava se intrometendo, segundo Wakeford, e começaram
a chamar as torres de "Cockcroft Follies", ou as loucuras de
Cockcroft.
No entanto, como argumentou
Terence Price, um dos físicos que trabalharam com Cockcroft, "a palavra
loucura não parecia apropriada após o acidente".
"Eles não achavam que
haveria problemas e, mesmo depois que os filtros foram instalados, acho que
ninguém pensou seriamente que haveria um incêndio, mas é claro que houve",
disse Wakeford. Os filtros foram fundamentais para evitar um desastre maior.
"A poeira radioativa
escapou, mas os filtros capturaram cerca de 95% dela", disse Christopher
Cockcroft à BBC.
"Se os filtros não
estivessem instalados, acredito que uma parte considerável do Distrito dos
Lagos e da Cúmbria estaria proibida, pelo menos para uso agrícola e talvez para
pessoas." Fonte: BBC News Mundo - 11
outubro 2025
Animais da Baviera foram
afetados pelo desastre nuclear de Chernobyl em 1986. Desde então, várias
espécies se recuperaram. Mas níveis de radioatividade permaneceram elevados em
javalis. Cientistas explicam o porquê.
O acidente nuclear de
Chernobyl, em 1986, na antiga União Soviética, teve um grande impacto negativo
na fauna e na flora da Europa Central. Nos anos seguintes ao desastre, o
consumo de cogumelos e de carne de animais silvestres foi desencorajado devido
à contaminação radioativa, especialmente no sul da Alemanha.
Nos últimos anos, a
contaminação em veados e corças selvagens diminuiu. Mas a radiação em javalis
permaneceu elevada, em contraste com outros animais. Isso ficou conhecido como o
"paradoxo do javali". Agora, um grupo de pesquisadores acredita ter
encontrado a razão da persistência dessa contaminação. Os resultados foram
divulgados nesta quarta-feira (30/08) na revista Environmental Science &
Technology.
Os pesquisadores estudaram
especificamente 48 javalis (Sus scrofa) abatidos no estado alemão da Baviera
entre 2019 e 2021, a cerca de 1.300 quilômetros de distância da antiga usina de
Chernobyl. Eles encontraram uma exposição desproporcional ao isótopo radioativo
césio-137 entre 370 e 15.000 becqueréis por quilograma, ou 25 vezes mais do que
o limite legal de 600 becqueréis permitido pela União Europeia (UE). E nem toda
essa contaminação tem origem no acidente de Chernobyl.
CHERNOBYL NÃO É A ÚNICA CAUSA
Estudos anteriores calcularam
que cerca de 10% do césio radioativo presente nos javalis da Baviera remontava
a testes de armas nucleares na década de 1950 e 1960. Os outros 90% seriam
resultado do desastre de Chernobyl.
No entanto, a nova análise
revelou que a maior quantidade de césio-137 detectada nos javalis estudados foi
liberada durante os testes de armas nucleares que antecederam a catástrofe de
Chernobyl. Especificamente, até 68% do césio presente nos javalis veio de
antigos testes de armas nucleares - uma proporção surpreendentemente elevada.
"Mesmo que Chernobyl não
tivesse acontecido, algumas amostras excederiam o limite", explica o
cientista Georg Steinhauser, radioecologista da Universidade Técnica de Viena e
coautor do estudo.
Até hoje, mesmo 60 anos
depois do auge, as consequências ambientais e para a saúde dos testes de armas
nucleares têm sido pouco estudadas.
UM TIPO DE TRUFA PODE ESTAR
POR TRÁS DA CONTAMINAÇÃO
O cientista sugere que um
tipo de cogumelo, conhecido como trufa de veado (da família Elaphomyces) pode ser
o responsável por essa radioatividade "tardia" nos javalis. Como o
césio é absorvido lentamente pelo solo, pode levar bastante tempo até que
chegue aos fungos locais, que depois são consumidos pelos javalis, que têm uma
preferência alimentar por cogumelos e trufas.
"Isso explica por que o
césio 'velho' é encontrado desproporcionalmente em javalis", aponta
Steinhauser.
"As trufas de veado, que
podem ser encontradas a profundidades de 20 a 40 centímetros, só agora estão
absorvendo o césio liberado em Chernobyl. O césio dos antigos testes de armas
nucleares, por outro lado, já chegou lá há algum tempo."
Assim, também não se espera
que a contaminação da carne de javali diminua significativamente nos próximos
anos, porque só agora parte do césio de Chernobyl está sendo incorporado nas
trufas.
"O nosso trabalho mostra
quão complicadas podem ser as interrelações nos ecossistemas naturais",
diz Steinhauser. "Mas também mostra precisamente que as respostas a tais
enigmas podem ser encontradas se as medições forem suficientemente
precisas."
O LEGADO DOS TESTES NUCLEARES
Os Estados Unidos e a União
Soviética realizaram mais de 900 testes nucleares nas décadas de 1950 e 1960,
durante a Guerra Fria - destes, mais de 400 foram feitos na superfície,
liberando radiação na atmosfera.
O césio-137 tem meia-vida
física (tempo necessário para que metade dos átomos presentes em uma amostra
radioativa desintegre-se) de cerca de 30 anos, o que significa que 25% da
radioatividade liberada pelos testes ainda permanece. Enquanto isso, o material
liberado pela usina de Chernobyl ainda apresenta cerca de 42%.
MEDIÇÃO DA RADIOATIVIDADE
ANTES DO CONSUMO
O Departamento Federal de
Proteção Radiológica da Alemanha (BfS, na sigla em alemão) aponta que muitos
cogumelos, especialmente na Baviera, ainda estão contaminados com césio
radioativo.
Em certos cogumelos, foram
medidos mais de 4.000 becqueréis de césio-137 por quilograma de massa durante
testes dos anos de 2019 a 2021. No entanto, a origem do material radioativo não
foi investigada nesses testes.
Segundo o Centro Alemão de
Pesquisa do Câncer (DKFZ, na sigla em alemão), o césio-137 pode se acumular no
tecido ósseo e danificar o material genético. A longo prazo, isso pode provocar
câncer nos ossos e leucemia. Portanto, tanto os caçadores quanto os coletores
de cogumelos devem medir os níveis de radiação antes de consumirem fungos e
carne de animais silvestres.
A carne de javali, por muito
tempo, foi considerada uma iguaria na região. Mas, nas últimas décadas, o consumo
vem diminuindo, destaca Steinhauser.
Segundo ele, isso também traz
impactos ecológicos: sem um grande consumo, a caça a javalis pode diminuir,
aumentando a possibilidade de que as populações desse animal cresçam de forma
incontrolável, ameaçando as florestas da Baviera, uma vez que muitos javalis podem
causar danos à vegetação e às fazendas próximas. DW - 01/09/2023
Entendendo um pouco sobre as doses de radiação e a sua unidade de medida Sievert
Sievert é uma
unidade usada para medir o impacto da radiação sob o corpo humano. O
prefixo micro está relacionado a uma parte de um milhão
(1/1.000.000). A relação entre μSv por
hora e μSv é semelhante à velocidade ou à distância em um carro.
Por
exemplo, se um carro está rodando a 100 km por hora em uma hora o carro irá
percorrer 100 km. Se o carro está andando a 50 km por hora, então vai precisar de duas horas para o
percorrer os 100 quilômetros.
Assim
11,93 microsievert por hora significa que se uma pessoa fica por uma hora em um
local, com essa taxa de dosse logo essa
pessoa vai receber uma dose de 11,93 μSv
de radiação.
No
entanto, note que 11,93 μSv/h é um valor máximo, em média a taxa de dose
permanece abaixo deste valor. Para retornar à analogia do carro, o carro
atingiu a alta velocidade por apenas um curto tempo e na maior parte do tempo,
o carro estava rodando a baixas velocidades.
De
acordo com o Comitê Científico das Nações Unidas para os Efeitos da Radiação
Atômica (UNSCEAR), a radiação natural
expõe uma pessoa, em média,
a uma dose de 2.400 μSv por ano.
Embora a exposição à radiação natural
dependa da localidade, há relatos de que muitas pessoas estão expostas a
uma dose entre 10.000 μSv e 20.000 μSv por ano.
Uma
pessoa é normalmente exposta;
■
cerca de 200 μSv durante a viagem de ida e volta entre Tóquio e Nova York,
■
600 μSv em um exame de Raios‐X abdominal, e a
■6.900
μSv em um exame de tomografia computadorizada.
O
valor máximo de exposição a radiação recomendado pela Comissão Internacional de
Proteção Radiológica (ICRP) para o público e para um profissional que trabalha
com radiação ionizante é chamado de limite de dose.
O limite de dose anual público é de 1 mSv (
1000 μSv) e, para os trabalhadores, a dose limite é 20 mSv por ano em uma
média de 5 anos, sendo que por
ano não pode ultrapassar 50 mSv.
Note que o limite de dose não inclui a exposição à radiação natural ou
médica. Embora os riscos de câncer
aumentem proporcionalmente com a dose, qualquer valor de dose recebida por uma
pessoa, abaixo de 100 mSv, não mostra nenhum aumento significativo dos riscos
da mesma desenvolver câncer.
A
tabela abaixo mostra níveis, limites e referências de dose de radiação para uma
comparação simplificada.
A primavera era sempre a época mais movimentada do ano para
as mulheres que trabalhavam na fábrica de processamento de lã de ovelhas em
Chernihiv, no norte da Ucrânia. E os meses de abril e maio de 1986 não foram
exceção, com turnos de 12 horas para separar as pilhas à mão antes de serem
lavadas e enfardadas. Só que as mulheres começaram a ficar doentes.
NÍVEL DE RADIAÇÃO EXCESSIVA
Algumas sofreram hemorragias nasais, outras reclamaram de
tontura e náusea. Quando as autoridades foram chamadas para investigar,
descobriram níveis de radiação na fábrica de até 180 mSv/hr. Hoje, em menos de
um minuto qualquer pessoa exposta a esses níveis excederia a dose anual
considerada segura em muitas partes do mundo.
ZONA DE EXCLUSÃO
A 80 km da fábrica ficava a usina nuclear de Chernobyl. Em
26 de abril de 1986, um reator da instalação sofreu uma explosão catastrófica
que expôs o núcleo e jogou nuvens de material radioativo sobre seu entorno,
como um incêndio incontrolável.
Mas, na época, consideraram que Chernihiv estava bem fora da
zona de exclusão lançada às pressas ao redor da usina atingida, e leituras em
outros lugares da cidade mostraram que ela tinha níveis comparativamente baixos
de radiação.
"A área tinha a legenda amarela nos mapas de radiação,
o que significa que a cidade não havia sido atingida com muita força", diz
Kate Brown, historiadora da ciência do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), nos Estados Unidos. "Mas havia 298 mulheres nesta fábrica que
receberam status de 'liquidante', termo normalmente reservado àqueles que
documentaram exposições durante os primeiros dias da limpeza após o
acidente."
Brown descobriu a história dos trabalhadores de lã de
Chernihiv como parte de sua pesquisa sobre o impacto do desastre de Chernobyl.
Sua determinação em desvendar o verdadeiro impacto do desastre fez com que ela
viajasse para muitas partes da Ucrânia, Bielorússia e Rússia, entrevistasse
sobreviventes, vasculhasse arquivos oficiais e revisasse relatórios antigos de
hospitais.
DADOS OFICIAS: NÚMERO DE MORTOS RECONHECIDO
INTERNACIONALMENTE
De acordo com os dados oficiais, o número de mortos
reconhecido internacionalmente aponta que apenas 31 pessoas morreram como
resultado imediato de Chernobyl, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU)
estima que 50 mortes podem ser diretamente atribuídas ao desastre. Em 2005,
previa que mais 4 mil poderiam eventualmente ter morrido como resultado da
exposição à radiação.
A pesquisa de Brown, no entanto, sugere que Chernobyl lançou
uma sombra muito maior.
É COMO ABRAÇAR MÁQUINA DE RAIO-X
"Quando visitei a fábrica de lã em Chernihiv, conheci
algumas das mulheres que estavam trabalhando na época", diz ela.
"Havia apenas 10 dessas mulheres ainda presentes. Eles me disseram que
estavam pegando fardos de lã e os classificando-os nas mesas. Em maio de 1986,
a fábrica estava adquirindo lã que tinha radiação de até 30Sv/hr. Os fardos de
lã que as mulheres carregavam eram como abraçar uma máquina de raios X
ligada."
LÃS CONTAMINADAS
Milhares de animais foram abatidos na área ao redor de
Chernobyl ao longo da evacuação. Para Brown, as lãs de alguns desses animais
parecem ter chegado à fábrica em Chernihiv, juntamente com outras lãs
contaminadas de fazendas sob nuvens de material radioativo que se espalharam
pelo norte da Ucrânia.
Quando Brown encontrou dez das pessoas que trabalharam na
fábrica de lã, suas histórias trouxeram à tona uma imagem sombria do que parece
ter acontecido em toda a região, já que pessoas comuns que não tinham nada a
ver com a limpeza do desastre acabaram expostas ao material radioativo.
"Eles apontaram para diferentes partes de seus corpos
que tinham envelhecido mais do que o resto e onde tinham problemas de
saúde", diz Brown. "Eles sabiam tudo sobre quais isótopos radioativos
haviam se alojado em seus órgãos." As outras 288 mulheres, dizem os
sobreviventes, morreram ou passaram a receber pensões por problemas de saúde.
LIQUIDANTES
Nas semanas e meses que se seguiram ao desastre de
Chernobyl, centenas de milhares de bombeiros, engenheiros, tropas militares,
policiais, mineiros, faxineiros e integrantes da equipe médica foram enviados
para a área imediatamente ao redor da usina destruída em um esforço para
controlar o fogo e o núcleo colapsado, e evitar que o material radioativo se
espalhe ainda mais pelo ambiente.
Essas pessoas - que ficaram conhecidas como
"liquidantes" devido à definição oficial soviética de
"participante na liquidação das consequências do acidente da usina nuclear
de Chernobyl" - receberam um status especial que, na prática, significava
receber benefícios como cuidados médicos extras e indenizações. Registros oficiais indicam que 600 mil
pessoas receberam o status de liquidante.
Mas um relatório publicado por membros da Academia Russa de
Ciências, que foi alvo de controvérsia, indica que poderia haver até 830 mil
pessoas nas equipes de limpeza de Chernobyl. Eles estimaram que entre 112.000 e
125.000 destes - cerca de 15% - haviam morrido até 2005. Muitos dos números
presentes desse estudo, no entanto, foram contestados por cientistas do
Ocidente, que questionaram sua validade científica.
As autoridades ucranianas, no entanto, fizeram um registro
de seus próprios cidadãos afetados pelo acidente de Chernobyl.
■Em 2015, havia 318.988 trabalhadores de limpeza ucranianos
no banco de dados, embora, de acordo com um relatório recente do Centro
Nacional de Pesquisa Médica de Radiação na Ucrânia (NRCRM), 651.453
trabalhadores de limpeza foram examinados em razão da exposição à radiação
entre 2003 e 2007. Um registro semelhante em
■A Bielorrússia registrou 99.693 trabalhadores de limpeza,
enquanto outro registro incluiu 157.086 liquidantes russos.
TAXA DE MORTALIDADE
Na Ucrânia, as taxas de mortalidade entre esses indivíduos
aumentaram entre 1988 e 2012, passando de 3,5 para 17,5 mortes por mil pessoas.
A incapacidade entre os liquidantes também disparou. Em 1988, 68% deles eram
considerados saudáveis, enquanto 26 anos depois apenas 5,5% ainda eram
saudáveis. A maioria - 63% - sofria de doenças cardiovasculares e
circulatórias, enquanto 13% tinham problemas com o sistema nervoso.
Na Bielorrússia, 40.049 liquidantes foram diagnosticados com
câncer até 2008, além de outros 2.833 da Rússia.
40 MIL HOSPITALIZADOS
Outro grupo que suportou o peso das exposições à radiação
foram aqueles que moravam na cidade vizinha de Pripyat e arredores. Demorou um
dia e meio até que a evacuação de 49.614 pessoas tivesse início. Mais tarde,
outras 41.986 pessoas foram evacuadas de um perímetro de 30 km ao redor da
usina. Por fim, cerca de 200.000 pessoas foram deslocadas em razão do acidente.
Algumas das pessoas
que viviam mais perto da usina receberam doses de radiação em suas glândulas
tireoides de até 3.9Gy - cerca de 37 mil vezes a dose de um raio-x de tórax -
depois de respirar material radioativo e comer alimentos contaminados.
Médicos que pesquisaram as pessoas deslocadas de suas casas
relatam que a mortalidade entre os evacuados tem aumentado gradualmente,
atingindo um pico entre 2008 e 2012, com 18 mortes por 1.000 pessoas.
Mas isso ainda representa uma pequena proporção das pessoas
afetadas por Chernobyl.
A Agência Internacional de Energia Atômica (um braço da
ONU), no entanto, diz que os estudos de saúde sobre os liquidantes
"falharam em mostrar qualquer correlação direta entre a exposição à
radiação" e câncer ou outras doenças.
Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do
mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível
Brown, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts,
encontrou evidências escondidas nos registros hospitalares, feito por volta da
época do acidente, que mostram problemas generalizados.
"Em hospitais daquela região, e mesmo nos distantes
como o de Moscou, as pessoas estavam repletas de sintomas agudos", diz
ela. "Os registros indicam que pelo menos 40 mil pessoas foram
hospitalizadas no verão após o acidente, muitas delas mulheres e
crianças."
Acredita-se que a pressão política de autoridades soviéticas
tenha levado à supressão de um retrato fidedigno do problema, já que não
queriam arranhar a imagem do país no âmbito internacional. Com o colapso da
União Soviética e como as pessoas que viviam em áreas expostas à radiação
começam a se apresentar com uma série de problemas de saúde, está vindo à tona
uma imagem muito mais clara do número de mortos pelo desastre.
AUMENTO DA TAXA DE MORTALIDADE
Viktor Sushko, vice-diretor-geral do Centro Nacional de
Pesquisa Médica de Radiação, descreve o desastre de Chernobyl como o
"maior desastre antropogênico da história da humanidade". O órgão
estima que cerca de 5 milhões de cidadãos da antiga União Soviética, incluindo
3 milhões na Ucrânia, tenham sido afetados pelo desastre de Chernobyl. Na
Bielorrússia, outras 800 mil pessoas também foram atingidas pela radiação.
Atualmente, o governo
ucraniano paga pensões a 36.525 viúvas de homens que são considerados vítimas
do acidente de Chernobyl.
Segundo registros oficiais, cerca de 600 mil pessoas
participaram das ações de contenção posteriores ao acidente na usina.
Em janeiro de 2018, 1,8 milhão de pessoas na Ucrânia,
incluindo 377.589 crianças, tinham o status de vítimas do desastre, segundo
Sushko. Houve um rápido aumento no número de pessoas com deficiência entre esta
população, passando de 40.106 em 1995 para 107.115 em 2018.
Curiosamente, Sushko e sua equipe também relatam que o
número de vítimas de Chernobyl na Ucrânia diminuiu em 657.988 desde 2007 - uma
queda de 26%. Embora não expliquem os motivos, as hipóteses prováveis são a
migração, à medida que as vítimas deixaram o país, a reclassificação do
estatuto de vítima e, inevitavelmente, algumas mortes.
As taxas de mortalidade em áreas contaminadas por radiação
têm crescido progressivamente mais na região do que o resto da Ucrânia. O pico
foi em 2007, quando morreram mais de 26 pessoas em cada 1.000 - a média
nacional é de 16 para cada 1.000.
ZONAS CONTAMINADAS E ZONA DE EXCLUSÃO
No total, cerca de 150.000 km² da Bielorrússia, Rússia e
Ucrânia são considerados contaminados e a zona de exclusão de 4.000 km² - uma
área com mais que o dobro do tamanho de Londres - permanece praticamente
desabitada.
PRECIPITAÇÃO RADIOATIVA
Mas a precipitação radioativa, carregada pelos ventos,
espalhou-se por grande parte do hemisfério Norte. Dois dias depois da explosão,
altos níveis de radiação foram detectados na Suécia, enquanto a contaminação de
plantas e campos na Grã-Bretanha levou a restrições rigorosas à venda de
cordeiros e de outros produtos ovinos durante anos.
Em áreas da Europa Ocidental também afetadas, houve indícios
de que as taxas de neoplasmas - crescimentos anormais de tecido que incluem
câncer - foram maiores do que em áreas que escaparam à contaminação.
ALIMENTOS RADIOATIVOS
Em um arquivo em Moscou, Brown, do MIT, encontrou registros
que indicavam que carne, leite e outros produtos de plantas e animais
contaminados foram enviados para todo o país.
"Eles criaram manuais para as indústrias de carne, lã e
leite para classificar os produtos como alta, média e baixa em termos de
radiação", diz ela. "Carne com nível alto, por exemplo, foi colocada
em um freezer para que eles pudessem esperar até que a taxa caísse. Carne de
nível médio e baixo deveria ser misturada com carne limpa e transformada em
salsicha. Foi rotulada como normal e enviada para todo o país, embora tenha
havido instruções para não enviá-la para Moscou."
Brown, que escreveu um livro sobre suas descobertas chamado
Manual de Sobrevivência: Um Guia de Chernobyl para o Futuro, também descobriu
histórias semelhantes de mirtilos que estavam acima do limite de radiação
aceitável misturado com bagas mais limpas para que todo o lote fosse aprovado
no limite regulamentar.
Isso significa que as pessoas de fora da Ucrânia
"tomariam um café da manhã com mirtilos de Chernobyl", mesmo sem
saber, Brown diz.
Uma equipe de testes de radiação retornou à usina nuclear
cinco anos após o acidente que destruiu o reator.
Estabelecer elos entre a exposição à radiação e os efeitos
na saúde a longo prazo, no entanto, é uma tarefa difícil. Pode levar anos, até
mesmo décadas antes que o câncer apareça, e atribuí-lo a uma causa específica
pode bastante complexo.
PROBLEMAS NOS GENOMAS
Um estudo recente, no entanto, identificou problemas nos
genomas de crianças que foram expostas durante o desastre ou que nasceram de
pais que foram expostos. Foram achados níveis elevados de dano e instabilidade
em seus genomas.
"A instabilidade do genoma representa um risco
significativo de câncer", diz Aleksandra Fučić, do Instituto de Pesquisa
Médica e Saúde Ocupacional, na Croácia. Filha de uma mulher ucraniana, ela tem
atuado com cientistas russos para estudar os efeitos da radiação de Chernobyl
sobre crianças da região. "Nos casos de Chernobyl, o tempo não está
curando, mas um período de latência para o desenvolvimento do câncer."
As taxas de suicídio entre as pessoas envolvidas na limpeza
em Chernobyl são maiores do que na população geral, segundo estudos, que também
descobriram que as pessoas que relataram viver nas zonas afetadas pelo desastre
na Ucrânia tinham taxas mais altas de problemas com álcool e níveis mais baixos
de saúde mental.
Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do
mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível. Mas, apesar do
quadro sombrio da maioria das pinturas de pesquisa, há algumas histórias de
esperança também.
Três engenheiros que se voluntariaram para drenar milhões de
galões de água de tanques sob o reator em chamas nos dias logo depois da
explosão passaram por águas altamente radioativas e detritos para alcançar
válvulas. Seu heroísmo é um dos momentos mais dramáticos da recente série da
HBO sobre o desastre, Chernobyl. Surpreendentemente, dois dos três ainda estão
vivos, apesar da proteção mínima contra a radiação durante a missão. O terceiro
deles, Borys Baranov, viveu até 2005. Fonte: BBC Brasil -10 agosto 2019
Japão homenageia vítimas do acidente nuclear em Fukushima
O Japão lembrou no domingo (11/03), com várias cerimônias e
um minuto de silêncio, o sétimo aniversário do terremoto e do tsunami que
arrasaram parte do litoral nordeste do país e provocaram, em Fukushima, um dos
piores acidentes nucleares da história.
Em diversos pontos do Japão, e especialmente nas regiões
mais afetadas pela tragédia, os mais de 18 mil mortos e desaparecidos deixados
pela catástrofe foram homenageados. Às 14h46 (horário local), instante quando o
terremoto de magnitude 9 graus na escala Richter foi registrado, todos fizeram
um minuto de silêncio.
TERREMOTO E TSUNAMI
O forte terremoto registrado no mar próximo ao litoral
nordeste do Japão gerou um tsunami, que destruiu cidades inteiras e atingiu a
usina nuclear de Fukushima, em 11 de março de 2011.
A água deixou a instalação sem sistema de refrigeração, o
que acabou provocando a fusão parcial dos três operadores que estavam em
funcionamento no momento do acidente.
O tsunami deixou, segundo as autoridades japonesas;
■18.434 mortos e desaparecidos.
■ Outras 3.600 pessoas, principalmente de Fukushima,
morreram posteriormente de causas ligadas à tragédia, como doenças e suicídio.
DESALOJADO
Até hoje, 73.349 pessoas seguem vivendo em casas
temporárias, com familiares e centros de apoio distribuídos por todo país, de
acordo com dados divulgados pelo governo do Japão. A maioria dessas pessoas
antes morava na região do entorno da usina nuclear, que ainda é considerada
inabitável por causa do nível de radiação.
Várias áreas foram progressivamente sendo reabertas após as
equipes do governo realizarem tarefas de limpeza e descontaminação radiativa,
mas poucos quiseram voltar aos seus antigos lares, por medo dos efeitos do
acidente na região.
O acidente em Fukushima foi o segundo pior da história,
sendo superado apenas pelo registrado em 1986 em Chernobil, na Ucrânia, então
União Soviética. Fonte: Deutsche Welle – 11.03.2018
Técnicos retiram lixo radioativo das áreas contaminadas
nos setores Aeroporto e Ferroviário, no centro de Goiânia, bairros mais
afetados pela contaminação do césio-137
A
cada mês de setembro, desde 1987, a árvore genealógica da família Alves
Ferreira lembra a maior tragédia radiológica urbana da história da humanidade.
Era
o dia 13 do mês de setembro, uma cápsula com cloreto de césio --sal obtido por
meio do radioisótopo 137 do elemento químico césio-- foi aberta em uma casa da
rua 57, no setor Aeroporto da capital goiana, antes de seguir para um
ferro-velho.
PRECONCEITOS
Os
dias seguintes foram de dor, ferimentos, sofrimento e morte. Depois,
preconceito e incerteza quanto ao futuro das 129 pessoas contaminadas pela
radiação. Esse dia jamais chegou ao fim.
Um
dia, uma passageira do táxi perguntou se
não tinha nenhum perigo de ficar no carro com os vidros fechados. Eu disse que
não, mas que ela ficasse à vontade se quisesse descer O Hyundai prateado modelo HB, placas de
Aparecida de Goiânia, está a duas quadras do aeroporto da capital goiana. Ele é
guiado por Odesson Alves Ferreira, 62, cuja mão esquerda exibe as cicatrizes do
acidente. Ele perdeu a palma da mão --ela foi reconstituída com parte da pele
que cobre o abdômen-- e as falanges do dedo indicador da mão foram amputadas.
Odesson cadastrou-se há um ano na Uber, após seguidas tentativas de empreendimentos
barradas pelo preconceito.
É a
memória oral da história do césio-137: conta inúmeras vezes com precisão o que
aconteceu desde o dia 13 de setembro de 1987. Tem, na cabeça, os números exatos
do peso da peça de ferro-velho, da cápsula de césio, do tamanho e das
especificações do que foi enterrado no depósito de Abadia de Goiás.
A
precisão das datas impressiona, assim como o bom humor ao contar situações
pitorescas dos primeiros dias de tragédia. “O médico pediu que eu tomasse
cerveja para que a urina eliminasse a radiação, e eu até achei bom --não
precisava justificar a cervejinha para a minha mulher. Mas não adiantou nada, e
o banheiro do bar precisou ser demolido porque também recebeu radiação.”
Antes
de dirigir e presidir, por duas vezes, a associação das vítimas, o aposentado
tentou por duas vezes investir em comércios de bairro em Aparecida de Goiânia, cidade que faz limite
com Goiânia e que abriga a maior parte da família Alves Ferreira, a mais
afetada pela tragédia --são 50 pessoas atingidas, além das duas mortes
diretamente ligadas ao acidente e outras duas posteriores.
“Fomos
chamados de ‘marajás’ porque recebíamos uma pensão miserável do Estado. Entrei
em depressão porque não podia mais trabalhar --fui aposentado por invalidez.
Montei uma frutaria, e todos os dias ia até o Ceasa buscar tudo fresquinho. Não
conseguia vender. As pessoas passavam na porta, iam até outro lugar e passavam
com a mercadoria. Acabei com a frutaria, e montamos um bar. Também passavam com
garrafa de cerveja vazia, iam no boteco vizinho e compravam. O irmão de um
deles me falou: 'O pessoal não compra cerveja aqui porque acha que está
contaminada'.”
Nos
anos seguintes, as vítimas fizeram uma via-crúcis para matricularem seus filhos
em colégios de Goiânia e de Aparecida de Goiânia. Receberam o não mais de duas
vezes cada uma.
Cunhada
de Odesson, Luiza Odete dos Santos mentiu por anos sobre a origem da longa
cicatriz que exibe no lado esquerdo do pescoço. “Isso aqui, pegando meu rosto,
passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. E o pessoal me
ensinava um remédio. Depois, o tempo foi passando, e eu disse: vou viver. Se o
pessoal pergunta, eu falo. E fica assustado, porque ainda existe a
discriminação. Pessoas mal informadas ainda acham que a gente transmite
radiação.”
Lourdes
Alves Ferreira, mãe de Leide das Neves, 6 --a menina morta no acidente que
virou o símbolo da luta contra a radiação e o preconceito diante das vítimas--,
tem a guia médica zerada nas clínicas que frequenta por causa do acidente.
“As
recepcionistas insistem para saber por que ela é zerada”, diz. “Um dia, uma
gritou. E fui pertinho dela e falei: sou obrigada a explicar o porquê? Quando o
médico me chamou, ela fez questão de me acompanhar até o consultório. Eu disse
que era uma vítima do césio. O tempo todinho que fiquei esperando, se ela não
estava escrevendo, estava olhando para mim. Eu era uma pessoa estranha para
ela. Já aconteceu de a pessoa, quando soube quem era eu, se levantar de perto
de mim.”
Isso
aqui passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. O tempo foi
passando, e eu disse: vou viver. Se perguntam, eu falo. Ficam assustados. Acha
que a gente transmite radiação
AS
VÍTIMAS ETERNAS
A
Secretaria Estadual da Saúde, por meio do Cara (Centro de Atendimento ao
Radioacidentado), ainda hoje monitora 1.292 pessoas, entre radioacidentados,
parentes da primeira e segunda geração e funcionários que tiveram contato com
os afetados durante os dias de controle da irradiação.
Elas
sofreram com problemas físicos e psiquiátricos. Obrigatoriamente, devem visitar
o Cara pelo menos uma vez por ano --a frequência já foi mensal e
semestral. Em 2016, o centro realizou
5.741 atendimentos --destes, 1.497 no setor de enfermagem e 811 no de
psicologia.
Membros
foram amputados, braços e mãos receberam enxertos e, em duas vítimas, as
feridas provocadas pelo contato com o césio --as radiodermites-- ainda não
fecharam. Eles vivem às custas de curativos, paliativos às lesões que sofreram
e nunca foram curadas. E ainda há o preconceito.
“Há
um cansaço com essa situação. Um rapaz que está para amputar o pé teve a
proposta para tratamento com células-tronco, com uma equipe da Suíça. E ele
negou: ‘Estou cansado de ser cobaia. Já não sei quantas tentativas foram
feitas, e nenhuma deu resultado. Prefiro ser amputado”, afirma a psicológica
Suzana Helou, que atende aos radioacidentados desde outubro de 1987.
CÁPSULA
E CONTAMINAÇÃO
A
cápsula que causou o acidente era parte de um aparelho radioterapêutico que
estava abandonado no terreno em que funcionou o Instituto Goiano de Radioterapia
(IGR). Foi utilizado de 1971 até 1985, quando o instituto foi desativado. O
equipamento de teleterapia (radioterapia
externa) , que continha o césio, foi abandonado naquele ano em meio às ruínas
do centro de radioterapia.
A
peça foi encontrada no dia 13 de setembro de 1987 por Wagner Mota Pereira e
Roberto Santos Alves, que depois a revenderiam para um ferro-velho. A peça, de
aproximadamente 200 quilos de ferro e chumbo, tinha 19,26 gramas de césio-137,
guardada em um recipiente arredondado, semelhante a uma lata de goiabada. Ela
foi levada para a casa de Roberto. No terreno da rua 57, o invólucro de chumbo
foi perfurado, e a placa de lítio que isolava as partículas radioativas,
rompida.
De
lá, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, então com 37 anos e dono de
um ferro‑velho na rua 26-A, no mesmo bairro. Ele percebeu o brilho azul que
irradiava do recipiente arredondado. Fragmentos de pó saíam da cápsula e foram
distribuídos. Assim, o brilho e a contaminação se espalharam pelos bairros
adjacentes ao setor Aeroporto.
Dos
que tiveram contato com o pó, restaram 46 pessoas diretamente contaminadas.
Todas elas passaram por um banho com escovação e vinagre para se
descontaminarem, mas a radiação continuou. Suas roupas, seus pertences e suas
casas demolidas foram descartados --estão enterrados no depósito de lixo
radiológico de Abadia de Goiás (23 km de Goiânia).
Quatro
pessoas morreram depois de um mês isoladas no hospital naval Marcílio Dias, no
Rio de Janeiro: Leide da Neves Ferreira, 6, Maria Gabriela Ferreira, 37, Israel
Baptista dos Santos, 22, e Admílson Alves de Souza.
Todos
eles receberam uma dose muito alta de radiação, medidas pelo índice Gy (gray).
Para cada sessão de radioterapia para câncer de mama, por exemplo, a dose é de,
no máximo, 2 Gy. Devair, que teve contato com uma dose maior (7 Gys),
sobreviveu por não ingerir o pó. Leide das Neves, que ingeriu o césio ao comer
um ovo cozido com as mãos sujas da substância, absorveu diretamente 6 Gy.
Os
corpos tiveram que ser colocados em caixões de chumbo, de cerca de 700 quilos,
e sepultados sob uma estrutura de toneladas de concreto. Os primeiros enterros,
de Leide e de Maria Gabriela, sofreram tentativas de impedimento, com blocos
interrompendo o tráfego de veículos e pedras e cruzes dos túmulos atiradas
contra os veículos que transportavam os caixões, que foram içados por um
guindaste para os túmulos. As
estruturas de concreto, que não têm contato com o solo, mas recebem
constantemente flores de quem ainda se sensibiliza com a tragédia, hoje são as
mais preservadas do Cemitério Parque de Goiânia.
Presidente
da Associação das Vítimas do Césio-137, Suely Lina de Moraes ainda reside na
mesma casa da época do acidente, na rua 26. Os fundos da residência dão para o
terreno concretado que um dia foi o ferro-velho de Devair --a casa foi demolida
depois do acidente. “A diretora trazia meu filho da escola e o deixava na
esquina, por medo de contaminar. Esses dias teve um evento no lote do Devair, e a polícia
veio para acompanhar. Quando viram que era a rua do césio, não entraram. Não
desceram com medo da radiação.”
HOJE,
NÃO HÁ MAIS CONTAMINAÇÃO NAS PESSOAS NEM NOS LOTES.
Suely
sorri o tempo todo, mesmo quando se lembra da tragédia. É ela a responsável por
controlar as informações e os cuidados com as vítimas do acidente. “Tem os
remédios de uso contínuo que não estão disponiveis no SUS. Mas outros custam R$
200, R$ 100. E não tem.” O Cara afirma que a questão de abastecimento de
medicamentos está sendo resolvida pela Secretaria Estadual da Saúde.
Ela
tem um mapa, feito à mão, com as vítimas de câncer residentes nos setores
Aeroporto e Ferroviário, os mais atingidos pela radiação. Ela aponta 23 casos.
“São os moradores daqui, que não saíram daqui. Não vieram fazer pesquisa
[epidemiológica, que atesta a incidência maior ou menor de doenças] deles.
Nunca
foram na fundação, nem sabem onde é. Enquanto as vítimas diretas eram
atendidas, eles continuaram aqui. Estavam expostos [à radiação].”
“As
doenças causadas pela radiação limitam-se às mortes da época do acidente e aos
22 pacientes com radiodermites. Foram 129 vítimas diretas. Nós podemos afirmar
que a doença do césio se limita a esse grupo”, rebate o diretor-geral do Cara,
André Luiz de Souza.
“É
um discurso permanente deles, de que serão sempre vítimas do acidente. É um
fator estressor permanente, de um dia contraírem doenças degenerativas, como
câncer e leucemias, ou ter um descendente com deformação genética. Foi o que um
pesquisador norte-americano chamou de ‘grávidos da morte’. Tudo é atribuído ao
acidente radiológico”, afirma a psicóloga Suzana Helou.
Em
dezembro de 2016, Helou entrevistou acidentados e também a população em geral.
A pergunta era se os atingidos pela exposição ao césio ainda se consideravam
vítimas do acidente radioativo. “Mais de 80% respondeu que sim”, diz. “A maior
incidência de resposta é a discriminação que eles acreditam sofrer por parte da
população em geral.”
CONSTRUÇÃO
DO DEPÓSITO
A 23
km do local do acidente, o antigo vilarejo de Abadia de Goiás foi escolhido
para receber os restos da tragédia. Foram 17 anos para que a estrutura ficasse
pronta: dois campos de concreto cobertos de grama com 60 metros de comprimento,
18 de largura e oito de altura.
O
reservatório contém todas as blindagens e a fonte que continha o césio --nele
estão todos os rejeitos de média radioatividade.
Abadia
virou cidade de 6.868 habitantes, emancipada em dezembro de 1995. A cidade foi
escolhida tecnicamente, com base na geologia local para que não tivesse
influência na natureza , afirma Marco Antonio Pereira da Silva, do CRCN-CO
(Centro Nacional de Ciência Nuclear do Centro-Oeste). Os materiais contaminados
estão envolvidos em contêineres, e a base de concreto impede que eles
contaminem o solo nem o lençol freático, aponta.
O
desenvolvimento, afirma, veio em parte pela construção do depósito. "Antes
da instalação, havia muito medo de remover o depósito para cá, por falta de
informação. Hoje, a população sabe que não há nenhum risco --pelo contrário,
isso trouxe desenvolvimento. Abadia entrou no mapa científico do mundo --muita
gente vem para cá para fazer pesquisas e desenvolver outras. Não há estigma na
cidade --ele é maior em Goiânia do que aqui. Abadia é uma cidade que se
incorporou à construção do depósito. Fonte: UOL Noticias – 10 de setembro de
2017