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sexta-feira, janeiro 23, 2026

10 ANOS: O DIA EM QUE O JAPÃO FOI ATINGIDO POR TERREMOTO

Em 2004, o mundo enfrentou uma tragédia dupla de proporções monumentais. Um poderoso terremoto no Oceano Índico foi seguido de um tsunami destruidor, que deixou mais de 260 mil mortos em 14 países.

Sete anos depois, um acontecimento semelhante teria não apenas dois, mas três atos. Um desastre triplo castigou o Japão, quando um terremoto tão intenso quanto o do Oceano Índico, mas desta vez no Pacífico, provocou um tsunami também devastador, contra o qual as sólidas defesas japonesas não tiveram chance.

A fúria do mar, por sua vez, provocou um acidente nuclear na usina de Fukushima, 260 quilômetros ao norte de Tóquio. Mais de 18 mil pessoas foram mortas pelo tsunami, e o acidente em Fukushima forçou a retirada de 160 mil pessoas que moravam nas imediações.

Foi a maior catástrofe enfrentada pelo Japão desde as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

O GRANDE TERREMOTO

O dia 11 de março de 2011, uma sexta-feira, dificilmente será esquecido pelos japoneses. Às 14h46, horário local, num ponto do Oceano Pacífico a 130 quilômetros ao leste da cidade de Sendai, um terremoto não apenas sacudiu como também deslocou o Japão. Com 9 graus de magnitude, o "Grande Terremoto do Leste do Japão" — também conhecido como "Grande Terremoto de Sendai" ou apenas "Terremoto de Tohoku" —, o maior já registrado no país, empurrou em 2,4 metros para leste a ilha de Honshu, a maior do Japão.

No ponto exato do abalo sísmico, 24,4 quilômetros abaixo do fundo do mar, o atrito entre as placas tectônicas da Eurásia e do Pacífico causou a maior movimentação de terra já registrada num terremoto, de 50 metros — no abalo de 2004, no Índico, ela foi de 25 metros. Essa movimentação forçou o mar para cima, causando o tsunami — uma série de ondas gigantes. Acostumado a grandes tremores seguidos de destruição em larga escala, — como em Tóquio, em 1923, e em Kobe, em 1995 —, o Japão começava a enfrentar uma sucessão de eventos inédita em sua história.

O terremoto em si já era excepcional mesmo para padrões japoneses. A área do país mais atingida foi a região de Tohoku. Em sua capital, Sendai, as pessoas que estavam nas ruas rapidamente perceberam que não havia para onde fugir. Imagens registradas em vídeo mostraram muitos tentando escapar de pedaços de edifícios que caíam sobre a calçada e trabalhadores apavorados em escritórios, onde objetos e móveis eram lançados ao chão. A longa duração do tremor — cerca de seis minutos — tornou o momento ainda mais assustador. "Oh, meu Deus, o prédio vai cair!", diz um homem, em inglês, em um dos momentos de maior vibração do local onde estava.

O Japão é considerado o país mais bem preparado do mundo contra terremotos. Depois da tragédia de 1923, que matou 140 mil pessoas, os edifícios japoneses passaram a ser construídos para absorver a energia de um abalo sísmico e, assim, são capazes de manter-se de pé. O processo, chamado de "isolamento sísmico", envolve a presença de proteções na base das construções, como blocos de borracha, e amortecedores na estrutura dos edifícios.

Os avanços em tecnologia, porém, não protegem as cidades japonesas de qualquer dano — e, no caso do terremoto de Tohoku, eles foram muitos e de grande alcance. Houve destruição na capital, Tóquio, a 373 quilômetros do epicentro, onde o abalo sacudiu o Parlamento nacional. A leste de Tóquio, na cidade de Ichihara, o abalo fez com que uma refinaria pegasse fogo e explodisse. Nada disso, porém, seria comparado ao que estava prestes a atingir a costa leste do país.

O TSUNAMI

O Japão já conhecia muito bem os tsunamis — a palavra é japonesa, formada pela união de "tsu", que significa "porto", e "nami", que significa "onda". O Serviço Nacional Oceânico dos Estados Unidos define o fenômeno tsunami como "uma série de ondas gigantes causadas por terremotos ou erupções vulcânicas sob o mar".

E o órgão acrescenta: "No meio do oceano, ondas de tsunami não aumentam enormemente em altura. Mas, conforme as ondas atingem a costa, elas vão adquirindo mais e mais altura com a diminuição da profundidade do mar".

O Japão já contava com um desenvolvido sistema de alerta e uma ampla estrutura de proteção. Às 14h49, três minutos depois do terremoto, um primeiro aviso de tsunami foi disparado. Essa notificação, entretanto, subestimou o tamanho do problema. A magnitude do terremoto foi inicialmente estimada em apenas 7,9, e acreditava-se que as ondas que pudessem chegar à costa teriam alturas entre 3 e 6 metros.

Na verdade, como se veria pouco depois, as ondas chegaram a 10 metros de altura, em alguns pontos até 15, e o abalo havia sido muito mais intenso, de 9 graus de magnitude. Essas falhas no aviso ficariam claras durante uma investigação sobre a tragédia. Um relatório da Agência Meteorológica do Japão, produzido em outubro de 2013, disse que os erros do alerta inicial podem ter contribuído para o alto número de vítimas.

"Isso pode ter levado algumas pessoas a pensar que as ondas do tsunami não ultrapassariam as muralhas de proteção e possivelmente contribuiu para demoras na evacuação." Um segundo alerta chegou a ser divulgado, às 15h10, aumentando a previsão do tamanho das ondas para até 10 metros. Nesse momento, porém, o tsunami já estava perto demais.

Meia-hora depois do terremoto, as ondas chegaram à costa de Tohoku e outras regiões do leste do Japão. Do alto de prédios muitos japoneses viam, impotentes, o momento em que as primeiras ondas venciam os muros de proteção como se estes não existissem. Paredes de água invadiram as cidades do litoral, carregando e destruindo barcos, carros e casas, que de longe pareciam de brinquedo.

O porto e o aeroporto de Sendai foram totalmente tomados pelas águas — embarcações, aeronaves, helicópteros, caminhões, vans e outros automóveis eram facilmente arrastados pelas ondas. Muitos momentos foram registrados por câmeras japonesas, em imagens que impressionaram o mundo. Cerca de 250 quilômetros ao norte de Sendai, o tsunami chegava à cidade de Miyako, onde a destruição foi igualmente espantosa. A montanha de água negra do mar logo venceu as barreiras de 5 metros de altura, arrastando com ela carros, barcos, casas e os postes de eletricidade.

No dia seguinte, 12 de março, as equipes de resgate esforçavam-se para encontrar sobreviventes e retirar pessoas de regiões alagadas. Segundo balanço da BBC News, cerca de um terço da cidade de Kesennuma, em Miyagi, de 74 mil habitantes, estava submersa, e havia vários focos de incêndio. Na província de Iwate, a cidade de Rikuzentakata, de 23 mil habitantes, havia sido totalmente tomada pelas águas — e mais de 300 corpos já haviam sido encontrados.

Os serviços de monitoramento de abalos sísmicos haviam registrado 125 tremores secundários, decorrentes do grande terremoto — um deles de 6,8 de magnitude. O total de construções destruídas, completa ou parcialmente, chegava a 3,4 mil. Cinco milhões e meio de moradias estavam sem eletricidade, e mais 200 mil pessoas estavam em abrigos provisórios, entre muitos outros aspectos da tragédia.

O terremoto seguido de tsunami deixou um total de 15.853 mortos e 3.282 desaparecidos, a maioria devido ao avanço do mar. A região com mais vítimas fatais foi a de Miyagi.

Um ano depois do desastre, 330 mil pessoas ainda viviam em algum tipo de acomodação temporária. Mais de 300 mil prédios foram destruídos, e outros 1 milhão, danificados - pelo tsunami, por incêndios ou pelo terremoto -, além de 4 mil estradas, 78 pontes e 29 linhas férreas.

A devastação gerou impressionantes 25 milhões de toneladas de detritos. Parte deles foi levada pelo oceano e acabou nos litorais do Canadá e dos Estados Unidos. Entre elas, uma motocicleta Harley-Davidson, uma bola de futebol e pequenos barcos. O custo financeiro do desastre chegou a cerca de US$ 200 bilhões.

O ACIDENTE NUCLEAR

As terríveis imagens que chegavam do Japão geraram solidariedade internacional, com líderes do mundo todo expressando apoio e anunciando ajuda aos japoneses. Depois do terremoto e do tsunami, a tragédia ainda teria, porém, um terceiro capítulo.

Já no dia 11, pouco depois do tsunami, surgiram as primeiras preocupações com duas usinas nucleares no leste do país, próximas ao epicentro do terremoto: Onagawa, na província de Miyagi, e Fukushima Daiishi, na província de Fukushima. Em Onagawa, a usina mais próxima do epicentro do terremoto, um incêndio começou no salão de turbinas, uma área separada do reator, mas foi rapidamente apagado. Em Fukushima, a situação seria bem mais grave.

A localização da usina de Onagawa, protegida por um muro de 14 metros de altura e construída numa parte mais alta do terreno, garantiu que o prédio não sofresse grandes danos com o tsunami.

A estrutura que protegia Fukushima, por outro lado, mostrou-se precária. A usina de Fukushima tinha quatro reatores, dos quais três — as unidades 1 a 3 — estavam operando naquele dia. Com o terremoto, as três unidades se desligaram automaticamente, como previam seus sistemas de segurança. O abalo danificou as seis linhas de transmissão de energia que alimentavam a usina, o que ativou o funcionamento de seus geradores a diesel para movimentar as bombas responsáveis pelo resfriamento dos reatores.

Às 15h42 do dia 11, no entanto, a usina foi castigada por uma primeira grande onda do tsunami — uma segunda viria oito minutos depois. As ondas chegaram a 15 metros de altura, mas Fukushima não estava preparada para tanto. Erguida a 10 metros acima do nível do mar, a usina era cercada por uma muralha de proteção de apenas pouco mais de 5 metros. As águas alagaram imediatamente o subsolo do prédio, exatamente onde estavam os geradores. Toda a base da usina ficou alagada, situação que deu início ao maior desastre nuclear desde a explosão em Chernobyl, na Ucrânica, em 1985 — no mesmo país que sofreu dois bombardeios atômicos na Segunda Guerra Mundial.

Com o alagamento do subsolo, os geradores deixaram de funcionar — outros equipamentos importantes para a operação, como bombas e baterias, também ficaram inoperantes. Sem energia e com equipamentos danificados, o processo de resfriamento dos três reatores parou. O acesso à usina também estava prejudicado, devido aos danos causados pelo tsunami e pelo terremoto nas estradas.

Na noite do dia 11, foram anunciados um estado de emergência nuclear e a evacuação de moradores num raio de 2 quilômetros da usina. A área foi logo estendida para 3, depois 10 quilômetros, e no dia seguinte a evacuação atingiu a 20 quilômetros.

VAZAMENTO

O quadro se agravou no dia 12, como noticiou a BBC News: "Uma poderosa explosão atingiu uma usina nuclear no nordeste do Japão que havia sido seriamente danificada no terremoto e tsunami de sexta-feira". A explosão ocorreu durante tentativas das equipes de emergência de retomar o resfriamento dos reatores e ventilar o compartimento de contenção.

Como explicou em relatório a Associação Nuclear Mundial, que representa o setor de energia nuclear: "Às 15h36 do sábado, dia 12, houve uma explosão de hidrogênio no andar de serviço do prédio sobre a contenção do reator unidade 1, destruindo o teto e a cobertura no topo do prédio". Ao longo dos dias seguintes ao tsunami, vapor radioativo acabou liberado na atmosfera, tanto por vazamento como em tentativas de reduzir a pressão interna nos reatores. Também houve vazamento de água radioativa no Pacífico.

Nos primeiros três dias do acidente, os núcleos dos reatores de Fukushima derreteram, e o vazamento de radiação continuou por seis dias. O trabalho das equipes técnicas visava basicamente tentar esfriar os reatores 1, 2 e 3, utilizando água, e interromper o vazamento de material radioativo. Demorou duas semanas até que os reatores fossem considerados estáveis novamente. Não houve mortes decorrentes do acidente - em 2018, porém, o governo japonês confirmaria uma primeira morte de um trabalhador de Fukushima, de câncer decorrente da exposição à radiação.

A usina de Fukushima ficou inutilizada. Com o passar dos anos, cerca de 1 milhão de toneladas de água contaminada foram acumuladas em seu interior — água da chuva e vinda do solo que era contaminada ao entrar em contato com a água usada no resfriamento dos reatores. Em outubro de 2020, nove anos depois do acidente, o governo japonês preparava-se para decidir o que fazer com esse material. A opção mais provável era lançá-lo no Oceano Pacífico, a partir de 2022, medida criticada por ambientalistas e entidades do setor de pesca.

O acidente nuclear levou à evacuação de 160 mil pessoas da região, com a área afetada estendida de 20 para 30 quilômetros no final de março de 2011. Grande parte foi autorizada a voltar, com a redução do risco, mas as áreas mais próximas à usina de Fukushima continuaram interditadas. Duas pequenas cidades, Okuma e Futaba, de 11 mil e 7 mil habitantes, respectivamente, continuaram fechadas durante anos.

Em 2019, as autoridades permitiram o retorno dos moradores a 40% de Okuma, considerada segura depois de anos de descontaminação. Muitas pessoas, no entanto, ainda questionavam a segurança e não se sentiam confortáveis para voltar. Em março de 2020, Futaba foi reaberta, mas ainda apenas para a entrada de trabalhadores envolvidos em sua reconstrução. O retorno permanente de moradores só estava previsto para 2022.

Depois do acidente, o Japão iniciou detalhadas inspeções de segurança em todos os seus cerca de 50 reatores nucleares. Devido às inspeções, em maio de 2012 todas as usinas do país foram fechadas, sendo reabertas aos poucos a partir de 2015. Entre elas, a usina de Onagawa, fechada desde 2011 e cujo funcionamento estava previsto para ser retomado no final de 2020. A pressão para que o país reduzisse sua produção de energia nuclear aumentou, e o Japão pretendia diminuir a participação dessa fonte, de 30%, na época do acidente em Fukushima, para previstos 20% em 2030.

JAPÃO MAIS PREPARADO

Os efeitos do Grande Terremoto do Leste do Japão duraram muito mais do que se imaginava.

Em novembro de 2016, um tremor de 7,4 graus de magnitude atingiu as regiões de Fukushima e Miyagi. Segundo técnicos, não se tratava de um novo terremoto, mas sim de um abalo secundário ainda decorrente do grande tremor de 2011. O evento, que não causou danos significativos, foi mais uma lembrança da dimensão do desastre de cinco anos antes — e da necessidade de o país se preparar melhor para futuras tragédias.

A partir de 2011, as defesas japonesas contra tsunamis, ao longo do litoral leste do país, foram ampliadas. Em vez de 5 metros de altura, os muros para conter futuras ondas gigantes passaram a ter cerca de 13 metros. A geografia da cidade de Rikuzentakata, uma das mais atingidas pelo tsunami, foi reformulada, como parte de sua reconstrução. O centro da cidade, completamente destruído pelo mar, foi refeito sobre um imenso aterro que cobriu a antiga estrutura. A área, com isso, foi elevada em 10 metros, tornando-a muito mais segura, mais protegida do alcance de possíveis ondas gigantes.

Além de tsunamis, o Japão segue se preparando para uma outra grande tragédia: um novo terremoto, possivelmente em sua capital, Tóquio -—uma região metropolitana com 37 milhões de habitantes.

O último grande tremor a castigar a cidade, em 1923, está prestes a completar cem anos, e especialistas avaliam que um desastre semelhante deva ocorrer cerca de um século depois. As chances de um novo terremoto atingir a cidade antes de 2050 são avaliadas em cerca de 70%. Enquanto seus prédios estão preparados para resistir a um forte tremor, um terremoto em Tóquio seria um desafio enorme para os serviços de socorro e resgate, seu sistema de transporte e para a população. Por isso a cidade testa regularmente sua estrutura de comunicação, que envolve centenas de alto-falantes espalhados em espaços públicos.

A certeza de que o Japão continuará a ser alvo de tremores de terra, alguns graves, faz com que a população no país esteja sempre a postos para uma emergência.

Os inúmeros desastres naturais da história japonesa ficam sempre na memória de todos no país - especialmente o tsunami de 2011. Cada terremoto representa um novo teste de sobrevivência. Com sua tecnologia, sua arquitetura e a resistência de sua população, o Japão está em constante aprendizado, até porque não tem escolha. Seu permanente e eterno embate com a natureza é uma realidade da qual o país não pode fugir. Fonte: BBC Brasil -  10 março 2021, autor: Rogério Simões

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quarta-feira, outubro 22, 2025

CAMARÕES RADIOATIVOS: EUA DETECTAM CÉSIO EM PRODUTO IMPORTADO DA INDONÉSIA

O governo indonésio reforçou os controles em uma zona industrial na ilha de Java, onde uma fonte de contaminação radioativa foi recentemente detectada, afetando um carregamento de camarões exportados para os Estados Unidos, informou o porta-voz.

A administração de saúde dos EUA anunciou em agosto que havia recolhido pacotes de camarão congelado importados da Indonésia após descobrir que estavam contaminados com o isótopo radioativo césio 137.

Após o início de uma investigação, descobriu-se que a fonte de contaminação estava em uma área industrial em Cikande, 60 km a oeste de Jacarta.

Pelo menos 22 instalações naquela área estão contaminadas, disse Bara Hasibuan, porta-voz da célula de crise criada pelo governo.

"Estamos reforçando as restrições de circulação na área e continuamos as buscas para inspecionar a instalação onde a contaminação pode ter ocorrido", explicou.

Funcionários da área e moradores próximos foram examinados por médicos e nove pessoas testaram positivo para césio 137, de acordo com Bara Hasibuan.

O porta-voz afirmou que o governo indonésio imporá restrições à importação de sucata suspeita de ter causado a contaminação. Fonte: UOL - 08/10/2025

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terça-feira, outubro 14, 2025

WINDSCALE: O POUCO CONHECIDO ACIDENTE NUCLEAR NA INGLATERRA

Com Chernobyl, Fukushima e Three Mile Island, trata-se de um dos piores desastres nucleares da história, embora você talvez nunca tenha ouvido falar dele.

O incêndio que atingiu a usina nuclear de Windscale (hoje conhecida como Sellafield), no noroeste da Inglaterra, em 10 de outubro de 1957, continua sendo o pior acidente nuclear já ocorrido no Reino Unido, um desastre cujo impacto o governo da época tentou minimizar.

Durante anos, no entanto, acreditou-se que o vazamento radioativo poderia ter sido responsável por 240 casos de câncer, algo que estudos subsequentes agora questionam.

Mas o número e as consequências desse acidente poderiam ter sido muito maiores, e o norte da Inglaterra poderia ter se tornado um deserto nuclear se não fosse pela "loucura" de um ganhador do Prêmio Nobel.

Apesar disso, o incêndio de Windscale foi classificado como nível 5 (em uma escala de 1 a 7) na Escala Internacional de Eventos Nucleares, determinada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Em 10 de outubro de 1957, um incêndio descontrolado devastou, durante três dias, um dos reatores da usina nuclear de Windscale, construída no auge da corrida armamentista nuclear.

A construção havia sido planejada dez anos antes, durante a Guerra Fria e em consonância com a política do governo britânico de fabricar armas atômicas de forma independente no Reino Unido na década de 1940.

A Windscale foi projetada para fabricar plutônio para armas e consistia em dois reatores, também conhecidos como "pilhas" ou torres.

O processo foi surpreendentemente rápido. Do início da construção em 1947 até o Reino Unido conseguir realizar seu primeiro teste nuclear, conhecido como "Operação Furacão", em 3 de outubro de 1952, na Austrália, usando plutônio da Windscale, apenas cinco anos se passaram.

Essa velocidade teve suas consequências, alertam os especialistas, e a mais grave delas foi o acidente de 1957.

COMO O INCÊNDIO COMEÇOU

Os eventos que levaram ao acidente ocorreram dois dias antes, em 8 de outubro, durante uma liberação rotineira de energia armazenada no moderador de grafite, resultante da operação normal do Reator 1, de acordo com o relatório preparado na época pela Comissão de Inquérito nomeada pela Autoridade Britânica de Energia Atômica.

A comissão concluiu que o acidente foi causado pelo superaquecimento dos elementos combustíveis de urânio, cujo revestimento posteriormente falhou, expondo o urânio e permitindo sua oxidação.

As temperaturas nos canais afetados continuaram a subir, causando a combustão do grafite.

A quantidade exata de radioatividade liberada durante o acidente é desconhecida.

As chamas atingiram 1.300 °C, então os trabalhadores tiveram que lutar arduamente para evitar que toda a instalação explodisse.

Trabalhadores em trajes de proteção contra radiação chegaram a usar tubos de andaimes para tentar empurrar as barras de combustível em chamas para fora do reator de grafite e para dentro da piscina de resfriamento. Mas isso se mostrou impossível, e os tubos emergiram incandescentes e até pingando metal derretido.

Devido aos altos níveis de radiação, eles só conseguiram permanecer no reator por algumas horas e tiveram que sair para encontrar mais voluntários, chegando a recrutar pessoas em um cinema próximo.

A água não conseguiu extinguir as chamas, e o fogo só foi extinto quando os trabalhadores desligaram o ar da sala do reator.

O incêndio durou três dias, durante os quais quantidades significativas de material radioativo, principalmente iodo-131, foram liberadas, espalhando-se pelo Reino Unido e pela Europa.

No entanto, estima-se que o nível de material radioativo que escapou foi um milésimo do que no caso de Chernobyl, a usina nuclear ucraniana cujo reator explodiu em 26 de abril de 1986, no pior acidente nuclear da história.

Os reatores de Windscale foram desligados e selados até o final da década de 1980, quando a descontaminação do local começou.

AS CONSEQUÊNCIAS

Durante décadas, estimou-se que o vazamento radioativo havia causado cerca de 240 casos de câncer, incluindo câncer de tireoide, leucemia e outros.

No entanto, estudos mais recentes, como o publicado pela Universidade de Newcastle em 2017, questionam isso.

De acordo com suas conclusões, o incêndio no reator nuclear de Windscale liberou iodo-131, o que aumentou o risco de câncer de tireoide no noroeste da Inglaterra, especialmente entre as crianças expostas.

No entanto, o estudo, que analisou a incidência de câncer de tireoide nas regiões de Cumbria e Lancashire, mais próximas ao acidente, não encontrou evidências consistentes de que a exposição ao iodo-131 tenha causado um aumento significativo nos casos de câncer nessas áreas. A quantidade exata de radioatividade liberada no acidente é desconhecida.

As autoridades realizaram um amplo monitoramento ambiental após o incidente, e estimativas foram feitas a partir de medições de iodo radioativo depositado no solo e em filtros de ar no Reino Unido e na Europa continental.

Como medida de precaução, todo o leite produzido em um raio de 800 km² foi destruído por um mês, e sua distribuição foi proibida ao longo de uma faixa costeira em Cumbria devido à presença de iodo-131, o principal risco radiológico.

Embora não houvesse limites estabelecidos para a quantidade de iodo-131 no leite na época, um limite de 0,1 µCi/L foi estabelecido para proteger as crianças, particularmente contra danos à tireoide.

A decisão de proibir o leite, com base nesses cálculos, foi "corajosa e sábia", pois evitou uma dose coletiva maior entre a população local, de acordo com o físico britânico Richard Wakeford em um artigo de 2007 no Journal of Radiological Protection.

"O acidente dificilmente pode ser considerado trivial: é classificado como um acidente de nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES, na sigla em inglês) e poderia ter sido muito pior", segundo Wakeford.

O incêndio de Windscale teve profundas repercussões políticas, e a Autoridade de Energia Atômica do Reino Unido nunca mais seria a mesma, de acordo com o professor da Universidade de Manchester.

O governo britânico abriu um inquérito sobre o ocorrido em Windscale, presidido pelo matemático William Penney.

O Comitê Penney apresentou seu relatório ao governo em 26 de outubro, logo após o acidente.

O primeiro-ministro da época, Harold Macmillan, cujo governo estava imerso em delicadas negociações para restaurar a cooperação com os Estados Unidos em armas nucleares, decidiu, no entanto, que apenas um resumo do Relatório Penney seria publicado.

O relatório completo só foi tornado público 30 anos depois.

O acidente foi esquecido por muitos, até mesmo no Reino Unido, embora um novo videogame inspirado no desastre de Windscale, Atomfall, tenha reavivado o interesse por este episódio sombrio da história nuclear britânica.

A 'LOUCURA' DE VENCEDOR DO PRÊMIO NOBEL

Certamente, as consequências poderiam ter sido muito mais graves se não fosse a persistência do físico nuclear britânico John Cockcroft, que havia recebido o Prêmio Nobel de Física alguns anos antes, em 1951, com Ernest Walton, por conseguirem pela primeira vez a desintegração de um núcleo atômico.

Cockcroft, então diretor do Atomic Energy Research Establishment, um think tank do governo britânico, insistiu na instalação de filtros nas chaminés da Windscale, ressaltando que seriam a única proteção contra vazamentos radioativos em caso de incêndio.

Os construtores da usina acreditavam que era uma medida exagerada e um desperdício de tempo e dinheiro, mas, por insistência do famoso físico, acabaram adicionando-os de última hora.

"Ele percebeu que, se ocorresse um incêndio, o que era provável, não haveria como impedir que a poeira radioativa escapasse para a atmosfera", disse seu filho, Christopher Cockcroft, em uma entrevista à BBC em 2014, quando foi anunciado que as torres da usina nuclear seriam desmontadas.

Como a construção já estava bem adiantada, os filtros foram colocados de última hora no topo das chaminés de 110 metros de altura, em vez de na base, dando à usina seu perfil característico.

Os engenheiros acharam que o ganhador do Prêmio Nobel estava se intrometendo, segundo Wakeford, e começaram a chamar as torres de "Cockcroft Follies", ou as loucuras de Cockcroft.

No entanto, como argumentou Terence Price, um dos físicos que trabalharam com Cockcroft, "a palavra loucura não parecia apropriada após o acidente".

"Eles não achavam que haveria problemas e, mesmo depois que os filtros foram instalados, acho que ninguém pensou seriamente que haveria um incêndio, mas é claro que houve", disse Wakeford. Os filtros foram fundamentais para evitar um desastre maior.

"A poeira radioativa escapou, mas os filtros capturaram cerca de 95% dela", disse Christopher Cockcroft à BBC.

"Se os filtros não estivessem instalados, acredito que uma parte considerável do Distrito dos Lagos e da Cúmbria estaria proibida, pelo menos para uso agrícola e talvez para pessoas." Fonte: BBC News Mundo - 11 outubro 2025

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sexta-feira, julho 11, 2025

MISTÉRIO DOS JAVALIS RADIOATIVOS DA ALEMANHA

 Animais da Baviera foram afetados pelo desastre nuclear de Chernobyl em 1986. Desde então, várias espécies se recuperaram. Mas níveis de radioatividade permaneceram elevados em javalis. Cientistas explicam o porquê.

O acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, na antiga União Soviética, teve um grande impacto negativo na fauna e na flora da Europa Central. Nos anos seguintes ao desastre, o consumo de cogumelos e de carne de animais silvestres foi desencorajado devido à contaminação radioativa, especialmente no sul da Alemanha.

Nos últimos anos, a contaminação em veados e corças selvagens diminuiu. Mas a radiação em javalis permaneceu elevada, em contraste com outros animais. Isso ficou conhecido como o "paradoxo do javali". Agora, um grupo de pesquisadores acredita ter encontrado a razão da persistência dessa contaminação. Os resultados foram divulgados nesta quarta-feira (30/08) na revista Environmental Science & Technology.

Os pesquisadores estudaram especificamente 48 javalis (Sus scrofa) abatidos no estado alemão da Baviera entre 2019 e 2021, a cerca de 1.300 quilômetros de distância da antiga usina de Chernobyl. Eles encontraram uma exposição desproporcional ao isótopo radioativo césio-137 entre 370 e 15.000 becqueréis por quilograma, ou 25 vezes mais do que o limite legal de 600 becqueréis permitido pela União Europeia (UE). E nem toda essa contaminação tem origem no acidente de Chernobyl.

CHERNOBYL NÃO É A ÚNICA CAUSA

Estudos anteriores calcularam que cerca de 10% do césio radioativo presente nos javalis da Baviera remontava a testes de armas nucleares na década de 1950 e 1960. Os outros 90% seriam resultado do desastre de Chernobyl.

No entanto, a nova análise revelou que a maior quantidade de césio-137 detectada nos javalis estudados foi liberada durante os testes de armas nucleares que antecederam a catástrofe de Chernobyl. Especificamente, até 68% do césio presente nos javalis veio de antigos testes de armas nucleares - uma proporção surpreendentemente elevada.

"Mesmo que Chernobyl não tivesse acontecido, algumas amostras excederiam o limite", explica o cientista Georg Steinhauser, radioecologista da Universidade Técnica de Viena e coautor do estudo.

Até hoje, mesmo 60 anos depois do auge, as consequências ambientais e para a saúde dos testes de armas nucleares têm sido pouco estudadas.

UM TIPO DE TRUFA PODE ESTAR POR TRÁS DA CONTAMINAÇÃO

O cientista sugere que um tipo de cogumelo, conhecido como trufa de veado (da família Elaphomyces) pode ser o responsável por essa radioatividade "tardia" nos javalis. Como o césio é absorvido lentamente pelo solo, pode levar bastante tempo até que chegue aos fungos locais, que depois são consumidos pelos javalis, que têm uma preferência alimentar por cogumelos e trufas.

"Isso explica por que o césio 'velho' é encontrado desproporcionalmente em javalis", aponta Steinhauser.

"As trufas de veado, que podem ser encontradas a profundidades de 20 a 40 centímetros, só agora estão absorvendo o césio liberado em Chernobyl. O césio dos antigos testes de armas nucleares, por outro lado, já chegou lá há algum tempo."

Assim, também não se espera que a contaminação da carne de javali diminua significativamente nos próximos anos, porque só agora parte do césio de Chernobyl está sendo incorporado nas trufas.

"O nosso trabalho mostra quão complicadas podem ser as interrelações nos ecossistemas naturais", diz Steinhauser. "Mas também mostra precisamente que as respostas a tais enigmas podem ser encontradas se as medições forem suficientemente precisas."

O LEGADO DOS TESTES NUCLEARES

Os Estados Unidos e a União Soviética realizaram mais de 900 testes nucleares nas décadas de 1950 e 1960, durante a Guerra Fria - destes, mais de 400 foram feitos na superfície, liberando radiação na atmosfera.

O césio-137 tem meia-vida física (tempo necessário para que metade dos átomos presentes em uma amostra radioativa desintegre-se) de cerca de 30 anos, o que significa que 25% da radioatividade liberada pelos testes ainda permanece. Enquanto isso, o material liberado pela usina de Chernobyl ainda apresenta cerca de 42%.

MEDIÇÃO DA RADIOATIVIDADE ANTES DO CONSUMO

O Departamento Federal de Proteção Radiológica da Alemanha (BfS, na sigla em alemão) aponta que muitos cogumelos, especialmente na Baviera, ainda estão contaminados com césio radioativo.

Em certos cogumelos, foram medidos mais de 4.000 becqueréis de césio-137 por quilograma de massa durante testes dos anos de 2019 a 2021. No entanto, a origem do material radioativo não foi investigada nesses testes.

Segundo o Centro Alemão de Pesquisa do Câncer (DKFZ, na sigla em alemão), o césio-137 pode se acumular no tecido ósseo e danificar o material genético. A longo prazo, isso pode provocar câncer nos ossos e leucemia. Portanto, tanto os caçadores quanto os coletores de cogumelos devem medir os níveis de radiação antes de consumirem fungos e carne de animais silvestres.

A carne de javali, por muito tempo, foi considerada uma iguaria na região. Mas, nas últimas décadas, o consumo vem diminuindo, destaca Steinhauser.

Segundo ele, isso também traz impactos ecológicos: sem um grande consumo, a caça a javalis pode diminuir, aumentando a possibilidade de que as populações desse animal cresçam de forma incontrolável, ameaçando as florestas da Baviera, uma vez que muitos javalis podem causar danos à vegetação e às fazendas próximas. DW - 01/09/2023

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sexta-feira, outubro 18, 2019

Entendendo um pouco sobre as doses de radiação e a sua unidade de medida Sievert

Sievert  é uma  unidade usada para medir o impacto da radiação sob o corpo humano.  O  prefixo micro está relacionado a uma parte de um milhão (1/1.000.000).  A relação entre μSv por hora e μSv é semelhante à velocidade ou à distância em um carro.

Por exemplo, se um carro está rodando a 100 km por hora em uma hora o carro irá percorrer 100 km. Se o carro está andando a 50 km por hora,  então vai precisar de duas horas para o percorrer os 100 quilômetros. 
Assim 11,93 microsievert por hora significa que se uma pessoa fica por uma hora em um local, com essa taxa de dosse  logo essa pessoa vai receber uma  dose de 11,93 μSv de radiação. 

No entanto, note que 11,93  μSv/h é um  valor máximo, em média a taxa de dose permanece abaixo deste valor. Para retornar à analogia do carro, o carro atingiu a alta velocidade por apenas um curto tempo e na maior parte do tempo, o carro estava rodando a baixas velocidades. 

De acordo com o Comitê Científico das Nações Unidas para os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR), a radiação natural  expõe uma  pessoa,  em média,  a uma  dose de 2.400  μSv por ano.  Embora a exposição à radiação natural  dependa da localidade, há relatos de que muitas pessoas estão expostas a uma dose entre 10.000 μSv e 20.000 μSv por ano. 

Uma pessoa é normalmente exposta;
■ cerca de 200 μSv durante a viagem de ida e volta entre Tóquio e Nova York,
■ 600 μSv em um exame de RaiosX abdominal, e a
■6.900 μSv em um exame de tomografia computadorizada. 

O valor máximo de exposição a radiação recomendado pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) para o público e para um profissional que trabalha com radiação ionizante é chamado de limite de dose. 

O  limite de dose anual público é de 1 mSv ( 1000 μSv) e, para os trabalhadores, a dose limite é 20 mSv por ano em  uma  média de 5  anos, sendo que por ano não pode ultrapassar 50 mSv.

Note  que o limite de dose não inclui  a exposição à radiação natural ou médica.  Embora os riscos de câncer aumentem  proporcionalmente com a dose,  qualquer valor de dose recebida por uma pessoa, abaixo de 100 mSv, não mostra nenhum aumento significativo dos riscos da mesma desenvolver câncer. 

A tabela abaixo mostra níveis, limites e referências de dose de radiação para uma comparação simplificada.
Fonte: CNEN- Comissão Nacional de Energia Nuclear

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quarta-feira, outubro 16, 2019

Os trágicos números de Chernobyl

A primavera era sempre a época mais movimentada do ano para as mulheres que trabalhavam na fábrica de processamento de lã de ovelhas em Chernihiv, no norte da Ucrânia. E os meses de abril e maio de 1986 não foram exceção, com turnos de 12 horas para separar as pilhas à mão antes de serem lavadas e enfardadas. Só que as mulheres começaram a ficar doentes.

NÍVEL DE RADIAÇÃO EXCESSIVA
Algumas sofreram hemorragias nasais, outras reclamaram de tontura e náusea. Quando as autoridades foram chamadas para investigar, descobriram níveis de radiação na fábrica de até 180 mSv/hr. Hoje, em menos de um minuto qualquer pessoa exposta a esses níveis excederia a dose anual considerada segura em muitas partes do mundo.

ZONA DE EXCLUSÃO
A 80 km da fábrica ficava a usina nuclear de Chernobyl. Em 26 de abril de 1986, um reator da instalação sofreu uma explosão catastrófica que expôs o núcleo e jogou nuvens de material radioativo sobre seu entorno, como um incêndio incontrolável.
Mas, na época, consideraram que Chernihiv estava bem fora da zona de exclusão lançada às pressas ao redor da usina atingida, e leituras em outros lugares da cidade mostraram que ela tinha níveis comparativamente baixos de radiação.
"A área tinha a legenda amarela nos mapas de radiação, o que significa que a cidade não havia sido atingida com muita força", diz Kate Brown, historiadora da ciência do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. "Mas havia 298 mulheres nesta fábrica que receberam status de 'liquidante', termo normalmente reservado àqueles que documentaram exposições durante os primeiros dias da limpeza após o acidente."
Brown descobriu a história dos trabalhadores de lã de Chernihiv como parte de sua pesquisa sobre o impacto do desastre de Chernobyl. Sua determinação em desvendar o verdadeiro impacto do desastre fez com que ela viajasse para muitas partes da Ucrânia, Bielorússia e Rússia, entrevistasse sobreviventes, vasculhasse arquivos oficiais e revisasse relatórios antigos de hospitais.

DADOS OFICIAS: NÚMERO DE MORTOS RECONHECIDO INTERNACIONALMENTE
De acordo com os dados oficiais, o número de mortos reconhecido internacionalmente aponta que apenas 31 pessoas morreram como resultado imediato de Chernobyl, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 50 mortes podem ser diretamente atribuídas ao desastre. Em 2005, previa que mais 4 mil poderiam eventualmente ter morrido como resultado da exposição à radiação.

A pesquisa de Brown, no entanto, sugere que Chernobyl lançou uma sombra muito maior.

É COMO ABRAÇAR MÁQUINA DE RAIO-X
"Quando visitei a fábrica de lã em Chernihiv, conheci algumas das mulheres que estavam trabalhando na época", diz ela. "Havia apenas 10 dessas mulheres ainda presentes. Eles me disseram que estavam pegando fardos de lã e os classificando-os nas mesas. Em maio de 1986, a fábrica estava adquirindo lã que tinha radiação de até 30Sv/hr. Os fardos de lã que as mulheres carregavam eram como abraçar uma máquina de raios X ligada."

LÃS CONTAMINADAS
Milhares de animais foram abatidos na área ao redor de Chernobyl ao longo da evacuação. Para Brown, as lãs de alguns desses animais parecem ter chegado à fábrica em Chernihiv, juntamente com outras lãs contaminadas de fazendas sob nuvens de material radioativo que se espalharam pelo norte da Ucrânia.
Quando Brown encontrou dez das pessoas que trabalharam na fábrica de lã, suas histórias trouxeram à tona uma imagem sombria do que parece ter acontecido em toda a região, já que pessoas comuns que não tinham nada a ver com a limpeza do desastre acabaram expostas ao material radioativo.

"Eles apontaram para diferentes partes de seus corpos que tinham envelhecido mais do que o resto e onde tinham problemas de saúde", diz Brown. "Eles sabiam tudo sobre quais isótopos radioativos haviam se alojado em seus órgãos." As outras 288 mulheres, dizem os sobreviventes, morreram ou passaram a receber pensões por problemas de saúde.

LIQUIDANTES
Nas semanas e meses que se seguiram ao desastre de Chernobyl, centenas de milhares de bombeiros, engenheiros, tropas militares, policiais, mineiros, faxineiros e integrantes da equipe médica foram enviados para a área imediatamente ao redor da usina destruída em um esforço para controlar o fogo e o núcleo colapsado, e evitar que o material radioativo se espalhe ainda mais pelo ambiente.

Essas pessoas - que ficaram conhecidas como "liquidantes" devido à definição oficial soviética de "participante na liquidação das consequências do acidente da usina nuclear de Chernobyl" - receberam um status especial que, na prática, significava receber benefícios como cuidados médicos extras e indenizações. Registros oficiais indicam que 600 mil pessoas receberam o status de liquidante.

Mas um relatório publicado por membros da Academia Russa de Ciências, que foi alvo de controvérsia, indica que poderia haver até 830 mil pessoas nas equipes de limpeza de Chernobyl. Eles estimaram que entre 112.000 e 125.000 destes - cerca de 15% - haviam morrido até 2005. Muitos dos números presentes desse estudo, no entanto, foram contestados por cientistas do Ocidente, que questionaram sua validade científica.

As autoridades ucranianas, no entanto, fizeram um registro de seus próprios cidadãos afetados pelo acidente de Chernobyl.
■Em 2015, havia 318.988 trabalhadores de limpeza ucranianos no banco de dados, embora, de acordo com um relatório recente do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação na Ucrânia (NRCRM), 651.453 trabalhadores de limpeza foram examinados em razão da exposição à radiação entre 2003 e 2007. Um registro semelhante em
■A Bielorrússia registrou 99.693 trabalhadores de limpeza, enquanto outro registro incluiu 157.086 liquidantes russos.

TAXA DE MORTALIDADE
Na Ucrânia, as taxas de mortalidade entre esses indivíduos aumentaram entre 1988 e 2012, passando de 3,5 para 17,5 mortes por mil pessoas. A incapacidade entre os liquidantes também disparou. Em 1988, 68% deles eram considerados saudáveis, enquanto 26 anos depois apenas 5,5% ainda eram saudáveis. A maioria - 63% - sofria de doenças cardiovasculares e circulatórias, enquanto 13% tinham problemas com o sistema nervoso.
Na Bielorrússia, 40.049 liquidantes foram diagnosticados com câncer até 2008, além de outros 2.833 da Rússia.

40 MIL HOSPITALIZADOS
Outro grupo que suportou o peso das exposições à radiação foram aqueles que moravam na cidade vizinha de Pripyat e arredores. Demorou um dia e meio até que a evacuação de 49.614 pessoas tivesse início. Mais tarde, outras 41.986 pessoas foram evacuadas de um perímetro de 30 km ao redor da usina. Por fim, cerca de 200.000 pessoas foram deslocadas em razão do acidente.

Algumas das pessoas que viviam mais perto da usina receberam doses de radiação em suas glândulas tireoides de até 3.9Gy - cerca de 37 mil vezes a dose de um raio-x de tórax - depois de respirar material radioativo e comer alimentos contaminados.
Médicos que pesquisaram as pessoas deslocadas de suas casas relatam que a mortalidade entre os evacuados tem aumentado gradualmente, atingindo um pico entre 2008 e 2012, com 18 mortes por 1.000 pessoas.

Mas isso ainda representa uma pequena proporção das pessoas afetadas por Chernobyl.
A Agência Internacional de Energia Atômica (um braço da ONU), no entanto, diz que os estudos de saúde sobre os liquidantes "falharam em mostrar qualquer correlação direta entre a exposição à radiação" e câncer ou outras doenças.
Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível

Brown, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, encontrou evidências escondidas nos registros hospitalares, feito por volta da época do acidente, que mostram problemas generalizados.

"Em hospitais daquela região, e mesmo nos distantes como o de Moscou, as pessoas estavam repletas de sintomas agudos", diz ela. "Os registros indicam que pelo menos 40 mil pessoas foram hospitalizadas no verão após o acidente, muitas delas mulheres e crianças."

Acredita-se que a pressão política de autoridades soviéticas tenha levado à supressão de um retrato fidedigno do problema, já que não queriam arranhar a imagem do país no âmbito internacional. Com o colapso da União Soviética e como as pessoas que viviam em áreas expostas à radiação começam a se apresentar com uma série de problemas de saúde, está vindo à tona uma imagem muito mais clara do número de mortos pelo desastre.

AUMENTO DA TAXA DE MORTALIDADE
Viktor Sushko, vice-diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação, descreve o desastre de Chernobyl como o "maior desastre antropogênico da história da humanidade". O órgão estima que cerca de 5 milhões de cidadãos da antiga União Soviética, incluindo 3 milhões na Ucrânia, tenham sido afetados pelo desastre de Chernobyl. Na Bielorrússia, outras 800 mil pessoas também foram atingidas pela radiação.

Atualmente, o governo ucraniano paga pensões a 36.525 viúvas de homens que são considerados vítimas do acidente de Chernobyl.

Segundo registros oficiais, cerca de 600 mil pessoas participaram das ações de contenção posteriores ao acidente na usina.

Em janeiro de 2018, 1,8 milhão de pessoas na Ucrânia, incluindo 377.589 crianças, tinham o status de vítimas do desastre, segundo Sushko. Houve um rápido aumento no número de pessoas com deficiência entre esta população, passando de 40.106 em 1995 para 107.115 em 2018.

Curiosamente, Sushko e sua equipe também relatam que o número de vítimas de Chernobyl na Ucrânia diminuiu em 657.988 desde 2007 - uma queda de 26%. Embora não expliquem os motivos, as hipóteses prováveis são a migração, à medida que as vítimas deixaram o país, a reclassificação do estatuto de vítima e, inevitavelmente, algumas mortes.

As taxas de mortalidade em áreas contaminadas por radiação têm crescido progressivamente mais na região do que o resto da Ucrânia. O pico foi em 2007, quando morreram mais de 26 pessoas em cada 1.000 - a média nacional é de 16 para cada 1.000.

ZONAS CONTAMINADAS E ZONA DE EXCLUSÃO
No total, cerca de 150.000 km² da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia são considerados contaminados e a zona de exclusão de 4.000 km² - uma área com mais que o dobro do tamanho de Londres - permanece praticamente desabitada.

PRECIPITAÇÃO RADIOATIVA
Mas a precipitação radioativa, carregada pelos ventos, espalhou-se por grande parte do hemisfério Norte. Dois dias depois da explosão, altos níveis de radiação foram detectados na Suécia, enquanto a contaminação de plantas e campos na Grã-Bretanha levou a restrições rigorosas à venda de cordeiros e de outros produtos ovinos durante anos.
Em áreas da Europa Ocidental também afetadas, houve indícios de que as taxas de neoplasmas - crescimentos anormais de tecido que incluem câncer - foram maiores do que em áreas que escaparam à contaminação.

ALIMENTOS RADIOATIVOS
Em um arquivo em Moscou, Brown, do MIT, encontrou registros que indicavam que carne, leite e outros produtos de plantas e animais contaminados foram enviados para todo o país.
"Eles criaram manuais para as indústrias de carne, lã e leite para classificar os produtos como alta, média e baixa em termos de radiação", diz ela. "Carne com nível alto, por exemplo, foi colocada em um freezer para que eles pudessem esperar até que a taxa caísse. Carne de nível médio e baixo deveria ser misturada com carne limpa e transformada em salsicha. Foi rotulada como normal e enviada para todo o país, embora tenha havido instruções para não enviá-la para Moscou."

Brown, que escreveu um livro sobre suas descobertas chamado Manual de Sobrevivência: Um Guia de Chernobyl para o Futuro, também descobriu histórias semelhantes de mirtilos que estavam acima do limite de radiação aceitável misturado com bagas mais limpas para que todo o lote fosse aprovado no limite regulamentar.

Isso significa que as pessoas de fora da Ucrânia "tomariam um café da manhã com mirtilos de Chernobyl", mesmo sem saber, Brown diz.

Uma equipe de testes de radiação retornou à usina nuclear cinco anos após o acidente que destruiu o reator.
Estabelecer elos entre a exposição à radiação e os efeitos na saúde a longo prazo, no entanto, é uma tarefa difícil. Pode levar anos, até mesmo décadas antes que o câncer apareça, e atribuí-lo a uma causa específica pode bastante complexo.

PROBLEMAS NOS GENOMAS
Um estudo recente, no entanto, identificou problemas nos genomas de crianças que foram expostas durante o desastre ou que nasceram de pais que foram expostos. Foram achados níveis elevados de dano e instabilidade em seus genomas.

"A instabilidade do genoma representa um risco significativo de câncer", diz Aleksandra Fučić, do Instituto de Pesquisa Médica e Saúde Ocupacional, na Croácia. Filha de uma mulher ucraniana, ela tem atuado com cientistas russos para estudar os efeitos da radiação de Chernobyl sobre crianças da região. "Nos casos de Chernobyl, o tempo não está curando, mas um período de latência para o desenvolvimento do câncer."

As taxas de suicídio entre as pessoas envolvidas na limpeza em Chernobyl são maiores do que na população geral, segundo estudos, que também descobriram que as pessoas que relataram viver nas zonas afetadas pelo desastre na Ucrânia tinham taxas mais altas de problemas com álcool e níveis mais baixos de saúde mental.

Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível. Mas, apesar do quadro sombrio da maioria das pinturas de pesquisa, há algumas histórias de esperança também.
Três engenheiros que se voluntariaram para drenar milhões de galões de água de tanques sob o reator em chamas nos dias logo depois da explosão passaram por águas altamente radioativas e detritos para alcançar válvulas. Seu heroísmo é um dos momentos mais dramáticos da recente série da HBO sobre o desastre, Chernobyl. Surpreendentemente, dois dos três ainda estão vivos, apesar da proteção mínima contra a radiação durante a missão. O terceiro deles, Borys Baranov, viveu até 2005. Fonte: BBC Brasil -10 agosto 2019

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quinta-feira, março 15, 2018

Japão homenageia vítimas do acidente nuclear em Fukushima

O Japão lembrou no domingo (11/03), com várias cerimônias e um minuto de silêncio, o sétimo aniversário do terremoto e do tsunami que arrasaram parte do litoral nordeste do país e provocaram, em Fukushima, um dos piores acidentes nucleares da história.
Em diversos pontos do Japão, e especialmente nas regiões mais afetadas pela tragédia, os mais de 18 mil mortos e desaparecidos deixados pela catástrofe foram homenageados. Às 14h46 (horário local), instante quando o terremoto de magnitude 9 graus na escala Richter foi registrado, todos fizeram um minuto de silêncio.

TERREMOTO E TSUNAMI
O forte terremoto registrado no mar próximo ao litoral nordeste do Japão gerou um tsunami, que destruiu cidades inteiras e atingiu a usina nuclear de Fukushima, em 11 de março de 2011.
A água deixou a instalação sem sistema de refrigeração, o que acabou provocando a fusão parcial dos três operadores que estavam em funcionamento no momento do acidente.

O tsunami deixou, segundo as autoridades japonesas;
■18.434 mortos e desaparecidos.
■ Outras 3.600 pessoas, principalmente de Fukushima, morreram posteriormente de causas ligadas à tragédia, como doenças e suicídio.

DESALOJADO
Até hoje, 73.349 pessoas seguem vivendo em casas temporárias, com familiares e centros de apoio distribuídos por todo país, de acordo com dados divulgados pelo governo do Japão. A maioria dessas pessoas antes morava na região do entorno da usina nuclear, que ainda é considerada inabitável por causa do nível de radiação.

Várias áreas foram progressivamente sendo reabertas após as equipes do governo realizarem tarefas de limpeza e descontaminação radiativa, mas poucos quiseram voltar aos seus antigos lares, por medo dos efeitos do acidente na região.
O acidente em Fukushima foi o segundo pior da história, sendo superado apenas pelo registrado em 1986 em Chernobil, na Ucrânia, então União Soviética. Fonte: Deutsche Welle – 11.03.2018

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quarta-feira, setembro 13, 2017

Os 30 anos do acidente radioativo do césio-137

Técnicos retiram lixo radioativo das áreas contaminadas nos setores
Aeroporto e Ferroviário, no centro de Goiânia,
bairros mais afetados pela contaminação do césio-137
A cada mês de setembro, desde 1987, a árvore genealógica da família Alves Ferreira lembra a maior tragédia radiológica urbana da história da humanidade.

Era o dia 13 do mês de setembro, uma cápsula com cloreto de césio --sal obtido por meio do radioisótopo 137 do elemento químico césio-- foi aberta em uma casa da rua 57, no setor Aeroporto da capital goiana, antes de seguir para um ferro-velho.

PRECONCEITOS
Os dias seguintes foram de dor, ferimentos, sofrimento e morte. Depois, preconceito e incerteza quanto ao futuro das 129 pessoas contaminadas pela radiação. Esse dia jamais chegou ao fim.
Um dia, uma passageira  do táxi perguntou se não tinha nenhum perigo de ficar no carro com os vidros fechados. Eu disse que não, mas que ela ficasse à vontade se quisesse descer  O Hyundai prateado modelo HB, placas de Aparecida de Goiânia, está a duas quadras do aeroporto da capital goiana. Ele é guiado por Odesson Alves Ferreira, 62, cuja mão esquerda exibe as cicatrizes do acidente. Ele perdeu a palma da mão --ela foi reconstituída com parte da pele que cobre o abdômen-- e as falanges do dedo indicador da mão foram amputadas. Odesson cadastrou-se há um ano na Uber, após seguidas tentativas de empreendimentos barradas pelo preconceito.
É a memória oral da história do césio-137: conta inúmeras vezes com precisão o que aconteceu desde o dia 13 de setembro de 1987. Tem, na cabeça, os números exatos do peso da peça de ferro-velho, da cápsula de césio, do tamanho e das especificações do que foi enterrado no depósito de Abadia de Goiás.

A precisão das datas impressiona, assim como o bom humor ao contar situações pitorescas dos primeiros dias de tragédia. “O médico pediu que eu tomasse cerveja para que a urina eliminasse a radiação, e eu até achei bom --não precisava justificar a cervejinha para a minha mulher. Mas não adiantou nada, e o banheiro do bar precisou ser demolido porque também recebeu radiação.”

Antes de dirigir e presidir, por duas vezes, a associação das vítimas, o aposentado tentou por duas vezes investir em comércios de bairro em  Aparecida de Goiânia, cidade que faz limite com Goiânia e que abriga a maior parte da família Alves Ferreira, a mais afetada pela tragédia --são 50 pessoas atingidas, além das duas mortes diretamente ligadas ao acidente e outras duas posteriores.

“Fomos chamados de ‘marajás’ porque recebíamos uma pensão miserável do Estado. Entrei em depressão porque não podia mais trabalhar --fui aposentado por invalidez. Montei uma frutaria, e todos os dias ia até o Ceasa buscar tudo fresquinho. Não conseguia vender. As pessoas passavam na porta, iam até outro lugar e passavam com a mercadoria. Acabei com a frutaria, e montamos um bar. Também passavam com garrafa de cerveja vazia, iam no boteco vizinho e compravam. O irmão de um deles me falou: 'O pessoal não compra cerveja aqui porque acha que está contaminada'.”

Nos anos seguintes, as vítimas fizeram uma via-crúcis para matricularem seus filhos em colégios de Goiânia e de Aparecida de Goiânia. Receberam o não mais de duas vezes cada uma.

Cunhada de Odesson, Luiza Odete dos Santos mentiu por anos sobre a origem da longa cicatriz que exibe no lado esquerdo do pescoço. “Isso aqui, pegando meu rosto, passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. E o pessoal me ensinava um remédio. Depois, o tempo foi passando, e eu disse: vou viver. Se o pessoal pergunta, eu falo. E fica assustado, porque ainda existe a discriminação. Pessoas mal informadas ainda acham que a gente transmite radiação.”

Lourdes Alves Ferreira, mãe de Leide das Neves, 6 --a menina morta no acidente que virou o símbolo da luta contra a radiação e o preconceito diante das vítimas--, tem a guia médica zerada nas clínicas que frequenta por causa do acidente.

“As recepcionistas insistem para saber por que ela é zerada”, diz. “Um dia, uma gritou. E fui pertinho dela e falei: sou obrigada a explicar o porquê? Quando o médico me chamou, ela fez questão de me acompanhar até o consultório. Eu disse que era uma vítima do césio. O tempo todinho que fiquei esperando, se ela não estava escrevendo, estava olhando para mim. Eu era uma pessoa estranha para ela. Já aconteceu de a pessoa, quando soube quem era eu, se levantar de perto de mim.”

Isso aqui passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. O tempo foi passando, e eu disse: vou viver. Se perguntam, eu falo. Ficam assustados. Acha que a gente transmite radiação

AS VÍTIMAS ETERNAS
A Secretaria Estadual da Saúde, por meio do Cara (Centro de Atendimento ao Radioacidentado), ainda hoje monitora 1.292 pessoas, entre radioacidentados, parentes da primeira e segunda geração e funcionários que tiveram contato com os afetados durante os dias de controle da irradiação.

Elas sofreram com problemas físicos e psiquiátricos. Obrigatoriamente, devem visitar o Cara pelo menos uma vez por ano --a frequência já foi mensal e semestral.  Em 2016, o centro realizou 5.741 atendimentos --destes, 1.497 no setor de enfermagem e 811 no de psicologia.

Membros foram amputados, braços e mãos receberam enxertos e, em duas vítimas, as feridas provocadas pelo contato com o césio --as radiodermites-- ainda não fecharam. Eles vivem às custas de curativos, paliativos às lesões que sofreram e nunca foram curadas. E ainda há o preconceito.

“Há um cansaço com essa situação. Um rapaz que está para amputar o pé teve a proposta para tratamento com células-tronco, com uma equipe da Suíça. E ele negou: ‘Estou cansado de ser cobaia. Já não sei quantas tentativas foram feitas, e nenhuma deu resultado. Prefiro ser amputado”, afirma a psicológica Suzana Helou, que atende aos radioacidentados desde outubro de 1987.

CÁPSULA E CONTAMINAÇÃO
A cápsula que causou o acidente era parte de um aparelho radioterapêutico que estava abandonado no terreno em que funcionou o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Foi utilizado de 1971 até 1985, quando o instituto foi desativado. O equipamento de  teleterapia (radioterapia externa) , que continha o césio, foi abandonado naquele ano em meio às ruínas do centro de radioterapia.

A peça foi encontrada no dia 13 de setembro de 1987 por Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, que depois a revenderiam para um ferro-velho. A peça, de aproximadamente 200 quilos de ferro e chumbo, tinha 19,26 gramas de césio-137, guardada em um recipiente arredondado, semelhante a uma lata de goiabada. Ela foi levada para a casa de Roberto. No terreno da rua 57, o invólucro de chumbo foi perfurado, e a placa de lítio que isolava as partículas radioativas, rompida.

De lá, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, então com 37 anos e dono de um ferro‑velho na rua 26-A, no mesmo bairro. Ele percebeu o brilho azul que irradiava do recipiente arredondado. Fragmentos de pó saíam da cápsula e foram distribuídos. Assim, o brilho e a contaminação se espalharam pelos bairros adjacentes ao setor Aeroporto.

Dos que tiveram contato com o pó, restaram 46 pessoas diretamente contaminadas. Todas elas passaram por um banho com escovação e vinagre para se descontaminarem, mas a radiação continuou. Suas roupas, seus pertences e suas casas demolidas foram descartados --estão enterrados no depósito de lixo radiológico de Abadia de Goiás (23 km de Goiânia).

Quatro pessoas morreram depois de um mês isoladas no hospital naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro: Leide da Neves Ferreira, 6, Maria Gabriela Ferreira, 37, Israel Baptista dos Santos, 22, e Admílson Alves de Souza.

Todos eles receberam uma dose muito alta de radiação, medidas pelo índice Gy (gray). Para cada sessão de radioterapia para câncer de mama, por exemplo, a dose é de, no máximo, 2 Gy. Devair, que teve contato com uma dose maior (7 Gys), sobreviveu por não ingerir o pó. Leide das Neves, que ingeriu o césio ao comer um ovo cozido com as mãos sujas da substância, absorveu diretamente 6 Gy.

Os corpos tiveram que ser colocados em caixões de chumbo, de cerca de 700 quilos, e sepultados sob uma estrutura de toneladas de concreto. Os primeiros enterros, de Leide e de Maria Gabriela, sofreram tentativas de impedimento, com blocos interrompendo o tráfego de veículos e pedras e cruzes dos túmulos atiradas contra os veículos que transportavam os caixões, que foram içados por um guindaste para os túmulos. As estruturas de concreto, que não têm contato com o solo, mas recebem constantemente flores de quem ainda se sensibiliza com a tragédia, hoje são as mais preservadas do Cemitério Parque de Goiânia.  

Presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Suely Lina de Moraes ainda reside na mesma casa da época do acidente, na rua 26. Os fundos da residência dão para o terreno concretado que um dia foi o ferro-velho de Devair --a casa foi demolida depois do acidente. “A diretora trazia meu filho da escola e o deixava na esquina, por medo de contaminar. Esses dias  teve um evento no lote do Devair, e a polícia veio para acompanhar. Quando viram que era a rua do césio, não entraram. Não desceram com medo da radiação.”

HOJE, NÃO HÁ MAIS CONTAMINAÇÃO NAS PESSOAS NEM NOS LOTES.
Suely sorri o tempo todo, mesmo quando se lembra da tragédia. É ela a responsável por controlar as informações e os cuidados com as vítimas do acidente. “Tem os remédios de uso contínuo que não estão disponiveis no SUS. Mas outros custam R$ 200, R$ 100. E não tem.” O Cara afirma que a questão de abastecimento de medicamentos está sendo resolvida pela Secretaria Estadual da Saúde.

Ela tem um mapa, feito à mão, com as vítimas de câncer residentes nos setores Aeroporto e Ferroviário, os mais atingidos pela radiação. Ela aponta 23 casos. “São os moradores daqui, que não saíram daqui. Não vieram fazer pesquisa [epidemiológica, que atesta a incidência maior ou menor de doenças] deles.

Nunca foram na fundação, nem sabem onde é. Enquanto as vítimas diretas eram atendidas, eles continuaram aqui. Estavam expostos [à radiação].”

“As doenças causadas pela radiação limitam-se às mortes da época do acidente e aos 22 pacientes com radiodermites. Foram 129 vítimas diretas. Nós podemos afirmar que a doença do césio se limita a esse grupo”, rebate o diretor-geral do Cara, André Luiz de Souza.

“É um discurso permanente deles, de que serão sempre vítimas do acidente. É um fator estressor permanente, de um dia contraírem doenças degenerativas, como câncer e leucemias, ou ter um descendente com deformação genética. Foi o que um pesquisador norte-americano chamou de ‘grávidos da morte’. Tudo é atribuído ao acidente radiológico”, afirma a psicóloga Suzana Helou.

Em dezembro de 2016, Helou entrevistou acidentados e também a população em geral. A pergunta era se os atingidos pela exposição ao césio ainda se consideravam vítimas do acidente radioativo. “Mais de 80% respondeu que sim”, diz. “A maior incidência de resposta é a discriminação que eles acreditam sofrer por parte da população em geral.”

CONSTRUÇÃO DO DEPÓSITO
A 23 km do local do acidente, o antigo vilarejo de Abadia de Goiás foi escolhido para receber os restos da tragédia. Foram 17 anos para que a estrutura ficasse pronta: dois campos de concreto cobertos de grama com 60 metros de comprimento, 18 de largura e oito de altura.
O reservatório contém todas as blindagens e a fonte que continha o césio --nele estão todos os rejeitos de média radioatividade.

Abadia virou cidade de 6.868 habitantes, emancipada em dezembro de 1995. A cidade foi escolhida tecnicamente, com base na geologia local para que não tivesse influência na natureza , afirma Marco Antonio Pereira da Silva, do CRCN-CO (Centro Nacional de Ciência Nuclear do Centro-Oeste). Os materiais contaminados estão envolvidos em contêineres, e a base de concreto impede que eles contaminem o solo nem o lençol freático, aponta.

O desenvolvimento, afirma, veio em parte pela construção do depósito. "Antes da instalação, havia muito medo de remover o depósito para cá, por falta de informação. Hoje, a população sabe que não há nenhum risco --pelo contrário, isso trouxe desenvolvimento. Abadia entrou no mapa científico do mundo --muita gente vem para cá para fazer pesquisas e desenvolver outras. Não há estigma na cidade --ele é maior em Goiânia do que aqui. Abadia é uma cidade que se incorporou à construção do depósito. Fonte: UOL Noticias – 10 de setembro de 2017

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quinta-feira, agosto 04, 2016

Chernobyl:Itália enfrenta invasão de javalis radioativos

Quase trinta anos após o desastre da usina de Chernobyl (Ucrânia), a maior tragédia radioativa da história continua a causar graves problemas na Europa e a deixar a população em alerta. Desta vez, o alarme foi soado em uma zona de caça livre no norte da Itália. Após um ano de pesquisas, o Instituto Zooprofilático Experimental de Piemonte, Ligúria e Valle d'Aosta – entidade ligada ao governo regional– divulgou a presença de traços de césio-137 acima dos limites permitidos pela União Europeia em dezenas de javalis encontrados na província piemontesa de Verbano-Cusio-Ossola, especialmente na pequena comunidade de Valsesia. A carne do javali seria consumida pelos caçadores.

O instituto começou a investigar a área com maior rigor em março de 2013, após a descoberta de 27 animais contaminados. Em pouco mais de um ano, foram analisados 1.441 porcos selvagens e a constatação foi a de que mais de 10% da população (166 javalis) apresentam índice de radioatividade superior a 600 becquerel/quilo, limite máximo permitido pela UE em animais selvagens. O becquerel é a unidade usada internacionalmente para mediação de radioatividade.

Embora não tenha revelado precisamente o nível de radiação encontrado nos animais de Vasesia, Maria Caramelli, diretora do instituto, afirmou que as análises apresentaram traços de césio-137 "significativamente superiores" ao permitido pela comunidade europeia.

NUVEM RADIOATIVA
De acordo com a instituição, a contaminação dos javalis é consequência ainda da nuvem radioativa provocada pela explosão de Chernobyl em 1986. Nos dias decorrentes ao desastre, a nuvem se espalhou por dezenas de países da Europa. Na Itália, um mapeamento feito pelo CCR (Centro Comum de Pesquisa da União Europeia) constatou que as regiões mais afetadas foram Lombardia e Piemonte. Fortes chuvas atingiram essas áreas naquele período fazendo com que o césio penetrasse maciçamente no solo.

A nuvem tóxica, explica Maria Caramelli, passaram pelas regiões do norte do nosso país. Em Valsesia a precipitação radioativa foi particularmente intensa por causa da chuva que caiu nesse período. As carcaças de animais selvagens de outras áreas do Piemonte não revelaram contaminação

A atual propagação da substância radioativa entre a população de porcos selvagens, e não em outros animais, pode ser consequência dos hábitos alimentares dos javalis. Como eles se nutrem principalmente de raízes, escavam camadas profundas do solo em busca do alimento, expondo‑se assim à radiação. Além disso, as raízes são por si próprias grandes concentradoras de radiatividade. 

Após a descoberta, o Instituto Zooprofilático emitiu um alerta pedindo maior controle na zona de caça da província de Verbano-Cusio-Ossola. Atualmente, o Piemonte possui um plano de monitoramento da carne proveniente da caça na região. Porém, a fiscalização não atinge a totalidade dos animais abatidos em zonas selvagens antes de serem consumidos.

ÍNDICES SUBESTIMADOS
Para Massimo Bonfatti, coordenador na Itália do Projeto Humus, que trabalha com políticas de contenção de contaminação em áreas atingidas por radioatividade, a situação é ainda mais grave do que parece. Segundo o médico, dois fatores não estão sendo levados em consideração para avaliar precisamente o quadro. O primeiro deles seria a análise exclusiva de somente um isótopo radioativo.

"Um problema grave é que o índice de validação de contaminação na Europa é feito só com o césio-137, mas a nuvem que foi liberada por Chernobyl era cheia de outros elementos em proporções diversas. Não conseguimos nunca ter, por exemplo, o resultado da contaminação no norte da Itália por césio-134, que também pode causar sérios danos".
Além disso, segundo o coordenador, o valor permitido de radiação de 600 becquerel por quilo de carne é extremamente elevado. "É complicado, mas estamos trabalhando na elaboração de uma proposta de projeto de lei para baixar esse índice para 10 bq/kg"

MAIOR RIGOR
Ainda de acordo com Bonfatti, os danos causados à saúde humana por contaminação radioativa são gigantescos. "Nós sustentamos que a grande epidemia de câncer que existe no mundo é provavelmente consequência da radiação que foi liberada do pós-guerra até hoje no planeta. Além disso, estudos já revelaram que o césio-137 se liga às fibras do coração provocando o surgimento de graves patologias cardíacas. Fonte: UOL, em Roma 28/07/2014; La Repubblica - 19 giugno 2014

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