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sexta-feira, outubro 18, 2019

Entendendo um pouco sobre as doses de radiação e a sua unidade de medida Sievert

Sievert  é uma  unidade usada para medir o impacto da radiação sob o corpo humano.  O  prefixo micro está relacionado a uma parte de um milhão (1/1.000.000).  A relação entre μSv por hora e μSv é semelhante à velocidade ou à distância em um carro.

Por exemplo, se um carro está rodando a 100 km por hora em uma hora o carro irá percorrer 100 km. Se o carro está andando a 50 km por hora,  então vai precisar de duas horas para o percorrer os 100 quilômetros. 
Assim 11,93 microsievert por hora significa que se uma pessoa fica por uma hora em um local, com essa taxa de dosse  logo essa pessoa vai receber uma  dose de 11,93 μSv de radiação. 

No entanto, note que 11,93  μSv/h é um  valor máximo, em média a taxa de dose permanece abaixo deste valor. Para retornar à analogia do carro, o carro atingiu a alta velocidade por apenas um curto tempo e na maior parte do tempo, o carro estava rodando a baixas velocidades. 

De acordo com o Comitê Científico das Nações Unidas para os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR), a radiação natural  expõe uma  pessoa,  em média,  a uma  dose de 2.400  μSv por ano.  Embora a exposição à radiação natural  dependa da localidade, há relatos de que muitas pessoas estão expostas a uma dose entre 10.000 μSv e 20.000 μSv por ano. 

Uma pessoa é normalmente exposta;
■ cerca de 200 μSv durante a viagem de ida e volta entre Tóquio e Nova York,
■ 600 μSv em um exame de RaiosX abdominal, e a
■6.900 μSv em um exame de tomografia computadorizada. 

O valor máximo de exposição a radiação recomendado pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) para o público e para um profissional que trabalha com radiação ionizante é chamado de limite de dose. 

O  limite de dose anual público é de 1 mSv ( 1000 μSv) e, para os trabalhadores, a dose limite é 20 mSv por ano em  uma  média de 5  anos, sendo que por ano não pode ultrapassar 50 mSv.

Note  que o limite de dose não inclui  a exposição à radiação natural ou médica.  Embora os riscos de câncer aumentem  proporcionalmente com a dose,  qualquer valor de dose recebida por uma pessoa, abaixo de 100 mSv, não mostra nenhum aumento significativo dos riscos da mesma desenvolver câncer. 

A tabela abaixo mostra níveis, limites e referências de dose de radiação para uma comparação simplificada.
Fonte: CNEN- Comissão Nacional de Energia Nuclear

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quarta-feira, outubro 16, 2019

Os trágicos números de Chernobyl

A primavera era sempre a época mais movimentada do ano para as mulheres que trabalhavam na fábrica de processamento de lã de ovelhas em Chernihiv, no norte da Ucrânia. E os meses de abril e maio de 1986 não foram exceção, com turnos de 12 horas para separar as pilhas à mão antes de serem lavadas e enfardadas. Só que as mulheres começaram a ficar doentes.

NÍVEL DE RADIAÇÃO EXCESSIVA
Algumas sofreram hemorragias nasais, outras reclamaram de tontura e náusea. Quando as autoridades foram chamadas para investigar, descobriram níveis de radiação na fábrica de até 180 mSv/hr. Hoje, em menos de um minuto qualquer pessoa exposta a esses níveis excederia a dose anual considerada segura em muitas partes do mundo.

ZONA DE EXCLUSÃO
A 80 km da fábrica ficava a usina nuclear de Chernobyl. Em 26 de abril de 1986, um reator da instalação sofreu uma explosão catastrófica que expôs o núcleo e jogou nuvens de material radioativo sobre seu entorno, como um incêndio incontrolável.
Mas, na época, consideraram que Chernihiv estava bem fora da zona de exclusão lançada às pressas ao redor da usina atingida, e leituras em outros lugares da cidade mostraram que ela tinha níveis comparativamente baixos de radiação.
"A área tinha a legenda amarela nos mapas de radiação, o que significa que a cidade não havia sido atingida com muita força", diz Kate Brown, historiadora da ciência do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. "Mas havia 298 mulheres nesta fábrica que receberam status de 'liquidante', termo normalmente reservado àqueles que documentaram exposições durante os primeiros dias da limpeza após o acidente."
Brown descobriu a história dos trabalhadores de lã de Chernihiv como parte de sua pesquisa sobre o impacto do desastre de Chernobyl. Sua determinação em desvendar o verdadeiro impacto do desastre fez com que ela viajasse para muitas partes da Ucrânia, Bielorússia e Rússia, entrevistasse sobreviventes, vasculhasse arquivos oficiais e revisasse relatórios antigos de hospitais.

DADOS OFICIAS: NÚMERO DE MORTOS RECONHECIDO INTERNACIONALMENTE
De acordo com os dados oficiais, o número de mortos reconhecido internacionalmente aponta que apenas 31 pessoas morreram como resultado imediato de Chernobyl, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 50 mortes podem ser diretamente atribuídas ao desastre. Em 2005, previa que mais 4 mil poderiam eventualmente ter morrido como resultado da exposição à radiação.

A pesquisa de Brown, no entanto, sugere que Chernobyl lançou uma sombra muito maior.

É COMO ABRAÇAR MÁQUINA DE RAIO-X
"Quando visitei a fábrica de lã em Chernihiv, conheci algumas das mulheres que estavam trabalhando na época", diz ela. "Havia apenas 10 dessas mulheres ainda presentes. Eles me disseram que estavam pegando fardos de lã e os classificando-os nas mesas. Em maio de 1986, a fábrica estava adquirindo lã que tinha radiação de até 30Sv/hr. Os fardos de lã que as mulheres carregavam eram como abraçar uma máquina de raios X ligada."

LÃS CONTAMINADAS
Milhares de animais foram abatidos na área ao redor de Chernobyl ao longo da evacuação. Para Brown, as lãs de alguns desses animais parecem ter chegado à fábrica em Chernihiv, juntamente com outras lãs contaminadas de fazendas sob nuvens de material radioativo que se espalharam pelo norte da Ucrânia.
Quando Brown encontrou dez das pessoas que trabalharam na fábrica de lã, suas histórias trouxeram à tona uma imagem sombria do que parece ter acontecido em toda a região, já que pessoas comuns que não tinham nada a ver com a limpeza do desastre acabaram expostas ao material radioativo.

"Eles apontaram para diferentes partes de seus corpos que tinham envelhecido mais do que o resto e onde tinham problemas de saúde", diz Brown. "Eles sabiam tudo sobre quais isótopos radioativos haviam se alojado em seus órgãos." As outras 288 mulheres, dizem os sobreviventes, morreram ou passaram a receber pensões por problemas de saúde.

LIQUIDANTES
Nas semanas e meses que se seguiram ao desastre de Chernobyl, centenas de milhares de bombeiros, engenheiros, tropas militares, policiais, mineiros, faxineiros e integrantes da equipe médica foram enviados para a área imediatamente ao redor da usina destruída em um esforço para controlar o fogo e o núcleo colapsado, e evitar que o material radioativo se espalhe ainda mais pelo ambiente.

Essas pessoas - que ficaram conhecidas como "liquidantes" devido à definição oficial soviética de "participante na liquidação das consequências do acidente da usina nuclear de Chernobyl" - receberam um status especial que, na prática, significava receber benefícios como cuidados médicos extras e indenizações. Registros oficiais indicam que 600 mil pessoas receberam o status de liquidante.

Mas um relatório publicado por membros da Academia Russa de Ciências, que foi alvo de controvérsia, indica que poderia haver até 830 mil pessoas nas equipes de limpeza de Chernobyl. Eles estimaram que entre 112.000 e 125.000 destes - cerca de 15% - haviam morrido até 2005. Muitos dos números presentes desse estudo, no entanto, foram contestados por cientistas do Ocidente, que questionaram sua validade científica.

As autoridades ucranianas, no entanto, fizeram um registro de seus próprios cidadãos afetados pelo acidente de Chernobyl.
■Em 2015, havia 318.988 trabalhadores de limpeza ucranianos no banco de dados, embora, de acordo com um relatório recente do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação na Ucrânia (NRCRM), 651.453 trabalhadores de limpeza foram examinados em razão da exposição à radiação entre 2003 e 2007. Um registro semelhante em
■A Bielorrússia registrou 99.693 trabalhadores de limpeza, enquanto outro registro incluiu 157.086 liquidantes russos.

TAXA DE MORTALIDADE
Na Ucrânia, as taxas de mortalidade entre esses indivíduos aumentaram entre 1988 e 2012, passando de 3,5 para 17,5 mortes por mil pessoas. A incapacidade entre os liquidantes também disparou. Em 1988, 68% deles eram considerados saudáveis, enquanto 26 anos depois apenas 5,5% ainda eram saudáveis. A maioria - 63% - sofria de doenças cardiovasculares e circulatórias, enquanto 13% tinham problemas com o sistema nervoso.
Na Bielorrússia, 40.049 liquidantes foram diagnosticados com câncer até 2008, além de outros 2.833 da Rússia.

40 MIL HOSPITALIZADOS
Outro grupo que suportou o peso das exposições à radiação foram aqueles que moravam na cidade vizinha de Pripyat e arredores. Demorou um dia e meio até que a evacuação de 49.614 pessoas tivesse início. Mais tarde, outras 41.986 pessoas foram evacuadas de um perímetro de 30 km ao redor da usina. Por fim, cerca de 200.000 pessoas foram deslocadas em razão do acidente.

Algumas das pessoas que viviam mais perto da usina receberam doses de radiação em suas glândulas tireoides de até 3.9Gy - cerca de 37 mil vezes a dose de um raio-x de tórax - depois de respirar material radioativo e comer alimentos contaminados.
Médicos que pesquisaram as pessoas deslocadas de suas casas relatam que a mortalidade entre os evacuados tem aumentado gradualmente, atingindo um pico entre 2008 e 2012, com 18 mortes por 1.000 pessoas.

Mas isso ainda representa uma pequena proporção das pessoas afetadas por Chernobyl.
A Agência Internacional de Energia Atômica (um braço da ONU), no entanto, diz que os estudos de saúde sobre os liquidantes "falharam em mostrar qualquer correlação direta entre a exposição à radiação" e câncer ou outras doenças.
Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível

Brown, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, encontrou evidências escondidas nos registros hospitalares, feito por volta da época do acidente, que mostram problemas generalizados.

"Em hospitais daquela região, e mesmo nos distantes como o de Moscou, as pessoas estavam repletas de sintomas agudos", diz ela. "Os registros indicam que pelo menos 40 mil pessoas foram hospitalizadas no verão após o acidente, muitas delas mulheres e crianças."

Acredita-se que a pressão política de autoridades soviéticas tenha levado à supressão de um retrato fidedigno do problema, já que não queriam arranhar a imagem do país no âmbito internacional. Com o colapso da União Soviética e como as pessoas que viviam em áreas expostas à radiação começam a se apresentar com uma série de problemas de saúde, está vindo à tona uma imagem muito mais clara do número de mortos pelo desastre.

AUMENTO DA TAXA DE MORTALIDADE
Viktor Sushko, vice-diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa Médica de Radiação, descreve o desastre de Chernobyl como o "maior desastre antropogênico da história da humanidade". O órgão estima que cerca de 5 milhões de cidadãos da antiga União Soviética, incluindo 3 milhões na Ucrânia, tenham sido afetados pelo desastre de Chernobyl. Na Bielorrússia, outras 800 mil pessoas também foram atingidas pela radiação.

Atualmente, o governo ucraniano paga pensões a 36.525 viúvas de homens que são considerados vítimas do acidente de Chernobyl.

Segundo registros oficiais, cerca de 600 mil pessoas participaram das ações de contenção posteriores ao acidente na usina.

Em janeiro de 2018, 1,8 milhão de pessoas na Ucrânia, incluindo 377.589 crianças, tinham o status de vítimas do desastre, segundo Sushko. Houve um rápido aumento no número de pessoas com deficiência entre esta população, passando de 40.106 em 1995 para 107.115 em 2018.

Curiosamente, Sushko e sua equipe também relatam que o número de vítimas de Chernobyl na Ucrânia diminuiu em 657.988 desde 2007 - uma queda de 26%. Embora não expliquem os motivos, as hipóteses prováveis são a migração, à medida que as vítimas deixaram o país, a reclassificação do estatuto de vítima e, inevitavelmente, algumas mortes.

As taxas de mortalidade em áreas contaminadas por radiação têm crescido progressivamente mais na região do que o resto da Ucrânia. O pico foi em 2007, quando morreram mais de 26 pessoas em cada 1.000 - a média nacional é de 16 para cada 1.000.

ZONAS CONTAMINADAS E ZONA DE EXCLUSÃO
No total, cerca de 150.000 km² da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia são considerados contaminados e a zona de exclusão de 4.000 km² - uma área com mais que o dobro do tamanho de Londres - permanece praticamente desabitada.

PRECIPITAÇÃO RADIOATIVA
Mas a precipitação radioativa, carregada pelos ventos, espalhou-se por grande parte do hemisfério Norte. Dois dias depois da explosão, altos níveis de radiação foram detectados na Suécia, enquanto a contaminação de plantas e campos na Grã-Bretanha levou a restrições rigorosas à venda de cordeiros e de outros produtos ovinos durante anos.
Em áreas da Europa Ocidental também afetadas, houve indícios de que as taxas de neoplasmas - crescimentos anormais de tecido que incluem câncer - foram maiores do que em áreas que escaparam à contaminação.

ALIMENTOS RADIOATIVOS
Em um arquivo em Moscou, Brown, do MIT, encontrou registros que indicavam que carne, leite e outros produtos de plantas e animais contaminados foram enviados para todo o país.
"Eles criaram manuais para as indústrias de carne, lã e leite para classificar os produtos como alta, média e baixa em termos de radiação", diz ela. "Carne com nível alto, por exemplo, foi colocada em um freezer para que eles pudessem esperar até que a taxa caísse. Carne de nível médio e baixo deveria ser misturada com carne limpa e transformada em salsicha. Foi rotulada como normal e enviada para todo o país, embora tenha havido instruções para não enviá-la para Moscou."

Brown, que escreveu um livro sobre suas descobertas chamado Manual de Sobrevivência: Um Guia de Chernobyl para o Futuro, também descobriu histórias semelhantes de mirtilos que estavam acima do limite de radiação aceitável misturado com bagas mais limpas para que todo o lote fosse aprovado no limite regulamentar.

Isso significa que as pessoas de fora da Ucrânia "tomariam um café da manhã com mirtilos de Chernobyl", mesmo sem saber, Brown diz.

Uma equipe de testes de radiação retornou à usina nuclear cinco anos após o acidente que destruiu o reator.
Estabelecer elos entre a exposição à radiação e os efeitos na saúde a longo prazo, no entanto, é uma tarefa difícil. Pode levar anos, até mesmo décadas antes que o câncer apareça, e atribuí-lo a uma causa específica pode bastante complexo.

PROBLEMAS NOS GENOMAS
Um estudo recente, no entanto, identificou problemas nos genomas de crianças que foram expostas durante o desastre ou que nasceram de pais que foram expostos. Foram achados níveis elevados de dano e instabilidade em seus genomas.

"A instabilidade do genoma representa um risco significativo de câncer", diz Aleksandra Fučić, do Instituto de Pesquisa Médica e Saúde Ocupacional, na Croácia. Filha de uma mulher ucraniana, ela tem atuado com cientistas russos para estudar os efeitos da radiação de Chernobyl sobre crianças da região. "Nos casos de Chernobyl, o tempo não está curando, mas um período de latência para o desenvolvimento do câncer."

As taxas de suicídio entre as pessoas envolvidas na limpeza em Chernobyl são maiores do que na população geral, segundo estudos, que também descobriram que as pessoas que relataram viver nas zonas afetadas pelo desastre na Ucrânia tinham taxas mais altas de problemas com álcool e níveis mais baixos de saúde mental.

Estabelecer um número preciso no total de mortes ao redor do mundo decorrentes do desastre de Chernobyl é quase impossível. Mas, apesar do quadro sombrio da maioria das pinturas de pesquisa, há algumas histórias de esperança também.
Três engenheiros que se voluntariaram para drenar milhões de galões de água de tanques sob o reator em chamas nos dias logo depois da explosão passaram por águas altamente radioativas e detritos para alcançar válvulas. Seu heroísmo é um dos momentos mais dramáticos da recente série da HBO sobre o desastre, Chernobyl. Surpreendentemente, dois dos três ainda estão vivos, apesar da proteção mínima contra a radiação durante a missão. O terceiro deles, Borys Baranov, viveu até 2005. Fonte: BBC Brasil -10 agosto 2019

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quarta-feira, setembro 13, 2017

Os 30 anos do acidente radioativo do césio-137

Técnicos retiram lixo radioativo das áreas contaminadas nos setores
Aeroporto e Ferroviário, no centro de Goiânia,
bairros mais afetados pela contaminação do césio-137
A cada mês de setembro, desde 1987, a árvore genealógica da família Alves Ferreira lembra a maior tragédia radiológica urbana da história da humanidade.

Era o dia 13 do mês de setembro, uma cápsula com cloreto de césio --sal obtido por meio do radioisótopo 137 do elemento químico césio-- foi aberta em uma casa da rua 57, no setor Aeroporto da capital goiana, antes de seguir para um ferro-velho.

PRECONCEITOS
Os dias seguintes foram de dor, ferimentos, sofrimento e morte. Depois, preconceito e incerteza quanto ao futuro das 129 pessoas contaminadas pela radiação. Esse dia jamais chegou ao fim.
Um dia, uma passageira  do táxi perguntou se não tinha nenhum perigo de ficar no carro com os vidros fechados. Eu disse que não, mas que ela ficasse à vontade se quisesse descer  O Hyundai prateado modelo HB, placas de Aparecida de Goiânia, está a duas quadras do aeroporto da capital goiana. Ele é guiado por Odesson Alves Ferreira, 62, cuja mão esquerda exibe as cicatrizes do acidente. Ele perdeu a palma da mão --ela foi reconstituída com parte da pele que cobre o abdômen-- e as falanges do dedo indicador da mão foram amputadas. Odesson cadastrou-se há um ano na Uber, após seguidas tentativas de empreendimentos barradas pelo preconceito.
É a memória oral da história do césio-137: conta inúmeras vezes com precisão o que aconteceu desde o dia 13 de setembro de 1987. Tem, na cabeça, os números exatos do peso da peça de ferro-velho, da cápsula de césio, do tamanho e das especificações do que foi enterrado no depósito de Abadia de Goiás.

A precisão das datas impressiona, assim como o bom humor ao contar situações pitorescas dos primeiros dias de tragédia. “O médico pediu que eu tomasse cerveja para que a urina eliminasse a radiação, e eu até achei bom --não precisava justificar a cervejinha para a minha mulher. Mas não adiantou nada, e o banheiro do bar precisou ser demolido porque também recebeu radiação.”

Antes de dirigir e presidir, por duas vezes, a associação das vítimas, o aposentado tentou por duas vezes investir em comércios de bairro em  Aparecida de Goiânia, cidade que faz limite com Goiânia e que abriga a maior parte da família Alves Ferreira, a mais afetada pela tragédia --são 50 pessoas atingidas, além das duas mortes diretamente ligadas ao acidente e outras duas posteriores.

“Fomos chamados de ‘marajás’ porque recebíamos uma pensão miserável do Estado. Entrei em depressão porque não podia mais trabalhar --fui aposentado por invalidez. Montei uma frutaria, e todos os dias ia até o Ceasa buscar tudo fresquinho. Não conseguia vender. As pessoas passavam na porta, iam até outro lugar e passavam com a mercadoria. Acabei com a frutaria, e montamos um bar. Também passavam com garrafa de cerveja vazia, iam no boteco vizinho e compravam. O irmão de um deles me falou: 'O pessoal não compra cerveja aqui porque acha que está contaminada'.”

Nos anos seguintes, as vítimas fizeram uma via-crúcis para matricularem seus filhos em colégios de Goiânia e de Aparecida de Goiânia. Receberam o não mais de duas vezes cada uma.

Cunhada de Odesson, Luiza Odete dos Santos mentiu por anos sobre a origem da longa cicatriz que exibe no lado esquerdo do pescoço. “Isso aqui, pegando meu rosto, passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. E o pessoal me ensinava um remédio. Depois, o tempo foi passando, e eu disse: vou viver. Se o pessoal pergunta, eu falo. E fica assustado, porque ainda existe a discriminação. Pessoas mal informadas ainda acham que a gente transmite radiação.”

Lourdes Alves Ferreira, mãe de Leide das Neves, 6 --a menina morta no acidente que virou o símbolo da luta contra a radiação e o preconceito diante das vítimas--, tem a guia médica zerada nas clínicas que frequenta por causa do acidente.

“As recepcionistas insistem para saber por que ela é zerada”, diz. “Um dia, uma gritou. E fui pertinho dela e falei: sou obrigada a explicar o porquê? Quando o médico me chamou, ela fez questão de me acompanhar até o consultório. Eu disse que era uma vítima do césio. O tempo todinho que fiquei esperando, se ela não estava escrevendo, estava olhando para mim. Eu era uma pessoa estranha para ela. Já aconteceu de a pessoa, quando soube quem era eu, se levantar de perto de mim.”

Isso aqui passou a parecer uma mancha de vitiligo, e eu falava que era. O tempo foi passando, e eu disse: vou viver. Se perguntam, eu falo. Ficam assustados. Acha que a gente transmite radiação

AS VÍTIMAS ETERNAS
A Secretaria Estadual da Saúde, por meio do Cara (Centro de Atendimento ao Radioacidentado), ainda hoje monitora 1.292 pessoas, entre radioacidentados, parentes da primeira e segunda geração e funcionários que tiveram contato com os afetados durante os dias de controle da irradiação.

Elas sofreram com problemas físicos e psiquiátricos. Obrigatoriamente, devem visitar o Cara pelo menos uma vez por ano --a frequência já foi mensal e semestral.  Em 2016, o centro realizou 5.741 atendimentos --destes, 1.497 no setor de enfermagem e 811 no de psicologia.

Membros foram amputados, braços e mãos receberam enxertos e, em duas vítimas, as feridas provocadas pelo contato com o césio --as radiodermites-- ainda não fecharam. Eles vivem às custas de curativos, paliativos às lesões que sofreram e nunca foram curadas. E ainda há o preconceito.

“Há um cansaço com essa situação. Um rapaz que está para amputar o pé teve a proposta para tratamento com células-tronco, com uma equipe da Suíça. E ele negou: ‘Estou cansado de ser cobaia. Já não sei quantas tentativas foram feitas, e nenhuma deu resultado. Prefiro ser amputado”, afirma a psicológica Suzana Helou, que atende aos radioacidentados desde outubro de 1987.

CÁPSULA E CONTAMINAÇÃO
A cápsula que causou o acidente era parte de um aparelho radioterapêutico que estava abandonado no terreno em que funcionou o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Foi utilizado de 1971 até 1985, quando o instituto foi desativado. O equipamento de  teleterapia (radioterapia externa) , que continha o césio, foi abandonado naquele ano em meio às ruínas do centro de radioterapia.

A peça foi encontrada no dia 13 de setembro de 1987 por Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, que depois a revenderiam para um ferro-velho. A peça, de aproximadamente 200 quilos de ferro e chumbo, tinha 19,26 gramas de césio-137, guardada em um recipiente arredondado, semelhante a uma lata de goiabada. Ela foi levada para a casa de Roberto. No terreno da rua 57, o invólucro de chumbo foi perfurado, e a placa de lítio que isolava as partículas radioativas, rompida.

De lá, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, então com 37 anos e dono de um ferro‑velho na rua 26-A, no mesmo bairro. Ele percebeu o brilho azul que irradiava do recipiente arredondado. Fragmentos de pó saíam da cápsula e foram distribuídos. Assim, o brilho e a contaminação se espalharam pelos bairros adjacentes ao setor Aeroporto.

Dos que tiveram contato com o pó, restaram 46 pessoas diretamente contaminadas. Todas elas passaram por um banho com escovação e vinagre para se descontaminarem, mas a radiação continuou. Suas roupas, seus pertences e suas casas demolidas foram descartados --estão enterrados no depósito de lixo radiológico de Abadia de Goiás (23 km de Goiânia).

Quatro pessoas morreram depois de um mês isoladas no hospital naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro: Leide da Neves Ferreira, 6, Maria Gabriela Ferreira, 37, Israel Baptista dos Santos, 22, e Admílson Alves de Souza.

Todos eles receberam uma dose muito alta de radiação, medidas pelo índice Gy (gray). Para cada sessão de radioterapia para câncer de mama, por exemplo, a dose é de, no máximo, 2 Gy. Devair, que teve contato com uma dose maior (7 Gys), sobreviveu por não ingerir o pó. Leide das Neves, que ingeriu o césio ao comer um ovo cozido com as mãos sujas da substância, absorveu diretamente 6 Gy.

Os corpos tiveram que ser colocados em caixões de chumbo, de cerca de 700 quilos, e sepultados sob uma estrutura de toneladas de concreto. Os primeiros enterros, de Leide e de Maria Gabriela, sofreram tentativas de impedimento, com blocos interrompendo o tráfego de veículos e pedras e cruzes dos túmulos atiradas contra os veículos que transportavam os caixões, que foram içados por um guindaste para os túmulos. As estruturas de concreto, que não têm contato com o solo, mas recebem constantemente flores de quem ainda se sensibiliza com a tragédia, hoje são as mais preservadas do Cemitério Parque de Goiânia.  

Presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Suely Lina de Moraes ainda reside na mesma casa da época do acidente, na rua 26. Os fundos da residência dão para o terreno concretado que um dia foi o ferro-velho de Devair --a casa foi demolida depois do acidente. “A diretora trazia meu filho da escola e o deixava na esquina, por medo de contaminar. Esses dias  teve um evento no lote do Devair, e a polícia veio para acompanhar. Quando viram que era a rua do césio, não entraram. Não desceram com medo da radiação.”

HOJE, NÃO HÁ MAIS CONTAMINAÇÃO NAS PESSOAS NEM NOS LOTES.
Suely sorri o tempo todo, mesmo quando se lembra da tragédia. É ela a responsável por controlar as informações e os cuidados com as vítimas do acidente. “Tem os remédios de uso contínuo que não estão disponiveis no SUS. Mas outros custam R$ 200, R$ 100. E não tem.” O Cara afirma que a questão de abastecimento de medicamentos está sendo resolvida pela Secretaria Estadual da Saúde.

Ela tem um mapa, feito à mão, com as vítimas de câncer residentes nos setores Aeroporto e Ferroviário, os mais atingidos pela radiação. Ela aponta 23 casos. “São os moradores daqui, que não saíram daqui. Não vieram fazer pesquisa [epidemiológica, que atesta a incidência maior ou menor de doenças] deles.

Nunca foram na fundação, nem sabem onde é. Enquanto as vítimas diretas eram atendidas, eles continuaram aqui. Estavam expostos [à radiação].”

“As doenças causadas pela radiação limitam-se às mortes da época do acidente e aos 22 pacientes com radiodermites. Foram 129 vítimas diretas. Nós podemos afirmar que a doença do césio se limita a esse grupo”, rebate o diretor-geral do Cara, André Luiz de Souza.

“É um discurso permanente deles, de que serão sempre vítimas do acidente. É um fator estressor permanente, de um dia contraírem doenças degenerativas, como câncer e leucemias, ou ter um descendente com deformação genética. Foi o que um pesquisador norte-americano chamou de ‘grávidos da morte’. Tudo é atribuído ao acidente radiológico”, afirma a psicóloga Suzana Helou.

Em dezembro de 2016, Helou entrevistou acidentados e também a população em geral. A pergunta era se os atingidos pela exposição ao césio ainda se consideravam vítimas do acidente radioativo. “Mais de 80% respondeu que sim”, diz. “A maior incidência de resposta é a discriminação que eles acreditam sofrer por parte da população em geral.”

CONSTRUÇÃO DO DEPÓSITO
A 23 km do local do acidente, o antigo vilarejo de Abadia de Goiás foi escolhido para receber os restos da tragédia. Foram 17 anos para que a estrutura ficasse pronta: dois campos de concreto cobertos de grama com 60 metros de comprimento, 18 de largura e oito de altura.
O reservatório contém todas as blindagens e a fonte que continha o césio --nele estão todos os rejeitos de média radioatividade.

Abadia virou cidade de 6.868 habitantes, emancipada em dezembro de 1995. A cidade foi escolhida tecnicamente, com base na geologia local para que não tivesse influência na natureza , afirma Marco Antonio Pereira da Silva, do CRCN-CO (Centro Nacional de Ciência Nuclear do Centro-Oeste). Os materiais contaminados estão envolvidos em contêineres, e a base de concreto impede que eles contaminem o solo nem o lençol freático, aponta.

O desenvolvimento, afirma, veio em parte pela construção do depósito. "Antes da instalação, havia muito medo de remover o depósito para cá, por falta de informação. Hoje, a população sabe que não há nenhum risco --pelo contrário, isso trouxe desenvolvimento. Abadia entrou no mapa científico do mundo --muita gente vem para cá para fazer pesquisas e desenvolver outras. Não há estigma na cidade --ele é maior em Goiânia do que aqui. Abadia é uma cidade que se incorporou à construção do depósito. Fonte: UOL Noticias – 10 de setembro de 2017

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