Trabalho a quente, trabalho seguro
Lições
chave aprendidas pelas investigações do Conselho Americano de Investigação de
Riscos e Segurança Química (U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation
Board) sobre os incidentes causados pelo trabalho a quente
CERTIFICAÇÃO
PARA TRABALHO A QUENTE
Recentemente,
o trabalho a quente tem preocupado as comunidades de prevenção e inspeção de
incêndio. O trabalho a quente foi culpado, ou suspeito de ter causado uma série
de grandes incêndios em complexos de habitação em construção em todo o país,
causando dezenas de milhões de dólares de perdas. Em Boston, o trabalho a
quente foi culpado por um incêndio residencial em 2014 que matou dois
bombeiros. O ano passado, o código de prevenção de incêndios da cidade foi
emendado requerendo que todas as pessoas envolvidas em operações de trabalho a
quente obtenham um Certificado de Trabalho a Quente Seguro. Até agora, mais de
13000 trabalhadores numa variedade de trabalhos de construção participaram do
programa criado pela NFPA sobre certificação do trabalho a quente.
TRABALHO
A QUENTE
O
trabalho a quente é todo processo de trabalho que envolva a soldagem, a
brasagem, a solda branda, o corte, esmerilhamento, perfuração, queima ou fusão
de substâncias que podem produzir
faíscas ou chamas com uma temperatura suficiente para incendiar vapores
inflamáveis e/ou materiais combustíveis (a definição da NFPA inclui atividades
que produzem chamas, atividades que produzem faíscas e produção de calor, quer
por condução, quer por radiação/convecção.)
As
fontes comuns de ignição durante o trabalho a quente incluem;
■chama
aberta, faíscas produzidas pela eletricidade, por fricção ou por impacto;
■superfícies
quentes;
■rolamentos
quentes, maçaricos para solda ou corte e gases, bobinas e resistores aquecidos.
RISCOS E
PERIGOS DE INCÊNDIO
Todo
trabalho a quente envolve riscos e perigos de incêndio inerentes e todos os
perigos de incêndio deveriam ser considerados e avaliados antes de começar
operações de trabalho a quente. São requeridos procedimentos e autorizações
especiais quando o trabalho a quente for realizado num espaço confinado,
tanque, contêiner ou conduto.
ACIDENTES
Os
acidentes durante o trabalho a quente ocorrem em muitas indústrias nos Estados
Unidos, incluindo o processamento de alimentos, a fabricação de polpa e papel,
a produção de óleo, o armazenamento de combustível e o tratamento de resíduos.
A maioria dos incidentes que envolvem trabalho a quente ocorre devido à ignição
de materiais combustíveis (por exemplo um incêndio de teto) ou a ignição de
estruturas ou detritos perto da atividade de trabalho a quente.
Embora
os perigos associados ao trabalho a quente sejam bem documentados, a freqüência
e a gravidade dos incidentes associados ao trabalho a quente foram excessivas
nas últimas duas décadas. Para poder beneficiar plenamente das lições
aprendidas desses incidentes é importante que a indústria e as organizações que
lidam com segurança adotem normas de saúde e segurança mais estritas para
garantir que a atividade de trabalho a quente seja realizada de forma segura,
que os trabalhadores estejam conscientes dos perigos e que estejam plenamente
protegidos.
TRABALHO
A QUENTE É UMA DAS CAUSAS MAIS COMUNS DE MORTES DE TRABALHADORES
O
Conselho Americano de Investigação de Riscos e Segurança Química (CSB, da sigla
em inglês) chegou a conclusão que o trabalho a quente é uma das causas mais
comuns de mortes de trabalhadores entre os incidentes investigados pela
agência. O CSB continua a ver incidentes que envolvem trabalho a quente e
encontrou um subconjunto significativo de ocorrências – as que envolvem
tubulações, tanques ou contêineres onde estão presentes produtos inflamáveis-
particularmente perigosos. Além disso, o CSB observa repetidamente incidentes
com trabalho a quente envolvendo tanques ou contêineres em instalações de risco
elevado como as refinarias e as plantas químicas que resultam geralmente em
ferimentos e mortes e tem o potencial de causar grandes acidentes
catastróficos.
Desde
2001, o CSB investigou 14 incidentes causados por trabalho a quente que
resultaram em 25 mortes e 21 ferimentos de empregados e membros do público. O
CSB continua a analisar os incidentes com o trabalho a quente onde um
monitoramento constante poderia ter alertado os trabalhadores das mudanças de
condições nas áreas onde se realizava o trabalho a quente.
A
NECESSIDADE DE INVESTIGAÇÃO
O CSB
começou a investigar os riscos relacionados com o trabalho a quente depois da
explosão de 17 de julho de 2001 na refinaria da Motiva Entreprises em Delaware
City, Delaware. Uma equipe de trabalho estava fazendo reparos numa passarela
acima dum conjunto de tanques de armazenamento de acido sulfúrico quando uma
faísca originada pelo trabalho a quente incendiou vapores inflamáveis num dos
tanques. A corrosão tinha perfurado o teto e a casca do tanque, causando perdas
de acido sulfúrico. O tanque ruiu e um dos trabalhadores contratados morreu;
oito ficaram feridos e um volume significativo de acido sulfúrico foi liberado
no ambiente.
O CSB
começou a rastrear sistematicamente os incidentes causados por trabalho a
quente depois do acidente de 29 de julho de 2008 na Packaging Corporation of
America (PCA) em Tomahawk, Wisconsin. Os trabalhadores estavam realizando
trabalho de solda acima dum tanque de 24 m de altura que continha gás de
hidrogênio altamente inflamável, produto da decomposição bacteriana de resíduos
de fibras orgânicas - uma mistura de polpa de papel reciclada e água - no
interior do tanque. Este era um perigo novo identificado pelo CSB. O trabalho a
quente incendiou os vapores inflamáveis, resultando numa explosão que deixou
três mortos e um ferido.
Nos 10
meses que seguiram a explosão na PCA, o CSB investigou cinco incidentes onde o
trabalho a quente incendiou gás ou vapores inflamáveis, incluindo;
■ a
explosão na MAR Oil em La Rue, Ohio, que matou dois trabalhadores contratados
em outubro 2008;
■ uma
explosão que matou uma pessoa e feriu outra na EMC Used Oil em Miami, Florida,
em dezembro 2008;
■ uma
explosão que matou um soldador contratado na ConAgra Foods em Boardman, Oregon,
em fevereiro 2009;
■ uma
explosão na A.V. Thomas Produce em Atwar, California, em março 2009 que queimou
gravemente dois empregados;
■ e a
explosão dum grande tanque de armazenamento de gasolina que matou três trabalhadores
na instalação de distribuição de combustível TEPPCO Partners em Garners,
Arkansas, em maio 2009.
Em
novembro 2011, dois trabalhadores contratados na E.I. DuPont De Nemours Co.
situada em Buffalo, New York, estavam realizando trabalho de solda acima dum
tanque de pasta fluida (slurry) de 10000 galões quando faíscas quentes
incendiaram vapores inflamáveis, causando uma explosão que matou um trabalhador
contratado e feriu gravemente outro. O relatório final do CSB e um vídeo de
segurança, intitulado “Trabalho a quente: Perigos Escondidos”, foi mostrado por
primeira vez numa reunião pública no dia 19 de abril de 2012.
Uma das
causas principais da explosão foi estabelecida pelo CSB como um erro da empresa
que não requereu o monitoramento do
interior dos tanques de armazenagem – onde devia ser realizado o trabalho a
quente –para verificar a presença de vapores inflamáveis. O CSB emitiu uma
recomendação exortando a DuPont a requerer o monitoramento no interior e em
volta dos tanques antes de realizar trabalho a quente.
MELHORES
PRÁTICAS PARA O TRABALHO A QUENTE
Em
fevereiro 2010, o CSB publicou “Sete lições chave para prevenir as mortes de
trabalhadores durante o trabalho a quente no interior e em volta de tanques de
armazenamento”, um boletim de segurança que proporcionava resumos e conclusões
de 11 investigações. (Também nota que ocorreram 60 mortes causadas por trabalho
a quente entre 1990 e 2010). Além disso, o boletim oferecia sete lições chave
para ajudar a prevenir as mortes de trabalhadores durante o trabalho a quente
no interior e em volta de tanques de armazenamento que contêm materiais
inflamáveis.
As
lições incluem:
1.
Procure
alternativas: sempre que possível, evite o trabalho a quente e considere
métodos alternativos.
2.
Analise
os riscos: antes de começar um trabalho a quente, realize uma avaliação de
riscos que identifique o escopo do trabalho, os riscos potenciais e os métodos
de controle de riscos.
3.
Monitore
o ar: realize um monitoramento efetivo dos gases presentes na área de trabalho
utilizando detectores de gás combustível devidamente calibrados antes e durante
as atividades de trabalho a quente, mesmo em áreas onde não se prevê a presença
de atmosfera inflamável.
4.
Teste
a área: nas áreas de trabalho onde são armazenados ou manuseados líquidos e
gases inflamáveis, drene e/ou purgue todo o equipamento e as tubulações antes
de realizar o trabalho a quente. Quando realiza trabalho de solda sobre tanques
de armazenamento ou outros contêineres ou na sua proximidade, teste
adequadamente e, se necessário, monitore continuamente todos os tanques ou
espaços adjacentes – não apenas o tanque ou contêiner onde se realiza o
trabalho – procurando a presença de substâncias inflamáveis e elimine as fontes
potenciais.
5.
Use
permissões escritas: Assegure-se que pessoal qualificado familiarizado com os
perigos específicos do local revise e autorize todos os trabalhos a quente e
emita permissões identificando especificamente o trabalho a realizar e as
precauções requeridas.
6.
Realize
treinamento exaustivo: Treine o pessoal sobre as políticas e procedimentos para
o trabalho a quente, o uso e a calibração adequados dos detectores de gases
combustíveis, o equipamento de segurança e os riscos e controles específicos de
cada tarefa numa linguagem que todos os trabalhadores entendam.
7.
Supervisiona os contratados: forneça supervisão de
segurança para os contratados por empreitada que realizam trabalho a quente.
Informe-os sobre os perigos específicos do local, incluindo a presença de
materiais inflamáveis.
Entre
2010 e 2013, o CSB analisou 187 incidentes de trabalho a quente;
■ Dos
quais 85 causaram uma explosão ocorrida durante a execução de trabalho a quente
sobre ou na proximidade dum tanque ou contêiner. Esses incidentes causaram 48
mortes e 104 ferimentos significativos.
■ Vinte
três por cento dos ferimentos e 42 por cento das mortes envolviam trabalhadores
contratados por empreitada.
O CSB
continua a ver incidentes catastróficos envolvendo trabalho a quente sobre
tanques e contêineres que contêm vapores inflamáveis. As investigações que
realizamos sobre esses incidentes demonstram uma falta de consciência dos
riscos que apresenta o trabalho a quente em contêineres que em alguns casos
tinham sido limpos anteriormente.
O CSB
investigou recentemente dois incidentes que envolviam trabalho a quente, um
numa terminal da Sunoco Logistics LP em Nederland, Texas e outro nas
instalações da PCA em DeRidder, Louisiana. Na Sunoco, sete trabalhadores
contratados ficaram feridos num incêndio em nuvem de vapor quando realizavam
trabalho a quente num oleoduto em 12 de agosto de 2016.
Em 8 de
fevereiro de 2017, três contratados sofreram ferimentos mortais numa explosão
nas instalações da PCA quando realizavam trabalho a quente.
Devido à
freqüência e gravidade dos acidentes com o trabalho a quente, o CSB definiu as
práticas de trabalho a quente seguras como um dos cinco elementos de seu novo
programa “Drivers of Critical Chemical Safety Change”. O programa está baseado
nas recomendações resultantes das investigações e estudos do CSB. A meta do
programa é procurar a implementação de mudanças que tenham altas probabilidades
de alcançar importantes aprimoramentos de segurança a nível nacional.
O CSB
continuou a defender a adoção de melhores práticas e aprimoramentos
recomendados pelas normas de consenso, especificações, práticas recomendadas,
relatórios técnicos e códigos para lidar com as atividades de trabalho a
quente. As normas e códigos da NFPA citados pelo CSB em suas investigações
sobre o trabalho a quente incluem a NFPA 51B, Prevenção de Incêndios Durante a
Soldagem, o Corte e Outros Trabalhos a Quente; a NFPA 326, Salvaguarda de
Tanques e Contêineres para a entrada, a Limpeza e os Reparos e a NFPA
70E®,Segurança Elétrica no Local de Trabalho.
RISCOS
Além
disso, o CSB continuou a impulsionar a adoção de suas recomendações destinadas
a prevenir incidentes com o trabalho a quente sublinhando a necessidade de
aumentar a consciência sobre os riscos do trabalho a quente entre os
trabalhadores e a necessidade de uma supervisão e responsabilidade mais
vigorosas para as atividades de trabalho a quente.
Cinco idéias falsas
sobre o trabalho a quente
De
acordo com o relatório da NFPA “Structure Fires Started by Hot Work”, publicado
em setembro passado, os corpos de bombeiros dos Estados Unidos responderam a
uma média de 4400 incêndios estruturais por ano envolvendo trabalho a quente
entre 2010 e 2014.
Em março
de 2014, dois bombeiros de Boston morreram respondendo a um incêndio que foi
iniciado por trabalho a quente. Como resultado dessa tragédia, a NFPA está
trabalhando com a cidade e seu corpo de bombeiros desde setembro para
proporcionar treinamento sobre a segurança do trabalho a quente a trabalhadores
da construção na área de Boston. Até agora, 13.000 trabalhadores participaram
do programa concebido pela NFPA. Eu conduzi 40 dessas sessões de capacitação e
em minha experiência, estas são as principais idéias falsas que envolvem o
trabalho a quente.
1-A
idéia falsa: O trabalho a quente é apenas soldar e cortar com maçarico.
A
verdade: como definido na NFPA 51B, o trabalho a quente é qualquer trabalho que
envolva “queima, solda, ou uma operação similar que pode iniciar incêndios e
explosões.” Não é apenas trabalho que envolve chamas. Afinal de contas, você
não precisa de chama para gerar calor. Atividades como perfuração, solda,
brasagem, rosqueamento, esmerilhamento, tratamento por calor, lascagem,
descongelar tubulações e jateamento abrasivo – muitas vezes chamado jateamento
de areia – são todos considerados trabalhos a quente.
2-A
idéia falsa: a soldagem branda, muitas vezes relacionada com tarefas de
canalização, não é um grande problema.
A
verdade: de acordo com o relatório da NFPA sobre os incêndios estruturais
causados por trabalho a quente, a soldagem branda causa 34 por cento dos incêndios
iniciados por trabalho a quente em residências. (Não sabemos se o trabalho foi
realizado por pessoas contratadas ou pelos proprietários da residência no
sistema de “faça você mesmo”.) No entanto, já que se trata dum trabalho que
deve ser usualmente realizado perto de materiais de construção e de isolamento
combustíveis, pode ser um desafio significativo para a segurança do trabalho a
quente.
3-A
idéia falsa: o perigo acaba quando a operação de trabalho a quente se termina.
A
verdade: A NFPA 51B e outras práticas de segurança com o trabalho a quente
requerem que alguém – normalmente um vigia de incêndio treinado – fique no
local do trabalho pelo menos 30 minutos depois de terminado o trabalho a quente
para monitorar o local verificando que não haja condições de fogo latente ou
reignição de brasas quentes ou calor retido. E o calor tem sua maneira de ficar
no local. Dados das seguradoras indicam que o calor retido contribuiu para a
reignição até quatro horas depois do fim do trabalho a quente.
4-A idéia
falsa: a segurança do trabalho a quente é a responsabilidade de uma única
pessoa.
A
verdade: a NFPA 51B requer o estabelecimento de uma equipe de segurança de
trabalho a quente constituída por três pessoas:
■ o
responsável (referido na NFPA 51B como a pessoa que emite a permissão, ou PAI
(da sigla em inglês),
■ um
operador do trabalho a quente e
■ um
vigia de incêndio.
De
acordo com a norma eles são responsáveis pela segurança no local do trabalho e
por identificar qualquer mudança das condições de forma a paralisar o trabalho
até fazer uma nova avaliação das condições. Esse é um ponto de ênfase
particular no treinamento que estamos realizando em Boston. Essencialmente,
nossa mensagem no local do trabalho para todos os trabalhadores é que se eles veem
algo que poderia ser uma mudança
insegura das condições, eles precisam falar com alguém para que se faça uma
verificação.
5-A
idéia falsa: os resíduos dos trabalhos a quente incluindo faíscas, escória,
respingo e transferência de calor são geralmente transmitidos apenas a uma
distância limitada.
A
verdade: muitos tipos de trabalho a quente, como a solda, o esmerilhamento e o
corte com maçarico produzem faíscas, escória ou respingo que podem muito bem
sair da área imediata de trabalho. Por esse motivo, a NFPA 51B estabelece uma
distância mínima segura de 11 m em todas as direções desde o local do trabalho
a quente. Em outras palavras, os materiais combustíveis devem ser movidos a uma
distância mínima de 11 m do lugar de trabalho para prevenir o contato com os
resíduos do trabalho a quente, como faíscas ou respingo. Essa é apenas uma
distância mínima, e condições como o vento ou a proximidade de capim seco podem
impor uma distância maior. Trabalhando numa localização elevada, onde as
faíscas podem cair verticalmente, vi resíduos de trabalho a quente percorrer
uma distância superior a 30m..
Fonte: NFPA
Journal Latinoamericano – Set/2017 – Samuel A. Oyewole, Ph.D., Vidisha
Parasram, MPH, Reepa Shroff, MS e Johnnie A. Banks, CFEI, são investigadores de
incidentes químicos no U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation Board
(CSB) em Washington, D.C. O CSB é uma agência científica federal independente
cuja missão é investigar de forma independente os incidentes e riscos químicos
significativos e defender efetivamente a implementação das recomendações
resultantes para proteger os trabalhadores, o público e o meio ambiente. Guy
Colonna é diretor de divisão de serviços técnicos da NFPA
Marcadores: explosão, gerenciamento de riscos, incêndio, segurança

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