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domingo, outubro 14, 2012

Tragédia de 1967: Caraguatatuba

HISTÓRICO
Desde o século passado  existe farta documentação nos arquivos sobre as grandes chuvas na região.
Eram raros os documentos desse período que não fizessem referência às chuvaradas do tempo das águas, causadoras de grandes estragos na estrada, particularmente no trecho da serra, inúmeras vezes inviabilizando o trânsito, com enormes prejuízos para todos.
Há um oficio ao presidente da Província, datado de 21 de Fevereiro de 1859, que informa:  " ...devido aos repetidos temporais de pesadas chuvas, que há mais de um mês desaba em todo o Município, em especial um que houve no dia 20 de Janeiro, que por um pouco não arrasa Caraguatatuba..." 

TRAGÉDIA DE 1967
O ano de 1967 foi realmente atípico. Chovia quase todos os dias desde o início do ano, 541 mm apenas em janeiro, o dobro do normal. Do dia 17 para 18 de março, um temporal produziu quase 200 mm de chuvas em um solo já encharcado. No início da tarde de 18 de março, sábado, a tragédia aconteceu sob intenso temporal que chegou a acumular 580 mm de chuvas em dois dias.

Sucederam-se inúmeros desabamentos que deram origem  ao lençol de lama que, segundo relatos, em dez minutos cobriu Caraguatatuba e fez com que a cidade praticamente quase desaparecesse .

De acordo com o posto da Fazenda São Sebastão ou "dos Ingleses"  os níveis pluviométricos, no mês de março, registraram um índice máximo de 851,0 mm - sendo 115,0 mm no dia 17 de março de 1967 e 420, 0 mm no dia seguinte, não acusando índice maior devido à saturação do pluviômetro.

CONSEQUÊNCIAS
As consequências do desabamento afetaram Caraguatatuba em larga escala,   o Rio Santo Antônio (que nasce na serra e deságua no mar, atravessando a cidade), arrastando tudo que havia pela frente, inclusive a ponte,  alargou-se de 10m-20m para 60m  a 80m.
Dezenas  de  milhares de troncos de árvores vieram abaixo destruindo toda infra-estrutura urbana da cidade, arrasando boa parte da estrada São José dos Campos-Paraibuna-Caraguatatuba, conhecida hoje como Rodovia dos Tamoios, ―formando precipícios de mais de uma centena de metros de profundidade.
A Estrada de Ubatuba sofreu quedas de barreiras nos trechos de Maranduba, Jituba, Sumaré, Prainha e Martim de Sá, recobrindo seu leito em 0,80 m de lama.

Os  jornais da época noticiaram: "Caraguatatuba esta submersa e isolada de todos!"

No bairro Rio do Ouro, gigantescas barreiras começaram a cair pela manhã, formando uma enorme represa que estourou algumas horas mais tarde, desaparecendo com o bairro e provocando o deslocamento da ponte principal do rio Santo Antonio. Caso não tivese acontecido esse deslocamento, a cidade inteira teria sido inundada e coberta pelas águas.

Cada pedaço de terra de um bairro desta cidade poderá ter sepultado vários habitantes, transformando em um grande cemitério. Muitos corpos jamais foram encontrados, principalmente aqueles  que foram arrastados para o mar e impelidos pelas ondas para pontos bem distantes.

Um balanço da situação em 21 de março de 1967 apresentava o seguinte quadro:
■30 mil árvores desceram as encostas do morro e se espalharam em volta da cidade.
■5 mil troncos rolaram e soterraram casas, destruindo parte da BR-6.
■400 casas desapareceram debaixo da lama.
■Um ônibus lotado de passageiros desapareceu e vários carros ficaram isolados.
■Na Fazenda São Sebastião havia dezenas de mortos e feridos.
■3 mil pessoas, aproximadamente, perderam suas casas, (o município contava com 15 mil habitantes).
■ 120 mortos já haviam sido encontrados.(O número exato de mortos não poderão jamais ser computados, pois dezenas de pessoas desapareceram, não restando vestígios).

CARAGUATATUBA ESTÁ SOB A LAMA
Por terra não se chega ao litoral Norte. Na estrada Paraibuna-Caraguatatuba a partir do Mirante, no quilometro 194, até o quilometro 199, trinta barreiras caíram, obstruindo a estrada. E no quilometro 202 a estrada desapareceu, levada pelas águas, em quase dois mil metros.

SALVAMENTO
A primeira turma de salvamento chegou a Caraguatatuba no domingo de manhã, 19 de março. O transporte foi feito em rebocador, de Santos a São Sebastião, de lá em barco de pesca até Caraguatatuba. Eram soldados, enfermeiros e médicos. Outra turma, de Ubatuba, saiu de madrugada, por rodovia, e só chegou às quatro da tarde.

Logo depois do rebocador "Sabre", seguiu o navio oceanográfico  "Almirante Saldanha", levando equipamento de socorro de emergência e gêneros alimentícios. Era esperado de volta pela madrugada, trazendo para Santos 500 desabrigados e feridos. Também  foi mobilizado o petroleiro "Mato Grosso", da Fronape.

Na segunda-feira, o navio "Rio das Contas" deixou o Colégio Naval, em Angra dos Reis, e foi para Caraguatatuba para retirar feridos e desabrigados. Também  o rebocador "Tritão" partiu da Guanabara levando combustível para o reabastecimento dos helicópteros  da Marinha.
Às 21 horas o QG da Força Publica recebeu pelo radio aviso do comando do 5º Batalhão Policial de Taubaté, informando que a tropa que seguiu por terra já alcançou Caraguatatuba. O sistema de energia elétrica  foi restabelecido parcialmente.

Para os primeiros socorros, a Força Publica mobilizou 350 homens, entre oficiais e soldados, pertencentes a oito unidades, de São Paulo, Taubaté e Santos. A informação da Policia Rodoviária  é de que a estrada de Paraibuna a Caraguatatuba poderá ficar interrompida por três meses. Uma variante deverá ser aberta, mas todos os homens e maquinas disponíveis  foram deslocados para trabalhar na estrada entre Ubatuba e São Luís do Paraitinga, também interrompida, mas que está em condições de ser recuperada nos próximos dias.
Fontes: Estadão - 19  e 21 de janeiro de 2011,  trechos do livro  Santo Antônio De Caraguatatuba, Serra do Mar – Cptec, Folha de S.Paulo, terça-feira, 21 de março de 1967

Comentário:  Caraguatatuba, em 1967, era um balneário turístico de 15 mil habitantes. Quais seriam as consequências se aquela tragédia ocorresse hoje, com os atuais 100 mil habitantes?
As encostas escarpadas da Serra do Mar possuem como característica natural a instabilidade, estando sujeitas à ocorrência de fenômenos de movimentação de massa devido  à declividade de encosta superior a 40%. Adicionando sua instabilidade natural à ocorrência de frequentes  chuvas orográficas (chuvas de relevo), que  podem ou não ser potencializadas por fenômenos meteorológicos, assim aumentando à vulnerabilidade  da região à ocorrência de fenômenos de deslizamentos significativamente, especialmente quando  a quantidade de chuva excede a capacidade de infiltração do solo, provocando impactos ambientais. (fonte: Mudança climática, riscos e vulnerabilidade: um estudo dos eventos ocorridos em 1967 e 1996 na planície litorânea de Caraguatatuba – SP)
Segundo a Organização das Nações Unidas, com 436 mortos,  o deslizamento foi o quarto maior desastre natural da história do Brasil.

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1 Comments:

At 8:28 PM, Blogger jean badero Derod said...

Cuando tenía 8 años, tuve un episodio de fiebres y en un delirio, dije que "ibamos a morir todos en un alud".. yo me mire metida en un carro wolskwagen verde con màs personas.. cuando paso mi enfermedad mi madre me contò, a mi sorpresa que yo ni sabía el signifiado de alud. Naci en marzo de 1967

 

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