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terça-feira, maio 09, 2017

Coral-sol avança pelo litoral e vira motivo de preocupação

Foto:Apelidado de "sol" pelo formato e cores amarela e laranja, esse coral pode ser comparado a uma "erva daninha" do mar, por suprimir outros corais e proporcionar perda em funções do ecossistema

Bonito para contemplação em mergulhos, mas um vilão para o ambiente marinho. Assim pode ser definido o coral-sol, espécie nociva que vem ganhando cada vez mais espaço na costa brasileira e preocupa especialistas por sua rápida proliferação.

Apelidado de "sol" pelo formato e cores amarela e laranja, esse coral pode ser comparado a uma "erva daninha" do mar, por suprimir outros corais e proporcionar perda em funções do ecossistema.

"É o típico exemplo de que as aparências enganam. É muito bonito, mas também muito malvado para o habitat marinho", diz Kelen Luciana Leite, chefe em Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo, do núcleo de gestão integrada do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Por não ser nativo, explica, o coral-sol não faz integração com outros animais marinhos e causa uma das mais graves consequências, que é a quebra da cadeia alimentar.

Segundo Kelen, os corais estão na base dessa cadeia. Quando algo se altera, todo o ciclo é prejudicado. "O coral-sol se prolifera absurdamente mais rápido que os demais tipos e domina o sistema que serve de alimentação para várias espécies, incluindo peixes e tartarugas."

Algumas áreas do litoral norte paulista já estão infestadas pelo animal, que se reproduz liberando larvas. Essas larvas buscam costões rochosos para se estabelecer e, como se multiplicam numa velocidade maior do que as demais, em pouco tempo dominam o espaço.

NAVIOS
De acordo com Augusto Alberto Valero Flores, pesquisador do Cebimar (Centro de Biologia Marinha), da USP, as duas espécies de coral-sol que foram registradas no Brasil estavam inicialmente restritas ao Arquipélago das Galápagos, no Indo-Pacífico.

Não se sabe como os corais chegaram à costa brasileira. "O mais provável é que tenha sido através da incrustação de cascos de embarcações comerciais ou grandes estruturas rebocadas, como plataformas de petróleo."

O pesquisador diz que dentre as áreas mais afetadas está a Ilha Grande (RJ). Também há registros no litoral da Bahia, do Espírito Santo e de Santa Catarina. No litoral norte paulista, os locais com maior incidência são as ilhas de Búzios e Vitória, em Ilhabela.

Ambientalistas tentam evitar que o mesmo aconteça com outras áreas, como o Arquipélago de Alcatrazes, em São Sebastião, conhecido por ser uma área preservada e onde já estão instaladas muitas colônias do coral invasor.

Para evitar avanço maior, expedições são realizadas para retirar as colônias. Segundo Kelen, as ações são difíceis e caras, mas importantes. Cada colônia forma outras cinco a cada três meses. Fonte: Folha de São Paulo - 02/05/2017 


Comentário:
O Brasil tem mais de 50 espécies invasoras marinhas. Esse número deve aumentar, já que não se sabe como barrar a chamada bioinvasão, que pega carona no lastro de navios em 55% dos casos.
O dado é do Ministério do Meio Ambiente, que aponta a água de lastro das embarcações internacionais como a principal vilã do problema.
Para aumentar a estabilidade quando descarregados, os navios se enchem de água num tanque que atua como lastro. Entre um porto e outro, espécies viajam clandestinas nos tanques e chegam aos novos habitats.
Isso acarreta perda da biodiversidade na costa, pois as espécies nativas, forçadas a concorrer com as invasoras, podem acabar extintas. Desde 1600, 39% das extinções com causas conhecidas estavam relacionadas à competição com espécies invasoras.
Com os barcos trazendo espécies marinhas para cá e para lá, a biodiversidade também diminui. "É uma homogeneização, podemos acabar tendo uma biota global", diz Rosa de Souza, bióloga da Universidade Federal Fluminense, que apresentou os dados no encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Natal.
Os biólogos estão preocupados, porque há espécies invasoras especialmente problemáticas, como algas tóxicas que afloram em praias turísticas ou espécies que causam danos à saúde, como a bactéria do cólera.
No Brasil, o caso mais famoso é o do mexilhão-dourado, espécie asiática que chegou ao país em 1998 e, sem predadores, virou praga. Ele gruda nos equipamentos das usinas hidrelétricas, atrapalhando o fluxo de água.
"Há mais de dez anos os países procuram soluções", diz o biólogo Flávio da Costa Fernandes, do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, da Marinha.

CONVENÇÃO
Em 2004, a Organização Marítima Internacional propôs uma convenção sobre a água de lastro, com medidas como fazer com que os navios renovem o conteúdo dos tanques no meio do oceano. No entanto, mesmo essa troca não eliminaria totalmente o problema, já que muitos organismos resistiriam a ela.
Outra sugestão seria obrigar os barcos a tratar a água de lastro. "Mas ainda não há tecnologia desenvolvida para isso", diz Fernandes.
A convenção já foi ratificada por 26 países (inclusive o Brasil), mas precisa de pelo menos 30 para entrar em vigor. O Brasil já obriga os navios que passam pelos seus portos a fazer a troca oceânica, entre outras exigências.
A bioincrustação (acúmulo de organismos no casco) também leva espécies pelo mundo. O uso de tintas especiais poderia evitar o problema, mas muitos navios não fazem a pintura periódica.Fonte: Folha de São Paulo

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