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quarta-feira, julho 20, 2016

Choque elétrico e suas conseqüências

O nosso sistema nervoso é bidirecional, ou seja, os impulsos elétricos vão para o cérebro e também dele saem. Eles são de uma amplitude muito pequena, medida em miliampéres. A corrente que circula em nosso corpo dificilmente ultrapassa os 25mA (miliampéres).

Portanto, o choque elétrico é a perturbação que se manifesta no organismo humano, quando este é percorrido pela corrente elétrica. A gravidade do acidente está ligada às características físicas da corrente e condições do acidente, tais como:
■ natureza da corrente (contínua ou alternada);
■ freqüência; voltagem;
■ resistência do corpo humano à passagem da corrente elétrica, que varia segundo as condições ambientais;
■ percurso da corrente pelo corpo e tempo de duração da passagem.

O choque elétrico no corpo humano é em função de três fatores: tensão, resistência e área de contato.

A tensão é medida em Volts [V] e é também conhecida por voltagem. Em nosso dia a dia, temos desde os 1,5V de uma pilha pequena, passando pelas instalações residenciais de 110/220V e pelos 13.800V de tensão primária da concessionária de energia elétrica, até os 88.000V ou mais das linhas de transmissão.

A resistência é medida em Ohms e quanto menor ela for maior poderá ser o choque que levaremos.
A área de contato é muito importante pois, quanto maior ela for  e quanto mais umidade contiver, maior também será o choque elétrico.
Quando levamos um choque, é o nosso corpo que oferece resistência à passagem da corrente elétrica e, como na média ela equivale a 300 ohms, podemos ter uma idéia da corrente que poderemos sofrer caso levemos um choque em nossa residência pela tabela:

Tipo de contato
Voltagem – 110 V
Voltagem – 220 V
entre as pontas dos dedos de ambas as mãos (dedos secos)
7 mA
 14  mA
entre as palmas de ambas as mãos (palmas secas)
122 mA
244 mA
mão com ferramenta e pés calçados (secos)
6 mA
12 mA
mão com ferramenta e pés calçados (molhados)
183 mA
366 Ma
corpo no chuveiro ou na banheira
220 mA
440 mA

É a partir dos 30mA que a corrente pode começar a provocar efeitos danosos em nosso corpo,  desde um leve formigamento, passando pela paralisia momentânea e pela tetanização (rigidez total dos músculos), e podendo chegar a fibrilação (movimentos descoordenados do coração),  parada cardíaca ou respiratória.

Exemplo de como a corrente pode afetar nosso corpo em função de sua intensidade:

Corrente
Reações fisiológicas
0,1 a 0,5mA
leve percepção superficial
0,5 a 10mA
ligeira paralisia nos músculos, início de tetanização
10 a 30mA
nenhum efeito perigoso se houver interrupção do contato em no máximo 5 segundos
30 a 500mA
tetanização, sensação de falta de ar, possibilidade de fibrilação
acima de 500mA
traumas cardíacos persistentes

As causas mais freqüentes são:
■  contato com condutores de alta-tensão,
■ contato com condutores de baixa-tensão,
■ equipamentos energizados e
■ equipamentos energizados não aterrados.

EXISTEM TRÊS FORMAS DISTINTAS DE OCORRER O CHOQUE ELÉTRICO.
■ O choque estático acontece com o contato com equipamentos que possuem eletricidade estática, como por exemplo, um capacitor carregado.
■ O choque dinâmico é através do contato ou excessiva aproximação do fio fase de uma rede ou circuito de alimentação elétrico descoberto.
■ Através do raio, acontece o choque atmosférico que é o recebimento de descarga atmosférica.

AS MANIFESTAÇÕES DO CHOQUE SÃO:
■ contrações musculares; comprometimento do sistema nervoso central, podendo levar à parada respiratória;
■ comprometimento cardiovascular provocando a fibrilação ventricular – "parada cardíaca";
■ queimaduras de grau e extensão variáveis, podendo chegar até a necrose do tecido.

SINTOMAS DO CHOQUE ELÉTRICO
■ Contrações musculares, tetanização dos músculos;
■ Aquecimento do músculo, órgão e sangue,
■ Queimaduras dos ossos, músculos, órgãos etc.
■ Parada respiratória,
■ Parada cardíaca,
■ Problemas mentais,
■ Perdas de memória,
■ Prolapso em órgãos ou músculos,
■ Retenção sangüínea, e outros.

QUEIMADURAS:
A corrente elétrica circulando pelo corpo humano é acompanhada pelo desenvolvimento de calor produzido pelo efeito joule, podendo produzir queimaduras em todos os graus, dependendo da intensidade de corrente que circular pelo corpo do indivíduo. Nos pontos de contato direto a situação é ainda mais crítica, pois as queimaduras produzidas pela corrente são profundas e de cura mais difícil, podendo causar a morte por insuficiência renal.

1º grau
Quando atingem a camada mais superficial da pele, causando ferimentos leves, vermelhidão e ardor. 

2º grau 
Comprometendo a superfície e a camada intermediária da pele (epiderme e derme), e provocando bolhas e dor intensa. 

3º grau
Quando ocorre lesão da epiderme, derme e de tecidos profundos (músculos, nervos, vasos etc.). A pele fica carbonizada ou esbranquiçada e há ausência de dor.

Os choques elétricos, que podem suscitar a fibrilação ventricular, são provenientes de:
Tensão de toque;  Tensão de passo;  Baixa tensão

TENSÃO DE TOQUE
É a tensão elétrica existente entre os membros superiores e inferiores de um indivíduo.
Por exemplo: Um defeito de ruptura na cadeia de isoladores de uma torre de transmissão.
Uma pessoa tocando na torre, no momento do curto-circuito, ficará submetida a um choque proveniente da tensão de toque.
A tensão de toque é perigosa porque o coração está no trajeto da corrente de choque, aumentando o risco da fibrilação ventricular.

TENSÃO DE PASSO
É a tensão elétrica entre dois pés no instante da operação ou defeito tipo curto-circuito.
A tensão de passo também é perigosa. As veias e artérias vão da planta do pé até o coração. Sendo o sangue condutor a corrente de choque devido à tensão de passo vai do pé até o coração e deste ao outro pé. E neste caso pode causa fibrilação ventricular.

Um agravante é que a corrente de choque devido à tensão de passo contrai os músculos da perna e coxa, fazendo a pessoa cair, e, ao tocar no solo com as mãos, a tensão se transforma em tensão de toque no solo.
Neste caso , o perigo é maior, porque o coração está contido no percurso da corrente de choque.

O conhecimento do fenômeno da fibrilação ventricular do coração pelo choque elétrico é importante para conscientizar os trabalhadores das empresas dos riscos provenientes dos trabalhos envolvendo eletricidade é no período de repolarização das fibras, conhecido como período vulnerável do coração, que são diagnosticadas várias doenças do coração.

É também o período mais vulnerável do coração ao choque elétrico proveniente de uma fonte externa. O período da onda T corresponde a 0,16 segundos ou, 1/7 do ciclo cardíaco.

Quando a corrente elétrica alternada, passa pelo coração, as camadas dos tecidos respondem vibrando de maneiras distintas. Estas vibrações mecânicas diferenciadas prejudicam a repolarização das fibras musculares dos ventrículos, não deixando que a onda T ocorra satisfatoriamente.
Ainda, aliado a este fato, a corrente do choque provoca um batimento cardíaco distorcido. Este estado caótico de polarização é irreversível, com perda total do sincronismo das contrações.
Devido à heterogeneidade dos tecidos da parede do coração, todos os mamíferos e animais superiores sofrem o efeito da fibrilação ventricular devido ao choque elétrico.

Portanto, para correntes de choques grandes, os efeitos mais drásticos são as queimaduras, e para correntes pequenas o maior perigo é a fibrilação ventricular

SINTOMAS DA FIBRILAÇÃO  VENTRICULAR
Quando uma pessoa recebe um choque elétrico, vários efeitos e estados podem ocorrer. Se for de baixa tensão e, devido ao choque, cair desfalecida, deve-se desconfiar que o coração está em fibrilação. Se a pessoa não tem pulso e não respira, deve-se imediatamente iniciar os primeiros socorros.
Quando a pessoa recebe um choque elétrico, se o coração entrar em fibrilação ventricular: a pressão cai a zero, não há pulso cardíaco em nenhum ponto do corpo; acontece a parada respiratória.

Devido a estas ocorrências os sintomas externos básicos são:
■ Vítima desfalecida;
■ Palidez;
■ Não há pulso;
■ Não há respiração;
■ Dentro de 30 a 40 segundos, a pupila do olho está dilatada.

PARADA RESPIRATÓRIA
A parada respiratória pode ocorrer direta ou indiretamente devido ao choque elétrico.
Choque com corrente elétrica menor do que a do limite de fibrilação ventricular do coração, produz comprometimento na capacidade respiratória do indivíduo, devido à fadiga e tensionamento do músculo diafragma.
Se o choque for maior, o tensionamento exagerado produz a tetanização do diafragma, e em conseqüência a parada respiratória. Se o coração continuar funcionando, a circulação será só de sangue venoso, o que deixa a vítima em estado de morte aparente.
Obs: tetanização: é a paralisia muscular provocada pela circulação de corrente através dos nervos que controlam os músculos.

PARADA CARDÍACA
Similarmente, o choque pode produzir a tetanização das fibras musculares do tecido do coração. Este estado exagerado do tensionamento das fibras deixa o coração preso. É a parada cardíaca.

EFEITOS DO CHOQUE ELÉTRICO NO CORPO HUMANO
A corrente elétrica que invade o corpo humano trafega procurando os órgãos de menor resistividade elétrica. Portanto, alguns órgãos com esta característica ficarão mais susceptíveis a danos.
Outros sintomas, de difícil análise, são os provocados pelo choque elétrico cujos efeitos e danos nos órgãos só aparecerão mais tarde. Estes danos podem aparecer após dias ou meses.

ELETRÓLISE NO SANGUE
No caso específico do corpo humano, que é constituído de 70% de matéria liquida, possui vários tipos de sais minerais, o choque em corrente contínua provoca a eletrólise no sangue e no plasma líquido de todo o corpo.

ESTE EFEITO PODE OCASIONAR:
■ Mudança da concentração de sais minerais, produzindo desequilíbrio, gerando mau funcionamento de outros elementos.
■ Aglutinação de sais, produzindo bolinhas que provocam coágulos no sangue. Estes coágulos aumentam ou se aglutinam com outros, aumentando o tamanho, provocando trombose nas artérias, veias, vasos, etc..com a conseqüente morte da pessoa.

PERDA DA COORDENAÇÃO MOTORA
O choque pode prejudicar a coordenação motora da pessoa, principalmente por: atrofia muscular.

DANOS NEUROLÓGICOS.
Choque elétrico, superposto ao sinal transmissor natural do corpo, provoca uma pane geral, advindo daí toda a sorte de riscos e seqüelas. Seqüelas diversas, com possível perda de sensibilidade e coordenação motora, inclusive o Mal de Parkison.

DANOS NO CÉREBRO
Muitos acidentes ocorrem com choque na parte superior da cabeça e a corrente passando através do cérebro, pode produzir efeitos diversos, com seqüelas graves, inclusive a morte, como exemplo; pessoas que utilizam correntes no pescoço

OS EFEITOS SÃO:
■ Inibição do cérebro; 
■ Dessincronização nos seus comandos;
■ Edema;
■ Isquemia;
■ Aquecimento;
■ Dilatação.

 NO CASO DA ISQUEMIA AS SEQÜELAS PODEM SER:
■ Perda da memória;
■ Perda do raciocínio;
■ Perda da fala
■ Comprometimento nos movimentos;
■ Perda da visão;

DANOS NA VISÃO 
Os danos, decorrentes do choque, causado no olho humano, podem ser diretos ou indiretos. .

DANOS RENAIS 
A corrente elétrica, ao passar pelos rins pode comprometer o funcionamento deste órgão, geralmente produzindo os seguintes efeitos:
■ Insuficiência renal;
■ Eneuresia (incontinência urinária)
Os problemas renais geralmente aparecem depois de um certo tempo, ficando difícil fazer a correlação do efeito com choque elétrico.

PROLAPSO
Prolapso é o deslocamento, com mudança definitiva de órgão ou músculos, devido à passagem da corrente elétrica do choque.
O corpo sofre uma verdadeira convulsão. Os músculos se contraem,o sangue se dilata, há uma pane nos sistemas neuro-transmissores. Em conseqüência, pode se produzido o prolapso de qualquer órgão.

ESTADO DE SAÚDE DO INDIVÍDUO
A reação do corpo humano ao choque vai depender do estado de saúde da vítima.
■ Estado físico do indivíduo; 
■ Estado psicológico do indivíduo e
■ Idade, tamanho, peso, sexo, etc..

AUTÓPSIA
Choque elétrico de alta tensão produz queimaduras intensas, deixando evidências da morte. Em baixa tensão, o choque elétrico é de baixíssima intensidade e o efeito das queimaduras é pequeno. A morte ocorre praticamente, devido ao efeito da fibrilação ventricular, sem deixar marcas no coração. Esse é um problema sério para os familiares dos trabalhadores que trabalham com eletricidade. Pela legislação vigente não fica caracterizada a morte por acidente de trabalho.
Fonte: @ZR, Cemig – Cia Energética de Minas Gerais e Universidade Federal de Minas Gerais

Comentário:
De acordo com a Abracopel – Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade em 2014 apresentou um aumento de 17,7% no número total de acidentes envolvendo eletricidade em relação ao ano de 2013. Só nos casos de fatalidade em relação ao choque elétrico, o índice subiu mais de 6%. Ou seja, em 2013 ocorreram 592 casos de acidentes fatais com eletricidade e em 2014 o número subiu para 627 mortes. Os homens ainda são maioria esmagadora, com 560 casos contra 67 de acidentes fatais em que as vítimas são mulheres.

Outro dado importante levantado pela Abracopel foram as ocupações/atividades em que as pessoas sofreram acidentes.  


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