Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

sábado, janeiro 19, 2013

Desastre na Baixada Fluminense – Distrito de Xerém

Para entender o que  ocorreu na  Baixada  Fluminense,  principalmente no  Distrito  de Xerém,  Duque de Caxias,  Rio de Janeiro,  devemos conhecer a  geografia  da  região, o  processo  de ocupação  e   suas conseqüências.

GEOGRAFIA DA REGIÃO
Caracterizada por uma paisagem natural composta por planícies, colinas, morros, manguezais, serra do Mar ao fundo, matas, rica rede hidrográfica desaguando na Baía de Guanabara.
A fisiografia da bacia dos rios da região é caracterizada principalmente por duas unidades de relevo: a Serra do Mar e a Baixada Fluminense, com um forte desnível do ponto mais alto da serra até a planície. O clima da bacia é quente e úmido com estação chuvosa no verão, com temperatura média anual em torno dos 22 °C e precipitação média anual em torno de 1700 mm. Os rios descem as serras em regime torrencial, com forte poder erosivo, alcançando a planície, onde perdem velocidade e extravasam de seus leitos em  grandes alagados.

A região onde está inserido o município, desde o período da ocupação européia, teve sua história estreitamente relacionada à da cidade do Rio de Janeiro. Situando-se às margens da Baía da Guanabara, teve seu desenvolvimento ligado à extensa rede hidrográfica que a cortava. Através dos rios, realizava-se o escoamento da produção local e estabeleciam-se os elos de comunicação entre o interior e o litoral, favorecendo a ocupação das cercanias da Baía pelo interior serrano.

CICLO DA MINERAÇÃO E DEVASTAÇÃO DAS MATAS
A região tornou-se importante ponto de passagem das riquezas vindas do interior: o ouro das Minas Gerais.
Apesar da decadência da mineração, a região manteve-se ainda como ponto de descanso, de abastecimento de tropeiros, de transbordo e de trânsito de mercadorias. Até o século XIX, o progresso local foi notável. Entretanto, a impiedosa devastação das matas trouxe, como resultado, a obstrução dos rios e consequente transbordamento, o que favoreceu a formação de pântanos. Das águas paradas e poluídas, surgiram mosquitos transmissores de febres.
Muitos fugiram do local que, praticamente, ficou inabitável. As terras, antes salubres e férteis, cobriram-se de vegetação própria dos mangues.  

OCUPAÇÃO URBANA
Os dados estatísticos revelam que em 1910, a população era de 800 pessoas, passando em 1920, para 2920. O rápido crescimento populacional provocou o fracionamento e loteamento das antigas propriedades rurais, naquele momento, improdutivas.
Os anos 40 encontraram o distrito com uma população que já atingia a casa dos 30.000 habitantes.
Na década de 50 a Baixada Fluminense serviu como área de expansão do Rio de Janeiro, apresentando a proliferação de loteamentos com baixo custo da moradia e carência de infra-estrutura na sua grande maioria.

População de Duque de Caxias – 1940 – 2010

1940
1950
1960
1970
1980
1991
2000
2010
Duque de Caxias
29.613
92.459
243.619
431.397
575.814
667.821
775.456
855.046

DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
O grande desenvolvimento da região Central  de Duque de Caxias (1º e 2º distritos)
trouxe junto um acelerado processo de degradação ambiental. Tal desenvolvimento se  dá principalmente por causa da rede viária que proporciona o escoamento rápido  da  produção e aquisição de insumos para a indústria e comércio. A instalação de empresas  ao redor das rodovias determinou o aterramento de manguezais, contaminação do ar e  despejo irregular de resíduos industrial em rios e terrenos e ocupação de áreas de Mata Atlântica.

 IMPACTO DAS INUNDAÇÕES EM DECORRÊNCIA DA EXPANSÃO URBANA
As inundações na bacia decorrem basicamente do processo de ocupação e uso do  solo, inadequado às condições particulares da Baixada Fluminense. Neste processo são agravantes:
■ falta de infraestrutura urbana, a deficiência dos serviços de  coleta e tratamento de esgoto
■ exploração descontrolada de jazidas minerais,
■ ocupação desordenada e ilegal de margens dos rios ou de planícies inundáveis,
■ obstrução ou estrangulamento do escoamento em  decorrência de estruturas de travessias  implantadas sem a preocupação de não interferir no escoamento (pontes, tanto rodoviárias quanto ferroviárias, e tubulações de água),

FATORES QUE ACARRETAM A DEGRADAÇÃO DOS FUNDOS DE VALES NAS CIDADES
Os fatores que concorreram para o desastre conforme a analise anterior são antigos e vem desde a época da colonização, agravada pelo crescimento da região
Agricultura sem preocupação com a conservação do solo
Desmatamento das florestas existentes deixando o solo exposto à erosão
Desmatamento das matas ciliares que servem de proteção aos rios
Assoreamento dos rios devido à erosão
Região com elevado índice pluviométrico
■ Impermeabilização do solo urbano;
Crescimento desordenado das cidades,
Topografia excessivamente acidentada, com numerosos rios, propiciando a formação de tromba d´água ou cabeça d´água. . Este fenômeno acontece em rios de montanha na época de muitas chuvas. Consiste em um aumento momentâneo e violento do nível de água por conta de uma chuva intensa. Pode ficar ainda mais violento se houver um aumento grande da água de um rio e romper com uma obstrução natural, formada por árvores caídas, pedras e terra. Seria uma avalanche de lama. Na enchente normal o rio sobe e transborda em seu caminho normal. Os americanos consideram esse tipo de enchente com lama, como flash flood, aparece e move rapidamente através do solo, sem aviso que está chegando. Tem um poder destruidor imensurável. Pode mover pedras, arrancar árvores, destruir edifícios e pontes. Pode formar uma parede de água de 3 m a 6 m, com enorme quantidade de detritos.

Os fatores para o desastre estavam presentes, faltava apenas à chuva excessiva com elemento desencadeador, para provocar o efeito dominó, resultando numa avalanche de lama e detritos.
Podemos considerar esse deslizamento de lama como se fosse uma avalanche de lama quando uma massa acumulada de água no solo provoca o deslizamento da terra de forma rápida e violenta e se precipita em direção ao vale. Durante a descida, com velocidade altíssima, a massa carrega cada vez mais lama, arrastando árvores, rochas e edificações.

PLUVIOSIDADE DA REGIÃO
Estudos de especialistas indicam que a região é de elevada pluviosidade anual, concentrando-se no período de verão, desde a década de 40. A maior incidência para o desastre atual  é o efeito dominó provocado pela ocupacional desordenada da região, crescimento populacional e desmatamento.
Trecho do artigo: “Quando analisamos o total pluviométrico anual correlacionado percentualmente a média pluviométrica para o período de 1949 a 1970, estamos analisando o comportamento dos desvios pluviométricos na área de estudo. Os dados da Estação Xerém nos revelam uma tendência linear ao acréscimo da pluviosidade ao longo desses 21 anos.  Com esses dados consegue-se observar  a maior freqüência dos desvios positivos na estação Xerém, indicando eventos pluviais superiores a média do período analisado,  explicável pela sua condição geoecológica, ou seja, sua posição no sopé da Serra dos Órgãos  favorecendo a ocorrência de chuvas orográficas que ajudam a entender a elevada pluviosidade anual” . (Fonte: Revista Geonorte, Edição Especial, 2012).

CENÁRIO DO DESASTRE
Desde a madrugada de quinta-feira, 03 de Janeiro de 2013,  chuva forte atinge a Baixada Fluminense, Região Serrana, Angra dos Reis e Mangaratiba.

Duque de Caxias
Os rios Saracuruna, Inhomirim e Capivari transbordaram, deixando 200 pessoas desabrigadas e causando a morte de um homem, ainda não identificado, no bairro de Xerém. A Defesa Civil enviou colchonetes e cobertores para os desalojados.

Região Serrana,
Os rios Bingen e Piabanha transbordaram em Petrópolis, causando desabamentos nos bairros Alto Independência, Siméria e São Sebastião.  .

Teresópolis
Houve transbordamento do rio Paquequer. Cinquenta moradores das comunidades Vale da Revolta, Perpétuo, Rosário, Caxangá e Pimentel estão desabrigados.

Costa Verde, Angra dos Reis e Mangaratiba
Foram os municípios mais atingidos. Em Angra, oito casas foram destruídas,  houve alagamentos e duas mil pessoas foram evacuadas de áreas de risco.  

Mangaratiba
Houve rolamento de pedras na BR -101 e na estrada Junqueira. No bairros Constância, um muro desabou e uma casa foi destruída, e em Fazenda Ingaíba, houve deslizamento de terra, mas sem vítimas.

Duque de Caxias em emergência
O  prefeito de Duque de Caxias (Baixada Fluminense),decretou estado de emergência no distrito de Xerém.
Nas últimas 24 horas, choveu cerca de 200 milímetros na cidade, o maior volume observado na estação meteorológica da cidade, que foi inaugurada em outubro de 2002. De acordo com a Defesa Civil, a região ainda tem vários pontos de alagamento.

DANOS HUMANOS
Boletim divulgado pela Defesa Civil do Estado na  sexta-feira (4) aponta que subiu para 4.803 o total de pessoas que tiveram que sair de casa em todo o Estado por causa das chuvas. Uma pessoa morreu e outras duas estão desaparecidas: uma em Duque de Caxias e outra em Nova Iguaçu (ambas na Baixada Fluminense).

Em Angra dos Reis, na Costa Verde; 320 pessoas ficaram desalojadas, 160 desabrigadas e 3.380 foram evacuadas. Três pessoas ficaram feridas.

Em Mangaratiba, 90 pessoas ficaram desalojadas. Cinco edificações foram
Em Petrópolis;  30 pessoas estão desalojadas.
Teresópolis, região serrana, 50  pessoas desalojados

DANOS MATERIAIS
Em Duque de Caxias; 45 casas foram destruídas e 200 ficaram danificadas.

Em Angra dos Reis, na Costa Verde,; Nove casas foram destruídas e 38 danificadas.

Em Mangaratiba,  5 edificações foram danificadas e uma, destruída.
Em Petrópolis, região Serrana, três casas foram destruídas e quatro ficaram danificadas.

AS CIDADES ATINGIDAS
Paraty: alagamentos, falta de luz
Duque de Caxias: inundações, deslizamentos de encostas, famílias desalojadas,casas soterradas
um morador morto
Petrópolis: famílias desalojadas, transbordamento  de rios, queda de barreiras na serra
Angra dos Reis: famílias desalojadas, queda de barreiras na Rio-Santos, alagamentos, falta de luz
Mangaratiba: deslizamento de pedras na Rio-Santos, falta de luz
Teresópolis: transbordamento de rio, famílias desalojadas

BALANÇO PARCIAL,
Segundo balanço divulgado no domingo, 06  de janeiro,   pelo governo do Estado, o Rio de Janeiro tem 2.465 desalojados e 706 desabrigados devido às chuvas que castigaram a Baixada Fluminense.

Angra dos Reis
O número de desalojados aumentou de 65 para 320. O município tem ainda 160 desabrigados.  Nove casas foram destruídas e 38 danificadas,

Mangaratiba
A quantidade de desalojados passou de 90 para 500, além de 90 desabrigados. Cinco edificações danificadas e uma destruída

Duque de Caxias
O número de casas destruídas pelo temporal passou de 45 para 200. As residências danificadas passaram de 200 para 300. Os desabrigados da enchente cresceram de 276 para 478, em Xerém.

Petrópolis
Teve três casas destruídas e quatro danificadas, deixando 30 pessoas desalojadas.

Teresópolis
registrou 51 desalojados.

A Defesa Civil considera desabrigados os que perderam suas casas e estão em abrigo público. Já os desalojados saíram de casa e estão provisoriamente em casas de parentes e amigos. Apenas em Duque de Caxias, foram montados seis abrigos públicos.

Vítimas: 03

INFRAESTRUTURA
O sábado foi dia de faxina para os moradores de Xerém. Eles amanheceram com pás nas mãos e carrinhos para tentar retirar a lama amontoada nas ruas e nos imóveis
Segundo a prefeitura, 300 homens atuam na limpeza das ruas e 180 caminhões, carregados de lama e escombros, já saíram de Xerém. No entanto, o trabalho tem sido dificultado porque os moradores, ao retornarem para suas casas, estão depositando mais lixo nas ruas. A energia deve ser restabelecida até  domingo, 06 de janeiro.  O abastecimento de água não tem previsão para ser normalizado porque parte de uma adutora da Cedae rompeu.

VISTORIAS E INDENIZAÇÕES
Os técnicos da Defesa Civil vistoriaram as construções mais atingidas e danificadas pelas chuvas, nas regiões de Pedreira e Café Torrado. A inspeção identificou outras 48 casas em risco, que foram interditadas e devem ser demolidas. Além delas, outros 100 imóveis aguardam um laudo técnico da Defesa Civil. Somente após o laudo é que poderá ser iniciado o processo de derrubada e indenização das vítimas. "Ainda estamos fechando o número de casas, que depende da avaliação da Defesa Civil", informou o prefeito de Duque de Caxias.

FALTA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Pelas ruas, a população tentava retomar a normalidade em Xerém. A falta de água é o maior problema para os moradores, que ainda trabalham na limpeza de suas casas. Cerca de 12 mil pessoas estão sem acesso à água encanada. A previsão é que o sistema seja restabelecido até o final da semana, 13 de janeiro.  Até lá, caminhões pipa e doações garantem o consumo mínimo aos moradores. Por toda a cidade, ainda há muita lama e poeira.

PREJUÍZOS
 O prefeito de Duque de Caxias, município com a segunda maior arrecadação do Estado do Rio, estima que os prejuízos causados pelo temporal que abalou a cidade cheguem a R$ 50 milhões, incluindo apenas os danos relacionados ao patrimônio público municipal, como pontes e ruas. Fora da conta estão as mais de 300 casas destruídas, além dos prejuízos causados à companhia estadual de água e esgoto, a Cedae, cuja adutora se rompeu, e empresas como a distribuidora de energia elétrica Light.
Para reconstrução da cidade, a estimativa é de oito a dez meses. 
Fontes: UOL Notícias, O Globo, O Estado de São Paulo, período de 3 a 7 de janeiro de 2013

Comentário: A população tem uma parte da responsabilidade, pois ocupam áreas públicas, margens de rios, encostas, etc,  com a desculpa que não há lugar para morar. E ao mesmo tempo o município não fiscaliza esses espaços com propensão a desastres naturais. A natureza necessita de sua zona de proteção natural, a zona de amortecimento. Essa zona de proteção da natureza é invadida ou tomada por construção de moradias irregulares,, avenidas, urbanização, etc. 

O ciclo de desastre da natureza não obedece uma lei ou  norma, mas  sim é resultante de uma série de eventos não previstos e da convergência de fatores adversos, aparentemente independentes, que num determinado momento se somam para provocar essa catástrofe. Excesso de chuva, topografia da região favorável, desmatamento, urbanização desordenada, ocupação de espaço da própria natureza, etc. são esses eventos e fatores que se somam, para que a natureza possa retomar o seu espaço territorial. Esses desastres da natureza são uma forma aliviar tensão concentrada, confinada, provocando, inundações, deslizamentos, enxurradas, etc.

O que o homem faz com a natureza? Empreendimentos preocupados especificamente com o conforto para a vida do homem, sem se preocupar  com a conservação da natureza. Os fenômenos da natureza obedecem as leis naturais físicas e suas consequências podem ser destruidoras.
A relação entre o homem e a natureza não é harmoniosa e sim  de disputa de ocupação de espaço territorial. O homem com sua tecnologia e a natureza com sua força destruidora.
Devemos compreender os mecanismos que regem a natureza;
■ a alteração do ecossistema, que cria novos fatores adversos para o homem.
■ o clima e as propriedades do terreno não podem ser modificados infinitamente pelo homem,
■ o desmatamento que deixa a natureza sem proteção
■ a ocupação de áreas com maior susceptibilidade natural
■ a falta de planejamento urbano

Vídeo:
Distrito de Xerém

Marcadores: ,

Print Friendly and PDF

posted by ACCA@5:01 AM