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quinta-feira, outubro 21, 2010

Vazamento de amônia em agroindústria

Um vazamento de amônia numa agroindústria de Morro Grande, Santa Catarina, sábado, 8 de agosto de 2010, levou pelo menos cinco trabalhadores para o hospital do município. Um deles foi transferido para Criciúma e permanece internado na UTI do Hospital São João Batista com queimaduras pelo corpo, segundo familiares.

COMO FOI
Os quatro funcionários trabalhavam na manutenção da tubulação do sistema de refrigeração de câmaras frias da Tramonto Alimentos, quando uma das mangueiras abastecidas com amônia em estado líquido estourou.
MR e outro colega de trabalho estavam a menos de um metro de distância do local do vazamento, a cerca de quatro metros do chão. Rapidamente, o gás se espalhou pelo local e atingiu outros dois trabalhadores que estavam no solo. MR foi atingido diretamente pelo gás e foi quem teve mais ferimentos e não teria conseguido deixar a câmara fria sozinho. Os outros três funcionários atingidos deixaram o local e retornaram em seguida, usando máscaras, para salvar o colega.

HOSPITAL
Eles foram socorridos pela empresa e encaminhados ao Hospital São Judas Tadeu, de Meleiro. Dois permaneceram internados. Por causa da situação mais grave, Ricken foi transferido para o hospital São João Batista, em Criciúma. Ele está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com queimaduras internas e externas provocadas pela inalação de amônia. Os ferimentos atingiram a face, pescoço, tórax e vias aéreas. Conforme o diretor clínico do hospital, o trabalhador está em coma induzido e deve permanecer internada pelos próximos 15 dias.

FALECIMENTO
Após permanecer 69 dias internado na UTI do Hospital São João Batista, MR, morreu no sábado, 16 de outubro de 2010..

EMPRESA
Tramonto Agroindustrial S.A. foi fundada em dezembro de 2005, e iniciou as atividades operacionais em Janeiro de 2007, na cidade de Morro Grande, no Sul de Santa Catarina, com o objetivo de atender a demanda por produtos de alta qualidade e com mão de obra agregada para o Mercado Japonês e Europeu bem como parte de sua produção para o Mercado Interno.
Foram investidos R$ 12 milhões de reais na empresa que está instalada num terreno de 12 ha e possui 6.500m² de área construída. Entrou em operação gerando 250 empregos diretos e hoje opera com 820 empregos diretos e mais uma cadeia de indiretos. O complexo Tramonto Agroindústria é formado por: abatedouro, fábrica de rações e conjunto de integração constituído por 128 criadores integrados.
A Tramonto Agroindústria S.A. vem se destacando no segmento de frangos, possuindo forte presença na linha de cortes de frango e desossados, impulsionando a exportação que se sobressai em diversos mercados internacionais pelo reconhecimento da qualidade de seus produtos.
No início de suas atividades o abate era de 3,5 mil aves/dia, após dois anos está abatendo 36 mil aves/dia e com projeto de abater 120 mil aves/dia em poucos anos. Parte da produção (35%) abastece os mercados nacionais bem como indústria de embutidos dos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul. A outra parte (65%) da produção de cortes é destinada ao mercado externo..

Fontes: Engeplus, 9 de agosto de 2010, A Noticia – 11 de agosto de 2010, Diário Catarinense – 17 de outubro de 2010

Comentário:
Pelas informações podemos concluir que os trabalhadores não foram treinados em procedimentos seguros. Quando houve a ruptura da mangueira, um dos quatros trabalhadores que estavam no local foi atingido gravemente pelo gás e os demais conseguiram sair do local e retornaram com máscara para salvar o colega.

O trabalhador morreu após permanecer 69 dias no hospital. Em qualquer instalação industrial onde está presente sistema de refrigeração de amônia, existe o potencial de vazamento de amônia, portanto, o risco de vazamento de amônia não é novo. Ele pode ser súbito e imprevisível, mas as medidas de segurança devem ser reais e estar presentes na operação. Em qualquer manual de instalação de amônia existe uma série de eventos que podem ocorrer, e uma delas e a mais provável é a ruptura de tubulação, portanto, antecipadamente, podemos conhecer os riscos prováveis. Então, por que acontecem esses acidentes repetitivos? Talvez no nosso subconsciente, negamos esses riscos? Ou na nossa instalação nunca acontecerá esse tipo de acidente? Sabemos que aconteceu em várias instalações semelhantes, mas a nossa é diferente?

Parece que o dialogo de segurança não está funcionando? Incrível como os programas de segurança recomendados pelo governo não traduz em informações práticas para os trabalhadores. Não há preocupação como as informações devem chegar ao chão de fábrica ou de obra para conscientização dos trabalhadores. As DDS (diálogo de segurança) viraram ou parecem mais um livreto de catecismo para rezar a missa de segurança ou viraram monólogo de segurança.

As informações são passadas mecanicamente. Em qualquer tipo de execução de trabalho ou serviço, é necessário traçar o plano de trabalho dessa operação. Qualquer tipo de serviço deve ter um plano de trabalho e identificar os riscos existentes.
Poderíamos adotar na atividade industrial o “princípio de cautela” ou o princípio de precaução, que diz “quando uma atividade gera ameaça de dano ao ambiente e à saúde humana” avançamos com cuidado, como se a falha fosse possível, ou mesmo provável.

Qual a finalidade da permissão de trabalho seguro? Identificar todos os riscos presentes no local e/ou em comunicação com outras áreas.

Os trabalhadores devem estar familiarizados com os riscos que possam encontrar no local e estejam preparados em atuar em situação de emergência. A permissão de trabalho seguro garante que os trabalhos sejam executados com segurança, com prévia coordenação / comunicação entre os empregados ou entre áreas, solicitantes e executantes desses trabalhos, evitando com isto que, por desconhecimento mútuo, equipamentos sejam acionados/manipulados durante a execução de trabalhos de manutenção e montagem, empregados sejam expostos a atmosferas perigosas, ou qualquer outro tipo de risco que possa causar um acidente.

GÁS AMÔNIA
O gás é um irritante poderoso das vias respiratórias, olhos e pele. Dependendo do tempo e do nível de exposição podem ocorrer efeitos que vão de irritações leves a severas lesões corporais.
A inalação pode causar dificuldades respiratórias, broncoespasmo, queimadura da mucosa nasal, faringe e laringe, dor no peito e edema pulmonar. A ingestão causa náusea, vômitos e inchação nos lábios, boca e laringe.
Em contato com a pele, a amônia produz dor, eritema e vesiculação. Em altas concentrações, pode haver necrose dos tecidos e queimaduras profundas. O contato com os olhos em baixas concentrações (10 ppm) resulta em irritação ocular e lacrimejamento. Em concentrações mais altas, pode causar conjuntivite, erosão na córnea e cegueira temporária ou permanente. Reações tardias podem acontecer; como catarata, atrofia da retina e fibrose pulmonar.
A exposição a concentrações acima de 2.500 ppm por aproximadamente 30 minutos pode ser fatal.

RISCOS DOS SISTEMAS DE REFRIGERAÇÃO
As instalações frigoríficas, porque trabalham com refrigerantes com características físico-químicas especiais e em condições de temperatura, pressão e umidade diferenciadas do habitual, apresentam riscos específicos à segurança e à saúde, relacionados com o tipo agente refrigerante utilizado, assim como com as instalações e equipamentos.
As maiores preocupações são os vazamentos com formação de nuvem tóxica de amônia e as explosões.

Causas de acidentes são falhas no projeto do sistema e danos aos equipamentos provocados pelo calor, corrosão ou vibração, assim como por manutenção inadequada ou ausência de manutenção de seus componentes, como válvulas de alívio de pressão, compressores, condensadores, vasos de pressão, equipamentos de purga, evaporadores, tubulações, bombas e instrumentos em geral. É importante observar que mesmo os sistemas mais bem projetados podem apresentar vazamentos de amônia, se operados e/ou mantidos de forma precária.
São freqüentes os vazamentos causados por:
■ abastecimento inadequado dos vasos;
■ falhas nas válvulas de alívio, tanto mecânicas quanto por ajuste inadequado da pressão;
■ danos provocados por impacto externo por equipamentos móveis, como empilhadeiras;
■ corrosão externa, mais rápida em condições de grande calor e umidade, especialmente nas porções de baixa pressão do sistema;
■ rachaduras internas de vasos que tendem a ocorrer nos/ou próximo aos pontos de solda;
■ aprisionamento de líquido nas tubulações, entre válvulas de fechamento;
■ excesso de líquido no compressor;
■ excesso de vibração no sistema, que pode levar a sua falência prematura.

EQUIPAMENTOS BÁSICOS DE SEGURANÇA PESSOAL
As empresas devem possuir equipamentos básicos de segurança pessoal para cada trabalhador envolvido diretamente com a planta, dispostos em locais de fácil acesso e fora da sala de máquinas:
■ uma máscara panorâmica com filtro de amônia;
■ equipamento de respiração autônomo;
■ óculos de proteção ou protetor facial;
■ um par de luvas protetoras de borracha (PVC);
■ um par de botas protetoras de borracha (PVC);
■ uma capa impermeável de borracha e/ou calças e jaqueta de borracha.

PLANOS DE EMERGÊNCIA
Devem ser estabelecidos por escrito planos de emergência para ações em caso de vazamento, realizando-se treinamentos práticos. Como conteúdo mínimo, é preciso prever mecanismos de comunicação da ocorrência, evacuação das áreas, remoção de quaisquer fontes de ignição, formas de redução das concentrações de amônia e procedimentos de contenção de vazamentos.

Em caso de vazamento com grande concentração de gases, faz-se necessária a utilização de máscaras autônomas e proteção total do corpo com tecido impermeável ou, na ausência dessas, o umedecimento dos trajes. Na mesma linha de raciocínio, deve-se aspergir água para forçar a reação de hidratação e formação do hidróxido de amônia.
É crítico que se observe que, na ocorrência do vazamento, a amônia, em estado aerossolizado, comporta-se como um gás denso.
Em caso de fogo, recomenda-se o uso de água para resfriar recipientes expostos. Para fogo envolvendo amônia líquida, utiliza-se pó químico ou CO2

CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO DE TRABALHADORES
Os sistemas de refrigeração por amônia devem ser operados por profissional qualificado, com certificado de treinamento, conforme o disposto na NR-13.

Todos os que trabalham no estabelecimento, inclusive terceiros, devem ser suficientemente informados sobre os riscos existentes e as medidas de controle, e treinamento para as ações de emergência e de evacuação de área. É necessária a previsão de treinamentos especiais para os que operam, inspecionam e mantêm o sistema, assim como para os trabalhadores que trabalham próximos aos equipamentos, e os que operam equipamentos móveis, como empilhadeiras.

Os operadores devem ter conhecimentos completos sobre o sistema, incluindo compressores, válvulas de controle automático, de isolamento e de alívio de pressão, controles elétricos e mudanças de temperatura e pressão.
Devem saber que partes do sistema requerem manutenção preventiva e como realizá-la de forma segura, além de como observar e avaliar o sistema para identificar sinais de problemas, como vazamentos e vibração.
Fonte: Nota Técnica Nº 03/2004 - Refrigeração Industrial - Amônia -Riscos, Segurança. Ministério do Trabalho

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posted by ACCA@11:46 AM