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terça-feira, março 02, 2010

Temporal na Ilha da Madeira

CENÁRIO
A ilha da Madeira faz parte do arquipélago da Madeira situa-se no Oceano Atlântico a 978 km a sudoeste de Lisboa e a cerca de 700 quilômetros da costa africana.
Possui uma extensão de 740 km². A capital da ilha e da região autônoma é a cidade do Funchal.
A ilha da Madeira é de origem vulcânica, o seu clima é subtropical.
Possui uma população de 240.537 habitantes, densidade 324,7 hab./km².
Grande parte da população da ilha habita em apenas 35% do território, sobretudo na costa sul, onde se encontra a cidade do Funchal, que concentra 45% da população (130 000 habitantes), com uma densidade populacional de 1 500 hab./km². .
A ilha é muito montanhosa, com profundos vales incrustados entre os picos mais altos e falésias na maior extensão da costa. Durante sua colonização a ilha foi praticamente desmatada.
A precipitação anual varia de 500 mm no sudeste da ilha aos mais de 2000 mm nas encostas norte.

ORIGEM DO DESASTRE
Chuvas torrenciais, acompanhadas de ventos fortes (100 km/h), provocado por sistema frontal, composto por uma frente fria, uma frente quente e um centro de baixa pressão em superfície, denominado ciclone. O choque da massa de ar polar com a tropical aliada à elevada temperatura da água do oceano acelerou a condensação, causando uma precipitação extremamente elevada num curto espaço de tempo. A topografia da ilha contribuiu para aumentar os efeitos da chuva.

PRECIPITAÇÃO PLUVIOMÉTRICA
A ilha tem três picos; Pico Ruivo (1.861 m de altitude) e do Pico das Torres (1.851 m), o Pico do Areeiro com 1.818 m. Todos os picos predominam rochas com pouca vegetação.
A quantidade de água que caiu no dia 20 de Fevereiro de 2010 sobre a Ilha da Madeira, em particular no Pico do Areeiro, foi o valor mais alto jamais registrado, 185 litros por metro quadrado, A cidade de Funchal, com uma média anual de 750 l/m2 registrou em poucas horas 114 l/m2.

FORMAÇÃO DO DESASTRE
Precipitação elevada, topografia acidentada que potencializa a chuva, falta de cobertura vegetal, ocupação desordenada da encosta, impermeabilização excessiva da cidade, as condições são ótimas para que o volume de chuva seja excessiva, com velocidade, com deslizamento/aluimento de terra e pedra.
O centro do município do Funchal é atravessado por três córregos de grande declive e regime torrencial: São João, Santa Luzia e João Gomes.

EFEITOS
Transbordamento dos córregos e devido à força da água houve assoreamento parcial de algumas avenidas ao longo dos córregos.
A força da água vinda à montante carregada com pedras e troncos inundou a parte baixa da cidade

OCUPAÇÃO DESORDENADA DO SOLO
“Há um agravamento da situação devido aos erros do ordenamento do território que se têm cometido na ilha, em participar na costa sul que é a zona onde reside mais de um terço da população", critica Hélder Spínola, dirigente da Quercus na Madeira.
Os erros de ordenamento territorial e urbanísticos que têm permitido em prol de interesses privados e que têm, depois, efeitos devastadores em situações de chuvas.
Referem-se, principalmente à forte pressão imobiliária do setor turístico, mas também se construíram estradas e vias de acesso que interromperam e estrangularam o curso das águas. Não existe uma vazão eficiente das águas. Os córregos não têm espaço suficiente para permitir o escoamento das águas, sublinha o ambientalista, Hélder Spínola, dirigente da Quercus na Madeira.
O ambientalista da Quercus refere-se, sobretudo aos três principais córregos da Madeira - de S. João, St.ª Luzia e João Gomes -, que diz terem sofrido estrangulamentos, acabando por transbordar. As águas não percorreram o percurso normal e acabaram por destruir estradas, pontes e casas. Não desaguaram no mar como seria natural.
Não é a primeira vez que a ilha está sujeita a intempéries e que fizeram mortos em 1993 e em 2001. Estavam previstas chuvas intensas. Há uma faceta natural, mas também há uma faceta humana e de prevenção e foram essas que falharam.

É precisamente nas zonas altas e mais pobres do Funchal que os problemas são mais graves, dizem os especialistas. Locais onde a urgência de responder às necessidades de habitação da população levou, nos anos 50, as pessoas a construírem casas de forma ilegal. Muitas vezes próximos aos leitos dos córregos e nas encostas dos morros com potencial de deslizamento. "Tudo isto foi feito com uma espécie de beneplácito das autoridades, porque as pessoas precisavam de habitação", lembra o arquiteto Luís Vilhena.

GOOGLE EARTH
Acesse o link: Funchal
Você pode navegar pela Ilha da Madeira, verificar a topografia e a cidade de Funchal

EQUIPES DE EMERGÊNCIA
De acordo com o Governo regional, cerca de duas mil pessoas estão trabalhando em operações de limpeza e resgate, entre empresas, entidades públicas, forças armadas e de segurança e voluntários.

VÍTIMAS
Foram confirmados 42 mortos, 600 desalojados e cerca de 120 feridos atendidos no hospital, sendo 70 ficaram internados e, desses, apenas 16 continuam ainda com cuidados médicos

LIMPEZA
Foram empregados 138 caminhões e 108 máquinas. Foram feitos 2.250 viagens de caminhões com entulhos retirados da cidade. Dá uma estimativa de 11.0000 m3 de entulhos retirados da cidade

ESTIMATIVA DE PREJUÍZOS
1,5 bilhões de euros. Os prejuízos são incalculáveis, devido às dezenas de carros arrastados, inúmeras inundações em casas, lojas e grandes edifícios públicos, estradas e infraestruturas destruídas. As enchentes amontoaram veículos, troncos de árvores e pedras em muitas regiões do arquipélago.

Histórico de Desastre na região
Em 29 de outubro de 1993 o jornal Tribuna da Madeira publica: “O Funchal despertou e foi colocado perante um cenário devastador. Chuvas torrenciais ocorridas durante a noite provocaram o deslizamento de terras e as ribeiras, estranguladas por habitações e entupidas por entulho, não conseguiram reter as águas em fúria dentro das suas margens. Os dias seguintes permitiram verificar a dimensão da tragédia.
O caudal de água lamacenta arrastou para morte oito pessoas, uma das quais na ribeira dos Socorridos, em Câmara de Lobos. E provocou prejuízos materiais de milhões de contos. Cerca de 100 habitações foram destruídas e largas centenas de funchalenses ficaram desalojados. As escolas tiveram que encerrar e 220 automóveis foram destruídos. Alguns corpos não seriam recuperados.
Segundo comentário de um especialista na época, o geógrafo Raimundo Quintal, disse: “A Região caracteriza-se por ter períodos de “chuva torrencial” que potenciam as “cheias repentinas”, cujos resultados a ilha já conheceu no seu longo historial. A cheia de 1993 trata-se, apenas, do mais recente motivo de lamento.
“Num estudo que fiz sobre os aluviões (desde o sec. XVI até à actualidade), verifiquei a ocorrência de 31 casos graves. Dez deles aconteceram em Outubro, mas o período em que há probabilidade de acontecerem estes fenómenos vão desde Setembro a Março” Os trechos

Fontes: Jornal da Madeira, Diário de Noticias de Prtugal, Correio da Manhã de Portugal, 21 a 01 de março de 2010

Comentário:
Esse um padrão de urbanismo que ainda predomina nas cidades, encaixar um rio num leito retificado, com as margens impermeabilizadas e muretas. Ao longo do rio ou córrego constrói avenidas e edificações. O rio perde toda sua característica natural, ficando engessado numa calha artificial Suas margens e regiões limítrofes são modificadas por construções, avenidas, de maneira desordenada. Quando há chuvas torrenciais o rio procura sua forma anterior, natural, para escoar a água ou manter a vazão do rio de modo continuo. Com esse engessamento do rio, acrescido pela vazão do rio virtual provocado pela impermeabilização do solo e desmatamento, ele forçosamente sairá de seu leito artificial construído pelo homem, para aliviar a pressão e volume de água existente nesse leito que não comporta esse volume de água.
A cidade vai crescendo, mais impermeabilização, mais água é direcionado ao rio, que mantém a mesma vazão anterior numa situação crescente de ocupação urbana, sem ao menos aumentar o leito do rio, que se torna inviável devido a ocupação de suas margens por infraestrutura urbana.

Esse tipo de desastre obedece a um padrão semelhante em todos os países. Recentemente foi na região da Calábria (Itália), em Angra dos Reis e São Paulo (Brasil).
As principais causas de inundação seriam:
■ A morfologia da cidade a região tem relevo altamente acidentado, formado por serras, morros, fundo de vale, e encostas íngremes.
■ O clima: chove torrencialmente na época de verão
■ Uso e ocupação do solo de maneira desordenada
■ Não há mapeamento das áreas inundáveis quanto a:
1-Conhecimento da relação cota x risco de inundação
2- Definições dos riscos de inundação de cada superfície
3- Incorporação a Legislação Municipal de uso e ocupação do solo em zona de risco
4- Uso de Sistema de Informações Geográficas na análise de projetos de edificações e equipamentos urbanos.
5- Controle público da ocupação regular e irregular
■ a prática legalizada da construção ilegal e construção de obras públicas que não respeita o ecossistema.
■ O aumento da vulnerabilidade é atribuível ao uso do solo e da água que é muitas vezes ainda não considera as limitações impostas pela hidrogeologia. É comum no país como padrão, canalizar córrego, retificar e construção de avenidas ao logo das margens dos córregos e rios. Em conseqüência disso há uma ocupação desordenada do solo, principalmente construções, aumentando ainda mais a impermeabilização do solo.

Infelizmente a historia de desastre natural demonstra que tais acidentes se repetem após um ciclo de poucos anos.
Não aprendemos ou as pessoas mudam e as lições são esquecidas, com os erros dos que nos antecederam. Infelizmente, muita gente não consegue enxergar nem tirar proveito dos fatos que já aconteceram , imagine a cegueira diante dos fatos portadores de futuro ou os mesmo futuros. repetirão os mesmos erros. A natureza tem suas próprias leias para provocar o desastre

Vídeos:
São quatro vídeos postados,mostrando a velocidade incrível da água, carregando pedras, lamas e detritos.

Vídeo:


Vídeo(1):


Vídeo(2):


Video(3):

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posted by ACCA@10:20 AM