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quarta-feira, agosto 05, 2009

Lembranças do pesadelo atômico


Japoneses rezam pelas vítimas da bomba atômica de Hiroshima. Entre 6 de agosto e 31 de dezembro de 1945, 140 mil pessoas morreram por causa da bomba que caiu em Hiroshima
A cidade japonesa de Hiroshima lembrou nesta quinta-feira os 64 anos do primeiro bombardeio atômico do mundo, lançado contra a cidade em 6 de agosto de 1945 e que deixou 70 mil mortos. O prefeito de Hiroshima aproveitou a ocasião para pedir a abolição por completo das armas nucleares até 2020. Cerca de 50 mil pessoas, incluindo os sobreviventes da bomba nuclear, participaram na cerimônia no monumento dedicado aos milhares mortos pelo ataque americano, que acumulou vítimas ao longo dos anos como efeito da radiação.

Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki são consideradas entre os principais e mais importantes eventos da história mundial. Entre 6 a 9 de agosto, as pessoas ao redor do mundo se lembrarão dos bombardeios atômicos de Hiroxima e Nagasaki. Estas comemorações mundiais e especialmente em Hiroshima e Nagasaki, significaram os primeiros passos na era nuclear, no final da II Guerra Mundial.
As duas bombas dizimaram duas cidades, provocando a mortandade de centenas de milhares de seres humanos e ao advento do envenenamento de radiação que matariam milhares e milhares de pessoas a cada ano. Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki significaram toda uma nova expressão da guerra e da violência: o terror e a guerra total.


Depoimentos de dois imigrantes japoneses. Eles são "hibaku-shá", vítimas da bomba atômica, vieram para o Brasil na onda da imigração japonesa. Eles contam lembranças do terror das explosões atômicas, as únicas lançadas sobre a humanidade.

A foto à esquerda mostra o degrau de pedra da entrada principal do Banco Sumitomo, distante 250 m do epicentro da explosão.
Acredita-se que uma pessoa estava sentada no degrau olhando em direção ao epicentro, provavelmente esperando a abertura do banco.
Devido aos raios de calor com temperatura acima de 1.000 graus centigrados ou mais, a pessoa foi incinerada na pedra. Até 10 anos após a explosão, a sombra permaneceu claramente sobre a pedra, mas a exposição a chuva e o vento foi gradualmente descorando. A pedra foi removida e está preservada no Museu Memorial Hiroshima Peace.

"Corpos foram incinerados no quintal"
Três dias já haviam se passado desde que a bomba atômica caíra em Hiroshima e ninguém em Nagasaki sabia ao certo o que ocorrera. Aos 9 anos, Nobuaki Honda brincava no quintal de casa às 11h02 de 9 de agosto de 1945 quando ouviu o vôo rasante de um avião.
O som foi seguido de um clarão, acompanhado de um estrondo, que Honda e irmãos pensavam ser um terremoto. Na seqüência veio o deslocamento de ar, que destelhou a casa de madeira e jogou tatames e móveis a distância.
Veio o aviso para a fuga ao abrigo subterrâneo. "Depois de algumas horas, os feridos, queimados em carne viva, pele rasgada, couro cabeludo derretido, começaram a chegar à caverna. Não dava para saber se era homem ou mulher."
Mães traziam filhos mortos nas costas. Para Honda, essa imagem foi o pior do terror. Ao entardecer, outro alerta dava conta de que era perigoso ficar no subsolo. A fuga agora era para as montanhas.
Honda passou dois dias dormindo num cemitério, ao lado de corpos chamuscados, que podiam ser parentes ou amigos. "Não era possível saber."
Depois de dois dias, Honda voltava para casa. Com a ajuda dos irmãos (ele era o mais velho), limpou tudo e tentou voltar às atividades normais.
Havia dezenas de corpos jogados no quintal que antes servira de playground. A prefeitura fez ali mesmo uma vala comum.
"Esse foi o meu maior medo. Os corpos foram incinerados ao lado de casa." Honda saiu pela cidade na busca de parentes. Não achou ninguém, apenas corpos e pedaços de corpos irreconhecíveis.
Hoje aos 72 anos, Honda não traz seqüelas da explosão. Tem arritmia cardíaca, que os médicos não relacionam à radiação.
Veio ao Brasil trabalhar na criação do bicho-da-seda, mas comprou e vendeu ovos e ainda foi peixeiro. Hoje é aposentado, campeão de karaokê e não tem filhos. Não é difícil entender o porquê.
Foto de uma jovem, tirada em outubro de 1945. Ela estava distante de 1,6 km do epicentro da explosão.

"As pessoas fugiam como baratas tontas"
O sol brilha alto -é verão no Japão-, mas Hiroshima está escura como a noite. O ar pesado da nuvem radioativa é sufocante, e o calor que emana da flama branca e incandescente vaporizava os japoneses vivos na morte. O cheiro doce de seres humanos crestados embrulhava o estômago de Shunji Mukai, 15. Ele vomita.
A apenas 1,5 km do local da explosão, Mukai estava na escola às 8h15 de 6 de agosto de 1945. Havia 2.000 alunos. As aulas começavam às 8h. A escola, na verdade, disfarçava uma indústria bélica.
A família Mukai era de seis irmãos, além de pai e mãe. A casa deles ficava a cem metros do centro da explosão, mas às 8h15 só os pais estavam lá.
À queda da bomba, perdeu os sentidos. Ficou desacordado até ser resgatado. "Quando percebi o estrondo, já estava no chão." O grupo saiu dos escombros ferido e estonteado, com sangue a correr dos olhos, da pele e do nariz.
"Todos começaram a fugir como barata tonta", diz Mukai, olhos marejados pela lembrança.
A primeira reação, diz Mukai, foi a de ir na direção de casa, mas as construções em fogo, atiçado pelo vento, o fizerem recuar. A saída era o mar.
Na fuga, uma chuva ácida e radioativa, "negra como lama", queimava como brasa a pele já em carne viva. Cambaleando, buscava abrigo. Roupas haviam-se convertido em farrapos ou se misturado à pele.
Na praia, foi reconhecido pelo irmão, que o levou nos braços para casa, "um monte de carvão, que se esfacelou ao ser tocado".
Alcançaram um refúgio subterrâneo, onde ficam um dia. Mukai ficou dois anos hospitalizado, com queimaduras por todo o corpo. Até hoje tem reações pela radiação na pele, que médicos não sabem decifrar. Sofre ainda de amnésia e desidratação.
Órfão, veio com todos os irmãos para o Brasil. Trabalhou num cafezal de Lins. "Até os 30 anos, pensei: que besteira que fiz. Hoje, vivo feliz."

Fontes: Folha de São Paulo - São Paulo, 24 de fevereiro de 2008

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posted by ACCA@12:32 PM