Trabalho em altura: Síndrome da suspensão inerte
O objetivo deste artigo é alertar os profissionais que desenvolvem o seu trabalho em
medicina de emergência, medicina do trabalho, medicina esportiva e geral, todos
profissionais interessados nestes assuntos, da gravidade desta síndrome, bem
como com as informações atuais, aconselhar o tratamento mais adequado para a
vítima durante o resgate e sua transferência final para um hospital.
No início dos anos 80, o registro de mortes em indivíduos
aparentemente saudáveis, principalmente
relacionados à espeleologia, que foram
encontrados mortos, suspenso em cintos,
com nenhum trauma aparente, intrigou vários pesquisadores.
Inicialmente, essas mortes foram atribuídas à síndrome de
"fadiga por hipotermia", mas a constatação através de publicações de artigos
de medicina do trabalho, relacionadas com o
sistema de proteção contra queda e a posterior realização de estudos
clínicos específicos, modificaram as conclusões iniciais.
Os trabalhos experimentais realizados com
voluntários saudáveis mostraram a gravidade do problema e definiu o conjunto de
sintomas que sofreu os voluntários como "Síndrome da Suspensão Inerte
".
O desenvolvimento
desta síndrome pode chegar a constituir um risco vital para atletas ou
trabalhadores que depois de uma queda ficam suspensos por cinto de segurança, inconsciente
ou impossibilidade de se mover e não são
resgatados rapidamente.
PRIMEIRA REFERÊNCIA HISTÓRICA
As primeiras referências das alterações fisiopatológicas por
suspensão por cinto datam de 1968. O pesquisador americano R.C. Baumann, do Laboratório de
Pesquisa Médica Aeroespacial Harry G.
Armstrong, Ohio (USA), realizou teste com cinco voluntários suspensos através
de cinto de paraquedas.
Esta experiência foi relatada pela pesquisadora Mary Ann
Orzech num artigo publicado em 1987
sobre Programa de Teste para Avaliar a Resposta Humana à suspensão
inerte prolongada.
A experiência de suspensão se fez com cinco voluntários.
Quatro dos voluntários que se submeteram às provas toleraram uma suspensão estática durante 30
minutos com indisposições pouco importante. Três, sentiram mal-estar e sensação
de dormência nos pés e nas pernas. Neste grupo, os sintomas diminuíram ao
modificar a posição dos cintos que prendiam na zona dos glúteos e das pernas.
Um voluntário apresentou perda de consciência aos 27 minutos após o início do
teste; e foi rapidamente atendido e reanimado, recuperando a consciência em
cerca de 5 minutos. Nesta experiência a perda de consciência do voluntário foi
atribuída à estase venosa (trombose venosa) causada pela posição do corpo
durante a suspensão e uma dieta inadequada antes do teste.
SEGUNDA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE MÉDICOS DE RESGATE EM
MONTANHA
Em 1972, no segundo Congresso Internacional de Médicos de
Resgate em Montanha, realizada na Áustria, concentrou-se principalmente nas
discussões sobre “Quedas com cordas e Traumatismo Cranioencefálico” ocorridos nos Alpes austríacos entre 1955 a
1972.
Neste congresso, os especialistas citaram a morte de 10
alpinistas após permanecerem
suspensos por uma corda depois de
queda.
Os autores do estudo G Flora e H R Hölzl não encontraram
nenhuma lesão que justificasse o desfecho trágico.
Nessa análise dois alpinistas morreram antes de ser resgatado,
apesar de desconhecer, que eles ficaram suspensos pouco antes de morrer, os oito restantes
foram resgatados vivos, mas morreram mais tarde. Eles ficaram suspensos 30
minutos a 8 horas e a morte posterior ocorreu 30 minutos e 11 dias após o resgate.
TESTES REALIZADOS
Em 1979, o pesquisador B. A. Nelson realizou 65 testes de suspensão em posição
vertical e imobilização.
Os testes contaram com ajuda de montanhistas experientes e
quatro tipos de cintos.
Os resultados após os
testes mostraram os mesmos efeitos negativos observados em outras experiências,
tais como;
■dormência,
■dor intensa,
■sensação de asfixia,
■contrações incontroláveis,
■hipotensão e taquicardia.
Em dois casos houve perda de consciência
As conclusões finais do estudo evidenciaram, mais uma vez,
que a suspensão vertical por cinto pode causar a perda de consciência, sem
qualquer trauma ou perda de sangue. Esta progressão do quadro clínico em
indivíduos que permaneceram inconscientes,
pela redução do fluxo sanguíneo cerebral, podem causar a morte em 4 a6 minutos.
SÍNDROME DA SUSPENSÃO INERTE
A síndrome da suspensão inerte é uma patologia que necessita
de dois requisitos essenciais para sua ocorrência:
■suspensão
■e imobilidade.
A imobilidade pode ocorrer em pessoas conscientes que ficam
comprometidas devido à posição suspensa inerte, ao ceder a tensão dos músculos
abdominais e também as vítimas, como
conseqüência da queda ou trauma tenham ficado inconsciente.
O sequestro de sangue
nas extremidades produz uma diminuição da pré-carga do ventrículo direito, redução
do débito cardíaco e diminuição da queda da pressão de perfusão cerebral. A
perda de consciência pode ocorrer rapidamente, e se a síndrome progredir pode
causar a morte da vítima. A rapidez do inicio dos sintomas tem componentes
individuais.
Alguns podem
apresentar nas fases iniciais sintomas
da síndrome pré-síncope como: náuseas, tonturas, zumbido nos ouvidos, sudorese,
perda de visão, etc..
Esta situação pode
ser compreendida no "sequestro choque hipovolêmico" (choque
hemorrágico)
PREVENÇÃO
A prevenção passa a ser o elemento chave no tratamento
destes acidentes.
O cinto de segurança é um sistema de segurança criado para
evitar lesões por queda quando se trabalha “em altura”.
No entanto, a suspensão e imobilidade prolongada podem
colocar em risco a vida do trabalhador.
A prevenção deve ser direcionada fundamentalmente para:
■Evitar o surgimento da síndrome.
■Utilizar métodos seguros de resgate para evitar a
fatalidade.
Os cintos de segurança atuais, tanto de uso esportivo como
os projetados para o trabalho, são bastante cômodos e confiáveis para resistir
as quedas; no entanto nenhum modelo, até o momento, pode evitar o
desencadeamento de uma síndrome da suspensão inerte.
A primeira recomendação é escolher um modelo de cinto que se adapte anatomicamente ao corpo e seja bem confortável como para não
causar desconforto ou dor quando estiver
suspenso por muito tempo.
O recomendável
especialmente aos trabalhadores, seria provar o cinto antes de sua utilização,
comprovando sua comodidade e tamanho
correto.
Obviamente, estas comprovações deveriam ser feitas simulando
as condições de trabalho que será empregado, para dessa forma realizar os
ajustes ou mudanças necessárias.
As experiências realizadas com cinto de segurança demonstraram de forma contundente, que uma
vítima inconsciente ou com mobilidade limitada suspensa, pode falecer em pouco
tempo se não se tomarem as medidas necessárias. Uma das primeiras medidas de
prevenção é a divulgação desta patologia entre os trabalhadores ou usuários de
cinto, como; esportistas, e as pessoas que podem ter relação com o resgate
(colegas da vítima, socorristas ou
resgatistas, médicos que costumam atender estas emergências).
É particularmente importante para evitar o agravamento dos
sintomas a rapidez com que se realizem as manobras de resgate, especialmente em
pessoas já inconscientes, nas quais a morte pode ser inevitável se as manobras
se realizam de forma incorreta.
Diante de uma possibilidade de um eventual acidente, as
simulações ou treinamentos periódicos de resgate de vítimas em suspensão,
deveriam ser obrigatórios nos planos de formação profissional de trabalhadores
em altura e de esportistas que utilizam
esses acessórios.
O uso correto do cinto, o conhecimento de manobras de
resgate específicas e sua realização periódica são essenciais para dar uma
resposta adequada diante de um acidente deste tipo.
O instrutor de resgate vertical australiano, A Sheehan, num
artigo recente, descreve que existem fatores individuais que podem aumentar o
risco de uma síndrome da suspensão inerte e cita uma série de recomendações aos
usuários:
■ O trabalho com o emprego de cordas e suas técnicas deve
ser planejadas, para que em caso de emergência a vítima possa ser resgatada
imediatamente.
■Os trabalhadores devem receber treinamento e formação
específica em técnicas de resgate para realizar trabalhos deste tipo.
■ Os trabalhadores não devem realizar trabalhos em altura
quando apresentam fatores de risco individuais (incapacidades, doenças…) ou
apresentam condições que favoreçam a aparição de uma síndrome da suspensão
inerte.
■ Quando ocorrer um acidente, deve-se dar prioridade ao
resgate e não se deve perder tempo em estabilizar à vítima.
■Diante da possibilidade de um acidente, os trabalhadores
que utilizem sistemas de suspensão com cintos
não devem trabalhar nunca sós.
■Quando a mobilidade
das pernas se encontra limitada, deve-se evitar permanecer suspenso durante um período prolongado de tempo
■ Evitar resgatar às vítimas em posição vertical, e se isto
é impossível, deve-se resgatar à vítima no menor tempo possível.
■ Se a vítima permanece consciente durante o resgate,
tranqüilizá-la e pede que se
mantenha as pernas, se possível,
em posição horizontal.
■É conveniente durante o trabalho em suspenso, utilizar um sistema de apoio dos pés e mover
as pernas freqüentemente.
TRATAMENTO DA SÍNDROME DA SUSPENSÃO INERTE
1. Fase de Resgate
A síndrome da suspensão é uma patologia que só se desenvolve
quando a vítima se encontra suspensa e imóvel.
O primeiro objetivo terapêutico é resgatar à vítima com
vida. O resgate rápido se impõe diante de qualquer outra manobra.
Numerosas publicações descrevem mortes em poucos minutos do
resgate (morte de resgate), depois de colocar aos acidentados em posição
horizontal.
A etiopatogenia mais provável da "morte de
resgate" é a sobrecarga aguda do ventrículo direito, por afluxo em massa
do sangue das extremidades inferiores, quando o acidentado é colocado
bruscamente em decúbito dorsal.
Para A. Sheehan e R. Dawes e as manobras de reanimação
avançada que incluem oxigenoterapia, fluidoterapia, calças de medicina
anti-shock(MAST) ou vestuário pneumático (PASG), etc. são impossíveis de
realizar durante o resgate. Estes autores recomendam colocar às vítimas em
posição horizontal o mais rapidamente, seguindo as recomendações que se seguem
em pacientes em estado de choque ou com problemas na via aérea. Mas esta
opinião é discutida pela maioria dos pesquisadores diante da existência de
casos da “morte de resgate”, cujas causas foram enunciadas anteriormente.
Todos os autores estão de acordo em evitar a posição
totalmente vertical durante o resgate. Depois do resgate, recomendam colocar à
vítima em posição semi-sentada,ou agachada. Em caso de vítimas inconscientes,
uma vez que a permeabilidade da via aérea esteja controlada, a posição fetal
(alternativa à posição lateral de segurança) pode ser a ideal.
Recomenda-se manter esta posição 20 a 40 minutos e posteriormente passar
gradualmente à posição horizontal. O objetivo desta manobra é evitar a
sobrecarga aguda do ventrículo direito por afluxo em massa do sangue acumulado
nas extremidades Durante todo o processo de resgate é essencial monitorar os
sinais vitais e seguir as técnicas de suporte básico e avançado, segundo as
recomendações do European Resuscitation Council.
2. Transporte
Diante da presença de sintomatologia (dormência das pernas,
parestesias, etc) que façam suspeitar lesões associadas ou um possível
agravamento, recomenda-se o traslado a um centro hospitalar dotado de Unidade
de Terapia Intensiva.
• O traslado deve ser rápido.
• A vítima deve estar acompanhada em todo momento de pessoal
emergência treinado em técnicas de reanimação avançada que disponham de
material específico (transporte com médico).
• Se o acidente ocorreu em lugares afastados de um centro
médico, verificar a possibilidade da vítima seja evacuada em helicóptero.
• Se durante o transporte até o centro médico se a vítima apresentar hipotensão é
preferível a administração de drogas vasoativas à reposição volêmica em massa.
• É aconselhável o controle da glicemia, especialmente se a
diminuição foi o desencadeante da síndrome da suspensão..
• Não se devem esquecer as possíveis patologias associadas
que possa apresentar a vítima como: TCE (Traumatismos Crânio Encefálicos),
traumatismos torácicos, fraturas em extremidades, desidratação, hipotermia, etc.
• Em pacientes politraumatizados é imprescindível medicação
adequada contra dor e correta
imobilização das fraturas.
3. Tratamento hospitalar
Se após o exame
inicial no hospital, se o estado da vítima apresentar possível
agravamento é norma colocar na UTI para monitorar
os sinais vitais e tratar patologias associadas que possam comprometer a vida
do paciente: insuficiência renal por rabdomiólise (lesão de músculo),
politraumatismos, etc.
Fonte: “Síndrome del arnés”,
Trauma de la suspensión; M.
Avellanas Chavala (Servicio de Medicina Intensiva. Hospital San Jorge. Huesca),
D. Dulanto Zabala (Servicio de Anestesiología y Reanimación. Hospital de
Basurto. Bilbao), SEMAC (Sociedad Española de Medicina y Auxilio en Cavidades)
Marcadores: segurança, trabalho em altura

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home