Auxílios-doença aos usuários de droga triplicam no mercado de trabalho
Por anos, o eletricista C WPF, de 35 anos, conciliou a
rotina de trabalho com o vício do álcool e da cocaína. Em 2011, um aumento no
consumo das duas drogas levou o profissional a apresentar sintomas como perda
de raciocínio e coordenação, e fez com que ele fosse demitido da multinacional
onde trabalhava. Nessa época, ele ingeria três litros de álcool por dia e
chegou a ter duas overdoses. Em busca de ajuda, internou-se em uma clínica de
reabilitação e, desde 2012, recebe um auxílio-doença mensal no valor de R$
1.500. Isso fez com que ele entrasse em uma estatística preocupante que vêm
crescendo nos últimos anos. O consumo de drogas no Brasil não só cresce, como
também afasta cada vez mais brasileiros do mercado de trabalho.
AUMENTO DE AUXÍLIOS-DOENÇA
■Nos últimos oito anos, o total de auxílios-doença
relacionados à dependência química simultânea de múltiplas drogas teve um
aumento de 256%, pulando de 7.296 para 26.040.
■No mesmo período, o benefício concedido a viciados em
cocaína e seus derivados, como crack e merla, também mais do que triplicou.
Passou de 2.434, em 2006, para 8.638, em 2013, num crescimento de 254%.
■O uso de maconha e haxixe resultou, por sua vez, em auxílio
para 337 pessoas, em 2013, contra 275, há oito anos. Os dados inéditos são do Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS).
Ao todo, nos últimos oito anos, a soma de auxílios-doença
concedidos a usuários de drogas em geral, como maconha, cocaína, crack, álcool,
fumo, alucinógenos e anfetaminas, passou de um milhão. Só em 2013, essa soma
alcançou 143.451 usuários.
GASTOS COM TODAS AS DROGAS
Segundo o INSS, o total gasto em 2013 com auxílios-doença
relacionados a cocaína, crack e merla foi de R$ 9,1 milhões. Os benefícios
pagos a usuários de mais de uma droga somaram R$ 26,2 milhões. E a cifra total,
relativa a todas as drogas (incluindo álcool e fumo), chegou a R$ 162,5
milhões.
VALOR DO AUXÍLIO-DOENÇA
O auxílio-doença varia de R$ 724 a R$ 4.390,24, de acordo
com o salário de contribuição do segurado. O valor mensal médio pago a um
dependente químico de cocaína e seus derivados é de R$ 1.058, e a duração média
de recebimento é de 76 dias. Para ter direito, o segurado precisa de
autorização de uma perícia médica e de atestados e exames que comprovem tanto a
dependência química quanto a incapacidade para o trabalho. O tempo de
recebimento do benefício é determinado pelo perito.
O CONSUMO DA DROGA JÁ SE TORNOU EPIDEMIA
A presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e
Outras Drogas (Abead), a psiquiatra Ana Cecilia Petta Roselli Marques, observou
que, por conta do aumento do consumo de cocaína e crack, era esperado que
houvesse um impacto também no mercado de trabalho brasileiro. A última edição
do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), promovido pela
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou que, entre 2006 e 2012,
duplicou o consumo de cocaína e seus derivados no Brasil. A pesquisa mostrou
ainda que um em cada cem adultos consumiu crack em 2012, o que faz do país o
maior mercado mundial do entorpecente. Na avaliação da psiquiatra, o consumo da
droga já se tornou epidemia.
— Era esperado que tivesse um impacto no mercado de trabalho
do país, com repercussões, por exemplo, em auxílios-doença para cuidar da
saúde. Por conta do uso, o trabalhador adoece cada vez mais cedo,
principalmente do sistema cardiovascular. E há também a questão da mortalidade
precoce. É uma epidemia, o que é visto pelo número de casos novos na população
ao longo dos anos —explicou Ana Cecília.
■No ano passado, apenas os estados de Alagoas, Roraima e
Sergipe não tiveram aumento do número de auxílios-doença relacionados ao uso de
drogas em relação a 2012.
■Em São Paulo, estado que historicamente concentra o maior
número de beneficiados, o total de auxílios-doença passou de 41 mil para
42.649.
■Na sequência, estão Minas Gerais (de 18.527 para 20.411),
■Rio Grande do Sul (de 16.395 para 16.632),
■Santa Catarina (de 13.561 para 14.176),
■Paraná (de 9.407 para 10.369) E
■No Rio de Janeiro, que historicamente é o sexto estado que
mais concede auxílios-doença relativos a drogas, o pagamento do benefício
cresceu 10% em 2013, passando de 6.577, em 2012, para 7.234. No mesmo período,
a quantidade de benefícios concedidos a dependentes químicos de cocaína e crack
teve um aumento de 25,2%, crescendo de 471 para 590.
CONSUMO DE CRACK E COCAÍNA TÊM AUMENTADO NOS ÚLTIMOS ANOS
O diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para
Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (Inpad), o psiquiatra Ronaldo
Laranjeira, observa que o Brasil é um dos poucos países em que o consumo de
crack e cocaína têm aumentado nos últimos anos.
— As pesquisas mostram que há, nos domicílios brasileiros,
um milhão de usuários de crack e 2,6 milhões de usuários de cocaína. E uma
parcela dessas pessoas trabalha. Então, não há dúvida de que tem um impacto no
mercado de trabalho.
ATENDIMENTO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Em virtude do aumento da dependência química, o Ministério
da Saúde informou que aumentará neste ano a capacidade de atendimento dos
Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) 24 horas. Atualmente,
o Brasil tem 47 unidades em funcionamento, com capacidade para 1,6 milhão de
atendimentos por ano. O governo federal afirma que vai construir mais 132
unidades até o fim do ano, elevando a capacidade para 6,1 milhões de
atendimentos anuais. Fonte: O Globo - 10/02/2014
Comentário:
Dados do Levantamento de Uso de Drogas e Saúde no Brasil
Segundo cálculos do Banco Interamericano do Desenvolvimento
(BID), o Brasil perde por ano US$ 19 bilhões por absenteísmo, acidentes e
enfermidades causadas pelo uso do álcool e outras drogas por trabalhadores.
O uso indevido de álcool e outras drogas está relacionado
com:
■Cinco vezes mais chances de ocorrer acidentes de trabalho.
■Três vezes mais licenças médicas do que as concedidas para
outras doenças.
■50% do total de absenteísmo e licenças médicas.
■Oito vezes maior a utilização de diárias hospitalares.
■Três vezes maior a utilização de assistência médica e
social das empresas por parte dos
familiares.
Entrevista muita extensa, porém muita interessante para
compreender a dependência química. Entrevista com o médico Drauzio Varella e convidado.
Vale a pena ler.
DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Ronaldo Laranjeira é médico psiquiatra, coordena a Unidade
de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da UNIFESP
(Universidade Federal do Estado de São Paulo) e é PhD em Dependência Química na
Inglaterra.
As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma
área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para
o corpo todo. Isso vale para todos os tipos de prazer – temperatura agradável,
emoção gratificante, alimentação, sexo – e desempenha função importante para a
preservação da espécie.
Evolutivamente o homem criou essa área de recompensa e é
nela que as drogas interferem. Por uma espécie de curto circuito, elas provocam
uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso
compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as
fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga,
mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário.
MECANISMO GERAL DA DEPENDÊNCIA
Drauzio – Que
mecanismo do corpo humano explica o processo de dependência da droga?
Ronaldo Laranjeira – Acho importante destacar que existe, no
cérebro, uma área responsável pelo prazer. O prazer, que sentimos ao comer,
fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral
chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi relevante para a sobrevivência
da espécie. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência
era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a
espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela
que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma possuir
mecanismo de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa
se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína. Por isso, só
produzem dependência as drogas que de algum modo atuam nessa área. O LSD, por
exemplo, embora tenha uma ação perturbadora no sistema nervoso central e altere
a forma como a pessoa vê, ouve e sente, não dá prazer e, portanto, não cria
dependência.
Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o
final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de
recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que
isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora fica difícil
entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde deteriorada, não
abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção
do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga,
fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.
Drauzio – Você diz
que a evolução criou, no cérebro, um centro de recompensa ligado diretamente à
sobrevivência da espécie. As abelhas, quando pousam numa flor e encontram
néctar, liberam um mediador chamado octopamina, neurotransmissor presente nas
sensações de prazer. Esses mecanismos são bastante arcaicos?
Ronaldo Laranjeira –
O sistema de prazer é muito primitivo. É importante para as abelhas e para os
seres humanos também. A droga produz efeito tão intenso porque age nesses
mecanismos biológicos bastante primitivos.
Drauzio – Mecanismos
tão arcaicos assim representam uma armadilha poderosa. Na verdade, provoca-se
um estímulo forte que está mexendo com milhares de anos de evolução.
Ronaldo Laranjeira – Acho que estamos cada vez mais
valorizando esse tipo de mecanismo. A droga é um fenômeno psicossocial amplo,
mas que acaba interferindo nesse mecanismo biológico primitivo.
DEPENDÊNCIA É UM PROCESSO DE APRENDIZADO
Drauzio – A maioria
das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há
quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam
crack o dia inteiro. O que explica essa diferença? A resposta está na droga ou
no usuário?
Ronaldo Laranjeira –
Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e na história de cada
pessoa. Quando começou a usar? Como interpreta os sintomas da síndrome de
abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência não é só
a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da
droga produz.
A dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por
exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua
capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte
minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da
abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que
proporciona e para evitar o desprazer que sua falta produz.
A dependência é fruto, então, do mecanismo psicológico que a
um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, e fruto
das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa interação entre aspectos
psicológicos e efeito farmacológico vai determinar o perfil dos sintomas de
abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a
abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do
menor sinal da síndrome de abstinência.
Resumindo: a dependência química pressupõe o mecanismo
psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no
organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.
A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior
do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o
indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente.
Como garotos de 12, 13 anos e, às vezes, até mais novos, estão usando maconha,
atualmente o problema se agrava. Além disso, as concentrações de THC (princípio
ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960,
andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10
vezes mais potente do que era naquela época.
Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a
necessidade de montar um ambulatório só para atender os usuários de maconha e
há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados,
que fumam seis, sete baseados por dia e não conseguem fazer outra coisa na
vida. Isso não acontecia quando a concentração de THC era mais fraca e o acesso
à droga mais restrito.
Drauzio - Quando se
conversa com usuários de maconha de muitos anos, eles lastimam que a droga
tenha perdido a qualidade. Sua explicação prova exatamente o contrário. Terão
essas pessoas desenvolvido um grau de tolerância maior à droga?
Ronaldo Laranjeira -
Acho que a queixa é fruto de um certo saudosismo, uma vez que há tipos de
maconha, entre eles o skank, que chegam a ter 20% de THC. Na Holanda, foram
desenvolvidas cepas que contêm maior concentração desse princípio ativo, o que
faz com que a maconha perca a classificação de droga leve e se transforme numa
substância poderosa para causar dependência. Deve-se considerar, ainda, como
justificativa da queixa que o uso crônico causa sempre certa tolerância.
Drauzio - No
Carandiru, minha experiência mostra que há quem fume um baseado a cada 30
minutos. Uma droga que exija tal frequência de consumo não pode ser considerada
leve, não é verdade?
Ronaldo Laranjeira –
Infelizmente não existem drogas leves, se produzirem estímulo no sistema de
recompensa cerebral. Em geral, as pessoas perguntam: mas se a droga dá prazer, qual
é o problema? O problema é que ela não mexe apenas na área do prazer. Mexe
também em outras áreas e o cérebro fica alterado. Diante de uma fonte
artificial de prazer, ele reage de modo impróprio. Se existe a possibilidade de
prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho?
A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer,
conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer
que valorizamos, mas não são imediatas.
CARACTERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS DOS USUÁRIOS
Drauzio – O uso
crônico do álcool provoca uma série de alterações que todo mundo conhece e
reconhece. Em relação às outras drogas, de acordo com sua experiência pessoal e
não com as definições dos livros, quais as principais características do
usuário?
Ronaldo Laranjeira –
No ambulatório da Escola Paulista de Medicina que atende usuários de maconha,
pude notar que há dois grupos distintos. Um é constituído por jovens que
perderam o interesse por tudo o que faziam. Não estudam nem trabalham. Estão
completamente desmotivados. É o que chamamos de síndrome amotivacional. O nome
é feio, mas pertinente. O outro grupo é formado por pessoas nas quais se
estabelece uma relação complexa entre maconha e doenças mentais como psicose e
depressão. Não se sabe se a maconha produz a doença mental. O que se sabe é que
ela piora os sintomas de qualquer uma delas, seja ansiedade ou esquizofrenia.
AÇÃO E EFEITO DAS DIFERENTES DROGAS
Drauzio
-Teoricamente, quando a pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Você
acha que isso é um mito?
Ronaldo Laranjeira –
É importante distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. No
geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um
efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto,
as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas seu uso crônico aumenta os
níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em
equilíbrio. É o efeito de homeóstase. Se alguém usa um estimulante, passado o
efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o
efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o
álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de
ansiedade.
Drauzio – Como age a
maconha na memória?
Ronaldo Laranjeira -
A maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante
rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis
de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso
tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes.
Na verdade, não há droga que melhore o desempenho
intelectual. Nós sabemos que pessoas criativas usam drogas e produzem coisas
criativas. Se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no
mundo capaz de produzir esse resultado.
Drauzio - Quais são
os efeitos crônicos da cocaína?
Ronaldo Laranjeira – Em relação à saúde, o efeito mais grave
da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao
álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em
adultos jovens.
ASSOCIAÇÃO PERIGOSA DA COCAÍNA COM O ÁLCOOL
Drauzio – Por que o
usuário de cocaína bebe tanto?
Ronaldo Laranjeira –
De alguma forma, o álcool faz com que a pessoa se sinta mais liberada e use
cocaína, um estimulante potente. Para diminuir a excitação, ela torna a beber
e, como num círculo vicioso, a usar cocaína. A confusão cerebral aumenta
consideravelmente e a tendência é beber ou cheirar mais. Trata-se de uma reação
perturbadora em que o álcool incentiva o consumo de cocaína e vice-versa.
Drauzio – Fico
assustado com a quantidade de bebida destilada que o usuário de cocaína
consome.
Ronaldo Laranjeira –
A cocaína aumenta a resistência ao álcool, porque um pouco de seu efeito
depressor é atenuado pela cocaína. Por outro lado, a pessoa tolera quantidades
maiores de álcool, porque precisa abrandar os efeitos altamente excitantes da
cocaína.
Sempre é válido repetir que álcool e cocaína representam uma
das associações de drogas mais perigosas que existem. Ao que parece, tal
associação dá origem a uma terceira molécula extremamente tóxica para cérebro e
para o músculo cardíaco.
Drauzio – No
Carandiru, vi meninos de 20 e poucos anos com infarto do miocárdio ou derrame
cerebral puxando o braço ou a perna depois de uma seção de crack ou de uma
overdose de cocaína. Isso acontece frequentemente?
Ronaldo Laranjeira –
Infelizmente, no Brasil, não há dados precisos sobre o que aconteceu com os
usuários de cocaína, porque o sistema médico não é muito coordenado. Se eles
existissem, ficaríamos horrorizados.
Tivemos uma pequena experiência acompanhando, por cinco
anos, o primeiro grupo de usuários de crack que foi internado em Cidade de
Taipas, interior de São Paulo. Era uma população de classe média baixa. No
final desse período, 30% tinham morrido em acidentes ou por morte violenta.
Nesse caso, as famílias não sabiam dizer quem eram os responsáveis pelas
mortes: os traficantes ou a polícia. Não sabemos se isso ocorre com todos os
usuários de crack. Temos certeza, porém, de que poucas doenças apresentam esse
índice de mortalidade.
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA / EFEITO REBOQUE
Drauzio – Como se
manifesta o efeito reboque?
Ronaldo Laranjeira – O mecanismo de recompensa cerebral é
importante para a preservação da espécie e ninguém é contra o prazer. Ao
contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. A
dependência química, entretanto, cria uma ilusão de prazer que acaba
perturbando outros mecanismos cerebrais. Se, fumando um baseado, a pessoa
relaxa, findo o efeito, a ansiedade ganha força, pois a síndrome de abstinência
é imediata. É o chamado efeito rebote.
A cocaína age de forma diferente. O efeito rebote está na
impossibilidade de sentir prazer sem a droga. Passada a excitação que ela
provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a
graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico.
Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe
dá prazer. Parece que, por vingança divina, o cérebro perdeu a capacidade de
experimentar outras fontes que não a desse prazer artificial que a droga
proporciona.
Essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes
químicos. No processo de reabilitação, quando a pessoa pára de usar droga, é
fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer independentes da substância
química.
Drauzio – Quem está
de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez
de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou
fumando crack”, é o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o
outro é fraco, com comportamento abjeto, digno de desprezo. Quem está passando
por isso, vê a realidade de forma diferente?
Ronaldo Laranjeira –
Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de
que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro,
uma fonte preciosa de prazer para os fumantes que adiam a decisão de parar de
fumar por medo de perdê-la. De fato, 30% dos fumantes, logo depois que se
afastam da nicotina, apresentam sintomas expressivos de depressão e precisam
ser medicados com antidepressivos.
BUSCA DO PRAZER TOTAL
Drauzio - Você acha
que um dia aparecerá uma droga cujo mecanismo de ação se encarregue de nos
deixar felizes sem provocar malefícios no cérebro?
Ronaldo Laranjeira –
Não acredito. Fica difícil imaginar uma droga que aja só no centro de prazer
sem perturbar os demais mecanismos bioquímicos do cérebro, que é um órgão
complexo e evolutivamente preparado para vivenciar muitas formas de prazeres
sutis. Para tais estímulos, está aparelhado. Para os advindos das drogas, não.
Drauzio – Você não
acha que o homem está sempre à procura do prazer total?
Ronaldo Laranjeira – A busca do prazer é uma característica
positiva do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria
biologia por um artifício grosseiro, ele acaba se empobrecendo. O desejo de
intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para uma guerra que jamais será
vencida.
CAMPANHAS CONTRA AS DROGAS
Drauzio – Quando
analisamos as campanhas contra as drogas, verificamos que se baseiam muito nos
aspectos negativos dessas substâncias. A ideia é sempre assustar o usuário:
“droga mata”. Aí, o garoto fuma um baseado e não morre. Ao contrário, sente-se
bem e fica achando que tudo não passa de uma grande mentira. Você acha que o enfoque
das campanhas é ingênuo?
Ronaldo Laranjeira – Estamos ainda muito no começo. Na
criação de um modelo do que acontece com os usuários de droga, as campanhas
estão numa fase bastante embrionária, mas acho que estão certas ao afirmar que
drogas fazem mal. Ficar só nisso, porém, é passar uma informação de saúde
ingênua e pobre. É preciso dizer como e por que as drogas são altamente
prejudiciais ao organismo para que a pessoa tome uma decisão firme, bem
alicerçada, e disponha-se a abandoná-las.
As evidências nos mostram que, quando se trabalha com a
prevenção, a prioridade deve ser dada aos fatores de risco. Todavia, a partir
do momento em que já está instalado o consumo (maconha, nos casos mais comuns),
as estratégias teriam de ser bem diferentes.
ORIENTAÇÃO AOS PAIS
Drauzio – Muitas
vezes os pais ficam apavorados quando encontram maconha nas coisas dos filhos.
Como você orienta quem vive esse problema?
Ronaldo Laranjeira – Na verdade, maconha é a primeira droga
ilícita que a pessoa consome, mas antes disso, em geral, já experimentou o
álcool e o cigarro. Já não se discute mais que, quanto mais cedo o adolescente
entrar em contato com a droga, maior será a probabilidade de “escalar”, isto é,
de partir para outras drogas ou intensificar o uso da maconha. É muito difícil
prever quem vai ou não embarcar nesse processo. Sabe-se, porém, que quantos
mais amigos envolvidos com drogas ele tiver, maior risco correrá do uso
tornar-se crônico.
O primeiro passo para enfrentar a situação é os pais se
informarem sobre o que está acontecendo na vida dos filhos e voltarem a exercer
controle mais efetivo sobre suas atividades. Em geral, esse problema reflete
uma certa crise familiar. Por razões diversas, pais e filhos se distanciaram.
Por isso, a estratégia básica é levar ao conhecimento dos pais o que está
acontecendo com seus filhos e os riscos que eles correm.
Quanto ao adolescente, é complicado conversar sobre esses riscos.
A tendência do jovem que já se envolveu com maconha é minimizá-los ao máximo.
“Que mal existe em fumar um baseado por semana?” é a pergunta que muitos fazem.
Acontece que, na maioria das vezes, quem começou precocemente, no período de
seis meses, estará fumando um baseado por dia.
Na entrevista clínica, não dá para antever o caminho que
cada um percorrerá no mundo das drogas. Quem já teve o desprazer de acompanhar
um adolescente numa entrevista, tranquilizar os pais, dizendo – “Olhem, ele só
está usando uma vez por semana. Essa é uma experiência pela qual ele deve
passar.” – e, depois de dois anos, ver esse jovem totalmente deteriorado,
traficando drogas, fica muito preocupado com o momento certo em que deve
interferir. Esse é o desespero dos pais e o dilema dos profissionais: agir na
medida exata da necessidade de cada caso. Nem todos precisam de tratamento, mas
não se pode deixar escapar aqueles para os quais o acompanhamento clínico é
indispensável.
Drauzio – Em que você
se baseia para julgar se um garoto, que afirma fumar maconha a cada dois meses
, representa risco de tornar-se um usuário crônico?
Ronaldo Laranjeira – É preciso estar atento a três fatores
que combinados são sinais de alerta e requerem algum tipo de acompanhamento. O
primeiro é atitude por demais tranquila do adolescente que considera a maconha
inofensiva e destituída de inconveniências. Depois, é importante considerar a
rede social em que está inserido. Os amigos com quem convive são usuários da
droga? Por último, deve-se avaliar seu desempenho nas atividades cotidianas. É
o caso do bom aluno até os 13 anos, que foi perdendo o interesse pela escola e
não reage mesmo diante da ameaça de perder o ano.
PARANOIA ASSOCIADA AO CONSUMO DE DROGAS
Drauzio – A paranoia
é um efeito terrível da cocaína. O indivíduo cheira e entra numa crise
persecutória alucinante. O que leva alguém a usar uma droga sabendo que irá
provocar uma sensação medonha e que nenhum prazer oferece?
Ronaldo Laranjeira – Essa é a essência da dependência
química de uma droga. Primeiro aparece o efeito prazeroso e, depois, o
desprazer. Com a cocaína, isso é mais intenso. Seu efeito de excitação e de
prazer é imediato, ocorre em poucos segundos. Alguns minutos depois, desaparece
e surgem os efeitos desagradáveis. Confrontando os dois, prevalece a lembrança
dos bons momentos e a pessoa volta a usar a droga. Tive um paciente que
injetava cocaína. Suas veias tinham sumido, mas mesmo assim ele não desistia.
Expunha-se ao tormento de dezenas de picadas para obter um único resultado
positivo que, em sua balança emocional, compensava o sofrimento anterior. Os
fumantes têm comportamento parecido. Muitos, mesmo com traqueostomia, não
deixam de fumar.
Drauzio - Conheci
alguns que, apesar da insuficiência vascular cerebral, ficavam tontos e caíam
no chão quando fumavam, mas não desistiam e logo depois acendiam um cigarro
outra vez.
Ronaldo Laranjeira - É a força da dependência, um fenômeno
diversificado cuja essência é a disfunção cerebral provocada por várias drogas
e que se manifesta em pessoas de personalidades diferentes.
Drauzio - A maconha
também pode provocar paranoia?
Ronaldo Laranjeira – É menos comum, mas casos de paranoia
também ocorrem especialmente em pessoas que já apresentaram algum problema
mental. Quem tem um surto psicótico e fuma maconha, por exemplo, faz um péssimo
negócio, porque se intensificarão os sintomas dessa doença já estabelecidos
anteriormente.
No que se refere à cocaína, nem todos que manifestam esses
sintomas desenvolverão a síndrome paranoica. No entanto, quando isso acontece,
as consequências são desastrosas. Soube de um usuário de cocaína que, em crise,
saiu em disparada por uma estrada, foi atropelado e morreu. Há outros que pegam
uma arma e disparam a esmo.
FORÇA PODEROSA DA DEPENDÊNCIA
Drauzio – Muitos
usuários garantem que a maconha é uma droga fácil de largar, que não causa
dependência. Isso é verdade?
Ronaldo Laranjeira – Cada droga tem um perfil de
dependência, e a maconha não é muito diferente das demais. Como já foi dito,
atualmente ela está dez vezes mais forte do que era há 30 anos. Por isso, não é
tão fácil afastar-se dela, principalmente se a pessoa começou a fumar na
adolescência, quando ainda era um ser em formação.
O acompanhamento de usuários de maconha, no ambulatório da Escola
Paulista de Medicina, sugere exatamente o contrário. As pessoas conseguem
suspender o uso da droga durante alguns dias, mas a vontade fica incontrolável
e elas voltam a fumar os baseados.
Drauzio – No
Carandiru, examino rapazes com tuberculose que fumam cigarros de nicotina, de
maconha e crack. Explico-lhes que eles não podem fumar de jeito nenhum porque
seus pulmões estão doentes, muito inflamados. Na semana seguinte, eles me
informam que conseguiram suspender o crack e a maconha, mas o cigarro está
difícil. Isso se repete nas semanas subsequentes. Tive centenas de casos como
esse, que me convenceram de que o cigarro é mais difícil de largar do que as
outras drogas. Estou exagerando?
Ronaldo Laranjeira – Embora o efeito da nicotina não seja
tão poderoso quanto o da maconha, é muito mais constante. Imaginemos que o
fumante dê dez tragadas em cada cigarro e fume vinte cigarros por dia. Feitas
as contas, num único dia seu cérebro recebeu um reforço positivo pelo menos
duzentas vezes. Cada tragada é igual a uma injeção de nicotina na veia. Esse
estímulo, repetido através dos anos, faz com que a dependência de nicotina seja
mais poderosa do que as outras. A maconha, no momento, passa por processo
semelhante. Mais disponível e mais barata, seu consumo aumentou e,
consequentemente, o número de cigarros fumados por dia e os estímulos cerebrais
que provocam aumentaram também. Portanto, em termos de dependência, as duas
drogas não diferem muito. Pelo atual padrão de consumo, mais fácil, acessível e
intenso, maconha e nicotina têm muito em comum. Por isso, não compartilho a
ideia de que maconha seja uma droga leve.
Drauzio – O usuário
de cocaína diz que deixará de usar a droga quando quiser. No entanto, admite
que não poderá vê-la, porque entrará em desespero e a vontade de consumi-la
ficará incontrolável. Como se pode explicar esse fenômeno?
Ronaldo Laranjeira –
Ficar longe da droga, quando se está disposto a abandoná-la, faz parte do
processo de aprendizado. No exato instante em que a pessoa vê a cocaína, seu
cérebro começa a preparar-se para recebê-la e dispara um mecanismo que chamamos
de craving ou fissura. Isso vale para qualquer droga. Depois que ficou
dependente, é quase impossível alguém ver a droga e resistir ao desejo de
usá-la. Por isso, na fase inicial do tratamento, aconselha-se que o usuário se
afaste completamente de todos esses estímulos, pois ficará menos difícil lidar
com o fenômeno da dependência química. Fonte: Dr. Drauzio Varella

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