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domingo, outubro 09, 2011

Pó: Um perigo mortal

Muitas pessoas não sabiam que o açúcar podia explodir até o dia 7 de fevereiro de 2008, quando uma explosão abalou a Imperial Sugar Company em Port Wenthworth, na Geórgia, matando 13 pessoas e ferindo 40. Situada nas imediações de Savannah, essa fábrica de 91 anos processava açúcar granulado e em pó.
Foto aérea da Imperial Sugar depois da explosão e incêndio

A explosão iniciou um incêndio e causou o colapso parcial de um edifício de quatro pisos. A explosão inicial colocou mais pó combustível na atmosfera causando uma série de explosões secundárias que se deslocaram sucessivamente através da galeria do silo e do túnel. O fogo causado pelas explosões secundárias se propagou através das casas de embalagem e nos edifícios adjacentes.
Mas a explosão na Imperial Sugar não foi a única explosão de pó aterradora nos Estados Unidos nos últimos anos.

De acordo com o CBS, houve mais de 280 explosões de pó entre 1980 e 2005, resultando em 119 mortes e 718 feridos. Ainda assim muitos trabalhadores, mesmo aqueles bem treinados nas rotinas de segurança, não estão cientes dos perigos do pó.

Em 2006, o CBS reconheceu a falta de regulamentação e publicou um relatório recomendando que a OSHA normatize o pó nas indústrias com base nas normas da NFPA. A OSHA iniciará o projeto de regulamentação para pós, mas a explosão da Imperial Sugar incitou o congresso americano a envolver-se na tentativa corrente para impor a OSHA a criação de uma regulamentação relativa aos pós. Como prova da necessidade de regulamentação por parte do governo, a OSHA inspecionou a Imperial Sugar em 2000 e não emitiu nenhuma intimação, de acordo com Edwin Foulke, secretario assistente de Labor for Occupational Safety and Health, no seu testemunho ao Subcomitê do Senado sobre Educação, Trabalho e Pensões no dia 29 de julho 2008.

CAUSAS DAS EXPLOSÕES DE PÓ
Uma parte do problema a respeito da regulamentação relativa às explosões de pó é a confusão acerca de quais pós podem explodir e em que condições. E até não se sabe em que medida o pó constitui um perigo.
Muitas substâncias sólidas se tornam explosivas quando se encontrarem em forma de pó fino. Essas substâncias incluem materiais orgânicos como grãos, açúcar, madeira, e carvão; orgânicos sintéticos, como plásticos, tinturas, espumas, farmacêuticos, e químicos; e metais combustíveis, como o alumínio, o magnésio, o zinco e o ferro. Os silicatos, os sulfatos, os nitratos, os carbonatos, e os fosfatos; o sal; a areia, o calcário e o cimento são poeiras minerais não explosivas.

PÓS FINOS: O PERIGO
De forma geral, quanto menor a partícula de pó, maior o perigo. Uma regra empírica usada frequentemente é que o pó em partículas de 420 micra (peneira de granulometria malha 40) pode servir de combustível em uma explosão. Como quadro de referência, o açúcar comercial normal vai de 850 a 150 micra, com a maior parte do açúcar entre 350 e 450 micra, de acordo com Paul Caulkins, diretor de Quality Assurance na Imperial Sugar. Frequentemente, os pós apresentam uma mistura ou distribuição de tamanhos. Para as misturas, outra regra empírica é que para que o pó seja potencialmente explosivo, basta que 2% das partículas tenham 420 micra ou menos. As fibras, devido a forma não esférica, podem não passar pela peneira 40, mas ainda constituir um problema, como se evidenciou na explosão de Malden Mills em 1995 em Lawrence, Massachussetts que envolveu fibras de tecidos

Cinco condições aumentam o risco de uma explosão de pó.
■Quando um pó combustível está em suspensão no ar ou em outro meio oxidante,
■ apresenta a concentração mínima explosiva (Minimum explosible concentration – MEC),
■tem a presença de uma fonte de ignição,
■está confinado e
■as condições estão maduras para a explosão.
Remover pelo menos um dos elementos do pentágono é a estratégia de controle da NFPA.

O principal documento da NFPA sobre pó, a NFPA 654, Prevenção de Incêndios e Explosões na Fabricação, Processamento, e Manuseamento de Sólidos em Partículas Combustíveis, cobre os processos perigosos relacionados com o pó e é referenciada em outros documentos da NFPA sobre pó. Os documentos específicos de um produto que cobrem o carvão, o enxofre, os metais combustíveis, o pó de madeira e o pó agrícola integram a identificação de perigos e medidas de controle semelhantes às encontradas na NFPA 654, mas lidam também com os requisitos únicos para um determinado pó. A NFPA fornece uma cobertura abrangente dos perigos derivados dos pós em sete documentos relacionados com pó e o fez desde 1923 com a NFPA 61, Prevenção de Incêndios e Explosões de Pó em Instalações Agrícolas e de Processamento de Alimentos
Podem obter informação adicional sobre perigo relacionado com pó da OSHA que desenvolveu um Boletim de Informação sobre Segurança e Saúde em 2005 e Instituiu um Programa de Ênfase Nacional em 2007.

A LIMPEZA É A RESPOSTA FÁCIL?
Só porque o produto final nas suas instalações não envolve pó, não quer dizer que esteja necessariamente livre desse perigo. Ao avaliar o perigo relacionado com pó nas suas instalações, você deveria considerar;
■ o processo integral, incluindo as matérias primas, os ingredientes, e
■ os produtos intermediários, bem como os subprodutos.
Se você trabalhar com qualquer componente sólido combustível de qualquer tamanho ou forma, então o manuseamento, o transporte, ou toda manipulação desses materiais em qualquer momento do processo pode criar poeiras combustíveis. Sempre que partículas maiores forem raspadas, trituradas, cortadas ou lixadas, pode ser criado pó. Mesmo se os sólidos são tipicamente armazenados ou manuseados quando molhados, o mesmo potencial de risco surge quando esses materiais se tornam secos. Por esses motivos, é essencial que a sua avaliação de perigo identifique todos os sólidos combustíveis em forma de partículas no processo.
Camadas de pó tão finas como 0, 8 mm ou 1,6 mm podem ser um problema, portanto se você vê pó, não ignore. Limpe e examine de onde vem. Isola todas as aberturas no equipamento de processamento ou transporte para prevenir a emissão de pó no ambiente de trabalho. Quando inspeciona o seu local de trabalho, as fronteiras vão incluir tipicamente as áreas óbvias, visíveis, mas deve também considerar as vigas, as bandejas de cabos elétricos, os dispositivos de iluminação, as superfícies do equipamento e áreas “invisíveis” como as escondidas acima dos tetos falsos.

POEIRA INVISÍVEL: PERIGOSA
A poeira que não pode ser vista é ainda mais perigosa do que a visível porque é mais facilmente ignorada. Considere o incidente na West Pharmaceuticals, Inc., em Kinston, Carolina do Norte, em 2003. Em fotografias tomadas antes da explosão, a área geral de trabalho parecia relativamente livre de pó. Mas o processo de fabricação gerava pó que se acumulou sem ser visto acima do teto falso. Quando o pó acumulado entrou em suspensão, ficou concentrado e se incendiou, o resultado foi uma explosão que matou 6 pessoas e feriu 38.
Uma boa limpeza poderia parecer uma resposta fácil para manter as suas instalações seguras, mas criar e implementar uma rotina eficiente pode ser complexo. Uma limpeza adequada representa um elemento essencial de um programa de gestão de segurança em relação aos riscos derivados do pó porque limita o combustível que pode tornar-se potencialmente aéreo e contribuir para uma explosão.
Entretanto, a limpeza é apenas parte de um programa bem concebido de gestão de pó. Mesmo a limpeza permanente em uma instalação onde o pó é gerado e liberado a um ritmo excessivo pode não ser adequada para eliminar o risco. Ainda pode existir uma camada capaz de alimentar uma explosão.

PERIGO DAS EXPLOSÕES SECUNDÁRIAS
Se você pode garantir que o pó nunca será liberado fora do equipamento de processamento, transporte ou de captação, o sistema será inerentemente mais seguro. Tanto como for praticável, a contenção é importante, junto com os sistemas de coleta de pó. O equipamento de transporte e de captação deveria ser instalado e mantido de forma a evitar que se torne uma fonte de ignição. Obviamente, os sistemas de detecção e supressão de incêndios nessas áreas são considerados parte integrante dos métodos de proteção e prevenção de incêndios. Outro conceito importante com o qual deve lidar quando estiver analisando a limpeza é o perigo representado por explosões secundárias. As explosões secundárias ocorrem quando a onda de choque causada pela explosão inicial que pode não ter envolvido pó, causa uma acumulação de pó em outras áreas, talvez remotas, não relacionadas às áreas de processamento, comece a ser transportada por via aérea, e explode. Isso pode criar um efeito dominó, levando possivelmente a mais explosões em diferentes zonas das instalações.
O fenômeno das explosões secundárias enfoca a importância de uma limpeza adequada, não só na área onde ocorre o perigo relacionado com o pó, mas em todas as instalações.
Como se uma limpeza consistente não fosse suficientemente difícil, essa medida preventiva por si só pode causar uma explosão se não for realizada adequadamente, como foi posto em evidência pela explosão na CTA Acoustics, Inc. em Corbin, Kentucky, em 2003. Uma porta de forno foi deixada aberta e o calor incendiou uma pequena dispersão de poeira que era gerada pela limpeza regular.

TRABALHADORES: RECONHECIMENTO DE SITUAÇÃO PERIGOSA
Muitos empregados da indústria geradora de pó contam aos investigadores acerca de “sopros”, ou pequenas explosões, que “acontecem todo o tempo”. Esses sopros são avisos que não deveriam ser ignorados, uma vez que podem ser precursores de explosões maiores e mais mortíferas. Os empregados devem ser treinados para reconhecer as condições que assinalam o desenvolvimento de uma situação perigosa.

COMO GARANTIR QUE AS INSTALAÇÕES SEJAM SEGURAS CONTRA EXPLOSÕES DE PÓ
A participação da gerência ou a sua falta, em relação aos programas de segurança é essencial. No caso da Imperial Sugar, essa falta pode ter marcado a diferença entre a vida e a morte.
As normas NFPA que poderiam ter prevenido essas explosões existem, mas não são de cumprimento obrigatório em todo o país. Ainda não se sabe se a OSHA vai adotá-las , então as instalações não deveriam esperar para regulamentar o pó. Os incidentes trágicos reportados pelo CBS no seu estudo sobre pó e ampliados por esse último incidente criam aquilo que os educadores chamam “um momento de aprendizagem”. Não percamos a oportunidade de aumentar a consciência e melhorar a compreensão dos princípios básicos que caracterizam o problema.

Fonte: NFPA Journal Latinoamerica
Amy Beasley Spencer - diretora de divisão de Administração de Códigos e Normas da NFPA, e secretaria do conselho de Normas da NFPA. Até recentemente, foi pessoa de ligação para as normas e códigos da NFPA sobre pó.

Vídeo: Explosão da Imperial Sugar
A Occupational Safety and Health Administration (OSHA) (Administração de Saúde e Segurança no Trabalho) reportou que a explosão inicial ocorreu em um elevador de canecas. Eles acreditam que as atividades no silo criaram acúmulo de pó de açúcar combustível em suspensão. A explosão iniciou um incêndio e causou o colapso parcial de um edifício de quatro pisos.
A explosão inicial colocou mais pó combustível na atmosfera causando uma série de explosões secundárias que se deslocaram sucessivamente através da galeria do silo e do túnel.
O fogo causado pelas explosões secundárias se propagou através das áreas de embalagem e nos edifícios adjacentes.



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posted by ACCA@4:52 PM

1 Comments:

At 5:29 PM, Blogger Roverto Capiva said...

Bom artigo, que desperta a atenção para os riscos destas instalações. Outro artigo muito bom é o do eng. Estellito Rangel, em http://www.internex.eti.br/estellitopremioabracopel2009.pdf

 

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