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sexta-feira, abril 25, 2014

Lembrança: Incêndio do Edifício Grande Avenida

São Paulo parou no fim da manhã de 14 de fevereiro de 1981 para acompanhar um drama: o incêndio do Edifício Grande Avenida, na Avenida Paulista, e a luta dos bombeiros para salvar vidas. 
O fogo começou na sobreloja ocupada pelos escritórios da Toyobo do Brasil, com um curto-circuito na rede elétrica. Às 11h50 surgiram os primeiros sinais das chamas. Os bombeiros foram rápidos, mas a falta de água para combater o fogo determinou a tragédia. A tampa do hidrante mais próximo estava emperrada e os primeiros caminhões-pipa só chegaram uma hora depois de iniciado o fogo.
Era um sábado e havia cerca de 50 pessoas no prédio, entre vigilantes, pessoal de limpeza, funcionários de plantão e técnicos da torre da TV Record, instalada no topo do Grande Avenida. O incêndio começou com um estrondo seguido de alguns focos de chamas.
O edifício de 23 andares demonstrou ter uma deficiência fatal: As portas corta-fogo foram instaladas em todos os andares, exceto na sobreloja, onde começou o incêndio.

CORPO DE BOMBEIROS E AUXILIARES
Participaram na operação:
■250 bombeiros
■40 viaturas, incluindo; escada magirus, auto-escada, guindaste e cinco helicópteros para salvamento

VÍTIMAS:
Dezessete pessoas morreram. Centenas ficaram feridas.

DANOS MATERIAIS
O edifício de 23 andares, apenas os três últimos não foram completamente destruídos.
Fonte: Estadão-14 de fevereiro de 2011

Comentário: As deficiências continuam atuais, como:
■falta de segurança e de manutenção do prédio
■inexistência de sistema de sprinkler
■deficiências dos equipamentos do Corpo de Bombeiros e
■falta de hidrantes públicos com água
Em todo grande incêndio no país, ninguém estava preparado (os responsáveis pela segurança do prédio, a fiscalização pública) para combater ao incêndio,  prevalecendo a falta de planejamento e preparação. O pior de todos os riscos, a insegurança do prédio, as deficiências dos órgãos públicos, auxiliam para que o incidente se torne uma tragédia.

Vídeo:

COMPLEXIDADE NA RECUPERAÇÃO DO EDIFICO: AS LIÇÕES TÉCNICAS DO GRANDE AVENIDA
Após o incêndio, o bloco de sobrelojas do Grande Avenida ameaçava ruir, devido ao cisalhamento de um pilar, que apresentava desaprumo de mais de 10 cm.
O trabalho era delicado e deveria concentrar-se, com rapidez, sobre o pilar mais duramente afetado, que se rompera e que vinha recebendo considerável sobrecarga.
O bloco de sobrelojas do edifício Grande Avenida  poderia ter ruído em consequência do rompimento de um dos pilares do primeiro pavimento. Após a operação de rescaldo era possível ver, da calçada, que o pilar junto à fachada, localizado acima das letras T e O da placa da Toyobo, fora parcialmente destruído pela ação do fogo que, segundo se calcula, pode ter atingido cerca de 1.200º C naquela área do prédio.

Início da reparação
Ao constatar a extensão do risco, os peritos da Polícia Técnica solicitaram providências ao condomínio do edifício que, imediatamente  entrou em contato com a Jatocret Engenharia Ltda., firma especializada em recuperação de estruturas. A área foi liberada pela polícia para os reparos necessários às 10h30 do dia 18 de fevereiro.
A Etalp-Escritório Técnico Artur Luís Pitta, que procedeu ao recálculo do trecho, verificou que o pilar rompido ainda recebia um quinhão de carga (carregamento de cargas) atuante (cerca de 30 t). Os pilares adjacentes sofriam, assim, enorme sobrecarga, exigindo, portanto, reforços. Se o processo de ruptura do apoio central prosseguisse, as vigas do pavimento da segunda sobreloja e sua cobertura também sofreriam ruptura e toda a estrutura do bloco de sobrelojas poderia ruir, - explica o eng. Fausto Favale, da Etalp.

Dilatação das ferragens
Durante o incêndio, as ferragens do pilar sofreram dilatação em consequência da elevada temperatura e, não tendo para onde se expandir nas extremidades, também sofreram flambagem. Ao mesmo tempo, a dilatação do conjunto da estrutura ocasionou esforços horizontais no pilar, provocando o cisalhamento do concreto de peça.
Para que os trabalhos de recuperação do pilar rompido (que em condições normais recebia cerca de 100 t de carga) e de reforço de dois pilares adjacentes fossem feitos com segurança, foi contratada a BNA Engenheiros Consultores para o acompanhamento do comportamento da estrutura, que foi feito através de relógios-deflectômetros instalados na viga com o fim de medir deformações e permitir -- caso acusassem riscos de desabamento - evacuação do pessoal.

Simultaneamente  à colocação dos deflectômetros, a Jatocret instalou escoramentos, para aliviar um pouco a carga. Trabalhou também nos exames para recuperação a equipe do Escritório Técnico Figueiredo Ferraz.

Reforço do pilar
Foi iniciado o reforço do pilar rompido, com o pré‑cintamento (colocação de armaduras de confinamento) na região da ruptura, que permitiu a recomposição do perfil contínuo do pilar, o qual apresentava desaprumo de mais de 10 cm. Também foram colocados tubos plásticos para posterior injeção de resina epóxica nos vazios que não seriam totalmente preenchidos pelo concreto. A concretagem foi feita com cimento de alta resistência  pelo processo de concreto projetado, no qual é utilizada uma máquina de câmara dupla pressurizada, onde o material é lançado de forma contínua, para alimentar o "canhão", que funciona com compressor.

NOVA ARMADURA
Após a correção da prumada, foi executado cintamento helicoidal e disposta uma armadura em substituição à antiga, procedendo-se a seguir à aplicação de camada de concreto projetado. Foi feito novo cintamento com barras longitudinais e processado mais um lançamento de concreto até 50 cm abaixo da viga, a fim de possibilitai' a posterior ancoragem de novos reforços da viga ou execução de um capital (engrossamento em forma de mísula), para repasso e/ou reforço que deverá ser executado na viga. É que esta teve seu diagrama de esforço totalmente alterado devido ao recalque de apoio. Os dois pilares laterais também foram reforçados pelo mesmo processo, com duas camadas de concreto, pois não teriam condições de continuar a suportar à sobrecarga causada pela transferência de esforço. Além disso, enquanto a viga não for reforçada, os pilares adjacentes continuarão a ter solicitação de carga muito superior à originalmente prevista.

DANOS CAUSADOS POR INCÊNDIOS EM ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO
Os incêndios provocam, além da calcinação superficial do concreto, movimentos de dilatação estrutural (durante o sinistro) e de retração estrutural (após a ocorrência do incêndio), movimentação das armaduras atingidas pelo calor, em virtude da dilatação dos aços, e danos sobre os aços de armação, especialmente sobre os aços CA-50, do tipo B, encruados a frio.

LAJES
As lajes com armaduras do tipo encruadas a frio (CA-50-B), após o incêndio, perdem resistência e podem desabar, pois com a ação do calor, o aço passa a se comportar como o de tipo CA-24. Isto porque  a ferragem fina da armação positiva sofre dilatação e a movimentação provoca perda de aderência do concreto e "expulsão" do revestimento. Além da esfoliação do concreto na parte inferior (armação positiva), ocorre o enfraquecimento do conjunto concreto x armadura, devido à perda de aderência. Quando as lajes não desabam, verificam-se acentuadas deflexões, que resultam em trincas localizadas quase sempre perto do vão próximo dos apoios. Esse fenômeno ocorre usualmente nos focos de incêndio.
As lajes pré-moldadas protendidas são mais sensíveis à ação do fogo e quase sempre entram em colapso; quando isso não ocorre, apresentam grandes deformações.

VIGAS
As vigas, geralmente, apresentam trincas provocadas por flexão, retração ou cisalhamento. As trincas por retração são provocadas pela desidratação do concreto e as mais afetadas são as de maior dimensão longitudinal.  
Já as trincas causadas por flexão e cisalhamento são originadas pelas movimentações mais intensas ocorridas durante o incêndio: movimentos de dilatação horizontal da estrutura e abatimentos verticais ocasionados pelo colapso de pilares ou mesmo pelo rompimento de uma sequência linear de vigas e lajes.
Os danos da armadura são provocados pela dilatação da ferragem e perda de aderência ao concreto. Nos pontos de maior incidência de calor, essa dilatação pode causar "embarrigamentos" da ferragem principal em função da flambagem (alongamento dos ferros).

A dilatação da ferragem principal traz como consequência  muitas vezes, o surgimento de fissuras e trincas nos ombros das vigas, na sua parte inferior, num ângulo de aproximadamente 45°, que tendem a separar cunhas nos dois lados do fundo da viga. 
A presença de fissuramentos e abatimentos maiores nas vigas torna imprescindível a execução de reforços. As condições de ancoragem, continuidade e colocação das armações são, entretanto, muito específicas, exigindo a conjugação das técnicas do engenheiro especialista em recuperação e do engenheiro calculista. A soma dos conhecimentos técnicos de ambos é essencial ao bom detalhamento de um projeto de reforço.

PROVIDÊNCIAS INICIAIS
Os escoramentos de vigas  são quase sempre determinados pela necessidade de se aliviar pilares adjacentes. Algumas vezes, entretanto, podem ocorrer trincas de certa gravidade em vigas e lajes consecutivas, evidenciando uma linha bastante nítida de ruptura e abatimento. Nestes casos, geralmente, é indicado o escoramento do conjunto. Mais raramente, a ruptura grave de uma viga principal também exige o emprego de escoramento.

A primeira providência a ser adotada durante a vistoria inicial de uma estrutura afetada por incêndio é a instalação de deflectômetros capazes de acusar imediatamente a existência ou não de movimentos estruturais. Isto porque a presença de deformação acentuada e, principalmente, a velocidade dos movimentos estruturais são indicadores do grau de risco de colapso e permitem assinalar os pontos que devem receber atendimentos de emergência.
Não havendo movimentação na estrutura, a instalação de escoramento resulta em economia. No entanto, muitas vezes a execução de uma obra de reforço é mais rápida e, por isso, mais recomendável que o simples escoramento. Nesse caso, é conveniente também a medição dos recalques para a segurança da equipe de trabalho.
A medição de movimentos estruturais permite, a priori e em curto prazo, determinar qual a área de maior emergência e proceder à avaliação de risco x prazo entre a execução de reforços ou de escoramentos. Merece cuidado especial a interpretação da distribuição de esforços, quando do colapso de uma peça estrutural. A existência de deformação lenta das peças estruturais adjacentes, que absorvem a carga da peça falida, pode provocar o retorno progressivo dessas cargas à peça afetada. Esse fenômeno é responsável por colapsos estruturais ocorridos dias após a incidência do incêndio. As redistribuições de cargas, nesses casos, são complexas e as deformações lentas agravam, mais ainda, as dificuldades de avaliação dos esforços atuantes nas estruturas abaladas.

PILARES
Os pilares sofrem, geralmente, os mesmos fenômenos verificados com vigas e lajes. No entanto, pelas características específicas de carregamento a que estão submetidas, apresentam, algumas vezes, sintomas diversos.
A ação continuada do calor pode provocar a flambagem da ferragem principal, causando esmagamento dos pilares. Por outro lado, a dilatação das vigas, principalmente as de vão maior, que resultam em esforços adicionais por cargas horizontais, também podem levar pilares a colapso por tensões de cisalhamento.
Em outras vezes - como aconteceu no bloco de sobrelojas do Grande Avenida - é a soma das duas causas que leva um pilar ao colapso durante o incêndio.
Também é possível que some-se a esses dois fatores a redistribuição dos esforços decorrente da deformação lenta posterior ao incêndio. Nesse caso, o pilar sofre ruptura vários dias após o sinistro. Por isso, a colocação de deflectômetros - que acusam deformações estruturais e a variação da velocidade dos recalques - poderá permitir a detectação da presença e da intensidade desses fenômenos, permitindo, muitas vezes, que sejam tomadas providências antecipadas de reforços e escoramento.
Fonte: Jatocret Engenharia Ltda, revista Construção São Paulo –1981 

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posted by ACCA@8:07 AM