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quarta-feira, junho 09, 2010

Riscos na operação de empilhadeiras

CENÁRIO DE UM ACIDENTE
O operador estava a conduzindo uma empilhadeira no armazém quando, numa curva, a empilhadeira se desequilibrou e tombou para o lado esquerdo. O operador saltou da empilhadeira mas foi atingido pela empilhadeira na queda.
Não foram encontrados quaisquer indícios de manchas de óleo ou outros produtos escorregadios no chão e nem nas rodas da empilhadeira.
A empilhadeira possuía cinto de segurança, mas não estava sendo utilizado pelo operador no momento da queda.
O operador trabalhava há 3 anos na empresa e tinha experiência de 15 anos em empilhadeira.
Testemunhas relataram que a empilhadeira se desequilibrou devido ao excesso de velocidade. Era prática comum dos operadores não usarem os cintos de segurança devido à troca constante das empilhadeiras entre os diversos setores do armazém. "O operador ficou gravemente ferido e teve as duas pernas amputadas do joelho para baixo".

Figura 1 – Análise de árvores de falhas do acidente

Ao analisar este acidente através da figura 1, rapidamente se verificam duas raízes alimentadoras do acidente do operador:
■ a falta de treinamento relativo aos riscos que ocorre com um operador de empilhadeira e
■ o ritmo de trabalho imposto pela empresa
Quanto a este último, a sua análise pode decompor-se em vários outros assuntos, passíveis de serem estudados por consultores logísticos. Aqui importa analisar o fato da maioria dos operadores de empilhadeira em Portugal não possuírem um certificado de aptidão profissional ao contrário do que acontece nos restantes países europeus.
Como se poderá verificar existem procedimentos específicos, regulamentados pelas instituições governamentais desses países, que mantém o controle sobre correta e contínuo treinamento e habilitação dos operadores de empilhadeira.
Antes de se caracterizar a dimensão do problema com este tipo de acidentes, das vantagens do treinamento, habilitação e das razões para a inexistência em Portugal destas praticas é necessário caracterizar a máquina em questão.

EMPILHADEIRA
A indústria moderna está cada vez mais dependente dos movimentos rápidos e eficientes de todo o tipo de materiais inerentes aos locais de produção, distribuição, armazena­gem. Está também dependente do sistema de transportes macro relativo à frota rodoviária, aérea, naval e ferroviária. Também o sistema de transportes micro, relativo ao movi­mento de materiais dentro das instalações se torna essencial nesta longa cadeia logística de movimentação de mate­riais. Existem empilhadeiras, nas mais variadas formas, capacidades e pesos. Podem ter menos de 1 tonelada (movimentando pequenos paletes) e ir até 80 toneladas (movimentando contentores portuários).

As empilhadeiras foram evoluindo de modo a adaptarem-se às várias necessidades impostas pela indústria e assim variam radicalmente de um ramo de indústria para outro. A sua versatilidade é enorme, visto haver um vasto conjunto de implementos especiais que transformam a empilhadeira num mecanismo que se adapta a enormes rolos de papel, contentores, lingotes etc.

No entanto uma definição possível seria dizer que é um veiculo propulsionado por energia mecânica, elétrica ou manual que incorpora um mecanismo que eleva e transporta bens através de garfos, plataformas ou quaisquer outros acessórios destinados a esse fim.

As empilhadeiras são por inerente perigo­sas. Tem uma massa enorme, uma estrutura rígida e resistente e operam tipicamente junto a outros trabalhadores. Adicionalmente, as cargas são movimentadas simplesmente suportadas nos garfos de modo que não estão presas ao veículo -dependendo assim de efeitos de gravidade e estabilidade.

Se a isto associarmos a típica noção de que se conduz como um carrinho de choque devido ao seu tamanho compacto, ainda conseguimos subestimar o enorme risco que representam. A empilhadeira é um veiculo pesado.

Numa empilhadeira mais usual, frontal contrabalançado com capacidade de carga para 2500 kg e seu peso é de 3 toneladas, perfazendo assim , carregado com uma carga de quase 6 toneladas. Se os compararmos com o peso da média dos carros médios (1400 kg) verificamos que são cerca de quatro vezes mais pesados.

OS ACIDENTES COM EMPILHADORES
Desde o advento da mecanização, particularmente depois da II Guerra Mundial, o trabalho manual referente à elevação e transporte de cargas foi sendo gradualmente substituído por máquinas. A mais corrente e bem sucedida máquina de trabalho tem sido a empilhadeira.
Com esta mudança no modo como se elevam e transportam as cargas veio também uma mudança no padrão das lesões ocorridas no trabalho, reduziram-se às lesões associadas à movimentação manual e aumentaram as associadas com o uso de equipamento mecanizado.
Internacionalmente, ao longo das últimas décadas, têm sido identificados como grandes contribuintes para a lista de acidentes graves e fatais. Na maioria dos casos, as lesões não envolveram os operadores das empilhadeiras mas em presença dos trabalhadores adjacentes.

Numa vasta análise aos acidentes graves ocorridos entre 1984 e 1991 nos EUA, a partir dos relatórios de investigação dos acidentes com empilhadeiras, a OSHA (Occupational Safety and Health Administration) conseguiu determinar as causas apontadas para que os acidentes tenham ocorrido.


* O relatório da OSHA registra apenas os acidentes graves que devido
a sua severidade, exige outros relatórios mais completos para analisar
as causas e violações das normas.

A OSHA estima em 68.4000 acidentes de empilhadeiras que ocorrem por ano.

Segundo a OSHA, a maioria destes acidentes foram provavelmente causados por treinamento insuficiente. Quando um veículo tomba, isto pode ser resultado do operador não ter noção de como se consegue o equilíbrio de uma carga.

Num armazém central (central de distribuição) ou numa doca de carga, a movimentação de um veículo industrial em média por ano ultrapassa a milhares de vezes por ano, gerando um potencial de risco elevado, se o operador não tiver treinamento adequado dos riscos que envolvem a movimentação e transporte de mercadorias através de empilhadeira.













FATORES QUE CAUSAM ACIDENTES COM EMPILHADEIRAS

Fatores de organização do trabalho que contribuem para acidentes com empilhadeiras

■ Falta de treinamento ou treinamento inadequado dos trabalhadores que têm a função de operar as empilhadeiras.
■ Fatores de produção (aumento da carga de trabalho, sem verificar as condições dos equipamentos, da logística e dos trabalhadores), ocasionando aumento de velocidade das empilhadeiras ou stress dos operadores
■ Falta de ferramentas adequadas (fixação e acessórios)
■ Atribuição inadequada de tarefas para os operadores e empilhadeiras
■ Manutenção inadequada das empilhadeiras
■ Vida útil das empilhadeiras

Fatores operacionais e de procedimentos que podem contribuir para acidentes com empilhadeiras

■ Manobras inadequadas, acima do limite técnico
■ Giro inadequado
■ Sinal de advertência sonoro inadequado indicando movimentação de empilhadeiras
■ Comunicação deficiente durante execução de tarefas em conjunto ou em espaço compartilhado
■ Conduzindo ou carregando pessoas na empilhadeira ou na carga
■ Estacionamento inadequado da empilhadeira
■ Utilização inadequada dos freios para efetuar manobras ou cavalo de pau
■ Dirigindo de maneira errante, fazendo brincadeiras, etc
■ Executando serviço inadequado com empilhadeira

Como o layout do local de trabalho contribui para acidentes com empilhadeiras
■ Corredores estreitos
■ Corredores abarrotados de mercadorias e desorganizados
■ Cruzamento obstruído
■ Portas obstruídas
■ Volume excessivo de trafego na área
■ Transito e trabalho de pessoal na área da operação de empilhadeira
■ Outras condições desfavoráveis, tais como; ruído, odor, gases tóxicos, pó ou iluminação deficiente.
■ Muitas rampas com diferentes níveis
■ Condição de carregamento da área de doca

Característica da carga que pode criar um risco em potencial
■ Empilhamento inadequado
■ Paletes frágeis
■ Carga muito pesada
■ Carga instável ou bloqueando a visão

Condições mecânicas ou características do projeto da empilhadeira que incrementa o risco de acidentes
■ Mau funcionamento dos freios e da direção
■ Mau funcionamento da embreagem, da caixa de marcha ou da transmissão
■ Mau funcionamento da torre
■ Vazamento do sistema hidráulico ou da transmissão
■ Dispositivos de segurança faltando, inadequado ou funcionando inadequadamente
■ Emissão de poluentes da empilhadeira
■ Ponto cego ou obstrução, bloqueando a visão do operador
■ Painel de controle da empilhadeira deficiente

AS VANTAGENS DA FORMAÇÃO (HABILITAÇÃO, TREINAMENTO)
Num estudo publicado no Journal of Safety Science, Cohen & Jensen (1984) propuseram-se a estudar a eficácia da formação dos programas dirigidos a segurança no manuseamento de empilhadeiras de modo a poderem medir objetivamente os efeitos na performance da operação e nas práticas de segurança.
O estudo intitulado "Medindo a eficiência de um programa de segurança aos operadores de empilhadeira" mostra como a formação aos operadores de empilhadeiras reduziu o número de falhas na operação (nu­mero de operações com falhas sobre o numero total de operações realizadas) e que a formação combinada com feedback ainda reduziu mais a taxa de erros aumentando assim a performance dos trabalhadores.
Os estudos foram conduzidos em diferentes armazéns usando as mesmas técnicas de formação. A formação enfatizava os comportamentos de condução dos operadores que podiam ser medidos, que estivessem relacionados com ocorrência freqüente de acidentes e passíveis de serem modificados durante a formação.

Assim foram identificados e avaliados 14 comportamentos de condução durante os estudos.
Depois dos operadores estarem treinados, houve um decréscimo de 70% na taxa média de erros.
Passaram quase duas décadas sobre este estudo e o trabalho desenvolvido nas máquinas e na formação desde então tem sido constante e progressivo, sempre no mesmo sentido: maximizar a produção tendo sempre em conta a segurança dos trabalhadores.

CONCLUSÃO
Nem todos os erros causam acidentes, mas a maioria dos acidentes é provocada por um ou mais erros. Estes estudos mostram que uma melhor formação reduz os erros dos operadores. Os pesquisadores deste estudo bem como outros especialistas nesta matéria e várias associações governamentais, acreditam que os acidentes são reduzidos na mesma percentagem que os erros que se efetuam na operação.
Para isso é necessário informar aos "operadores" dos riscos que correm e da sua importância na minimização dos mesmos.

Fonte:
Revista Segurança – Portugal – Janeiro/Fevereiro 2003 – A formação dos Condutores de Empilhador - Marco Antonio – Consultor e Formador da Logisformacao/Técnico Superior de Higiene Segurança no Trabalho
Canadian Centre for Occupational Health & Safety -CCOHS
Cohen, H. H. & Jensen, R. c. (1984.. Measuring the effectiveness of an industrial lift truck safety training program. Journal of Safety Research, 15 (3) ( 125-135)

Vídeo
Queda nas docas ou plataforma. Falta de atenção do operador


Video(1)
Acidente em cruzamento


Vídeo(2)
Acidente com garfo levantado


Vídeo(3)
Carga excessiva e falta de estabilidade

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posted by ACCA@12:33 PM

1 Comments:

At 3:52 PM, Blogger Paulinho O'Mellin said...

Qual é o nome do autor deste post? fica difícil não saber a fonte.
Obrigado.

 

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