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Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

segunda-feira, maio 28, 2007

Indústria do couro gera problemas ao ambiente e à população

O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo: 185 milhões de cabeças de gado, espalhadas pelo território nacional, sobretudo no estado de São Paulo e nas regiões centro-oeste e sul. Somos também o maior produtor de couro, do qual a Itália, centro internacional da moda, é a principal compradora, seguida por Hong Kong e pela China. Para se ter uma idéia do que isso representa para nossa balança comercial, de janeiro a setembro de 2004, US$ 930,6 milhões em peças abasteceram o mercado externo - um crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2003. O ritmo de expansão da fronteira agrícola e pecuária na região norte deixa claro que o negócio só tende a aumentar.

De acordo com a classificação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb), a indústria coureira é uma das mais poluentes que existe. Dentre as diversas maneiras de curtir a pele crua do boi, 70% delas utilizam como base o cromo. Mais barata e eficiente para operações em escala industrial, essa substância participa do curtimento e do acabamento, conferindo ao produto resistência e permitindo sua estocagem por longos períodos sem risco de apodrecimento.

Doenças ocupacionais
Os empregados das indústrias de couro são os mais prejudicados, pois convivem diariamente com o cromo, além de outros compostos nocivos. De acordo com Elizabeth Nascimento, professora de toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), a maioria dos trabalhadores de curtumes sofrem de alergias na pele e é muito comum apresentarem rinite alérgica. A permanência prolongada em ambientes onde o cromo é utilizado pode levar à inalação de grandes quantidades da substância, aumentando os riscos de desenvolver câncer de pulmão. "O que vemos são principalmente problemas respiratórios, manchas na pele e herpes", afirma Gisberto Marcos Antunes, o Betinho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Curtume da região central do estado de São Paulo. Ele estima que cerca de 5% dos trabalhadores apresentem algum tipo de problema de saúde. "Alguns curtumes já pagam a taxa de insalubridade, mas isso ainda não está regulamentado", complementa.

Como todo metal pesado, o cromo se acumula no organismo devido ao contato direto ou ao consumo de água e de alimentos contaminados, podendo ao longo dos anos causar falência de órgãos, como os rins, e até levar à morte. Sua forma hexavalente, mais rara e perigosa, provoca perfuração do septo nasal caso inalada em altas doses.

Cidade de Bocaina
Bocaina, cidade paulista situada no centro do estado, tem no acabamento do couro sua principal atividade - assim como diversos pequenos e médios municípios brasileiros - e pode ser considerada um paradigma desse conflito que opõe desenvolvimento e preservação ambiental. Conhecida nacionalmente como a "capital da luva de raspa", a localidade enfrentou nos últimos dez anos um crescimento desenfreado da atividade coureira, que se mantém na região há cerca de 30 anos.

Residual industrial
Com apenas 10.565 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Bocaina produz diariamente por volta de 30 toneladas de lixo provenientes das mais de cem empresas beneficiadoras de couro. Diante dos transtornos causados pela contaminação, a cidade tem buscado soluções, e sua experiência serve de exemplo a outras que vivem o mesmo problema pelo país afora.

Água colorida
As empresas que processam o couro em Bocaina são de vários tipos, mas há basicamente dois grupos. A maioria produz luvas e aventais de trabalho. Outras, em menor número, operam com tingimento. O resíduo gerado pelo processo de acabamento pode ser sólido - como as aparas não aproveitadas do material e a serragem de couro - ou líquido - resultado da lavagem da peça e, principalmente, do ato de tingir. Em ambos os casos, o cromo está presente.

Tratamento de água industrial gera outro resíduo industrial
Segundo a Cetesb, apenas as empresas que tingem o couro devem realizar tratamento da água, que exige investimento alto: um curtume de tingimento de médio porte gasta em torno de R$ 3 mil por mês para limpar 20 mil litros de água por dia. A água colorida da tintura é bombeada para um reator de coagulação, uma espécie de liquidificador que a mistura com diversos componentes químicos. O problema é que a limpeza produz um outro resíduo, o lodo cromado, que deve ser enviado a um aterro adequado.

População reclama da poluição
Na opinião da população, as empresas não tratam corretamente seus efluentes, ou o fazem em apenas parte do volume utilizado, pois a contaminação das águas correntes é visível a olho nú. O córrego da Bocaina, que deu nome à cidade, já foi pintado de muitas cores: preto, azul, vermelho. Varia conforme a tinta utilizada para trabalhar o couro. Sempre que isso acontece, é difícil precisar quem é o autor da aquarela, pois há cinco curtumes próximos ao manancial. O Himalaia, outro curso de água que corta a cidade, também sofre com a deposição clandestina de efluentes industriais. Os dois córregos desembocam no rio Jacaré Pepira, um dos principais da região, parte integrante da bacia do Tietê.

Muitos moradores reclamam da poluição, que pode ser aferida até pelo cheiro. O nariz e os olhos ardem, é insuportável. O que os moradores chamam de "cheiro de ovo podre" é o gás sulfídrico. Ele entra nas casas pelas tubulações de esgoto, que fazem parte do mesmo sistema que recolhe parte dos efluentes das empresas beneficiadoras de couro. Esse gás, além de malcheiroso, é letal em altas concentrações.

Segundo José Luis Pedro, químico que presta consultoria para dez empresas em Bocaina, "mesmo em água corrente, o resíduo de curtume varre a vida por onde passa, causando a morte instantânea de qualquer ser vivo, seja bactéria, peixe ou planta". Grande parte dos moradores de casas e propriedades rurais à beira dos cursos de água do município cercou o acesso a eles. "Tenho um rio que corre ao lado da minha propriedade e não posso usá-lo. Tive de colocar cerca para que meus cavalos não bebessem ali e não posso nem irrigar a horta", reclama o dono de um sítio, que não quis se identificar.

Contaminação do meio ambiente
A contaminação trazida pelos resíduos sólidos é mais sutil. Seus efeitos não podem ser vistos, mas são tão ou até mais graves que os causados pela poluição por efluentes líquidos. A água da chuva descola os compostos químicos das aparas de couro depositadas no solo e os leva, com o tempo, até os lençóis freáticos mais profundos. Isso pode contaminar os postos de arrecadação de água tanto para consumo urbano quanto para abastecimento de fazendas. Infelizmente, ainda não existem estudos detalhados sobre o comprometimento real de solos e águas subterrâneas da região.

A esse perigo soma-se um agravante: aquela é uma área de recarga do aqüífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo, que possui um volume estimado em cerca de 37 mil quilômetros cúbicos e abrange regiões do sudeste e centro-oeste do Brasil e também da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Ele aflora na região, ou seja, possui pontos próximos da superfície que não estão protegidos e, por isso, são sensíveis a alterações do meio ambiente. Em Bocaina, esse afloramento corresponde a 84% da área do município, o que pode ser constatado pela quantidade de minas de água no local. Cavando apenas 8 metros, um morador conseguiu encontrar água em abundância, com a qual mantém uma piscina em casa.

Sobrevivência e preservação
Um fator que dificulta a resolução do problema é que grande parte da população da cidade está empregada no setor. Segundo estimativa da Associação dos Curtumeiros de Bocaina (Associcouros), a atividade gera em torno de 4 mil empregos diretos e indiretos, o que corresponde a mais da metade da população economicamente ativa do municipio

Na fabricação de luvas, há muitos estabelecimentos de "fundo de quintal", por não serem necessários equipamentos sofisticados. De acordo com o prefeito da cidade, o setor apresenta uma taxa de informalidade que vai de 15% a 20%.

O promotor de Justiça do Meio Ambiente da Comarca de Jaú, defende que a lei ambiental seja cumprida a qualquer custo. "O setor dá emprego e é importante para a cidade. Mas o vizinho que mora na casa do lado tem o direito de respirar ar puro", argumenta. Segundo ele, a informalidade da indústria coureira e a falta de controle sobre a produção tornam a questão difícil de ser tratada.

Controle parcial da contaminação
Ainda assim, é consenso que a realidade já melhorou muito desde 2000, ano em que a Cetesb interveio pela primeira vez no município. Desde então, grande parte dos empresários tomou consciência do prejuízo ambiental, e o lançamento de resíduos diretamente nos rios, córregos e no esgoto doméstico diminuiu.

Na época, buscando se enquadrar na legislação ambiental, a Associcouros cogitava construir uma estação unificada de tratamento dos efluentes dos curtumes. Mas o investimento era alto e, frente ao impasse, alguns empresários, irritados com a demora na tomada de precauções, instalaram filtros individuais em seus barracões. O presidente da Associcouros, afirma que, dos 67 associados, há 12 empresas que trabalham com tingimento e todas possuem, hoje, equipamento para o tratamento da água.

Em relação aos resíduos sólidos, a situação também está mais controlada. Antes da fiscalização, restos de raspa eram lançados sem cuidados na zona rural, em aterros de lixo comum, ou simplesmente espalhados pela cidade, à espera de ser recolhidos pelos caminhões de lixo da prefeitura. O promotor de Justiça do Meio Ambiente da Comarca de Jaú considera que muito já foi feito, e o problema das sobras de couro está praticamente resolvido. "Hoje, o que existe são depósitos clandestinos, e em menor quantidade."

Chegava-se até a queimar raspa durante a noite. A fumaça branca, altamente tóxica e de cheiro insuportável, pairava sobre as casas próximas às empresas e atrapalhava o sono dos moradores. Em 2001, foi convocada uma reunião no cinema da cidade, e a população exigiu uma atitude por parte dos curtumeiros.

A medida inicial da Cetesb, já em 2002, foi proibir o depósito de restos de raspa em locais não apropriados. A maioria das empresas foi, então, advertida por descumprimento da legislação ambiental, e algumas foram multadas. A Associcouros, que acabava de ser criada, começou a procurar no município um local adequado para construir um aterro. Enquanto isso, os curtumes passaram a estocar o resíduo sólido em seus barracões, à espera da aprovação de um terreno para essa finalidade.

Mais de oito meses depois, o mau cheiro devido à estocagem aumentou e houve muitas queimadas clandestinas. Em reunião realizada em março de 2003, o Ministério Público, a Cetesb, a prefeitura e a Associcouros concordaram que em 30 dias esse lixo teria um destino. Um aterro na cidade de Paulínia, próxima a Campinas, foi escolhido para receber o material. Foram gastos no total R$ 1 milhão para transportar ao aterro todo o volume acumulado, que somava cerca de 5 mil toneladas.

A avaliação química dos resíduos das empresas foi feita pelo laboratório Ecosistem, em conjunto com a própria Associcouros. Aprovado pela Cetesb, o laudo qualificou-os como classe 2, ou seja, não perigosos e não inertes, e portanto adequados para ser enviados a Paulínia. Entretanto, a química Joana D´Arc de Sousa, especialista em reaproveitamento do resíduo sólido do couro, afirma que todo excedente que contenha cromo deve ser considerado classe 1, pois o metal pesado é perigoso e exige proteção máxima.

O resultado, para as empresas coureiras, representa uma economia de R$ 338 por tonelada do material, uma vez que, enquanto no aterro classe 1 o preço é de R$ 420 por tonelada, no de classe 2 fica em R$ 82 - incluindo o frete até Paulínia. "Se fosse classe 1, não ia sobrar quase nenhum curtume na cidade, pois eles não poderiam pagar", avalia José Luis Pedro. Em outras palavras, a proteção ao meio ambiente em Bocaina ainda está subordinada a conveniências econômicas.

Do boi ao sapato
No matadouro, a pele é separada da carne do boi. Depois os pêlos são retirados e a peça é dividida entre a "flor", a parte de cima do couro, mais nobre, e a "raspa", a parte inferior. A primeira é material para bolsas, sapatos finos e móveis. A segunda servirá para fabricar forro de móveis e sapatos de camurça, além de luvas, aventais e outras peças de vestuário de segurança.
As empresas instaladas no município de Bocaina não curtem o couro, apenas fazem seu acabamento e recebem principalmente da região sul, mas também do centro-oeste e do nordeste.

Fonte: VOMM - Equipamentos e Processos Ltda.

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quinta-feira, maio 24, 2007

Cromo: Benefícios e Riscos

O cromo é um elemento traço essencial (mas também tóxico) para o ser humano. Este elemento químico se encontra naturalmente no solo, na poeira e gases de vulcões.
No meio ambiente são três os números de oxidação do metal:
■ cromo(0), cromo(III) e cromo(VI). Cromo(III) tem ocorrência natural no meio ambiente,
■ enquanto cromo(VI) e cromo(0) são geralmente produzidos por processos industriais.

Cromo(III) faz parte do centro de biomoléculas que se encontram em pequeníssimas quantidades em nosso organismo. Sua principal função está relacionada ao metabolismo da glicose, do colesterol e de ácidos graxos. Nosso cérebro se nutre de glicose, e sem este alimento, nossa mente sofre sérios distúrbios. Se nosso corpo não pode metabolizar glicose, nosso fígado não pode produzir glicogênio, que é a energia de nossos músculos.
Os alimentos podem ser uma fonte de cromo na quantidade necessária ao nosso organismo

Alimentação Moderna
A alimentação moderna, rica em carboidratos refinados (por exemplo, macarrão e arroz branco), traz prejuízo ao nosso pâncreas e ao nosso estoque de cromo. O carboidrato refinado requer cromo para ser metabolizado e, além disto, não contribui para repor o estoque necessário para que o organismo funcione sadiamente. Arroz branco contem 25 % do cromo presente no arroz integral. Farinha branca contem somente 13 % do cromo presente no trigo. Muitas pessoas são deficientes em cromo por consumirem uma dieta restrita a alimentos refinados. Boas fontes do mineral são a levedura de cerveja, ostra, fígado, noz, batata, trigo e farinha integral, pimenta preta e queijos.

Esportistas
Que treinam para competição podem precisar de suplemento alimentar contendo cromo. Porém, se houver excesso na dosagem há o risco da toxicidade, pois o organismo somente absorve a quantidade necessária.

A presença do cromo na indústria
O elemento químico cromo é empregado principalmente para fazer aços inoxidáveis e outras ligas metálicas.
Na forma do mineral cromita, é empregado na indústria de refratários para fazer tijolos de fornos metalúrgicos.
Compostos de cromo produzidos pela indústria química são usados;
■ na indústria de tratamentos superficiais (por exemplo, a eletrodeposição de cromo, conhecida na indústria de galvanoplastia e o processo por cromado),
■ manufatura de pigmentos, curtume de couro,
■ tratamento de madeira e tratamento de água (podendo ser usado como inibidor da corrosão na água usada em torres de resfriamento).

Manipulação: Contaminação do Meio Ambiente
Cuidados especiais são necessários tanto na manipulação durante o processo industrial como no tratamento dos resíduos.
Os resíduos possuem alto poder de contaminação, quando não são convenientemente tratados e simplesmente abandonados em corpos d’água, aterros industriais ou mesmo lixeiras clandestinas.
Com facilidade, o cromo atinge o lençol freático ou mesmo reservatórios ou rios que são as fontes de abastecimento de água das cidades. Se o resíduo é degradado no solo, o cromo permanece e pode ser absorvido por plantas que posteriormente servirão de alimento diretamente ao homem ou a animais, podendo por este caminho também atingir o ser humano.

Cromo cancerígeno humano
Cromo(VI) é um carcinógeno humano reconhecido e muitos trabalhadores são expostos a este composto químico. A fumaça contendo este elemento químico causa uma variedade de doenças respiratórias, incluindo câncer.
O contato da pele com compostos de cromo causa dermatite alérgica e, mais raramente, pode provocar ulcerações na pele formando cicatrizes e até perfurações do septo nasal. Há suspeitas de que este composto químico possa afetar o sistema imunológico de seres humanos.

Indústria de curtimento
A atividade industrial dos curtumes é intensiva em mão de obra mas pouco agrega em termos de tecnologia. É por isso, larga e facilmente disseminada em muitas comunidades do país. Na indústria de curtume (e de forma semelhante na indústria de galvanoplastia) o tratamento dos efluentes industriais gera um resíduo sólido que é denominado de lodo e que contém cromo.

O lodo é acondicionado em recipientes, pode ir para incineradores ou deve ser guardado indefinidamente em condições ótimas, ao abrigo de intempéries, insolação e outros agentes que possam romper o recipiente e espalhar o resíduo na natureza. O responsável pelo material obriga-se a esses cuidados que são supervisionados e inspecionados pelas autoridades periodicamente.

Os altos custos, decorrentes do armazenamento e/ou da incineração, induzem a comportamentos inadequados, como o descarte de resíduos em locais impróprios. Deve-se considerar, também, que nem todos os Estados possuem aparato com condições técnicas de aconselhar e vigiar o funcionamento de empresas que utilizam o cromo em seus processos.

O gigantismo do problema pode ser avaliado se for considerada a produção significativa da indústria calçadista brasileira e, somado a este fato, que nos curtumes o couro processado gera quantidades apreciáveis de resíduos: de 30 a 50 % de resíduos tais como lodo, serragem da rebaixadeira e pó da lixadeira (todos contendo cromo na sua composição).

Além disto, existem regiões no Brasil em que complexos industriais do setor calçadista com centenas de indústrias, produzindo dezenas de toneladas por dia de retalhos de couro que são depositados em aterro industrial (do tipo I destinado para resíduos perigosos).

Degradação Ambiental
Nas várias cidades brasileiras, onde existem aglomerados industriais de couro e calçado há um conflito latente devido ao rápido esgotamento da capacidade dos aterros e necessidade de criação de novos. Os resíduos da indústria de couro e de calçado comprometem o meio ambiente, principalmente, sob dois aspectos. O tempo considerável de degradação desses retalhos faz com que o solo fique sem uso por várias gerações. Vale a pena lembrar que o processo de curtimento é feito justamente para retardar a putrefação do couro. Outro aspecto importante é o efeito de concentração do cromo no solo devido às grandes quantidades depositadas nos aterros de retalhos.

Fonte: Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia da Universidade Paulista- Laboratório de Físico-Química Teórica e Aplicada- B.F. Giannetti, C.M.V.B. Almeida, S.H. Bonilla e O. Vendrameto

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quarta-feira, maio 23, 2007

Taj Mahal : poluição versus crescimento econômico


Durante mais de três séculos, o mármore de tonalidade branco-lírio do Taj Mahal conferiu a ele o esplendor puro e etéreo adequado a um monumento ao amor eterno.
Mas a fuligem de fábricas próximas está amarelando o Taj Mahal, e isso tem enfurecido grupos ambientalistas . Neste mês o problema incitou alguns membros do parlamento indiano a exigirem controles mais rígidos da poluição.

Os legisladores estão preparados para gastar centenas de milhares de dólares em várias obras com o objetivo de restaurar a brancura daquele que é um dos mais reconhecidos ícones arquitetônicos do mundo.

Taj Mahal – símbolo do frágil meio ambiente
O Taj Mahal se tornou o mais recente cenário de embate entre o crescente movimento ambientalista da Índia -que tem sido apoiado pelos tribunais- e as entrincheiradas potências industriais, muitas vezes apoiadas por políticos.

Para muita gente, a questão básica é determinar se a Índia é capaz de encontrar um equilíbrio entre a sua próspera economia e o seu frágil meio-ambiente.

"É bom que o parlamento demonstre a sua preocupação com o Taj Mahal e os fatores ecológicos que ameaçam o monumento, mas até o momento o governo não se preocupou muito em proteger o meio-ambiente e patrimônios culturais como o Taj Mahal", afirma Mahesh Mehta, um advogado especializado em questões ambientais que trabalha para preservar a elegante estrutura construída no século 17.

Mehta moveu diversas ações no supremo tribunal da Índia, obrigando o governo a reprimir os donos de centenas de casas de fundição, fábricas de tijolos e outros poluidores industriais, incluindo uma refinaria de petróleo, que surgiram em Agra e nos arredores da cidade.

Em 1993, o supremo tribunal da Índia ordenou o fechamento de mais de 500 estabelecimentos industriais próximos ao monumento a menos que estes instalassem dispositivos para controle da poluição ou passassem a usar combustíveis que gerassem menos poluentes. No fim das contas, 212 dessas indústrias foram fechadas, provocando o desemprego de 13 mil trabalhadores.

"É evidente que as indústrias estão sendo injustamente alvo de ataques", reclama Manish Agrawal, vice-presidente da Câmara Nacional de Indústria e Comércio em Uttar Pradesh, o Estado mais populoso da Índia.

"Os tribunais e o governo deveriam perseguir os motoristas de caminhões e dos táxis movidos a gás. A fumaça negra dos caminhões movidos a óleo diesel e dos auto rickshaws (táxis de três rodas, muito usados na Índia) movidos a gás causam mais danos ao Taj Mahal do que as fábricas, muitas das quais já praticam o controle da poluição", diz ele.

Os tribunais baniram os veículos queimadores de gás nas proximidades do Taj Mahal. A maioria dos turistas é levada ao monumento em ônibus movidos a baterias elétricas ou em carruagens puxadas por cavalos.

TajMahal
O Taj Mahal foi concluído em 1654 pelo governante de Mughal, Shah Janan, que construiu o edifício para a sua mulher, Mumtaz Mahal, que morreu ao dar a luz ao 14º filho de Janan.
A obra-prima arquitetônica se tornou um dos destinos turísticos mais lucrativos da Índia, atraindo cerca de três milhões de visitantes por ano e sendo responsável por uma grande parcela dos mais de US$ 30 bilhões arrecadados anualmente pela Índia com o turismo.

População preocupada com saneamento
Não muito longe do Taj Mahal, as auto-estradas impecáveis que passam em frente a cintilantes prédios de escritórios e shopping centers recém-construídos no entorno da cidade dão lugar a ruas esburacadas cheias de lixo e marcadas por uma confusão interminável formada por lojas artesanais e carroças que carregam alimentos.

Agra é uma cidade arenosa e de relevo ondulado, de 1,3 milhão de habitantes. Uma procissão constante de carros que buzinam incessantemente, caminhões e carroças serpenteia por entre uma multidão de pedestres e manadas de vacas soltas.

Para a maioria dos moradores daqui, o amarelamento do mármore branco do Taj Mahal é uma questão menor comparada ao fato de poucos deles terem acesso a água limpa.

O Rio Yamuna, que corre próximo ao Taj Mahal, absorveu enormes quantidades de lixo industrial, resíduos agrícolas e esgoto não tratado de Agra e de diversas outras cidades, incluindo Nova Delhi, a capital da Índia que fica mais de uma centena de quilômetros a montante.

Sem o tratamento de água, a água não pode ser bebida, o que obriga a maioria dos moradores de Agra a comprar água mineral ou cavar poços artesianos. De qualquer forma, o acesso a água potável é um luxo para a população.

Fonte: UOL - Cox Newspapers - 17 de maio de 2007

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quinta-feira, maio 17, 2007

Incêndio no Colégio Centenário em Santa Maria -RS

Um incêndio que começou na madrugada de quarta-feira (16 de maio) destruiu mais da metade das instalações de uma faculdade e de um colégio tradicional de Santa Maria (RS).
Como foi o incêndio;
1 - O fogo começa às 4h em um dos laboratórios de informática, no primeiro andar do complexo B. Em 15 minutos, as labaredas consumem as salas do andar. O assoalho de madeira cai, e chamas se espalham para
o térreo.
Corpo de Bombeiros
2 - Os bombeiros chegam às 4h10min com dois caminhões. Eles começam a controlar o fogo pelo hall de entrada. Outros três caminhões deram apoio. O fogo é controlado às 7h. O trânsito na Dr. Turi e Acampamento é fechado até as 9h
Danos
3 - O prédio mais antigo do Metodista Centenário, o complexo B, é destruído. Nele, havia 4 laboratórios e 40 salas (de aula, de departamentos administrativos – coordenação de cursos, projetos da pós-graduação, direção, reuniões, coordenação, Associação dos exalunos, secretaria, tesouraria, arquivo – de almoxarifado, de cozinha e o museu)
Fonte: Diário de Santa Maria, quinta-feira, 17 de maio de 2007

Posteriormente elaborarei um artigo sobre o assunto para postagem no Blog

Vídeo
http://video.google.com/videoplay?docid=-7289178104349019373

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terça-feira, maio 15, 2007

Acidente na Basf

Em 21 de abril de 2007, por volta das 17h, ocorreu um acidente fatal no Complexo Químico da empresa, localizado em Guaratinguetá, São Paulo.
Funcionário da Basf havia nove anos, Rogério José Cabral, 29 anos, fazia a limpeza da estrutura da esteira do setor de pesticidas quando teve seu braço preso na máquina.
A administração só percebeu o acidente porque o sistema, que é informatizado, identificou um acúmulo de produto na esteira.

Vítima
A equipe de emergência levou o funcionário ao Pronto Socorro da cidade, mas ele não resistiu.

Nota sobre o acidente da Basf:

1. O pronto atendimento ao colaborador foi prestado pela equipe interna de emergência da BASF, que também o removeu para o Pronto Socorro Municipal de Guaratinguetá, onde foi atendido, vindo a falecer. Paralelamente foi acionado o plano de emergência da empresa.
2. Houve auxílio à família, orientação aos colaboradores da fábrica, bem como informação às autoridades competentes, Sindicato dos Químicos, imprensa e Conselho Comunitário Consultivo (comunidade).
3. A Polícia Científica esteve no local e está investigando a causa do acidente.
4. Conforme a Declaração de Óbito, o colaborador faleceu em decorrência de politraumatismo (torácico e raquimedular cervical).

Fontes: Vale Paraibano – São Jose dos Campos , 24 de abril de 2007 e Imprensa Basf

Comentário
O que podemos imaginar o que houve de errado;
■ O risco de efetuar manutenção próximo de partes móveis foi levado em consideração?
■ O trabalhador foi treinado adequadamente para efetuar esse tipo de serviço?
■ Teria necessidade de efetuar a manutenção com equipamento em funcionamento? Que medidas adicionais de segurança foram tomadas para acompanhar o serviço de manutenção?
■ Falta de supervisão no acompanhamento do serviço?
■ O serviço foi considerado de alto risco, devido ao funcionamento de partes móveis?

O que diz a normas de segurança;
■ Todos os pontos de transmissão de força de correias transportadores devem ser protegidos com grades de segurança ou outro mecanismo que impeça o contato acidental.

■ Os trabalhos de limpeza e manutenção das correias transportadores contínuos só podem ser realizados com o equipamento parado e bloqueado ou outro sistema, devendo neste caso possuir mecanismo, que impeça contato acidental do trabalhador com as partes móveis. ACCA

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quinta-feira, maio 10, 2007

Buncefield – Estudo do Impacto econômico e Interrupção de negócios


Resumo da análise efetuada quatro meses depois do incidente por uma empresa de Consultoria Inglesa, SQW, em relação ao impacto econômico do incidente do Depósito de Buncefield.
O estudo é extremamente interessante, pois analisa o impacto do desastre na comunidade, município e suas conseqüências econômicas. Em geral os especialistas de prevenção de perdas não tem essa noção da grandeza e complexidade do incidente em relação à cadeia produtiva na comunidade. Às vezes o impacto é tão grande que dificilmente o município recuperará dos prejuízos sofridos indiretamente.
Foto ao lado - The Time - tirada minutos após a explosão
Maylands
Maylands é uma das maiores zonas industriais e de negócios na região leste da Inglaterra, abrigando cerca de 630 empresas e empregando quase 16.5000 pessoas. A interrupção dos negócios foi sentida por todas as empresas de Maylands 48 horas após o incidente, sendo que a maioria foi afetada por longo tempo e muitas ainda estão sofrendo dos efeitos pós-incidente.
Cerca de 90 empresas foram severamente afetadas pelo incidente com destruição total ou parcial de suas instalações e outros ativos. A maioria delas ainda está sofrendo dos efeitos do incidente.

Tipos de empresas afetadas
Dos 90 negócios afetados severamente incluem; empresas de todos tamanhos; 12 empresas de grande porte, 16 empresas médias, 33 empresas pequenas, 19 micros e 10 não especificadas.
Esses impactos severos nos negócios tiveram de enfrentar com ampla faixa de efeitos, resultante da destruição de suas instalações ou restrições de acesso às edificações e muitas delas ainda estão operando em estado de emergência.

Impactos
Para as empresas severamente afetadas, o mais importante dos impactos foi o aumento dos custos de operação. Desagregando as empresas pelo tamanho, aumentaram os custos de operação afetando as empresas em todo o sistema.

Os efeitos do mercado e clientes variam conforme o tamanho e atividade das empresas. Falha para encontrar ordens de pedidos foi os maiores problemas encontrados nas empresas média, pequena e micro, enquanto, nas empresas grandes esse problema não foi constatado.

Preocupação com a falta de novos pedidos foi mencionada por algumas empresas grandes, mas a proporção maior foi de empresas média, pequena e micro.

Fluxo de caixa é particularmente crucial para as empresas média e pequena e seguro inadequado ou insuficiência de coberturas é extremamente grave que atingem as empresas pequena e micro.
Para as empresas menos afetadas, falhas para encontrar ordens de pedidos e aumento de custos de operação foram mencionados como fatores chave que estão afetando todas as empresas. Falta de novos pedidos é um problema particularmente sério para microempresa, possivelmente refletindo sua confiança em pedidos de outros negócios.

Na relação com essas questões, até as firmas que sobreviveram a esta crise, provavelmente foram severamente enfraquecidas e pode bem, consumindo suas reservas financeiras, prejudicaram a sua recuperação. As firmas que não enfrentam questões de sobrevivência imediatas, ainda hoje podem estar seriamente em perigo se confrontado com outra questão imprevista no futuro.

Mudanças de local
Das vinte e cinco empresas seriamente afetadas, quase cinco mudaram totalmente ou parcialmente suas operações, dezesseis delas totalmente e quatro parcialmente. O numero total de transferência de postos de trabalho foi de 1.422.
O padrão de mudança varia por tamanho da empresa;
Empresas grandes foram capazes de transferir para outras instalações através da região sudeste da Inglaterra ou para outros locais, alternativamente, outros ocuparam escritórios temporários.
Empresas pequenas transferiram para locais próximos a Hemel Hempstead, incluindo o centro da cidade e também em locais num raio de 10 a 15 km do centro de Hemel.

Parte econômica
O condado de Hertfordshire participa com 21% do Valor Adicionado Bruto (VAB) da região Leste da Inglaterra (37 bilhões de dólares de 178.3 bilhões) e a região que pertence Hertfodshire participa com 14% do VAB de Hertfordshire (5,18 bilhões)

Estimativa de perda liquida
O total de perda VAB (não incluindo a depreciação) entre as empresa da região de Maylands é estimado numa faixa de 125 milhões de dólares a 156 milhões de dólares (sem o efeito multiplicativo, incidência da cadeia produtiva) e 203 milhões de dólares com efeito multiplicativo.

Futuro das operações em Maylands
As empresas seriamente afetadas (40%) e não seriamente afetadas (quase 30%) não têm certeza sobre o futuro no local. Separadas por categorias de atividade, aquelas que não tinham certeza de seu futuro no local estavam mo comercio e serviços e alta tecnologia.

Impactos individuais
Individuais, como empregado, residentes ou membros da comunidade, todos foram afetados pelo incidente.
O impacto inicial por enquanto tem sido limitado, não houve perda de emprego significativo. Entretanto existe uma preocupação com os efeitos retardados que estão começando a surgir, tais como; perda de mercado, custos de operação elevados, novas instalações, etc.

O futuro
À parte da devastação física extrema causada pelo incidente e o duro golpe nos negócios, há questões específicas apontadas que afetam o futuro do local.
Em particular a questão e a extensão de responsabilidade legal e se o depósito permanecerá no local ou a sua configuração será mudada

Obviamente, o incidente também criou interesses que afetam inevitavelmente a atratividade da propriedade ao potencial que ocupa. Já há planos para uma campanha do marketing que apresentará informação efetiva da causa da explosão e as etapas que estão sendo tomadas para prevenir uma nova ocorrência. A campanha, que acreditamos para ser uma parte essencial do plano de ação de recuperação, também destacará a posição excelente da propriedade e planos para sua regeneração.

A explosão apresenta oportunidades. Em particular, forneceu um novo foco para o setor público e privado para rever o futuro da propriedade de Maylands. Acreditamos que este foco pode abrir novos horizontes que poderiam transformar a propriedade e ajustá-la para ajudar encontrar novas ocupações.

Lições de Buncefield
Uma das lições importantes de Buncefield é que as empresa pequenas foram duramente atingidas. Elas muitas vezes operam em um único local e têm, por isso, pouca margem para evitar aumento dos principais custos. Há pouca folga em seus recursos de gerência, assim a tensão tão grande é imposta aos indivíduos chaves. Junto com custos de operação mais elevados, podem enfrentar redução de vendas devido ao foco em mercados locais.

Apesar dos esforços consideráveis de muitas agências. Tornou-se evidentemente óbvio que há uma lacuna no apoio financeiro disponível. Para lidar com o resultado de um incidente desta escala, o apoio de emergência deve do início incluir auxílio financeiro flexível. O governo e suas agências devem considerar a provisão de um fundo substancial que fornece pagamentos de compensação provisório, em uma maneira não burocrática, aos negócios na necessidade como parte da resposta às emergências futuras. O fundo de emergência Whilst Bellwin fornece alguma ajuda financeira às autoridades locais na resposta a uma emergência em relação à proteção à vida e a propriedade, mas nenhuma provisão semelhante existe para as empresas de pequeno porte que enfrentam a adversidade corporativa

Seguro
Espera-se que a perda total segurada seja aproximadamente US$ 355 milhões.
As reclamações que se relacionam com a perda de estoque de óleo e danos à fábrica alcançarão aproximadamente US$ 212 milhões, enquanto os danos e as reclamações de interrupção de negócios de empresas afetadas adjacente à propriedade industrial provavelmente totalizarão US$ 124 milhões. Os danos às casas circunvizinhas ao local do incidente e reclamações de pessoas feridas na explosão comporão as perdas restantes.

Terminal Buncefield
O terminal normalmente mantém um total de 77 milhões de litros (20 milhões de galões) de produtos de óleo refinado, que equivale grosso modo a 484,000 barreis.
A parte do terminal que foi danificado tem os estoques previstos em mais de 35 milhões de litros (9 milhões de galões) de produtos, segundo um porta voz da Associação de Indústria de Petróleo britânica. O porta voz do Departamento de Comércio e Indústria disse as seções afetadas participa com 5 % do fornecimento do Reino Unido.

Comentário
Numa catástrofe como esta que aconteceu na Inglaterra, quais são as conseqüências para a comunidade de modo geral, por exemplo, no Brasil;
1. Perda de receita financeira do município, da população afetada, comércio, indústria e agricultura
2. Paralisação ou interrupção da infraestrutura da cidade (luz, água, comunicação, ruas, estradas, etc)
3. Paralisação de fábricas, que poderá atingir valores elevados, cujo produto agrega outros insumos. (há perda na cadeia produtiva).
4.Agricultura, perdas nas lavouras , infra-estrutura e construções rurais. A perda de produção na agricultura é grave, pois o agricultor depende da produção para saldar dívidas
5. Comércio, consumidores, etc.
6. Recuperação ou reconstrução de prédios públicos, ou edificações particulares (moradores) , comerciais e industriais

No Brasil temos vários riscos semelhantes ao Buncefield na área petrolífera e química, próximas de bairros densamente povoados, rios e mares.etc.
Enquanto o Corpo de Bombeiros inglês estava preparado para enfrentar essa emergência com recursos materiais e pessoais suficientes, com planejamento e principalmente com centro de gerenciamento de emergência na coordenação, aqui no Brasil, os Corpos de Bombeiros padecem de faltas de recursos necessários e principalmente de tecnologia (viaturas, equipamentos auxiliares, treinamento em áreas de risco, etc).
Temos sorte até o momento não tivermos esse tipo de catástrofe, pois se a hora da verdade chegar descobriremos tarde demais que não estávamos preparados para enfrentar essa situação.
Na prevenção de risco não existe uma solução mágica, devemos estar preparados para enfrentar o imprevisto ou é como a caixa preta de avião: só é aberta depois do desastre e aí descobriremos as falhas. ACCA

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domingo, maio 06, 2007

Mega explosão do depósito de combustíveis de Buncefield – Parte 1


Em 11 de dezembro de 2005, às 6 h, domingo, uma mega explosão no depósito de Buncefield, um grande terminal de distribuição de combustível, que armazena óleo, gasolina e querosene, foi ouvida a 322 km de distância.

Local
O deposito de combustível de Buncefield está localizado em Hemel Hempstead, situado aproximadamente 24 km a noroeste de Londres. O depósito é o quinto maior no Reino Unido e de importância estratégica para operação de diferentes companhias. O deposito recebe gasolina, combustível de aviação, diesel e outros combustíveis por oleoduto. Os combustíveis são armazenados e distribuídos por oleodutos e caminhões tanques. O deposito de Buncefield antes do incidente tinha participação de 8% da distribuição de derivados de petróleo no Reino Unido e de 40% de combustível de aviação no aeroporto de Heathrow.

Conseqüências da explosão
A explosão quebrou vidraças/vidros em residências situadas a 3 km de distância, destruiu área industrial circunvizinha, incluindo colapso total ou parcial de numerosos edifícios comerciais.

Vítimas
Cerca de 43 pessoas ficaram feridas na explosão, mas ninguém sofreu ferimentos graves ou fatais.

Acionamento do Corpo de Bombeiros
Às 6 h 02 min o centro de controle de serviços de combate contra incêndio e salvamento de Hertfordshire recebeu a primeira das sessenta chamadas sobre o incidente.Outros centros da vizinhança receberam mais de cento cinqüenta chamadas. O oficial em comando declarou a ocorrência como “incidente grave” apenas oito minutos após a sua chegada no local.

Chegada das equipes de bombeiros no local do incidente
As primeiras equipes confrontaram com um cenário de destruição generalizada, abrangendo vários quilômetros quadrados. Foi descrito como o maior incidente na Europa no tempo de paz. Encontraram vinte tanques em chamas, elevando-se a 60 m de altura, acompanhada de uma nuvem negra, densa, deslocando-se em direção sudeste.

Explosão destruiu equipamentos estratégicos de controle do depósito
A explosão destruiu o centro de controle do deposito, a casa de bomba de água de emergência e interrompeu completamente as estradas limítrofes. A intensidade do fogo interrompeu o acesso a dois dos três sistemas de abastecimento de água de emergência.

Plano de combate ao fogo
O plano preliminar seguiu as diretrizes e concentrou-se no maior depósito em chamas, atacando com concentrado de espuma, água e equipamento gerador de espuma, armazenados no local para uso imediato das equipes locais.

Bombeiros já conheciam e foram treinados no local
As equipes de Hertfordshire receberam treinamento no local utilizando os equipamentos disponíveis, mensalmente, durante os últimos seis meses.

Comando Geral do Incidente
Foi instalado o comando de incidente de grandes proporções na central de polícia de Hertfordshire.
Os serviços de emergência no Reino Unido operam por meio de uma estrutura de comando dividido em Ouro, Prata e Bronze. O comando Ouro equivale ao estratégico, isto é, localizado fora do local do incidente. O comando Prata é equivalente ao tático, opera as unidades de comando no local e o comando Bronze opera na linha de frente.
Durante os cinco dias seguintes os principais oficias de Hertfordshire revezaram no comando Ouro (estratégico) e também para garantir a presença de um deles no local do incidente.

Combate inicial ao fogo
Foi necessário conduzir o incidente em diversas fases, tais como;
1) Em primeiro lugar foi conduzida as operações de busca e salvamento em diversos edifícios colapsados e danificados;
2) Oito viaturas de combate contra incêndio e recursos aéreos permaneceram no local (apoio) enquanto decorriam as operações de busca e salvamento;
3) Enquanto decorriam as operações de busca e salvamento foi necessário estabelecer cortinas d’água para resfriamento e proteção dos tanques que ainda não foram afetados pelo fogo

Preocupação com o meio ambiente
O comando estratégico (Ouro) começou a discutir as questões ambientais e de saúde em conseqüência do incêndio, incluindo o comportamento da fumaça e também a possibilidade que o incêndio prolongasse por até nove dias.
A análise da fumaça (plume, semelhante ao formato de uma fumaça cônica invertida) através da modelagem, baseada em simulação de computador, sugeria que a movimentação da fumaça poderia atingir o continente europeu, principalmente França, Bélgica e Luxemburgo em vinte quatro horas.
Devido ao problema da fumaça e suas conseqüências o comando estratégico decidiu combater ao incêndio ativamente em vez de deixar que se queimassem até a sua extinção (método tradicional de combate).

Vizinhança
Os bombeiros aconselharam os moradores que ficassem em suas casas e escutassem as informações de rádio e TV local sobre o desenrolar do incêndio.
Devido a possíveis efeitos da poluição as aulas foram suspensas por dois dias em duzentos e cinqüenta escolas.

Recursos adicionais de equipamentos de combate contra incêndio
Com a decisão de combater ao fogo, o comando estratégico identificou as necessidades de suprimentos e encomendou;
1) grande quantidade de espumas
2) bombas de grande vazão, de quase 8.000 l/min, usando mangueiras de 15 cm (seis polegadas)

Movimentação de veículos e estradas
Na primeira fase a auto-estrada M1 vizinha do local ficou fechada por 12 h. Foi reaberta na noite de sábado. A auto-estrada M10 também ficou fechada nas primeiras horas para ser usada como área de manobra de viaturas de incêndio e de serviços de salvamento.
A reabertura completa da auto-estrada M1 tornou-se objetivo principal do governo devido à proximidade do Natal e foi liberada na manhã de domingo, 17 de dezembro.

Delimitação de zona de segurança
O comando estabeleceu uma zona de exclusão aérea em uma área de 16 km de altura e perímetro de 1,6 km para proteção ao tráfego aéreo e excluir os helicópteros da mídia. Essa zona de exclusão teve ser reforçada na sexta-feira de manha, quando os helicópteros da mídia começaram a aproximar-se do local e afetando a camada de espuma utilizada para prevenir a reignição.

Plano tático
O vice-comandante comandou uma equipe que incluía; bombeiros profissionais da indústria de petróleo, peritos técnicos, gestores do local, oficiais bombeiros de Hertfordshire e outras autoridades locais.
Essa equipe decidiu lidar com o fogo em quatro fases;
A primeira fase de operação seria isolar os incêndios e proteger os tanques intactos por meio de cortina d’água.
As demais fases iriam trabalhar progressivamente nos demais tanques e também garantir a manutenção das camadas de espuma já colocadas.
O ataque passaria de um tanque para outro, deixando o maior tanque com incêndio para ser atacado por último. O plano devia ser flexível para lidar com incêndio de diques, reignições, colapsos de tanques e alimentação de incêndios provocados pelo calor e pressão.

Disponibilidade de água
A única fonte de água disponível era um pequeno lago, distante 1,8 km, que necessitava de construção de uma estrada provisória para acesso ao local e permitir que o barco de salvamento de Hertfordshire colocasse as bombas. A estrada provisória foi construída e foram montadas 14 bombas de grande vazão com ajuda de guindastes.
O plano de combate exigiria 32.000 l/min de água e 1.200 l/min de concentrado de espuma. Houve também solicitação de instalação de iluminação na área por holofotes. Isso exigiu logística extraordinária para abastecer a linha de frente de combate ao fogo.
Continua na parte 2
Vide fotos ampliadas

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Mega explosão do depósito de combustíveis de Buncefield – Parte 2

Ataque com espuma
O principal ataque com espuma começou às 8h 22 min na segunda-feira de manhã, 12 de dezembro. Por duas vezes os bombeiros foram retirados do local devido a colapsos de tanques, que colocaram em perigo outros tanques e a própria segurança dos bombeiros. Entretanto, eles retornaram rapidamente no combate ao fogo. Na terça-feira à tarde, o fogo foi extinto em quase todos os tanques com exceção de dois que havia fogos periféricos e um tanque (nr. 912) que ainda ardia em chamas. O tanque 912 continha petróleo e decidiu‑se deixá-lo queimar até a sua extinção de forma controlada. Os incêndios nos diques foram apagados. O último incêndio foi extinto na quarta-feira, antes do horário do almoço.
O stop (suspensão de recursos adicionais) foi enviado às 19h 36 min, 14 de dezembro.

Água residual de incêndio e contaminação
Durante toda a operação, as bombas de grande vazão foram usadas para conduzir o escoamento de água em volta do local de forma a garantir que a água contaminada fosse mantida nos diques e evitar qualquer contaminação do lençol freático cuja água abastecia as fontes de abastecimento de água de Londres. Esta era uma preocupação significativa para o comando estratégico e a equipe tática de bombeiros. A agência ambiental tinha avisado que se saísse do local a grande quantidade de água contaminada pelo combustível e espuma, poderia afetar gravemente as fontes de abastecimento da zona noroeste de Londres por até três décadas.

Controle de extravasamento de água residual de incêndio nos diques
Devido a provável contaminação das fontes de abastecimento de água de Londres, houve modificação no plano de combate ao fogo, para manter a água contaminada no local.
Foi utilizada a estação de tratamento de água para esse controle. Inicialmente foi bombeada a água da estação para os diques que não foram afetados pelo fogo. A água contaminada era conduzida para a estação de tratamento e parte dela era reutilizada no resfriamento dos tanques que não foram afetados pelo fogo. A grande parte da água contaminada foi contida no local e posteriormente foi levada em tanques, em mais de quinhentas viagens, até uma estação de tratamento fora do local.

Principais equipamentos e suprimentos utilizados
Espuma
A espuma usada era do tipo Angus Fire FP70, uma espuma de alto desempenho, formulada especialmente para apagar incêndios em grandes tanques de armazenagem. Entretanto foi utilizada outros tipos de espuma despachada por outras agências que não cumpriam com o regulamento sobre água subterrânea do reino Unido de 1988, implicando, portanto, alguma contaminação das águas residuais. A necessidade de concentrado de espuma era tão grande durante o ataque prolongado que era impossível de monitorar continuamente o concentrado que estava sendo utilizado.
Equipamentos
Foram usados equipamentos da William Fire & Hazard Control, tais como; Big Gun, gerador de espuma de grande vazão e monitores Patriot.

Rescaldo dos tanques
Os bombeiros continuaram a atuar para prevenir a reignição e a volta da queima, cobrindo o combustível exposto com uma camada de espuma de média expansão utilizando injetores de espuma para diques antiincêndio. Durante a extinção do fogo, os bombeiros utilizaram detectores de atmosfera explosiva para minimizar a possibilidade de explosões de atmosfera inflamável.

Cenário de combate para os bombeiros
Havia fumaça densa e calor extremo. As equipes eram revezadas para cada turno de três horas. As equipes permaneceram no local durante o natal e o fim de ano, supervisionando o processo de rescaldo, garantindo que não houvesse reignição e a remoção segura das águas residuais contaminadas fora do local. Os bombeiros de Hertfordshire permaneceram no local até 5 de janeiro de 2006.

Balanço final do incêndio
Bombeiros
Foram utilizados 180 bombeiros no ponto mais lato do incidente.
Logística;
Concentrado de espuma – 600.000 l
Água – 40.000.000 l
Mangueiras de incêndio- 30 km de mangueiras

Centro de gerenciamento de emergência
Pela primeira vez na historia os serviços de bombeiros e salvamento de Hertfordshire solicitaram mobilização nacional de recursos para enfrentar o incidente. Em virtude disso, pela primeira vez o centro nacional provisório de comando e controle baseado em West Yorkshire, foi formalmente utilizado para coordenar e solicitar recursos das autoridades de combate a inc6endio.

Causa do acidente
Foto ao lado - Sob circunstâncias normais, medidores controlam o nível de combustível no tanque enquanto enche através da tubulação.
Um dispositivo de segurança, automático de controle de altura de nível (high level alarm) deve acionar um alarme se o tanque alcança sua capacidade máxima. Isto deve resultar na interrupção.
Mas nesta ocasião, o dispositivo automático de interrupção não ocorreu e o combustível continuou a ser bombeado, houve transbordamento através das aberturas (vents e defletores).

Interrupção de negócios
Na zona industrial de Mayland está instalada mais de 600 empresas e empregando mais de 16.000 pessoas e está localizada adjacente ao depósito de Buncefield.
Cerca de 80% das empresas foram seriamente danificadas e algumas sofreram destruição dos edifícios e conteúdos. Estima-se que entre 4.000 a 5.000 postos de trabalho foram afetados. A avaliação de segurança dos edifícios e o acesso restrito afetaram o retorno das atividades normais e deixaram várias empresas paralisadas ou semiparalisadas.

Lições do incidente
Automobilização
Alguns serviços de combate a incêndios e salvamento mobilizaram pessoas e equipamentos no local do incidente sem terem recebido um pedido de Hertfordshire. Esta prática deve parar.

Meio Ambiente
A proteção do meio ambiente é uma questão significativa no mundo moderno, em particular, em um incidente de grandes proporções. Muitas vezes será necessário encontrar um equilíbrio entre a poluição do ar e do solo.

Alojamento
Assegurar o bem estar dos bombeiros e oficiais que lidam com incidentes importantes são normais, mas pela primeira vez um número significativo de bombeiros vindos de todo o país necessitou de alojamento provisório.

Informação por canais de TV via satélite
As agências nacionais não deveriam receber informações das cadeias de televisão, mas sim receber as informações do comandante de operação.

Mídia
Manter boas relações com a mídia é muito importante. Eles necessitam de informações. É melhor dar-lhes acesso a conferência de imprensa e imagens de maneira em que eles possam difundir a verdade. Um grupo de jornalistas foi autorizado a aproximar-se do local na terça-feira, para compartilhar as imagens com as agências de imprensa.

Trabalho extraordinário – feriado e férias
O incidente prosseguiu durante o período de natal e as empresas de serviços de emergência tinha pouco pessoal disponível nesse período para lidar com as conseqüências do incidente, tais como; água contaminada e produtos combustíveis.

Zona de segurança aérea
Considerar a implementação e manutenção contínua.

Delegação de poderes aos representantes
Os comandos estratégico, tático e operacional deveriam vir munidos de poderes para tomar decisão e definir prioridades.

Imprevistos
Estejam preparados para os imprevistos, problema com água residual de incêndio, tanques colapsados, helicóptero afetando a camada de espuma, cobertura negativa da mídia, bem estar dos bombeiros, etc.

Fonte: NFPA Journal Latino Americano – autor – Roy Wilsher, comandante dos Serviços de Bombeiros e Salvamento de Hertfordshire

Comentário
Os grandes incidentes industriais, semelhantes ao Buncefield, além da complexidade do combate ao fogo estão trazendo outros problemas relacionados à contaminação ambiental de duas maneiras;
A contaminação ambiental direta, devido aos componentes da combustão gerado pelo fogo.
E a contaminação ambiental indireta gerado pelo combate ao fogo, produzido pela água residual de incêndio contaminado por substancias tóxicas ou que interage com produtos químicos contidos no incêndio e também pelo concentrado de espuma utilizado em produtos inflamáveis.
Toda essa água residual contaminada dificilmente será contida pelos diques, sendo direcionada ao sistema de drenagem da indústria ou contaminando o solo e o lençol freático e posteriormente atingindo córrego, lago, rio e mar, etc.

No Brasil
Seria interessante que as autoridades considerassem a ecotoxicidade da água residual de incêndio de indústrias potencialmente perigosas, envolvendo líquidos inflamáveis, produtos tóxicos, como resíduo potencialmente perigoso que atendesse os critérios da ABNT-NBR sobre Gestão de Resíduos Perigosos.

A gestão de resíduos perigosos de incêndio seria os resíduos provenientes de água contaminada proveniente de combate ao incêndio gerados em equipamentos e instalações industriais que tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnicas e economicamente inviáveis em face à melhor tecnologias disponível.

Nesse caso a indústria seria obrigado a tratar a água contaminada de incêndio, como se fosse Armazenamento Temporário de Produtos Perigosos.
O armazenamento tem como definição à contenção temporária de resíduos em área adequada, a espera de reciclagem, recuperação, tratamento ou destinação adequada, desde que atenda às condições básicas de segurança.

Como exemplos de áreas de risco em potencial para desastres temos no Estado de São Paulo;
Na ilha Barnabé, Santos, existe 143 tanques com capacidade de armazenagem de 170 milhões de litros de produtos químicos.
Porto de São Sebastião, área de tancagem da Petrobrás
Terminal de combustível de Barueri, etc. ACCA

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