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segunda-feira, maio 28, 2007

Indústria do couro gera problemas ao ambiente e à população

O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo: 185 milhões de cabeças de gado, espalhadas pelo território nacional, sobretudo no estado de São Paulo e nas regiões centro-oeste e sul. Somos também o maior produtor de couro, do qual a Itália, centro internacional da moda, é a principal compradora, seguida por Hong Kong e pela China. Para se ter uma idéia do que isso representa para nossa balança comercial, de janeiro a setembro de 2004, US$ 930,6 milhões em peças abasteceram o mercado externo - um crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2003. O ritmo de expansão da fronteira agrícola e pecuária na região norte deixa claro que o negócio só tende a aumentar.

De acordo com a classificação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb), a indústria coureira é uma das mais poluentes que existe. Dentre as diversas maneiras de curtir a pele crua do boi, 70% delas utilizam como base o cromo. Mais barata e eficiente para operações em escala industrial, essa substância participa do curtimento e do acabamento, conferindo ao produto resistência e permitindo sua estocagem por longos períodos sem risco de apodrecimento.

Doenças ocupacionais
Os empregados das indústrias de couro são os mais prejudicados, pois convivem diariamente com o cromo, além de outros compostos nocivos. De acordo com Elizabeth Nascimento, professora de toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), a maioria dos trabalhadores de curtumes sofrem de alergias na pele e é muito comum apresentarem rinite alérgica. A permanência prolongada em ambientes onde o cromo é utilizado pode levar à inalação de grandes quantidades da substância, aumentando os riscos de desenvolver câncer de pulmão. "O que vemos são principalmente problemas respiratórios, manchas na pele e herpes", afirma Gisberto Marcos Antunes, o Betinho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Curtume da região central do estado de São Paulo. Ele estima que cerca de 5% dos trabalhadores apresentem algum tipo de problema de saúde. "Alguns curtumes já pagam a taxa de insalubridade, mas isso ainda não está regulamentado", complementa.

Como todo metal pesado, o cromo se acumula no organismo devido ao contato direto ou ao consumo de água e de alimentos contaminados, podendo ao longo dos anos causar falência de órgãos, como os rins, e até levar à morte. Sua forma hexavalente, mais rara e perigosa, provoca perfuração do septo nasal caso inalada em altas doses.

Cidade de Bocaina
Bocaina, cidade paulista situada no centro do estado, tem no acabamento do couro sua principal atividade - assim como diversos pequenos e médios municípios brasileiros - e pode ser considerada um paradigma desse conflito que opõe desenvolvimento e preservação ambiental. Conhecida nacionalmente como a "capital da luva de raspa", a localidade enfrentou nos últimos dez anos um crescimento desenfreado da atividade coureira, que se mantém na região há cerca de 30 anos.

Residual industrial
Com apenas 10.565 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Bocaina produz diariamente por volta de 30 toneladas de lixo provenientes das mais de cem empresas beneficiadoras de couro. Diante dos transtornos causados pela contaminação, a cidade tem buscado soluções, e sua experiência serve de exemplo a outras que vivem o mesmo problema pelo país afora.

Água colorida
As empresas que processam o couro em Bocaina são de vários tipos, mas há basicamente dois grupos. A maioria produz luvas e aventais de trabalho. Outras, em menor número, operam com tingimento. O resíduo gerado pelo processo de acabamento pode ser sólido - como as aparas não aproveitadas do material e a serragem de couro - ou líquido - resultado da lavagem da peça e, principalmente, do ato de tingir. Em ambos os casos, o cromo está presente.

Tratamento de água industrial gera outro resíduo industrial
Segundo a Cetesb, apenas as empresas que tingem o couro devem realizar tratamento da água, que exige investimento alto: um curtume de tingimento de médio porte gasta em torno de R$ 3 mil por mês para limpar 20 mil litros de água por dia. A água colorida da tintura é bombeada para um reator de coagulação, uma espécie de liquidificador que a mistura com diversos componentes químicos. O problema é que a limpeza produz um outro resíduo, o lodo cromado, que deve ser enviado a um aterro adequado.

População reclama da poluição
Na opinião da população, as empresas não tratam corretamente seus efluentes, ou o fazem em apenas parte do volume utilizado, pois a contaminação das águas correntes é visível a olho nú. O córrego da Bocaina, que deu nome à cidade, já foi pintado de muitas cores: preto, azul, vermelho. Varia conforme a tinta utilizada para trabalhar o couro. Sempre que isso acontece, é difícil precisar quem é o autor da aquarela, pois há cinco curtumes próximos ao manancial. O Himalaia, outro curso de água que corta a cidade, também sofre com a deposição clandestina de efluentes industriais. Os dois córregos desembocam no rio Jacaré Pepira, um dos principais da região, parte integrante da bacia do Tietê.

Muitos moradores reclamam da poluição, que pode ser aferida até pelo cheiro. O nariz e os olhos ardem, é insuportável. O que os moradores chamam de "cheiro de ovo podre" é o gás sulfídrico. Ele entra nas casas pelas tubulações de esgoto, que fazem parte do mesmo sistema que recolhe parte dos efluentes das empresas beneficiadoras de couro. Esse gás, além de malcheiroso, é letal em altas concentrações.

Segundo José Luis Pedro, químico que presta consultoria para dez empresas em Bocaina, "mesmo em água corrente, o resíduo de curtume varre a vida por onde passa, causando a morte instantânea de qualquer ser vivo, seja bactéria, peixe ou planta". Grande parte dos moradores de casas e propriedades rurais à beira dos cursos de água do município cercou o acesso a eles. "Tenho um rio que corre ao lado da minha propriedade e não posso usá-lo. Tive de colocar cerca para que meus cavalos não bebessem ali e não posso nem irrigar a horta", reclama o dono de um sítio, que não quis se identificar.

Contaminação do meio ambiente
A contaminação trazida pelos resíduos sólidos é mais sutil. Seus efeitos não podem ser vistos, mas são tão ou até mais graves que os causados pela poluição por efluentes líquidos. A água da chuva descola os compostos químicos das aparas de couro depositadas no solo e os leva, com o tempo, até os lençóis freáticos mais profundos. Isso pode contaminar os postos de arrecadação de água tanto para consumo urbano quanto para abastecimento de fazendas. Infelizmente, ainda não existem estudos detalhados sobre o comprometimento real de solos e águas subterrâneas da região.

A esse perigo soma-se um agravante: aquela é uma área de recarga do aqüífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo, que possui um volume estimado em cerca de 37 mil quilômetros cúbicos e abrange regiões do sudeste e centro-oeste do Brasil e também da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Ele aflora na região, ou seja, possui pontos próximos da superfície que não estão protegidos e, por isso, são sensíveis a alterações do meio ambiente. Em Bocaina, esse afloramento corresponde a 84% da área do município, o que pode ser constatado pela quantidade de minas de água no local. Cavando apenas 8 metros, um morador conseguiu encontrar água em abundância, com a qual mantém uma piscina em casa.

Sobrevivência e preservação
Um fator que dificulta a resolução do problema é que grande parte da população da cidade está empregada no setor. Segundo estimativa da Associação dos Curtumeiros de Bocaina (Associcouros), a atividade gera em torno de 4 mil empregos diretos e indiretos, o que corresponde a mais da metade da população economicamente ativa do municipio

Na fabricação de luvas, há muitos estabelecimentos de "fundo de quintal", por não serem necessários equipamentos sofisticados. De acordo com o prefeito da cidade, o setor apresenta uma taxa de informalidade que vai de 15% a 20%.

O promotor de Justiça do Meio Ambiente da Comarca de Jaú, defende que a lei ambiental seja cumprida a qualquer custo. "O setor dá emprego e é importante para a cidade. Mas o vizinho que mora na casa do lado tem o direito de respirar ar puro", argumenta. Segundo ele, a informalidade da indústria coureira e a falta de controle sobre a produção tornam a questão difícil de ser tratada.

Controle parcial da contaminação
Ainda assim, é consenso que a realidade já melhorou muito desde 2000, ano em que a Cetesb interveio pela primeira vez no município. Desde então, grande parte dos empresários tomou consciência do prejuízo ambiental, e o lançamento de resíduos diretamente nos rios, córregos e no esgoto doméstico diminuiu.

Na época, buscando se enquadrar na legislação ambiental, a Associcouros cogitava construir uma estação unificada de tratamento dos efluentes dos curtumes. Mas o investimento era alto e, frente ao impasse, alguns empresários, irritados com a demora na tomada de precauções, instalaram filtros individuais em seus barracões. O presidente da Associcouros, afirma que, dos 67 associados, há 12 empresas que trabalham com tingimento e todas possuem, hoje, equipamento para o tratamento da água.

Em relação aos resíduos sólidos, a situação também está mais controlada. Antes da fiscalização, restos de raspa eram lançados sem cuidados na zona rural, em aterros de lixo comum, ou simplesmente espalhados pela cidade, à espera de ser recolhidos pelos caminhões de lixo da prefeitura. O promotor de Justiça do Meio Ambiente da Comarca de Jaú considera que muito já foi feito, e o problema das sobras de couro está praticamente resolvido. "Hoje, o que existe são depósitos clandestinos, e em menor quantidade."

Chegava-se até a queimar raspa durante a noite. A fumaça branca, altamente tóxica e de cheiro insuportável, pairava sobre as casas próximas às empresas e atrapalhava o sono dos moradores. Em 2001, foi convocada uma reunião no cinema da cidade, e a população exigiu uma atitude por parte dos curtumeiros.

A medida inicial da Cetesb, já em 2002, foi proibir o depósito de restos de raspa em locais não apropriados. A maioria das empresas foi, então, advertida por descumprimento da legislação ambiental, e algumas foram multadas. A Associcouros, que acabava de ser criada, começou a procurar no município um local adequado para construir um aterro. Enquanto isso, os curtumes passaram a estocar o resíduo sólido em seus barracões, à espera da aprovação de um terreno para essa finalidade.

Mais de oito meses depois, o mau cheiro devido à estocagem aumentou e houve muitas queimadas clandestinas. Em reunião realizada em março de 2003, o Ministério Público, a Cetesb, a prefeitura e a Associcouros concordaram que em 30 dias esse lixo teria um destino. Um aterro na cidade de Paulínia, próxima a Campinas, foi escolhido para receber o material. Foram gastos no total R$ 1 milhão para transportar ao aterro todo o volume acumulado, que somava cerca de 5 mil toneladas.

A avaliação química dos resíduos das empresas foi feita pelo laboratório Ecosistem, em conjunto com a própria Associcouros. Aprovado pela Cetesb, o laudo qualificou-os como classe 2, ou seja, não perigosos e não inertes, e portanto adequados para ser enviados a Paulínia. Entretanto, a química Joana D´Arc de Sousa, especialista em reaproveitamento do resíduo sólido do couro, afirma que todo excedente que contenha cromo deve ser considerado classe 1, pois o metal pesado é perigoso e exige proteção máxima.

O resultado, para as empresas coureiras, representa uma economia de R$ 338 por tonelada do material, uma vez que, enquanto no aterro classe 1 o preço é de R$ 420 por tonelada, no de classe 2 fica em R$ 82 - incluindo o frete até Paulínia. "Se fosse classe 1, não ia sobrar quase nenhum curtume na cidade, pois eles não poderiam pagar", avalia José Luis Pedro. Em outras palavras, a proteção ao meio ambiente em Bocaina ainda está subordinada a conveniências econômicas.

Do boi ao sapato
No matadouro, a pele é separada da carne do boi. Depois os pêlos são retirados e a peça é dividida entre a "flor", a parte de cima do couro, mais nobre, e a "raspa", a parte inferior. A primeira é material para bolsas, sapatos finos e móveis. A segunda servirá para fabricar forro de móveis e sapatos de camurça, além de luvas, aventais e outras peças de vestuário de segurança.
As empresas instaladas no município de Bocaina não curtem o couro, apenas fazem seu acabamento e recebem principalmente da região sul, mas também do centro-oeste e do nordeste.

Fonte: VOMM - Equipamentos e Processos Ltda.

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