POR QUE MORTES DE IDOSOS POR QUEDAS QUASE DOBRARAM EM 10 ANOS NO BRASIL
Dados do Ministério da Saúde revelam que esse tipo de acidente tem crescido de forma acelerada no país
Em 2013, 4.816 idosos
morreram vítimas de queda da própria altura. Já em 2022, esse número saltou
para 9.592 óbitos.
Considerada a terceira causa
de mortalidade entre as pessoas com mais de 65 anos, as quedas mataram 70.516
idosos, entre 2013 e 2022, no país.
Os especialistas apontam três
fatores para a alta incidência desses acidentes:
·
Maior expectativa
de vida da população brasileira, que faz o número de idosos ser cada vez maior
e consequentemente deste tipo de acidente;
·
Menor subnotificação
da rede hospitalar de casos de queda da própria altura, o que facilita os
registros deste tipo de acidente e, por consequência, aumenta o número de casos;
·
Falta de
políticas públicas para a população idosa se locomover, favorecendo a
ocorrência de quedas.
POR QUE CAÍMOS MAIS AO
ENVELHECER?
Com envelhecimento natural,
corpo humano vai perdendo massa e força muscular, favorecendo desequilíbrio
Apesar de tombos serem
frequentes durante a vida, é após os 60 anos que eles podem se tornar mais
comuns.
João Antonio Matheus
Guimarães, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia
(SBOT), explica que, com o envelhecimento natural, o corpo humano vai perdendo
massa e força muscular, a chamada sarcopenia.
"Essa perda de massa
muscular faz com que os idosos tenham uma tendência maior de desequilíbrio, o
que acaba gerando a maior parte dos acidentes", aponta.
Contudo, não é apenas a perda
de massa muscular que gera os acidentes.
"Ao mesmo tempo, quem
tem mais de 60 anos, possui maior tendência de ter comorbidades, como
alterações neurológicas, que podem, por exemplo, gerar uma tontura e uma
consequente queda", diz Guimarães.
Foi o que aconteceu com Irene,
de 66 anos, que, após um desmaio dentro de casa, sofreu uma queda que a obrigou
a ficar semanas fazendo fisioterapia.
"Só me lembro que, como
de costume, naquele dia, acordei e fui no quintal de casa. Foi quando do nada
desmaiei", diz ela.
"Ao acordar, me vi toda
ensanguentada no chão. Até hoje, não sei quanto tempo fiquei lá."
Socorrida pelo filho, Irene
passou por uma bateria de exames que não apontaram gravidade nos ferimentos,
mas acenderam o alerta na família.
"Depois do susto, a
gente muda a rotina", conta a aposentada.
"Por ter diabete e
fibromialgia (doença crônica caracterizada por dores fortes nas articulações,
músculos e tendões), sei que não posso levantar da cama correndo ao acordar,
como antes. Então, hoje, levanto, sento um pouco e só depois começo o meu
dia."
OUTRAS COMORBIDADES
DOENÇAS NAS ARTICULAÇÕES
Também entra na lista de
motivos que nos fazem cair mais ao envelhecer outras comorbidades corriqueiras
do avanço da idade.
É o caso de doenças nas
articulações, que tendem a ficar mais frágeis.
Por isso, por exemplo,
situações de artrose — causada pelo desgaste progressivo da cartilagem e
inflamação da articulação — são corriqueiras após os 60 anos, sendo capazes de
causar tropeços fatais e consequentes quedas.
OUTRA CAUSA QUE GERA MUITOS
ACIDENTES
"Outra causa que gera
muitos acidentes por queda é a osteoporose — doença que se caracteriza pela
perda progressiva de massa óssea, tornando os ossos enfraquecidos", ressalta
Lourenço Peixoto, médico ortopedista e chefe do Centro de Cirurgia do Quadril
do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into).
"Hoje, já temos vários
medicamentos que ajudam na fortificação óssea. Por isso, a importância de
sempre ficar de olho nos sinais que seu corpo dá."
Problemas para enxergar de
perto ou de longe e o próprio sistema nervoso mais debilitado com o acentuado
índice de cabelos brancos também podem ser um indicativo de risco para
ocorrência desse tipo de acidente.
MAIS IDADE, MAIOR RISCO
"O paciente mais idoso tende a levantar mais vezes à noite, por conta de urgência urinária e, muitas vezes, ele está sonolento", ressalta Guimarães. "Nesse levantar, muitas vezes ele sofre a queda."
Dados do Into apontam que quanto maior a idade, maior o risco de queda. Isso porque, entre os idosos com 80 anos ou mais, em média, 40% deles sofrem ao menos algum tipo de queda todos os anos.
O levantamento vai ao
encontro da pesquisa liderada pela nutricionista Ilana Carla Gonçalves da
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucurí (UFVJM) sobre a
tendência de mortalidade por quedas em idosos no Brasil.
Ao analisar os óbitos de
idosos brasileiros por queda, entre 2000 e 2019, a pesquisadora constatou que
mais da metade das mortes foram de idosos com 80 anos ou mais.
No respectivo período, das
135.209 mortes de idosos por queda:
·
17,57% foram de
idosos de 60 a 69 anos;
·
26,31% foram de
idosos com 70 a 79 anos;
·
56,12% foram de
idosos com 80 anos ou mais.
"Esse número de mortes
já é um indicativo de alerta, a pergunta que fica é o que estamos fazendo para
evitar esse tipo de acidente", ressalta a pesquisadora.
"Isso porque quando o
idoso não morre, ele fica acamado e tem todo um processo de recuperação que é
mais lento."
ENVELHECIMENTO POPULACIONAL
Na opinião de Gonçalves, é
preciso que o Brasil repense seu modelo de organização das cidades para uma
população que tende a ser cada vez mais idosa.
O Censo Demográfico 2022, do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 10,9% do
total de habitantes do país têm 65 anos ou mais – o maior percentual de idosos
em relação ao total de habitantes desde que o primeiro recenseamento, de 1872.
"O envelhecimento
populacional, não acompanhado dos devidos ajustes na infraestrutura e outras
medidas que facilitem a mobilidade e promovam a qualidade de vida dessa
população, pode contribuir para o aumento do número de óbitos em decorrência de
queda da própria altura", diz Gonçalves.
"Vias públicas
precárias, com calçadas quebradas e irregulares e iluminação insuficiente,
aliadas aos fatores intrínsecos originados do processo de envelhecimento,
compõem um cenário que conduz a mais episódios de quedas, aumentando as taxas
de mortalidade por essa causa, o que merece atenção especial dos gestores e dos
profissionais da saúde."
COMO EVITAR QUEDAS
Contudo, além de políticas
públicas, especialistas, apontam para a necessidade de conscientização das
famílias sobre os potenciais perigosos que os idosos correm na própria casa.
"É preciso que as
pessoas compreendam que cair não é normal, e que existem atitudes que podem
evitar esses acidentes", diz Isabela Oliveira Azevedo Trindade,
fisioterapeuta da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
Entre as mudanças que podem
diminuir os riscos de queda estão colocar interruptor próximo à cama, ter pisos
com características antiderrapantes, evitar tapetes e instalar barras de apoio
nos banheiros.
Ao mesmo tempo, Trindade
defende mudanças na vida do idoso, como dar preferência por sapatos com
antiderrapante e nunca andar só de meias.
"Junto com isso, há uma
grande necessidade de também investir em exercício físico com o envelhecimento,
porque a prática de atividade física diminui o risco de queda", afirma a
fisioterapeuta.
Para quem já foi vítima de
queda, ela ressalta que não adianta só o envolvimento da família na prevenção
de acidentes. É necessário conscientizar o próprio idoso.
"A gente como idoso
muitas vezes tem dificuldade para aceitar que não temos mais a agilidade de
antes. Só fui aceitar depois do que aconteceu comigo, de ficar toda roxa e até
quebrar o braço", diz Georgina, sobre o acidente que sofreu. "Mas,
graças a Deus, foi somente isso, poderia ter sido pior."
CONFIRA ABAIXO UMA LISTA DE
DICAS PARA ADOTAR EM CASA COM O OBJETIVO DE EVITAR QUEDAS:
NO QUARTO
·
Coloque
lâmpada/lanterna e telefone perto da cama;
·
Os armários devem
ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como
iluminação interna para ajudar na visualização dos pertences;
·
Dentro do
armário, arrume as roupas em lugares de fácil acesso, evitando os locais mais
altos;
·
Substitua lençóis
e acolchoado por produtos feitos por materiais não escorregadios, como, por
exemplo, algodão e lã;
·
Não deixe o chão
do quarto bagunçado.
NA SALA E CORREDOR
·
Organize os
móveis de maneira que tenha um caminho livre para passar;
·
Instale
interruptores de luz na entrada das dependências para que não seja necessário
andar no escuro;
·
Mantenha fios de
telefone, elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito; nunca debaixo de
tapetes;
·
Nas áreas livres,
coloque tapetes com as duas faces adesivas ou com a parte debaixo não
deslizante;
·
Não sente em
cadeira ou sofás baixos, porque o grau de dificuldade exigido para se levantar
é maior. Além disso, estes devem ser confortáveis e com braços;
NA COZINHA
·
Remova os tapetes
que promovem escorregões;
·
Limpe imediatamente
qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derrubados no chão;
·
Armazene a
comida, a louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance;
·
As estantes devem
estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio quando necessário;
·
Não suba em
cadeiras ou caixas para alcançar os armários que estão no alto;
NA ESCADA
·
Interruptores de
luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da
escada. Outra opção é instalar detectores de movimento que podem fornecer
iluminação automaticamente;
·
Mantenha uma
lanterna guardada em algum lugar próximo, em caso de falta de luz;
·
Remova os tapetes
que estejam no início ou fim da escada;
·
No caso de
carpete fixo, selecione aquele que tenha cor sólida (sem desenhos ou muitas
formas) para que seja possível visualizar claramente as bordas dos degraus;
·
Coloque tiras
adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus;
·
Instale corrimões
por toda a extensão da escada, em ambos os lados. Eles devem estar em uma
altura de 76 centímetros acima dos degraus.
NO BANHEIRO
·
Coloque um tapete
antiderrapante ao lado da banheira ou do box para sua segurança na entrada e
saída;
·
Instale barras de
apoio nas paredes do banheiro;
·
Duchas móveis são
mais adequadas;
·
Substitua as
paredes de vidro do box por um material não deslizante;
·
Ao tomar banho,
utilize uma cadeira de plástico firme com cerca de 40 centímetros, caso não
consiga se abaixar até o chão ou se sinta instável. Fonte: Ministério da Saúde
Fonte: BBC Brasil - 2 janeiro
2024
