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terça-feira, agosto 18, 2026

CÉSIO-137: VEJA CRONOLOGIA DO MAIOR ACIDENTE RADIOLÓGICO


Contaminação que aconteceu em setembro de 1987 deixou quatro pessoas mortas e mais de mil afetadas. Acidente marcou a história de Goiânia e do Brasil.

 A contaminação do Césio-137, em Goiânia, marcou para sempre a história da cidade e também do Brasil. O caso foi o maior acidente radiológico do mundo, deixando quatro pessoas mortas e mais de mil pessoas afetadas.  

Para se ter uma ideia do perigo representado por aquela substância azul brilhante, o acidente de 1987 foi classificado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) como nível 5 , em uma escala de 1 a 7. Ele só não fez mais vítimas porque houve a atuação de pessoas da população e de especialistas, como o físico Walter Mendes, que se deram conta da gravidade da situação.

Mesmo contida a contaminação e passadas quase quatro décadas desde que aconteceu, o episódio ficou marcado na memória da sociedade goianiense, ainda que a cidade tenha tentado apagá-la.

Confira abaixo a cronologia do acidente radioativo, de acordo com o livro "Césio 137", da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás:

13 DE SETEMBRO DE 1987

Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado das ruínas do IGR, no Setor Central, em um terreno que pertencia à Santa Casa de Misericórdia. O objetivo era vender a peça para um ferro-velho. Por isso, eles removem o lacre da cápsula, na qual estava a substância até então desconhecida.

18 DE SETEMBRO

Nesse dia, Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, comprou a peça e a deixou em seu depósito. À noite, ao passar pelo pátio do local, ele percebeu que a emissão de um brilho azul. Era o pó de Césio-137. Impressionado, ele levou a peça para casa. Nos dias seguintes, a substância brilhante foi distribuída entre amigos e familiares que o visitaram.

28 DE SETEMBRO

Depois de as pessoas que manipularam a substância começaram a apresentar problemas de saúde, como coceiras, vômitos e diarreia, a esposa de Devair, Maria Gabriela, pegou a cápsula e levou, de ônibus, em uma sacola plástica, à Vigilância Sanitária, também no Setor Aeroporto.

29 De Setembro

Nesse dia, o físico Walter Mendes Ferreira foi chamado para analisar a substância desconhecida deixada na Vigilância Sanitária. Com um aparelho de medição de radiações ionizantes, ele identificou o risco e orientou a evacuação imediata. O acidente foi oficialmente reconhecido e notificado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que depois comunicou o caso à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

30 DE SETEMBRO

Técnicos da Cnen chegaram a Goiânia e, com o auxílio de medidores de radiação, mapearam outros locais contaminados na cidade. Entre eles estava o físico José de Júlio Rozental, que ficou responsável por coordenar as ações de controle e na mitigação das consequências do acidente.

OUTUBRO DE 1987

Ao longo de todo o mês de outubro, o Estádio Olímpico, atual Centro de Excelência do Esporte, foi palco de um gigantesco esquema de triagem e monitoramento, pelo qual passaram 112.800 pessoas. Dessas, 249 foram identificadas com contaminação, em menor ou maior nível. No final, 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.

23 DE OUTUBRO

Morrem Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, e Maria Gabriela Ferreira, sobrinha e esposa de Devair, o dono do ferro-velho. Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, foi visitá-lo no dia 24 de setembro e levou fragmentos de césio para a casa da família. A filha pequena foi a mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. Já Maria Gabriela foi a responsável por evitar que a tragédia fosse ainda maior por ter desconfiado de que havia algo errado com a substância.

25 DE OUTUBRO

Os rejeitos do Césio 137 chegam ao então distrito de Abadia de Goiás, a pouco mais de 20 km da capital, e são armazenados em um depósito provisório, embaixo de um piso de concreto a céu aberto.

27 DE OUTUBRO

Morre a terceira vítima do acidente, Israel Batista dos Santos, de 20 anos, funcionário de Devair. Ele trabalhou na remoção do chumbo da fonte.

28 DE OUTUBRO

Admilson Alves de Souza se torna a quarta vítima fatal. Ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa. Ele perdeu a vida com apenas 18 anos. Ele e as outras três vítimas foram enterradas em caixões revestidos de chumbo.

30 DE SETEMBRO A 21 DE DEZEMBRO

Durante todo esse período, foi feito o processo de descontaminação de Goiânia, que envolveu 40 técnicos da Cnen, que trabalhavam em um revezamento de dez técnicos por semana. No total, sete casas foram demolidas e 41 evacuadas, por focos terem sido identificados.

10 DE MARÇO DE 1988

Em uma audiência no Congresso Nacional à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, o presidente da Cnen, Rex Nazaré Alves, apresenta o "Relatório do Acidente Radiológico de Goiânia”. O fato é considerado o marco da conclusão da descontaminação da capital.

1989

Fica decidido que o repositório construído em Abadia de Goiás seria o local definitivo dos rejeitos radioativos. E no dia 1º de junho daquele ano, foi criado o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) para representar regionalmente a Cenen. Somente em 1991 começou a construção do depósito definitivo que abrigaria os rejeitos e do complexo administrativo que sediaria o CRCN-CO.

5 DE JUNHO DE 1997

Quase uma década após o acidente radiológico, foi inaugurado o Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás. O espaço abriga dois depósitos: um com 40% do total de rejeitos, considerada a parcela menos radioativa, e outro nos quais foram abrigados 60% dos rejeitos, considerados efetivamente radioativos. Nesse segundo local estão os restos da fonte principal que originou o acidente de Goiânia. Fonte: g1 Goiás-05/04/2026  

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quarta-feira, abril 08, 2026

TRINTA ANOS APÓS O PIOR ACIDENTE RADIOLÓGICO DA HISTÓRIA

cápsula com material radioativo que causou o desastre

 Acidente com material radioativo Césio-137 foi o mais grave já registrado pela Agência Internacional de Energia Atômica. Vítimas em Goiânia sofrem até hoje os efeitos da contaminação – e da discriminação.

Na rua 57, região central de Goiânia, o terreno vazio com solo concretado destoa das muitas casas em reforma. Os moradores mais novos não sabem explicar por que não há construção naquele espaço, que abriga apenas uma estrutura metálica enferrujada e grafites no muro do fundo.

A única identificação do local aparece no mundo digital: ao localizar a rua 57, o Google Maps exibe a inscrição "Césio 137", marcando o ponto zero onde o elemento radioativo foi liberado no ambiente e iniciou uma cadeia de contaminação.

O mapa mostra o endereço de um antigo ferro-velho onde, em 13 de setembro de 1987, começou o maior acidente radioativo do Brasil. Naquele domingo, sob a sombra de uma mangueira, funcionários do ferro velho partiram, a marretadas, o cabeçote de um equipamento usado em radioterapia.

A peça havia sido encontrada por dois catadores num prédio em ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), estava abandonada ali desde meados de 1985.

Durante a desmontagem, os catadores chegaram até a cápsula que armazenava 19 gramas de césio-137, que, administrado dentro da máquina, emitia radiação controlada para matar células cancerosas. Fora do recipiente de chumbo, o pó altamente solúvel e de fácil dispersão é letal.


À medida em que os pedaços da máquina eram vendidos para outros ferros-velhos, aumentava o número de pessoas que reclamam de náuseas, vômito e diarreia. Esses sintomas iniciais, causados pela exposição à radiação, foram tratados pelos médicos como intoxicação alimentar.

Cinco dias depois, a cápsula com césio-137 chegou ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Fascinado pelo brilho intenso emitido pelo pó no escuro, ele e a esposa logo adoeceram. Quando recebia visita dos familiares, Devair distribuía pequenas amostras do material que acreditava ser muito valioso. E, assim, os focos de contaminação se espalharam.

Foi Maria Gabriela, esposa de Devair, que desconfiou do poder maligno daquele brilho. Em 28 de setembro, ela colocou a cápsula dentro de um saco de estopa, pegou o ônibus na companhia de um funcionário do ferro-velho e entregou a peça na Vigilância Sanitária. A essa altura, já corria em toda a cidade o boato de que muitos membros de uma mesma família tinham adoecido.

No dia seguinte, um físico que visitava a cidade desconfiou dos relatos e visitou os pacientes com um medidor de radiação. Foi só então que Goiânia descobriu que a cidade estava há 16 dias exposta ao césio-137.

A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) classifica o caso de Goiânia como o maior acidente radiológico do mundo pela extensão da contaminação. Casos semelhantes haviam sido registrados na Cidade do México (1962), Argélia (1978), Marrocos (1983) e Ciudad Juarez, também no México (1983).

Os responsáveis por abandonar a cápsula no prédio desativado do IGR foram denunciados pelo Ministério Público Federal em Goiás por homicídio e lesão corporal culposos em  novembro de 1987. Os médicos Carlos de Figueiredo Bezerril, Criseide Castro Dourado, Orlando Alves Teixeira, Amaurillo Monteiro de Oliveira e o físico responsável, Flamarion Barbosa Goulart, foram condenados nos anos 1990. Eles cumpriram pena em regime semi-aberto, à exceção de Amaurillo. Após recorrer da sentença, obtiveram habeas corpus e prestaram um ano de serviços comunitários. Em 1998, a pena foi extinta por decreto presidencial.

VIDA RECLUSA

Trinta anos após o episódio que contabilizou 6.500 pessoas com algum grau de irradiação, 249 casos com significativa contaminação e quatro mortes quase imediatas, a memória do acidente traz incômodo e desconforto em todas as esferas que tiveram algum envolvimento com o caso.

Muitos dos que sobreviveram àqueles dias de terror continuam em Goiânia. Poucos, no entanto, falam abertamente sobre o acidente. Há quem tenha se mudado para longe para não ser associado ao caso. Outros ainda brigam na Justiça em busca de reparação – é o caso dos trabalhadores que atuaram na descontaminação dos pontos por onde o pó se espalhou e na construção do depósito dos resíduos.

Sem saber inicialmente de que se tratava de fonte radioativa, policiais, bombeiros e funcionários do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa), escalados por seus chefes, isolaram as áreas, destruíram imóveis, árvores, animais de estimação, calçadas, asfalto. Eram os dias finais da ditadura militar, e a lei da mordaça ainda vigorava. 

A poucas quadras do foco inicial de contaminação, dona Lourdes agora vive reclusa e não quer mais falar com a imprensa. Ela perdeu uma filha de seis anos e o marido depois do acidente. A menina Leide das Neves foi a primeira a morrer entre os contaminados mais graves. Ela brincou e ingeriu o pó misterioso, presente que ganhou do pai, Ivo Alves Ferreira, falecido em 2003. Ele teve contato com o césio-137 na casa do irmão, Devair, que morreu em 1994.

O irmão deles, Odesson Alves Ferreira, 63 anos, carrega as marcas da radiolesão nas mãos. Quando fora visitar os parentes que já estavam doentes, sem saber, por causa do césio, o então motorista de ônibus tocou naquele pó. Após a infecção ele passou por uma série de tratamentos experimentais e fundou, em dezembro de 1987, a Associação das Vítimas do Césio 137.

"Todos nós temos dificuldade em conviver com essa história", fala sobre as vítimas. "Trinta anos depois, sentimos que o governo não cumpriu com sua obrigação. É impossível conseguir os remédios que precisamos e a nossa pensão, que deveria ser de um salário mínimo (R$ 937) segundo a lei, está desatualizada (R$ 778)", diz Odesson, que teve cerca de 40 familiares contaminados.

O TRATAMENTO PÓS-ACIDENTE

Em 1988, foi criado um serviço de saúde especialmente para o atendimento às vítimas, a Fundação Leide das Neves. Em 2011, uma mudança na lei levou o órgão no Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) a funcionar segundo as normas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os radioacidentados passam por uma bateria anual de exames. Sobre as queixas das vítimas, Aurelio de Melo Barbosa, da secretaria estadual de saúde, afirma que "eles recebem medicação que está na lista básica de medicamentos do SUS".

Essa lista não inclui diversos dos remédios receitados. Muitos pacientes dizem ter feito empréstimos em banco para comprar a medicação. É o caso de Luisa Odet Mota dos Santos e do marido. "Tudo o que vem com a idade, apareceu bem mais cedo na gente", fala sobre o custo das doenças.

A recomendação para que pacientes obtenham medicamentos de alto custo é recorrer à Defensoria Pública, diz André Luiz de Souza, diretor do CARA. Atualmente, 28 profissionais atuam no CARA, que diz atender cerca de 1.200 pessoas dentre vítimas diretas, filhos e netos de radioacidentados e trabalhadores que atuaram na descontaminação.

"Se um serviço criado especialmente para o atendimento às vítimas não cumpre sua função, então ele não tem mais razão para existir", critica Odesson.

TRAUMAS NÃO SUPERADOS

Trinta anos após o acidente, o trauma das vítimas ainda é evidente. A psicóloga do CARA Suzana Helou conduziu uma pesquisa para entender o nível de superação do acidente com o césio-137. O resultado, ao qual a DW Brasil teve acesso, será publicado num livro.

Dos 92 pacientes vivos acompanhados pelo CARA desde 1988, 48 aceitaram participar. A maior parte (85%) ainda se considera vítima do acidente em Goiânia, devido à discriminação que sofreram ou acreditam ainda sofrer por parte da população. "As pessoas ainda têm medo da gente", respondeu um entrevistado. "Isso não passa nunca".

Mais da metade (54%) disse não ter nenhum projeto para o futuro. "Eles perderam casa, documentos, móveis, isso traz sentimentos de comprometimento de identidade", comenta Helou.

O impacto mais marcante, no entanto, foi nas pessoas que eram crianças e adolescentes à época. "Eles sofreram interrupções bruscas, sentiram abandono, amigos se afastaram, planos foram interrompidos", afirma a psicóloga. Muitos se envolveram com drogas ou se tornaram alcoólatras, nunca mais voltaram a estudar.

VIDA PÓS CONTAMINAÇÃO RADIOATIVA

Luisa Odet Mota dos Santos e Kardec Sebastião dos Santos hoje ajudam a cuidar dos netos. Os quatro filhos do casal tiveram muita dificuldade para continuar os estudos. "Nenhuma escola queria aceitar nossos filhos", diz Luisa. Eles não gostam de falar sobre o assunto, e ainda têm medo da discriminação. 

Os filhos de Odesson também não se envolvem no assunto. "Eu só fico pensando quando a gente não estiver mais aqui. Quem vai cuidar para que essa história não seja esquecida? As vidas que se perderam nunca podem ser esquecidas. Um acidente desse não pode ser esquecido para que ele nunca mais repita". Fonte: DW - Publicado 13/09/2017 Publicado 13 de setembro de 2017 Última atualização 01/04/2026

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