Poluição provoca o aparecimento de caranguejos 'mutantes' no litoral de SP
Uma pesquisa mostrou que a poluição tem afetado a vida dos
caranguejos-uçá que vivem nos manguezais de cidades litorâneas do Estado de São
Paulo. Alguns animais já nasceram com má‑formações devido a grande quantidade
de metais pesados encontrados em cinco cidades da região. Segundo os
pesquisadores, a contaminação do meio ambiente é proveniente do Polo Industrial
de Cubatão, do Porto de Santos e dos lixões instalados na região. Além disso, o
caranguejo-uçá 'mutante' chega à mesa dos brasileiros e coloca em risco a saúde
de muita gente.
METAIS PESADOS
De acordo com a pesquisa, os maiores caranguejos 'mutantes',
geralmente os mais 'suculentos', têm maior quantidade de metais pesados.
Segundo o biólogo marinho e professor doutor Marcelo Pinheiro, as pessoas que
consomem esse animal também acumulam esses metais pesados. "Isso pode acarretar
em maior incidência de câncer, más formações e problemas neurológicos",
afirma ele, que também não recomenda o consumo desses animais provenientes da
Baixada Santista.
Pinheiro começou a estudar esses caranguejos a partir de
1998. “Percebi que pouco se sabia cientificamente sobre essa espécie”, afirma.
Junto com o Grupo de Pesquisa em Biologia de Crustáceos (CRUSTA) da Unesp de
São Vicente, ele começou a fazer pesquisas sobre o caranguejo-uçá. Na primeira
fase, foi estudada a biologia do animal e, na segunda etapa, o grupo pesquisou
mais aspectos relacionados à biologia pesqueira deste recurso, também fazendo
ações de educação ambiental.
Ele e outros pesquisadores do CRUSTA (Dr. Felipe Duarte) e
Unifesp Baixada Santista (Prof. Dr. Camilo Pereira) se depararam com um animal
encontrado por pescadores, em São Vicente. O exemplar do caranguejo-uçá
apresentava má formação em uma das pinças. “O animal lutou com outro animal e
perdeu uma parte do corpo. Em vez de regenerar um dedo só, ele regenerou cinco
dedos. Parece uma mãozinha. Inclusive era funcional. Esse tipo de trabalho sensibilizou‑me
e ampliamos os estudos”, explica o biólogo. O animal foi analisado em
laboratório. O caranguejo apresentou alta incidência de células micronucleadas
(resultantes de problemas ocorridos durante a divisão celular), aproximadamente
três vezes mais alta do que os valores considerados normais.
MANGUEZAL CONTAMINADO
A partir desse exemplar, a equipe resolveu fazer uma
terceira etapa do projeto e estudar o caranguejo-uçá em áreas de manguezal do
Estado de São Paulo, sujeitas a diversas fontes de poluição, como os lixões
públicos Alemoa/Sambaiatuba e o Polo Industrial de Cubatão, que podem afetar o
desenvolvimento e o ciclo de vida dos animais. O estudo visava fazer uma
avaliação mais ampla dos problemas ambientais existentes e a sua influência
sobre os organismos estuarinos.
Foram 18 subáreas de manguezal analisadas em seis áreas,
abrangendo Bertioga, Cubatão, São Vicente, Peruíbe, Iguape e Cananeia. Os
pesquisadores coletaram amostras de água, folhas da planta mangue-vermelho,
sedimentos, além de partes dos tecidos, vísceras e carne dos caranguejos. “Além
de conhecer a qualidade dos manguezais, estávamos querendo saber se o
caranguejo poderia ser utilizado como alimento ou se estava contaminado por
metais”, diz ele. Os pesquisadores utilizaram duas técnicas de análise dos
materiais e utilizaram uma amostra de quase 300 caranguejos.
METAIS PESADOS ENCONTRADOS
Quatro metais pesados (cádmio, cobre, chumbo e mercúrio),
com níveis superiores aos permitidos por leis ambientais, foram encontrados nos
materiais coletados em Bertioga, Cubatão, São Vicente, Cananeia e Iguape. A
Estação Ecológica da Jureia foi a única área que não apresentou nenhuma
contaminação. “A duas áreas extremamente contaminadas seriam Cubatão e
Bertioga. Existe cobre e chumbo na água, enquanto o sedimento possui elevada
concentração de cádmio e mercúrio”, diz ele. Em Cananeia e Iguape, os níveis de
contaminação por mercúrio nos sedimentos também foram elevados.
ÁREA CONTAMINADA EM BERTIOGA
Em Bertioga, a coleta foi feita perto do Rio Itapanhaú. No
primeiro momento, os pesquisadores suspeitaram que a contaminação estaria
relacionada ao rio, já que não há indústrias poluentes naquela região. “O que
pode estar acontecendo, nós acreditamos, é que temos um lixão na BR-101
(Rio-Santos) que foi desativado. Mesmo coberto, o lixão pode estar emitindo
substâncias prejudiciais ao meio-ambiente", diz.
Em nota, a Prefeitura de Bertioga disse que o lixão foi
desativado em 2001 e as medidas de controle foram aplicadas, como cobertura e
instalação de drenos para gases. Em 2014, os proprietários da área realizaram
uma investigação sobre a contaminação do solo, subsolo e água subterrânea e os
resultados laboratoriais não apresentaram contaminação química. O laudo e o
respectivo relatório foram apresentados para a Cetesb. A Prefeitura de Bertioga
protocolou um processo na Cetesb para recuperação da área do antigo lixão, uma
vez que não há resultado sobre contaminação química.
Para a secretária de Meio Ambiente de Bertioga, Marisa
Roitman, é impreciso correlacionar a contaminação dos caranguejos ao antigo
lixão de Bertioga, que funcionou por um curto período de tempo. Isto porque,
segundo ela, o sistema estuarino da Baixada Santista é interligado, sendo que a
contaminação pode vir do polo industrial de Cubatão ou do Porto de Santos, por
exemplo.
ÁREA CONTAMINADA EM CUBATÃO
A equipe da Unesp também verificou que os caranguejos-uçá de
Cubatão têm 2,6 vezes mais células com micronúcleos do que os da Jureia, a área
pristina (sem poluição). Áreas que apresentam caranguejos com uma maior
quantidade de células com micronúcleos correspondem àquelas com maior
concentração de poluentes, podendo repercutir em deformações. Os valores
obtidos para micronúcleos estiveram correlacionados à concentração de metais
pesados.
Para o biólogo, a poluição no ambiente tem relação com as
mutações encontradas nos caranguejos nos últimos anos. “Aqui na Baixada
Santista, principalmente nos manguezais de
Cubatão e Bertioga, existe uma maior probabilidade de serem
encontrados animais com má formação do que em locais menos poluídos, por conta
do grande impacto causado pelos metais”, fala. Mesmo com a instalação de
filtros e outras medidas ambientais, a contaminação em Cubatão estaria
relacionada à atividade das fábricas, abundantes no Polo Industrial.
MINERAÇÃO E LIXÕES
Segundo o especialista, em Iguape, as fontes de metais
pesados são os resíduos de mineração que vieram com o Rio Ribeira de Iguape. Já
em São Vicente, as principais vias de contaminação seriam os lixões, como o
Sambaiatuba, visto que, mesmo após desativados, podem continuar emitindo metais
pesados por até 25 anos. Outra causa seria o lixo que se acumula nos manguezais
nesta região, reflexo de desconhecimento por parte da população como um todo.
Os resultados obtidos indicam que caranguejos de áreas contaminadas têm maior
probabilidade de contrair parasitas, sendo um possível indicativo de seu
comprometimento fisiológico. Fonte: G1 Santos-03/03/2015
Marcadores: Meio Ambiente

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