História:Incêndio no Edifício Andraus
O Edifício Andraus localiza-se no centro da cidade de São Paulo,
na esquina da avenida São João com a rua Pedro Américo. Possui 115 metros de
altura e 32 andares, tendo sua construção terminada em 1962.
Em 24 de fevereiro de 1972, o Andraus foi palco de um dos maiores incêndios na história de São Paulo.
O edifício reunia escritórios empresariais, dentre eles o da Henkel, Siemens,
Petrobrás e a Companhia Adriática de Seguros.
INÍCIO
O incêndio ocorreu por volta das 16h 20min, nas Casas
Pirani, loja de departamentos que ocupava o subsolo, o térreo e as sobrelojas
do edifício (cinco andares), nos fundos do 3º andar, onde funcionava a seção de
crediário da Pirani. João Batista Zicari Filho, um dos gerentes da loja tentou
apagar as chamas com um dos três extintores que havia em cada andar, mas o seu
esforço foi inútil. Rapidamente as chamas passaram para a seção de alfaiataria,
no 2º andar, e para o salão de móveis,
atingindo o estoque de botijões de gás e o armário de munição.
Enquanto os 500 funcionários da Pirani, que ocupavam os
cinco andares do edifício, começavam as sair pela porta de acesso a Av. São João, outras duas mil pessoas começavam a
viver a tragédia com as labaredas tomando os 24 andares restantes do edifício.
Em 20 minutos, o edifício estava tomado pelo fogo e vento forte elevava as
chamas a mais de 300 metros de altura.
O PAPEL DO VENTO
Em menos de 10 minutos o fogo se propagou para os andares
inferiores e logo em seguida, mais lentamente para os andares superiores. O
vento soprava 30 km/h, o normal é de 7 a 12 km/h, que contribuiu decisivamente para propagação rápida do fogo.
CAUSA PROVÁVEL
Tendo como causa principal provável sobrecarga no sistema
elétrico.
VÍTIMAS
O incêndio resultou em dezesseis mortos e 330 feridos. Muitas
das vítimas pularam do alto do prédio. Cerca de 330 pessoas ficaram feridas. Dentre
as vítimas fatais, dois executivos da multinacional Henkel.
Só não fez mais vítimas, pois o prédio tinha um pequeno heliporto. Foram
resgatadas por helicópteros 360 pessoas.
FERIDOS
Os
hospitais atenderam 477 pessoas
CONSEQÜÊNCIAS
Isoladas pelas chamas nos andares inferiores muitas pessoas
subiram pela escadaria até o último andar, para alcançar o heliporto.
Outras, entretanto, ficaram presas nos andares incendiados,
e em desespero, saltaram para a morte.
NO 11º ANDAR A TRAGÉDIA MAIOR
Nos escritórios da Petrobras, duas pessoas pularam. Sete funcionários
foram encontrados carbonizados na sala de arquivo, pois a porta tinha
revestimento metálico, com o calor dilatou, prendendo-os na sala.
O DRAMA DAS PESSOAS QUE FICARAM PRESAS NA ESCADARIA
Com o fogo se alastrando com rapidez por todo o edifício,
restou um único lugar no prédio onde as pessoas que não conseguiram alcançar o
heliporto, e puderam se abrigar das chamas com relativa segurança, a caixa da
escada. A escada era única para todos os andares ligados aos andares apenas por
uma passagem e com uma janela de iluminação, que mais de 200 pessoas viveram
horas de pânico, respirando fumaça e procurando aos poucos chegar até o
heliporto.
Segundo o gerente adjunto da Petrobras, Idaci Pongi; Ficamos
parados até por volta das 20 h. A agonia
era grande, mas felizmente dentro da caixa, nós não tínhamos uma noção certa
das proporções do incêndio e acho que essa foi a nossa grande sorte, pois
conseguimos manter uma calma relativa. Houve alguns casos de desesperos, mas
logo eram contornados. As 20 h um bombeiro mostrou ao caminho a todos e
começaram a subir em fila indiana até o heliporto.
EQUIPAMENTOS DE COMBATE A INCÊNDIO
O comandante do Corpo de Bombeiros, Jonas Flores Ribeiro Junior,
informou que o edifício possuía todos os equipamentos contra incêndio exigidos
por lei; extintores, hidrantes e mangueiras. Mas não tinha o principal; homens
treinados para usá-los.
CARGA INCÊNDIO
Segundo o comandante do Corpo de Bombeiros contribuiu para a
propagação do fogo, a inexistência de divisão de alvenaria, os vãos livres, a
falta de laje inteiriças, grande quantidade de tapetes, papel, celuloide e
botijões de gás.
SALVAMENTO POR HELICÓPTEROS
Contribuiu para o salvamento, o edifício tinha um pequeno
heliporto, o primeiro desse tipo instalado em São Paulo, que tornou possível o
resgate por helicópteros, de centenas de pessoas que conseguiram atingir o último
andar para escapar das chamas. Foi uma verdadeira ponte aérea de salvamento.
O heliporto foi dimensionado para receber helicópteros até
2.400 kg. Para salvar as vítimas do incêndio, pousaram helicópteros bem mais
pesados.
VISTORIA
A estrutura foi parcialmente comprometida, principalmente
alguns pilares do 3º, 4º e 5º andares.
INTERDIÇÃO
A interdição deverá durar quatro ou cinco dias para limpeza
do prédio; perigo de queda de materiais.
PREDIO – CALCINADO
Cerda das 21 h 30 min o comandante do Corpo de Bombeiros
anunciou que começava os trabalhas de recaldo. Grupos de bombeiros em helicópteros
desembarcaram no heliporto e começaram a trabalhar de cima para baixo, enquanto
outros faziam o recaldo de baixo para cima. Ainda se via focos de chamas em
alguns andares, como, 9º, 10º,13º e 17º .
Durante o recaldo os bombeiros encontraram sete corpos na
sala de arquivos da Petrobras, que ficaram presos na sala e não conseguiram
sair.
Do prédio incêndio restaram apenas alguns materiais
calcinados e a estrutura de concreto. O piso dos pavimentos cedeu. As chamas
provocaram calor suficiente para derreter todo o asfalto daquela parte da avenida São João, numa
extensão de 200 m. O asfalto está coberto de pastilhas que revestiam o prédio,
cinzas, detritos e cacos de vidros.
DANOS
MATERIAIS
A reconstrução
edifício custará 9 milhões de cruzeiros (01 de março de 1972).
Obs: Atualização de Cr$9.000.000,00 de 25-Fevereiro-1972 e
18-Novembro-2014 pelo índice IGP-DI - Índice geral de preços (01-02-1944 a 30-10-2014)
– R$ 32milhões
SEGURO
O prédio tinha cobertura de seguro no valor de 11 milhões de
cruzeiros
Obs: Atualização de Cr$11.000.000,00 de 25-Fevereiro-1972 e
18-Novembro-2014 pelo índice IGP-DI - Índice geral de preços (01-02-1944 a 30-10-2014)
– R$ 39milhões
AS CONDIÇÕES ADVERSAS PARA O VOO
Segundo artigo publicado na Revista Pirelli, Ano XXIII, N
118, de dezembro de 1978, pg 24, 10 anos no Ar, escrita pelo Engo Carlo de
Bellegarde de Saint Lary e corroborada pelo Comandante Zanini, relatou, o
seguinte:
Para dar a dimensão do risco ao qual estiveram expostos os
helicópteros é suficiente considerar os
seguintes fatores técnicos, todos conflitantes com as regras normais de
segurança de vôo e operação:
1) As aterrissagens com visibilidade “zero” quando os
helicópteros atravessavam a densa fumaça para colocar-se sobre o terraço;
2) Antenas de televisão invisíveis da fumaça e que se
encontravam na trajetória da descida;
3) Turbulência provocada pelas chamas inferiores, com
conseqüente dificuldade do controle das aeronaves;
4) Temperatura elevadíssima quando da decolagem, provocando
superaquecimento da turbina, que alcançou temperaturas ao redor de 900o C,
quando o máximo permitido é de 843o C, durante seis segundo no
máximo (helicóptero da Pirelli, PT-HBN, um Bell Jet Ranger 206A);
5) Perda de potência no motor e insuficiente rotação do
rotor, devido à temperatura e ao ar rarefeito e, em conseqüência, o
helicóptero, logo após a decolagem, não voava, mas caía fora do edifício, em
direção à Praça da República, onde, por felicidade nossa, era possível
recuperar-se contra o vento e com ar fresco;
6) Quase todos os helicópteros, devido às proibitivas
condições de voo, sofreram anomalias de funcionamento de um ou mais
componentes. Por exemplo, o helicóptero da Pirelli (PP-HBN, um Bell Jet Ranger
206A) voou durante muito tempo com panes intermitentes de uma das bombas de
combustível;
7) Durante as aterrissagens noturnas sobre o Andraus, a
fumaça e a garoa que se formavam ao redor do edifício refletiam a luz dos
holofotes de aterrissagem, tornando nula a visibilidade externa.
DEPOIMENTO DO COMANDANTE - WALMYR FONSECA SAYÃO
O que viu no local – terror
Partimos em direção ao Andraus por volta das 16h, lá chegando percebemos que não poderíamos
pousar, pois havia muitas antenas de rádios e torres de ferro e fios, impossibilitando
o pouso, assim, Brizzi abriu a porta do helicóptero e começou a gritar para que
as cinquenta pessoas que se encontravam ali no heliporto, derrubassem tudo que
pudesse interferir no pouso do helicóptero.
Na terceira passagem, como num passe de mágica, o heliporto
estava livre para o pouso. Ao me aproximar já percebia o empurra-empurra das
vítimas que se aproximavam da aeronave logo que pousei. Assim que o Brizzi
abriu a porta e pisou na laje, retornou para o helicóptero gritando – decola,
decola! Imediatamente, tirei o helicóptero do chão e perguntei ao Brizzi o que
tinha acontecido, ele disse: – eles estavam se aproximando perigosamente do
rotor de calda onde poderiam se acidentar, morrendo ou ficando gravemente
feridos ao se chocar com o mesmo que é pouco visível, quando em funcionamento.
Ao fazer esta decolagem, um pouco brusca, notei que a
temperatura da turbina tinha se elevado e que a rotação havia caído, com perda
de potência, assim joguei o helicóptero de nariz para baixo na direção da Praça
da República, onde se encontrava uma multidão considerada e consegui recuperar
as condições de voo, talvez porque estava livre do ar contaminado com fuligem,
fato que deve ter interferido com a temperatura e rotação do helicóptero.
UMA DECISÃO – ERA A SEGURANÇA DE VÔO ATUANDO
No decorrer dos voos de salvamento os coronéis que
coordenavam a operação acharam por bem convidar os pilotos das aeronaves Hughes
300 e Enstrom F 28A, que parassem as suas operações, pois os seus helicópteros
eram movidos a gasolina de aviação, altamente inflamável, e que usavam motores
a pistão, ou seja, motores Lycoming de 180 HP – HIO – equipados com tubulações
e mangueiras inadequadas para o tipo de voos que estavam sendo feitos, devido
às altas temperaturas do Edifício.
Com essa determinação, somente continuaram na tarefa dos
resgates os helicópteros movidos a querosene e equipados com turbinas e que
tinham tubulações e mangueiras de combustível preparadas para resistirem a
altas temperaturas, bem como vibrações produzidas por estes helicópteros, além
de serem de maior porte e retirarem mais pessoas, haja vista que o mínimo de
passageiros que eram retirados por viagem era em número de quatro. Por outro
lado, os helicópteros movidos a gasolina, sensíveis às altas temperaturas, tiravam
dois ou um passageiro por viagem, retardando o socorro dos helicópteros
maiores, pois estes eram obrigados a ficarem esperando estes pequenos
helicópteros a fazerem aproximações e decolagens difíceis por falta de
potência.
AS DISCUSSÕES PROMOVIDAS APÓS A TRAGÉDIA
Na época, do incêndio, muitos questionamentos surgiram sobre
o, então, Código de Obras de São Paulo, principalmente sobre a segurança desses
edifícios e, assim, o Jornal Folha de São Paulo, Caderno 1, de 05 de março de
1972, levantou vários problemas, fazendo um paralelo com o Código de Obras de
Nova York. A seguir, alguns pontos discutidos na época:
1) Melhor dimensionamento dos sistemas de escoamento dos
edifícios, “halls”, áreas comuns, escadarias, etc;
2) Estanqueidade, continuidade e incombustibilidade das
caixas de escada, proposta seguramente mais significativa que qualquer
exigência de escadaria externa;
3) Inclusão de portas corta-fogo, em determinados casos e
posições estratégicas, proposição que assume grande importância, sobretudo para
escolas, teatros, cinemas e locais de reunião pública em geral;
4) Sistemas de indicações precisas sobre a possibilidade de
aberturas em paredes divisórias, para atingir áreas de saída e edificações
vizinhas; sinalização adequada, nos grandes edifícios, sobre os meios de
escoamento de emergências disponíveis;
5) Criação de dispositivo permanente de fiscalização e
vistoria, capaz de assegurar o razoável cumprimento das disposições básicas de
segurança.
6) Construção de heliportos elevados em Edifícios, a fim de
possibilitar o pouso de helicópteros;
O QUE MUDOU
Transmitido pela televisão, as cenas de pessoas jogando-se
do alto do prédio chocaram o país. O incêndio suscitou pela primeira vez no
Brasil a discussão sobre a segurança na construção de edifícios - algo até
então negligenciado. A legislação de segurança começou a ser revista após a
ocorrência, mas só ganhou força após o incêndio do Joelma. O prédio recebeu uma
segunda escada de emergência e sistemas de detecção e alarme contra incêndio
Fonte: Folha de São Paulo, 25,26,27, 29 de fevereiro de 1972, O incêndio do Edifício Andraus pelo Comandante
Sayão e Os heróis existem – O incêndio do Edifício Andraus, site
piloto.policial.com.br
Vídeo
Marcadores: incêndio

2 Comments:
Boa noite!
Poderiam informar quais foram as táticas de combate a incêndio dos Bombeiros em terra ?
Fora. Utilizados carros com mangueiras ?
Eu sou sobrevivente desse terrível dia, durante toda a tragédia fiquei dentro das escadas, trabalhava no 9o. Andar e, com algum sacrifício cheguei ao 12o.andar e, permaneci até o momento da salvação, ou não. Gostaria muito em encontrar algum sobrevivente. Minha empresa era Novo Mundo - Cia.Nacional de Seguros - ligada ao Banco Novo Mundo, na época.
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