Lembrança:Tornado:O dia em que Palmas ficou de luto
O vento começou a soprar repentinamente naquela sexta-feira,
14 de agosto de 1959, na Fazenda Fortaleza, que fica a cerca de 30 km do centro
de Palmas, no Sudoeste do Paraná. Flora Nadir Tonial tirava as roupas do varal,
colocava no cesto e prestava atenção em uma enorme formação de nuvens escuras
que se aproximava. O barulho era ensurdecedor. “Não eram trovoadas comuns,
fazia um barulho estranho, acho que era o furacão que vinha em nossa direção”,
recorda.
TRAGÉDIA
Mais de meio século depois, ainda é difícil para os
sobreviventes falarem sobre uma das maiores tragédias naturais que se abateu
sobre a região. Por volta das 16h30 daquele dia, a velocidade do vento
aumentou. Seguiu-se uma chuva de granizo. Os moradores se esconderam em suas
casas. Cerca de duas horas depois, a natureza mostrou toda a sua fúria, com
ventos que superaram os 200 km/h. É como se aquele vilarejo tivesse sido
varrido.
MORTES
Velório dos mortos pelo fenômeno climático: 35 casos fatais.
Até hoje os moradores do local não sabem ao certo o que os atingiu. Suspeitam
de que tenha sido um tornado. Casas foram destruídas, pessoas jogadas dezenas
de metros longe de suas moradias, árvores arrancadas pelas raízes e rebanhos
inteiros de gado foram dizimados.
Na Fazenda Fortaleza foram registradas 35 mortes, mas nas
propriedades vizinhas nada aconteceu. Nas terras de José Antônio de Araújo
Maciel, o Tuta, havia uma serraria, a Santo Antônio, 12 casas e alguns galpões.
As famílias que moravam ali dependiam economicamente do comércio da madeira e
foram afetadas pela tragédia.
LEMBRANÇA
A tragédia provocou uma forte comoção na região de Palmas.
Todas as vítimas foram veladas no ginásio municipal e o cortejo fúnebre reuniu
centenas de pessoas. Os principais jornais da época noticiaram o fenômeno. O
enviado especial da Gazeta do Povo, Moacyr Mitsuyasu, relatou em matéria
publicada no dia 16 de agosto de 1959, que o fenômeno climático havia atingido
uma faixa de terras de dois quilômetros. “Dezenas de tábuas estavam espalhas,
casas caídas, pinheiros arrancados pelas raízes. Um locomóvel [espécie de
trator movido a vapor usado para movimentar cargas pesadas] de uma serraria,
pesando cerca de 5 toneladas, foi deslocado uns 40 metros de distância”,
observou em trecho da reportagem.
SOBREVIVENTE RELATA O DESESPERO DA FAMÍLIA
Flora Tonial, hoje com 78 anos, conta que estava ao lado da
mãe e dos irmãos, passando roupa, quando o tornado finalmente chegou sobre a
casa da família.
A finada mãe me disse: ‘Segure a porta que não vai ser
nada’. Ela ficou sentada ao lado do fogão e eu fui fechar a porta. Quando
cheguei perto, desceu tudo. Não vi mais nada. Meia hora depois, acordei e vi
que a casa do meu irmão tinha vindo em cima da nossa, relembra. Na tragédia,
ela perdeu a mãe, um sobrinho e uma tia. O pai estava viajando a trabalho.
Depois da ventania os sobreviventes começaram se reunir,
ainda atordoados, para procurar quem tinha desaparecido.
SOCORRO
A dona da fazenda (Aparecida Maciel) chegou pedindo socorro.
Estava com o filho mais novo e com um enorme ferimento no quadril. Era um
desespero só, morreram o outro filho dela e a empregada que cuidava das
crianças. Recolhemos também dois rapazes que trabalhavam na serraria, mas não
resistiram aos ferimentos, conta Flora.
TESTEMUNHAS
Flora Tonial, sobrevivente. A mãe dela faleceu ao chegar ao
hospital. Quando voltei a si, pedi para o meu irmão (Leodir) me ajudar
a levantar. Eu tinha um machucado no braço e a mão estava queimada por causa do
ferro de passar. Minha mãe gritava de dor, então tiramos ela dos escombros,
colocamos em cima de umas tábuas e saímos procurar as pessoas. Minha irmã estava
conosco e não encontrava o filho, de 10 anos. Meu irmão achou o menino morto.
Ela ficou muito desesperada, gritava sem parar.
Lourdes Carneiro. Naquele dia, por volta das 22h30, chegou
um conhecido em nossa casa pedindo socorro.Lembro que morreram 29 pessoas na
sede e mais uma família de obreiros. Para ter ideia do vento, foi encontrado em
Novo Horizonte (SC), cerca de 70 km distante, o paletó de um fazendeiro daqui
que tinha sua carteira com os documentos no bolso. A fazenda só foi adquirida
pela minha mãe 10 anos depois e nunca mais tivemos vendaval como aquele.
Waldomiro Carneiro. Encontramos muita gente morta, todos
nus. Tive que levar vários cobertores do armazém para cobrir os corpos. Tinha a
serraria, que era num campo. E tinha um morro com muitas pedras ao lado. Foi lá
onde os corpos caíram. Da sede da fazenda, que era nova, ficou só o soalho. O
galpão dos bois teve a cobertura arrancada, mas os animais ficaram no mesmo lugar.
Três pessoas foram jogadas em cima de um colchão e se salvaram. Uma delas caiu
ao lado e não teve a mesma sorte. Fonte: Gazeta do Povo - 19/07/2014
Comentário: Entre 1990 e 2011 foram registrados pelo menos 205 tornados em território nacional, número que coloca o país entre aqueles que mais ocorrem eventos do tipo no mundo. São Paulo foi o Estado mais atingido pelos episódios nesse período, seguido pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Fonte: Dados revelados na tese de doutoramento do geógrafo Daniel Henrique Candido.

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