Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

sexta-feira, março 20, 2015

Lembrança: Incêndio no aeroporto Santos Dumont

O incêndio ocorreu por volta da 1h30min da madrugada de 13 de fevereiro de 1998, na ala esquerda do andar térreo na parte norte do prédio, do aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. O fogo se estendeu tanto para os mezaninos em estruturas de aço, quanto para os três andares superiores.

PRÉDIO
O prédio, projetado em 1937 pelos Arquitetos Irmãos Roberto, é um marco arquitetônico da cidade. Sua construção começou em 1938 e, sendo interrompida durante a segunda guerra mundial, foi concluído apenas em 1947, após sofrer várias alterações do projeto arquitetônico. Essas alterações aumentaram as cargas nas fundações que foram reforçadas para suportar tanto a essas quanto à de mais um pavimento e terraços adicionados.

PROPAGAÇÃO DO FOGO
A estrutura dos prédios, sem paredes e com muitas divisórias, teto com material combustível,  facilitaram a propagação do fogo. A ação do fogo foi intensa principalmente nos três andares superiores e muito prolongada.
O fogo, auxiliado pelo vento, atingiu em pouco tempo (cerca de 4 horas) toda a extensão em área dos andares superiores. A severidade do fogo nas estruturas desses andares teve tempo total estimado em cerca de 8 horas
Praticamente tudo, papéis, objetos, equipamentos e máquinas, instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias, materiais têxteis e plásticos decorativos de pisos, paredes e tetos, além de vidros de luminárias e janelas, foi destruído e consumido pelas chamas intensas do incêndio nesses andares superiores e mezaninos do andar térreo, na ala esquerda vizinha ao saguão principal.

CAUSA PROVÁVEL  DO INCÊNDIO
Acidente termoelétrico (variação da corrente elétrica)

DANOS NA ESTRUTURA
Os pavimentos superiores tiveram uma área danificada em torno de 2/3 da área construída total, incluindo o pavimento de cobertura, atingindo em torno de 25 mil metros quadrados.
Nos três andares superiores, 3o, 4o e 5o pavimentos, a temperatura atingiu valores acima de 900o C, levando à fusão as chapas de vidro de luminárias e janelas e ao amolecimento e retorcimento completo de toda a estrutura metálica (em chapas finas dobradas) de suporte do teto falso, das luminárias e das calhas dos vários dutos de instalações diversas.
O saguão principal, inclusive os dois grandes painéis de paredes pintadas em 1951, além de toda a ala à direita deste saguão, incluindo térreo e mezaninos, não sofreram a ação direta do fogo, mas não foram poupados dos danos produzidos pelo calor e pela fuligem, sendo também um pouco atingidos pela água usada pelos bombeiros para debelar o incêndio.

SISTEMA DE SEGURANÇA  CONTRA INCÊNDIO
O prédio não tinha portas corta-fogo, compartimentação, escadas enclausuradas e sistema de sprinkler.

BRIGADA DE INCÊNDIO DO AEROPORTO E CORPO DE BOMBEIROS
O fogo iniciou às 1h30min e a brigada de incêndio tentou apagá-lo. O Corpo de Bombeiros foi acionado mais tarde, às 2h08. Cerca de 150 bombeiros trabalharam no local e conseguiram controlar o incêndio às 9h30.

SEQÜÊNCIA DE FALHAS NA OPERAÇÃO DE COMBATE AO FOGO
1. Dos dois hidrantes localizados em frente ao aeroporto, um deles não tinham vazão e pressão de água suficiente para combater o fogo  e o outro não estava conectado à rede de água.
2. O reservatório de água do aeroporto (dois) com capacidade de 200.000 l cada uma, estavam cheios, assim como a cisterna do 3o Comando Aéreo Regional (Comar) .
3. Os bombeiros utilizaram água de suas viaturas e de um pequeno lago ornamental situado na praça em frente ao aeroporto.
4. Os bombeiros conseguiram abastecimento de água adequado, através de hidrantes localizados a 500 m do local de incêndio (às 3 h da manhã).
5. Escada Magiruz do Corpo de Bombeiros não funcionou e teve de ser substituída.
6. Na primeira tentativa de captar água do mar para apagar o fogo, a mangueira utilizada estava furada.
7. O reforço de carros pipa da Cia Estadual de Águas e Esgoto chegou às 6 h.
Às 9h30min o incêndio foi considerado extinto.

Vítimas
18 pessoas com ferimentos leves provocados por estilhaços de vidros quebrados.

DANOS MATERIAIS
A estrutura do prédio não foi abalada, mas houve destruição completa do prédio. Quatro andares do prédio, onde funcionava o DAC-Departamento de Aviação Civil (onde ficam guardados processos sobre acidentes aéreos), diretoria, lojas comerciais, torre de controle, agências bancárias e três restaurantes foram destruídos.
A pista de pousos e decolagens não foi afetada. Quarenta aviões e três helicópteros que estavam estacionados tiveram permissão para decolar. Todos os vôos entre Rio e São Paulo foram transferidos para o aeroporto de Galeão.
De acordo com laudo pericial, 20% da estrutura do prédio, que se refere ao lado esquerdo, destruído pelo fogo será demolida e o restante da estrutura passará por reforma.
A reforma do aeroporto obedecerá ao projeto original e deverá estar concluída no final do ano.

VISTORIA TÉCNICA APÓS O INCÊNDIO
Poucas horas após o incêndio ter sido extinto pelos bombeiros, foi realizada inspeção da estrutura danificada por uma equipe composta de engenheiros dos órgãos municipais e da Coppetec (Fundação Privada, prestadora de Serviços de Consultoria, Estudos e Projetos em Engenharia, associada ao Instituto Coppe da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Os maiores e mais evidentes efeitos da ação intensa e prolongada do fogo sobre a estrutura de concreto armado, observados  na primeira vistoria técnica logo após o incêndio, foram os seguintes:

■ Ruptura evidente, colapso de pilares e redução severa da seção transversal por delaminação (perda geral do material e de efeito progressivo, pois deixa novas camadas de concreto à exposição das chamas conduzindo a novos descascamentos sucessivos e a perda de aderência entre a armadura e o seu cobrimento)  e desagregação do concreto, deixando as armaduras à mostra, fora do núcleo resistente.
■ Os  pilares em regiões de fogo intenso com superfície de acabamento em pastilhas cerâmicas ou placas de mármores,  proporcionaram resistência excepcional à ação do fogo, formando barreira protetora mais eficiente do que no caso dos pilares sem esse tipo de revestimento e retardando o aumento da temperatura no interior do núcleo de concreto.
■ Danos severos, com deformações residuais excessivas, delaminações e rupturas das peças mais delgadas, tais como:
a) os painéis em concreto armado das lajes de forro de pequena espessura, os quais nas regiões com maior intensidade de fogo ficaram excessivamente deformados (embarrigados) e delaminados.
b) os pilaretes de seção quadrada, na área projetada do saguão principal, que sofreram delaminação explosiva nos estágios iniciais da intensa ação do fogo, levaram à severa perda da seção de concreto

ESTIMATIVA DE PREJUÍZOS
US$ 35 milhões a US$ 44 milhões.

AEROPORTO SANTOS DUMONT
A ponte aérea Rio-São Paulo foi transferida para o Aeroporto Internacional. As companhias aéreas acabaram sofrendo uma queda de 15% nas vendas.
Cerca  de 7.500 passageiros que circulavam diariamente pelas dependências do Santos Dumont, 70% deles da ponte aérea, e os 300 vôos foram transferidos para o Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, distante de trinta minutos do centro quando o trânsito está razoável. .

SEGURO
O aeroporto está segurado em apenas US$ 6 milhões. O seguro do Santos Dumont está incluído em uma apólice no valor de US$ 1,4 bilhão, que inclui outros 12 aeroportos.

Data provável para retorno as atividades operacionais: 21.07.98

RETORNO ÀS ATIVIDADES
O governo federal gastou US$ 21 milhões para recuperar o aeroporto, que voltou a operar somente 180 dias depois.

Comentário
Deficiências nos fatores de segurança encontrados no incêndio do aeroporto Santos Dumont:
1 - Proteção ativa
•Falta de sistema de sprinkler
•Sistema de detecção /alarme
2 - Na segurança passiva
•Falta  de compartimentação para contenção da propagação do fogo
•Fachada do prédio em caixilharia  de vidro, facilitando a  propagação do incêndio
•Carga de incêndio elevada (papéis, objetos, mesas, cadeiras, materiais têxteis e plásticos decorativos de pisos, paredes e tetos, além de vidros de luminárias e janelas) andares
3 – Falta de comunicação adequada entre a segurança do aeroporto e os bombeiros
Obs:
a) Demora em chamar o Corpo de Bombeiros.  O fogo começou à 1h30min e o Corpo de Bombeiros foi chamado às 2h08min.
b) No local tinha reservatório de água disponível, mas os bombeiros não sabiam (falta de conhecimento do prédio).
4 - Falta de estrutura do Corpo de Bombeiros para combater o incêndio (mangueiras furadas, escada Magiruz com defeito)
5 – Hidrante público com pressão insuficiente


Fonte: O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil de 14/15 de Fevereiro de 1998; Reabilitação estrutural do prédio do Aeroporto Santos Dumont após danos causados por  incêndio – autores;  Ronaldo C. Battista,   PhD, MSc, Engenheiro Civil

Marcadores:

Print Friendly and PDF

posted by ACCA@3:00 AM