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terça-feira, fevereiro 10, 2015

Crise de água:Rio Jaguari, MG, desmatamento das margens

O Rio Jaguari, um dos mais importantes da região Sudeste, está com 10% de sua vazão natural no trecho em que passa por Extrema (MG) por causa da falta de chuvas nos últimos meses. Com nascentes no Sul de Minas, o rio é responsável por mais de 60% do abastecimento do Sistema Cantareira, em São Paulo.
O Rio Jaguari é abastecido por mais de 10 mil fontes de água. Ele nasce em Sapucaí-Mirim (MG) e corta os municípios de Camanducaia (MG), Itapeva (MG) e Extrema, onde na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, ele se junta ao Rio Camanducaia. Já no Estado de São Paulo, o Jaguari se encontra com o Rio Jacareí, e juntos, eles formam um dos reservatórios do Sistema Cantareira.
"Minas Gerais é a caixa d'água do Brasil. Se não houver chuva no Estado de Minas, com toda certeza, o abastecimento público de água, da mesma forma como na geração de energia hidrelétrica, estará prejudicado", explica José César Saad, coordenador de projetos do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).
Extrema é a única cidade mineira abastecida pelo Rio Jaguari. Só dentro do município ele percorre cerca de 30 km. Cada trecho por onde o rio passa é valorizado, seja para a prática de esportes radicais ou mesmo para visitação no Parque Municipal do Jaguari, onde as quedas d'água formam um cenário deslumbrante.
Mas nessa época do ano, o cenário era para ser ainda bem diferente. Algumas das pedras que hoje podem ser vistas no rio, deveriam estar encobertas pela água. "Hoje nós só temos 10% do que deveria estar passando aqui. Era pra estar passando por volta de 30 mil litros de água por segundo, e hoje está passando 2,5 mil litros por segundo", explica o secretário de meio ambiente da cidade, Paulo Henrique Pereira.

DESTRUIÇÃO DA MATA CILIAR
A destruição da mata ciliar do Rio Jaguari ao longo de seu trajeto sinuoso por dentro da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, é hoje a maior vilã da recuperação das represas do Sistema Cantareira.
Sem a vegetação nas suas margens, que deram lugar a imensas plantações de arroz, eucaliptos e a pastagens de gado, o Jaguari sofre um grave processo de erosão que causa o assoreamento do leito do rio e impede que as chuvas na região serrana cheguem aos reservatórios.
O resultado da destruição da mata ciliar do rio ao longo do tempo, segundo especialistas, é justamente a diminuição do volume de água que chega ao Cantareira. Segundo monitoramento da Fundação SOS Mata Atlântica, a região tem apenas 21,5% da cobertura vegetal nativa.
 “Sem matas ciliares nas encostas dos rios, a própria chuva acaba sendo prejudicial para o manancial. Em vez de infiltrar no solo, a água corre pela área desmatada, levando sedimentos e assoreando o leito do rio”, explica Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica. A vegetação das margens funciona como um filtro, retendo a chuva para os lençóis freáticos, que estocam água e aos poucos alimentam o rio.

NASCENTES- PERDAS DE MATA NATIVA
Mas, até próximo de suas nascentes, o Rio Jaguari já perdeu sua mata nativa para plantações de pinus e eucaliptos, culturas consideradas nocivas em áreas de proteção ambiental, justamente por consumirem muita água do solo.
“Os eucaliptos são chamados de secadores de lagos, eles competem com a gente porque consomem muita água e por isso crescem rápido. Pior do que eles, só as áreas de pasto, que impermeabilizam completamente o solo”, afirma Paulo Henrique Pereira, secretário de Meio Ambiente de Extrema.
Desde 2005, o município mantém o projeto Conservador das Águas, que já cercou mais de 6 mil hectares de áreas de preservação permanente que margeiam córregos pagando donos de terra pelo serviço ambiental prestado. Ainda assim, Extrema tem apenas 15% de mata nativa preservada.
A destruição da mata ciliar do Rio Jaguari chega até a Serra da Mantiqueira, em Camanducaia. Fazendas de eucaliptos e pinus tomaram toda a região no alto da serra, onde estão as nascentes do manancial.
O Código Florestal estabelece como área de preservação permanente a faixa que, a partir da máxima margem de cada rio, riacho, córrego ou represa, vai de 30 a 100 metros. Nas áreas rurais de Camanducaia as pastagens e fazendas de gado ocupam a margem do Jaguari.  

PROTEÇÃO PARA PREVENÇÃO
Para a analista ambiental do Instituto Estadual de Florestas, Raquel Junqueira Costa, enquanto a chuva não vem, a preocupação deve ser com a preservação das áreas de nascentes. "Essa vegetação nativa que fica no entorno das nascentes, às margens do curso d'água, ela protege as margens do rio do assoreamento e filtra a água que chega no rio."
A chuva quando cai em terreno limpo, sem vegetação, corre direto para o rio e depois volta ao mar, o que não acontece em áreas conservadas, onde a água se infiltra na terra formando bolsões freáticos na montanha, por exemplo. Assim, o solo funciona como uma esponja e vai liberando água devagar pelas nascentes, garantindo o abastecimento no período seco.

PROJETO DE PRESERVAÇÃO DAS NASCENTES
Um projeto desenvolvido pela Prefeitura de Extrema busca recompensar os produtores rurais que protegem as nascentes no município. O projeto é aplicado na propriedade de Hélio de Lima há cerca de quatro anos. O córrego que passa pelo local é protegido por uma cerca, para impedir o acesso do gado. Além disso, várias mudas nativas foram plantadas na beira do curso d'água e um sistema biodigestor, que trata o esgoto, também foi instalado.
Para preservar a área, ele ainda recebe dinheiro pra isso. "Eu nunca esperava que a gente ia receber por isso, isso ajuda muito, porque diminuiu o mal serviço pra mim e aumentou a minha renda", explica Lima.
Depois de nove anos do programa, os resultados agradam. "A qualidade da água está bem melhor. E também já tem relatos de nascentes que estavam mortas, e após a gente cercar, isolar e fazer a preservação, ela voltou", conta Arlindo Cortez, gerente da secretaria de meio ambiente de Extrema.

PLANTIO DE MUDAS
 Cerca de 1 milhão de mudas de espécies nativas destinadas ao reflorestamento das bacias que compõem o Sistema Cantareira estão há três meses aguardando a volta das chuvas na região para serem plantadas. Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, responsável pelo projeto, as condições climáticas ainda não estão favoráveis, apesar do ressurgimento de algumas nascentes no sul de Minas.
 “Desde novembro de 2014, estamos com as mudas de 86 tipos de árvores nativas esperando o tempo melhorar para fazermos o replantio, priorizando a região de cabeceira do manancial e seguindo até Bragança Paulista. Mesmo com essa chuva que está caindo lá na serra, o solo ainda não está adequado para plantar”, disse Malu. As mudas ajudariam a recuperar cerca de 400 hectares, área equivalente a 400 campos de futebol.
Nenhum órgão gestor de recursos hídricos federal ou estadual tem um ponto de medição de pluviometria na região serrana do Jaguari, o que impossibilita qualquer comparação. O primeiro registro é feito já na entrada da represa, na região de Bragança Paulista, onde a vazão está 80% abaixo da média. Fontes: O Estado de São Paulo - 12 de Janeiro de 2015, G1 Sul de Minas-04/04/2014

Comentário: Estudo feito em 2010 pela Engenheira Florestal Gabriela Camargos  Lima sobre  Avaliação da qualidade do solo em relação à recarga de água na sub-bacia das Posses, Extrema (MG) do Rio Jaguari, já apontava problemas futuros no abastecimento de água no sistema Cantareira..
O uso do solo com pastagem extensiva e sem um manejo adequado tem alterado a paisagem na região Sul do estado de Minas Gerais, expondo-o aos agentes erosivos, através das alterações dos atributos morfológicos, físicos e químicos, e dessa maneira, modificando as condições de infiltração, propiciando perda de água e de solo pelo escoamento superficial direto, comprometendo a recarga dos aqüíferos e produzindo assoreamento de cursos de água nas partes mais baixas.

O manejo adequado de bacias hidrográficas, notadamente em regiões ambientalmente frágeis, como o Sul de Minas Gerais, é de importância capital para a manutenção do escoamento subterrâneo da mesma, sendo este fundamental na perenização dos cursos de água, cuja existência é função de condições satisfatórias de recarga dos aqüíferos superficiais e por conseqüência, produção de água nas nascentes.

Na região Sul do estado de Minas Gerais, grande parte das pastagens apresenta degradação do solo pela compactação e erosão hídrica. Alguns solos da região encontram-se em avançado estágio de degradação, representado pela ocorrência de erosão laminar e sulco que, embora rasos, são bastante freqüentes. Além da erosão, observa-se, em alguns locais, a redução da vazão de riachos e ribeirões nos períodos de déficit hídrico. Estudos realizados constataram que os solos são utilizados sem considerar a sua capacidade de suporte, apresentam baixa fertilidade, que precisa ser corrigida, e quando apresentam declives acentuados, devem ser adotadas práticas conservacionistas. Em resumo, há tecnologia disponível e adaptável para a redução das limitações dos solos a patamares aceitáveis, mas o investimento de capital é inviabilizado, em muitos casos, pela situação do produtor rural local, descapitalizado e desestimulado.

Nestas regiões um grande volume de água deixa de infiltrar naturalmente nos solos em decorrência da redução da cobertura vegetal e do uso incorreto do solo. Vários cursos de água estão completamente secos devido a alterações do ciclo hidrológico e do nível do lençol freático. Este déficit, aliado à ampliação das demandas de consumo de água, pode provocar um colapso no abastecimento nos grandes centros, a exemplo do Sistema Cantareira que abastece a região da grande São Paulo.

As nascentes estão localizadas no Estado de Minas Gerais, nos municípios de Camanducaia, Extrema, Itapeva e Toledo. No município de Extrema (MG), o rio Jaguari recebe um afluente importante, o rio Camanducaia. Alguns quilômetros abaixo da referida confluência, já dentro do Estado de São Paulo, o rio Jaguari é represado, constituindo um dos reservatórios do Sistema Cantareira.

O ciclo hidrológico numa bacia hidrográfica envolve os seguintes processos: precipitação, evapotranspiração, deflúvio (precipitação nos canais, escoamento superficial, escoamento sub-superficial e escoamento base) e armazenamento de água no solo. A interface entre solo, vegetação e atmosfera tem uma forte influência no ciclo hidrológico.

Em sub-bacias pertencentes à bacia do Rio Jaguari, localizadas no município de Extrema, sul de Minas Gerais, a criação de gado em áreas impróprias para atividade agrícola diminui a cobertura vegetal degradando o solo e os cursos de água, diminuindo a vazão das nascentes, riachos e rios,
influenciando negativamente o ciclo hidrológico bem como a recarga do lençol freático. Nestas regiões, um grande volume de água deixa de infiltrar nos solos em decorrência da redução da cobertura vegetal e do uso incorreto do solo.

No caso do município de Extrema (MG), 99,8% de sua área total está inserida no Sistema Cantareira, um dos maiores sistemas de abastecimento público do mundo.
A área do estudo possui 1.196,7 hectares e compreende a sub-bacia hidrográfica das Posses, localizada no município de Extrema, ao sul do Estado de Minas Gerais (Figura 1). Esta sub-bacia está inserida na Bacia hidrográfica do Rio Jaguari, um dos rios que abastece o Reservatório do Sistema Cantareira no estado de São Paulo.

Dados obtidos por  imagens do satélite LANDSAT 5 sensor TM do dia 5 de agosto 2009, através do site da Divisão de Geração de Imagens do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais);
■ Nota-se que a sub-bacia das Posses apresenta área de vegetação arbórea de 289,1 ha, que representa aproximadamente 24% da área total da sub-bacia,
■Enquanto que a área de entorno apresenta 7.958,2 ha de área de vegetação arbórea, que equivale a aproximadamente 46% da área de entorno.
O conhecimento da atual situação de degradação da sub-bacia das Posses foi claramente evidenciado e o índice de cobertura vegetal verificado em campo confirmou as imagens obtidas por satélites. .

A sub-bacia das Posses possui aproximadamente 73% de sua área ocupada por pastagens e 24% por vegetação arbórea, enquanto que a área ao entorno da sub-bacia apresenta aproximadamente 48% coberta por pastagem e 46% coberta por vegetação arbórea, caracterizando o predomínio por pastagens na sub-bacia em estudo.

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posted by ACCA@3:00 AM

1 Comments:

At 4:44 AM, Blogger Marcio Braga said...

Excelente material. A agua de SP nao vem de SP, vem de Minas. E nao vem de um ponto. Vem de uma regiao mineira enorme. Atraves da coleta por milhares de corregos que acabam for formar os rios Jaguari e Camanducaia. E chega "de mao beijada" em SP. Se SP quiser MESMO essa agua precisa entender e cuidar melhor dessa imensa area de Minas.

 

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