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quinta-feira, agosto 02, 2012

Tornado atinge a cidade de Santa Bárbara do Sul

O município de Santa Bárbara do Sul, no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, distante 345 km da capital, que destelhou casas, derrubou postes, arrancou árvores e deixou boa parte da cidade sem luz, na noite de sábado, 28 de julho. O tornado atingiu a cidade por volta das 21h30min e, em apenas cinco minutos, causou danos consideráveis a cidade.

GEOGRAFIA
Possui uma área de 959 quilômetros quadrados e sua população estimada em 2010 era de 10.120 habitantes. O clima do município de Santa Bárbara do Sul é temperado. A temperatura varia entre 35º em épocas quentes e 4º em épocas frias, sendo a média de 18º. O município se localiza no planalto médio, em terreno mais ou menos plano.

TESTEMUNHAS: FOI UM TERROR, PARECIA UM FILME
Morador do centro de Santa Bárbara, Libério Warken e a mulher dele, Rosana Warken,  assistiam televisão e saboreavam carpa ensopada quando relâmpagos chamaram a atenção do casal.
– O céu estava carregado, mas achei que era apenas mais um temporal – conta Libério.

Não era. Por volta das 21h30min, um assovio assustador, jamais ouvido em quase meio século de vida, aterrorizou os Warken. Ele e a mulher deixaram a sala de jantar às pressas e subiram as escadas que levam à suíte do casal. Dentro do quarto, presenciaram o improvável. Uma janela de 2,5 m por 2 metros, que precisa de quatro homens para ser carregada, foi deslocada da parede e arremessada para dentro do imóvel a uma distância de cinco metros, até se espatifar contra uma parede.

– Se tivesse pego na gente, matava – resume o agricultor, que produz grãos e gado numa área de mil hectares, distante 30 quilômetros do centro.

Atordoados, Libério e Rosana permaneceram abraçados, na entrada do quarto, junto a uma coluna, até a tempestade arrefecer. Em um minuto, o vento em forma de redemoinho destruiu o projeto de uma vida. A casa de 284 metros quadros de área construída, duas suítes, concluída no ano passado, precisará ser refeita.

– Investimos R$ 400 mil, que ainda estão sendo financiados. Era a casa dos nossos sonhos – lamenta.

Quando a ventania se dissipou, o cenária era devastador. Telhas de concreto, voaram como folhas de papel. A chuva alagou a residência, molhando sofás, poltronas, televisores, armários, roupas, tapetes. Com a intensidade do vento, portas foram deslocadas. Um portão de cinco metros de comprimento por dois de altura voou inteiro, por cerca de 50 metros, até cair numa uma piscina.

– Não sobrou quase nada. É algo que eu só tinha visto em filme americano – lamenta Libério.

FOI UM CHOQUE PARA OS MORADORES
 Para uma cidade pequena, o evento foi traumático, as pessoas ainda caminham pela rua, choram, tem gente que perdeu o patrimônio de uma vida - conta  coordenador Regional da Defesa Civil  Lauro Brito Lopes .

SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA FOI DECRETADA
O município decretou situação de emergência e a Defesa Civil realiza um levantamento para avaliar as reais necessidades dos moradores. Com o documento em mãos, o coordenador da Defesa Civil no Estado, tenente-coronel Oscar Moiano, pretende agilizar o processo de homologação do decreto por parte do Estado e acelerar o reconhecimento do governo Federal. Assim, o processo que poderia durar até 15 dias deve estar concluído até o final da semana.
Conforme estimativa do Sistema Nacional de Defesa Civil (Sindec),
■ 50  pessoas desalojadas, 4 mil afetadas,
■ 120 residências danificadas, 20 destruídas e oito edificações públicas danificadas

DANOS A INFRAESTRTUTURA
O abastecimento de água está normalizado, mas o de energia elétrica, que foi prejudicado, está sendo retomado aos poucos.

AJUDA E RECONSTRUÇÃO DA CIDADE
A Defesa Civil está auxiliando na reconstrução da cidade, distribuindo lonas e telhas. Uma família está abrigada no albergue municipal e outras duas dezenas estão na casa de parentes, de acordo com o vice-prefeito.
Uma equipe de 40 militares do Exército é aguardada, para auxiliar os moradores. A Defesa Civil Estadual também deve enviar mil cestas básicas e kits dormitório, formados por colchões, cobertores, lençóis e travesseiros. Além disso, 3 mil telhas já foram compradas pelo Governo do Estado, e devem chegar ao município assim que forem entregues pelo fornecedor.

LIMPEZA DA CIDADE
Operários da prefeitura  aproveitaram a segunda-feira para recolher galhos de árvores e entulhos, para desobstruir ruas e calçadas. Funcionários municipais de cidades vizinhas também foram deslocados até a cidade, como forma de auxílio à prefeitura de Santa Bárbara do Sul. Os próprios moradores também fazem a limpeza de pátios e realizam consertos nas residências.

TORNADO CONFIRMADO
Foto: Provável traçado do tornado

Um tornado foi o fenômeno que deixou um rastro de destruição e foi confirmado  na quarta-feira, 1º, pelos especialistas da MetSul Meteorologia. Segundo os especialistas da MetSul Meteorologia, fotos tiradas em sobrevôo mostram uma faixa de destruição muito bem definida no sentido noroeste-sudeste da cidade. A área tem aproximadamente 300 metros de largura. Outra característica clássica de tornado visualizada é o fato de que árvores caíram em sentidos diferentes, o que não ocorre quando há somente ventos lineares ou micro-explosões.

A maioria dos danos observados é compatível com os prejuízos provocados por um tornado de categoria 1 na escala Fujita, que é quando os ventos variam entre 117 e 180 quilômetros por hora. Em alguns trechos, o nível de destruição é típico de tornados F2, quando os ventos podem chegar a 253 quilômetros por hora. O mais provável, em alguns trechos o vento foi mais intenso e tenha ficado no limite inferior a intermediário da categoria 2, com vento estimado até acima de 200 km/h, suficiente para virar e arremessar carros e camionetes.

O piloto do avião que fez um sobrevôo  na cidade para levantamento das perdas relatou que destroços como telhas foram localizados a até oito quilômetros de distância da sede do município, evidenciando ainda mais a ocorrência de um tornado.
Não há estação meteorológica em Santa Bárbara do Sul. As mais próximas na região não indicaram vento intenso.

PREJUÍZOS
Relatório elaborado pela prefeitura e Defesa Civil registra perdas ocasionadas pelo tornado no valor de R$ 7,1 milhões (3,5 milhões  de dólares).

SEGUNDO O LEVANTAMENTO
■ 323 edificações foram atingidas, sendo 60 residências foram completamente destruídas. O prejuízo soma R$ 5,1 milhões.
■ No comércio, o estudo aponta perdas de R$ 1,6 milhão, já que prédios e mercadorias sofreram estragos.
■ Concessionária de energia elétrica, RGE,  estima R$ 400 mil de prejuízo, entre postes quebrados, cabos de luz arrebentados e transformadores de luz que caíram.

Fontes: Defesa Civil do Rio Grande do Sul, Gazeta do Sul, MetSul,  Estado de São Paulo, Zero Hora – 29 de julho a 01 de agosto de 2012

Comentário:
A intensidade de um tornado é determinada pela escala Fujita, batizada com este nome em homenagem ao falecido cientista de tornados, Dr. Fujita da Universidade de Chicago. Os tornados são medidos pela quantia de estrago que eles causam, e não pelo seu tamanho físico. Também é importante lembrar-se de que o tamanho de um tornado não é necessariamente uma indicação de sua ferocidade. Tornados grandes podem ser fracos, e tornados pequenos podem ser violentos.

Classificação
Velocidade do vento - km/h
Danos
F0 - Tormenta

64 a 115
Danifica placas de sinalização e árvores
F 1 -Tornado moderado
116 a 180
Podem levantar telhas e mover carros em movimento para fora da estrada. Trailers podem ser tombados e galpões podem desmoronar.
F 2 - Tornado significativo
181 a 250
Destelha casas e pode arrastar carros da estrada

F 3 - Tornado severo
251 a 330
Destrói telhados e paredes, vira trens e arranca  árvores

F 4 - Tornado devastador
331 a 420
Danifica casas, arremessa estruturas frágeis e carros

F 5 - Tornado de devastação máxima
421 a 510
Carrega casas, danifica estruturas de concreto e aço e arremessa objetos do tamanho de um carro.


Fontes : Weather Channel - CNN 

Vídeo:




RIO GRANDE DO SUL SE ENCONTRA NO CORREDOR DE TORNADOS DA AMÉRICA DO SUL
Esta zona, que compreende o Centro e o Norte da Argentina, o Uruguai, o Sul do Brasil e o Paraguai, é a segunda mais propícia ao registro de tornados no mundo, ficando atrás apenas das Planícies Centrais dos Estados Unidos, fato desconhecido pela imensa maioria dos gaúchos. Os tornados, portanto, são parte da nossa realidade climática e são muito mais frequentes do que se imagina. Somente se toma conhecimento deles aqui no Estado quando o fenômeno atinge áreas povoadas, uma vez que não há registro algum quando eles se dão em campo aberto. Dezenas devem ocorrer a cada ano.

O Oeste gaúcho, por exemplo, é a região mais sujeita a tempo severo no Rio Grande do Sul, mas é de baixíssima densidade populacional devido às grandes extensões de campo para a cultura do arroz e a pecuária. Nestas áreas, quando tornados tocam o solo, especialmente à noite, ninguém os enxerga ou registra, ficando fora da contabilidade climatológica. Quando se dão em áreas muito habitadas, especialmente durante o dia, não faltarão câmeras fotográficas ou de celular para registrá-los em abundância, como se deu com as trombas d"água na costa de Florianópolis em dia de praia cheia neste ano.

Sob tamanha ameaça, o questionamento é inevitável sobre a inexistência de uma rede de equipamentos capaz de identificar estes fenômenos e alertar a população sobre a sua ocorrência.
No Rio Grande do Sul não existe sistema alerta de comunicação de emergência, a Defesa Civil Estadual é formada por profissionais que se alternam a governo, não existem sirenes, as casas não têm abrigos, etc.
Existe a necessidade de uma verdadeira revolução em políticas de gerenciamento de emergência com uma Defesa Civil profissionalizada e sem solução de continuidade por trocas de governo, um sistema de comunicação totalmente integrado para emissões de emergência e uma cultura meteorológica que permitisse encarar as advertências sem pânico.  Autor: Alexandre Aguiar é Diretor de Comunicação e Sócio da MetSul Meteorologia

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posted by ACCA@12:43 PM