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terça-feira, novembro 02, 2010

Incêndio de grandes proporções atinge um depósito de produtos químicos

Um incêndio de grandes proporções atinge um depósito de uma indústria química em Diadema, no ABC paulista, na manhã de sexta-feira, 27 de março de 2009.. O imóvel fica na avenida Henrique De Leo, sem número, no Jardim Ruyce. O incêndio causou pânico entre os moradores que tiveram de deixar suas residências..

CENÁRIO DA DESTRUIÇÃO
Ocorreu uma série de explosões no local e uma grande nuvem de fumaça. Produtos químicos, chegaram a escorrer pelas ruas próximas ao local e queimaram o asfalto. Várias casas e veículos próximas ao imóvel também foram atingidas pelo incêndio.
A coluna de fumaça alcançava cerca de 150 metros. As chamas atingiram também transformadores de luz, causando explosões. Fios da rede elétrica ficaram derretidos. Cerca de 500 imóveis ficaram sem energia elétrica, segundo a AES Eletropaulo.
Postes foram danificados, deixando parte do bairro sem luz e sem telefone O fogo também atingiu uma fábrica de aço inox e refratários.
Por volta das 13h, 35 deles permaneciam às escuras e, de acordo com a Eletropaulo, as equipes aguardam liberação do Corpo de Bombeiros para os reparos.
Carros de moradores que estavam nas garagens dos imóveis e alguns veículos nas ruas foram queimados. O rastro de destruição obrigou escolas e creches próximas a suspenderem as aulas.
Após o fogo o asfalto derretido pelas altas temperaturas, que atingiram 1.000ºC, segundo os bombeiros. Casas consumidas pelas chamas e carros carbonizados dentro de garagens.

INTERDIÇÃO
Toda a região foi interditada porque há risco de que o fogo atinja mais imóveis. Três quarteirões na região foram bloqueados.
Inicialmente, por causa do fogo, 30 imóveis vizinhos foram desocupados e as aulas em uma escola estadual, suspensas.

CORPO DE BOMBEIROS
O Corpo de Bombeiros chegou ao local por volta das 7h30, dez minutos depois do início do incêndio. Segundo os bombeiros, a fábrica estava fechada e não havia ninguém no local quando o fogo começou. Cento e vinte homens em 46 veículos da corporação da região do ABC e de São Paulo foram para o local. “Enquanto ocorrerem explosões, não tem como apagar esse fogo”, afirmou Valdeir Vasconcelos, comandante da operação dos bombeiros.
Os bombeiros tiveram de ficar distantes cerca de 200 metros do local do fogo, por conta do risco provocado pelas explosões. Os estouros, em curtos intervalos, faziam crescer as labaredas, que atingiram altura de prédio de três andares.

Mapa mostra:
- o caminho do fogo pela rua, derramamento de produtos inflamáveis
- os imóveis mais afetados
DESTRUIÇÃO DA RUA
A rua mais atingida pelas labaredas foi a Henrique de Léo, nos fundos da empresa, o fogo que desceu a rua derreteu o asfalto, queimou cinco árvores, duas lixeiras e seis postes, e tingiu de preto as fachadas de casas distantes até 200 metros do foco do incêndio. "Foi como se descesse um rio de fogo pela rua. Coloquei a cabeça na varanda, vi o fogaréu e logo voltei para dentro, para tirar a família de perto", conta o representante comercial C.L. Filho, vizinho da empresa.

CONTROLE DO FOGO E RESCALDO
Os bombeiros demoraram 3h 30min para controlar o incêndio. Os bombeiros começaram por volta das 11h o trabalho de rescaldo na empresa, sem previsão para terminar. O principal objetivo das equipes é retirar todo o material que apresenta risco de combustão. De acordo com o tenente-coronel Valdeir Rodrigues Vasconcelos, comandante do 8º Grupamento de Bombeiros, entre os produtos químicos armazenados no local havia aguarrás, tiner e hexano (solvente).

VIZINHANÇA AFETADA
Dezoito casas foram atingidas pelas chamas e tiveram de ser interditadas pela Defesa Civil de Diadema. Destas, 15 já foram liberadas, mas a maioria dos moradores se recusou a voltar para seus lares em razão da sujeira que ainda permanece no local.

VÍTIMAS:
Os bombeiros realizaram 18 atendimentos a vítimas durante o incêndio, nenhum de gravidade. Foram dez pessoas que apresentaram sintomas de intoxicação por inalação de fumaça; uma pessoa com crise convulsiva; outras três com crise nervosa; uma gestante e um bombeiro com mal-estar; e duas pessoas com ferimentos leves.

CONTAMINAÇÃO
Técnicos da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) analisaram a rede de esgoto no entorno do Jardim Ruyce, em Diadema, e informaram que não houve contaminação.
"Segundo análise, existe uma quantidade de compostos orgânicos e produtos químicos na rede de esgoto, mas não há risco algum, pois não há grande concentração. Os moradores podem ficar tranquilos", afirmou Agnaldo Ribeiro Vasconcelos, químico do Setor de Operações de Emergência da companhia.
A hipótese de contaminação da rede foi levantada, pois a quantidade de produto químico derramado pelas ruas pode contaminar a água que vai para o lençol freático e, assim, trazer prejuízos à saúde da população..

POLUIÇÃO AMBIENTAL
O coordenador do Laboratório de Poluição da USP (Universidade de São Paulo), Paulo Saldiva, aponta que boa parte dos resíduos tóxicos - hexano, solventes, aguarrás e tinner - já devem ter se dissipado no ar.

"O maior problema ficou para quem esteve exposto a esses produtos durante o incêndio", aponta Saldiva. "É preciso que essas pessoas continuem tendo atendimento médico, pois as substâncias irritam as mucosas de quem ficou ali no momento."

O especialista explica que em locais mais distantes do foco do incêndio, o problema foi a proliferação do ozônio, substância que pode causar crises de asma em pessoas vulneráveis, além de infecções em idosos.
No caso das águas de córregos, que podem ter sido atingidas pelos agentes químicos, Saldiva aponta que o malefício deve atingir animais aquáticos.

TESTEMUNHAS, PÂNICO E PREJUÍZO
Moradores do Jardim Ruyce, em Diadema, viveram momentos de pânico e tensão em razão do incêndio de grandes proporções que atingiu uma indústria química. Apesar do rastro de destruição no bairro, não houve vítimas graves. No horário em que o incêndio teve início, pouco depois das 7h, pais e crianças que seguiam para a escola se assustaram com as explosões deflagradas pelo fogo.
■ "Fui sair para levar meu filho para a escola quando começaram as primeiras explosões. O jeito foi pegá-lo no colo e correr para longe. Todos fizeram isso", contou A.Trindade, representante comercial.
■ Muitos moradores sofreram prejuízos materiais. A analista de suporte C. Souza, morava a poucos metros da empresa atingida pelo incêndio e viu sua residência ser inteiramente consumida pelo fogo. "Acabei de terminar uma reforma na minha casa e perdi tudo. Meu carro ficou na garagem e foi totalmente queimado. Só deu tempo de ouvir a explosão e sair correndo".
■ A dona-de-casa M. G. Silva, que mora na esquina das ruas Caetano e Henrique de Léo, em frente à indústria. "Graças a Deus, apenas os vidros se quebraram e a garagem sujou. Mas na hora das explosões eu estava na rua e saí correndo. O fogo ''desenrolava'' ladeira abaixo e as explosões lembravam uma bomba atômica", disse.

DESASTRE SERIA MAIOR SE AÇÃO NÃO TIVESSE SIDO RÁPIDA
O tenente-coronel Valdeir Rodrigues Vasconcelos, comandante do 8º Grupamento de Bombeiros, afirmou que as consequências do incêndio teriam sido maiores caso as chamas não tivessem sido controladas com rapidez.

"Se não houvesse um trabalho rápido e efetivo, todas as casas (do entorno) pegariam fogo", calcula o coronel. "As explosões lançavam as chamas a uma distância muito grande. Para se ter uma idéia, uma casa que fica a 20 metros do galpão pegou fogo."

De acordo com Vasconcelos, devido ao alto risco de combustão, o esforço empenhado para controlar o incêndio, envolvendo produtos químicos, foi extremamente maior. "Foi um incêndio violento, de altíssima periculosidade, que exigiu um trabalho conjunto."

Além do Corpo de Bombeiros da Capital e de várias cidades do Grande ABC, a ação de contenção das chamas contou com a atuação da Defesa Civil, Pólo Petroquímico e empresas como Basf e Mercedes-Benz.

Segundo o tenente-coronel, o êxito da operação foi possível graças ao Rinem (Rede Integrada de Emergência), inaugurado há pouco mais de um mês. "Esse trabalho de integração se mostrou bastante eficaz, apesar de ainda não estar completamente implementado", ressaltou. O objetivo da rede é permitir uma comunicação mais organizada com todas as áreas que precisam ser avisadas em situações emergenciais, como as polícias e os hospitais.

A EMPRESA ESTOCAVA MAIS PRODUTOS DO QUE O PERMITIDO
A empresa tinha pelo menos 12 vezes mais produtos químicos armazenados em seu galpão do que o permitido. O limite era de 20 mil litros, mas tinha 240 mil litros.

LIMPEZA - REMOÇÃO E TRATAMENTO DE RESÍDUOS QUÍMICOS
Uma empresa especializada na remoção e tratamento de resíduos químicos foi contratada pela Prefeitura de Diadema (Grande São Paulo) para limpar a área da fábrica destruída pelo incêndio.
A empresa Estre Biorremediação, começou no sábado, 28 de março, a retirar parte do líquido do chão da fábrica com a utilização de um caminhão vácuo, que recolhe o material por meio de sucção.
"A retirada de tambores é bem delicada", disse Priscila Duran Munhos, da Estre Biorremediação. Posteriormente, será feito o trabalho de sucção dos produtos químicos dos tambores e a retirada de contêineres fechados. Munhos informou que os resíduos serão levados para Americana (127 km de São Paulo), onde será feita uma análise de quais os tipos de produtos químicos e qual a destinação para cada tipo de resíduo.
Os trabalhos de remoção de tambores e entulho do interior da empresa terminaram no domingo. Ao todo, foram retirados cerca de 1,5 mil tambores, entre vazios e cheios, além de 80 toneladas de resíduos sólidos.

LIMPEZA DAS RUAS
As equipes da Secretaria de Serviços e Obras da prefeitura de Diadema iniciaram a limpeza das ruas comprometidas com os resíduos decorrentes do incêndio. Foram enviados ao local uma retro-escavadeira, pá-carregadeira, caminhão pipa e cinco caminhões para retirada dos entulhos. A ação dos funcionários teve início após a autorização dos peritos da Polícia Científica, que realizaram seus trabalhos

POPULAÇÃO DE DIADEMA DIVIDE ESPAÇO COM INDÚSTRIASC
Cerca de 20% da população de Diadema mora em áreas predominantemente industriais, segundo dados da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A.), vinculada à Secretaria de Economia e Planejamento do governo do Estado. A coexistência entre indústrias e residências expõe a população a riscos.

PREJUZOS
■ Na empresa Imagui, de comércio e manutenção de equipamentos para transporte de produtos químicos, vizinha à Di-All, o calor liberado pelas explosões derreteu completamente um tanque de alumínio de 7 milímetros de espessura, utilizado em caminhões para transportar combustível. O prejuízo, somente com o equipamento, foi de cerca de R$ 270 mil.
■ Dezoito casas foram atingidas pelas chamas
■ A Prefeitura de Diadema comunicou que vai notificar os proprietários da empresa para ressarcir os cofres públicos dos valores gastos com a limpeza da área e a remoção de resíduos e entulho. Segundo a administração municipal, o proprietário do galpão onde a empresa funcionava também receberá notificação. Ele será informado que, assim que o local for liberado pela perícia, deve se responsabilizar pela demolição do prédio, retirada do entulho e limpeza da área.

FALTAM POLÍTICAS DE GESTÃO DE RISCO NA REGIÃO
Faltaram medidas rígidas de fiscalização. Se isso tivesse sido feito, a tragédia não ocorreria. A crítica parte de ambientalistas, pois a região do Grande ABC, apresenta perfil químico-industrial e desenvolveu-se sobre um barril de pólvora e que tragédias podem se repetir se medidas preventivas não forem tomadas.
Um dos problemas do Grande ABC é a ausência de políticas de gestão de riscos tanto por parte da Cetesb quanto das prefeituras. As prefeituras deveriam fiscalizar com rigor o solo e a instalação de cada empresa.

MULTAS
A Prefeitura de Diadema multou a empresa Di-All Química no valor de R$ 500 mil (250 mil dólares), por danos ambientais causados pelo incêndio,
A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) também multou a empresa por danos causados ao meio ambiente. em R$ 158,5 mil (79 mil dólares).

INQUÉRITO E PERICIA
A perícia que está sendo realizada pelo IC (Instituto de Criminalística) na empresa e nas casas atingidas. A causa do acidente só deve ser conhecida quando for finalizado o laudo pericial do IC.

Fontes: UOL Notícias, Folha Online, Diário do Grande ABC, G1, Globo Online, 27 de março a 8 de abril de 2009

Comentário:
No Brasil, após uma grande tragédia, indagamos: O que houve de errado? E nunca preocupamos com a prevenção. O que pode dar errado?
Passado algum tempo, voltamos à rotina das deficiências dos órgãos competentes, isto é, o ciclo dos quatro F’s;
■ Falta de recursos dos órgãos responsáveis,
■ Falta de fiscalização,
■ Falta de aplicação das normas de segurança e
■ Falta de prevenção.

Principais problemas encontrados na empresa:
■ grandes quantidades de produtos químicos estocados,
■ falta de hidrantes,
■ falta de sistema de contenção de vazamentos ou sistemas de coletas,
■ desconhecimento dos trabalhadores sobre os riscos de manipular produtos químicos
■ local de trabalho inadequado em relação à instalação elétrica, estocagem e circulação de pessoas e produtos.

Em geral quando preocupamos com Acidente Químico Ampliado, imaginamos uma grande empresa ou instalação complexa, mas esquecemos que uma média ou pequena empresa poderá ocorrer esse tipo de acidente. É o que aconteceu nessa empresa que armazenava produtos químicos acima da capacidade do galpão; O permitido era 20.000 litros de produtos químicos, mas armazenava 240.0000 litros de produtos químicos.
Quais são os riscos que a empresa estava expondo a vizinhança?
■ Incêndio, explosão e vazamento a vizinhança, pois a região era densamente habitada.
■ Contaminação química provocada por incêndio, explosão e vazamento
■ Poluição ambiental (água, solo, atmosfera)) provocado pela interação dos produtos químicos durante o incêndio
■ Contaminação do lençol freático ou córregos devido ao escoamento de água residual do incêndio (água contaminada pelos produtos químicos). A água atingiria o sistema de drenagem da região (galeria de água pluvial). A ecotoxicidade da água residual de incêndio de indústrias potencialmente perigosas, envolvendo líquidos inflamáveis, produtos tóxicos, como resíduo é potencialmente perigosa

O que é Acidente Químico Ampliado?
Seria aquela que produz, transforma, manipula, utiliza, descarta ou armazena, de maneira permanente ou transitória, em quantidades que ultrapassem a quantidade limite.
Podemos definir como: todo evento inesperado, como emissão de substâncias químicas, incêndio ou explosão de grande magnitude, no decorrer da atividade no interior da instalação, colocando em risco além dos trabalhadores, a população, o meio ambiente, com contaminação do solo, da água e da atmosfera

O que a empresa deve fazer quanto aos riscos existentes e segurança
a) identificação e estudo dos perigos e avaliação dos riscos, considerando possíveis interações entre substâncias
b) medidas técnicas de projeto, sistemas de segurança, construção, seleção de substâncias químicas, operação, manutenção e inspeção sistemática da instalação
c) medidas organizacionais que incluam formação e instrução do pessoal, fornecimento de equipamentos de segurança, níveis do pessoal, horas de trabalho, definição de responsabilidades e controle de empresas externas e de trabalhadores temporários na instalação
d) planos e procedimentos de emergência que compreendam:
■ preparação de planos e procedimentos de emergência local, inclusive atendimento médico emergencial, com testes e avaliações periódicas .
■ fornecimento de informações sobre possíveis acidentes e planos internos de emergência a autoridades e órgãos responsáveis pela preparação de planos e procedimentos de emergência fora da instalação
e) melhoria do sistema incluindo medidas para a coleta de informações e análise de acidentes ou “quase-acidentes”. As experiências destes deverão ser debatidas com trabalhadores e seus representantes

Vídeo:
Mostra o derramamento de inflamável na rua, pegando fogo.


Vídeo(1)


Vídeo(2)
Mostra a indústria após o incêndio. Nota-se armazenagem excessiva de produtos químicos

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posted by ACCA@11:47 AM