Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Gás vaza na Castelo Branco


O acidente ocorreu na sexta-feira, 15 de Junho de 2001, quando funcionários da empresa Queiroz Galvão trabalhavam com um bate‑estaca no local, que perfurava no solo um dos pilares de sustentação para obra do Rodoanel Mário Covas. O serviço havia sido contratado pela Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A).
O funcionário Valdelins Brandão da Silva descreveu o acidente: "Foi igual a um terremoto. O chão tremeu e logo em seguida uma grande nuvem de gás branco tomou conta do lugar. Saímos desesperados tentando interromper a passagem de carros na estrada." Segundo ele, a nuvem de gás tinha 8 metros de altura. "Estou tremendo até agora, pensei na hora que alguém poderia acender um cigarro e tudo ir pelos ares."

Vazamento de gás
O rompimento do poliduto (um tubo que transporta mais de um produto), de 35,5 centímetros de diâmetro, provocou o vazamento, em um primeiro momento, de GLP (Gás Liquefeito de Petróleo, gás de cozinha), e, posteriormente, de gasolina pura.

Isolamento da tubulação
Logo que o duto foi perfurado, a Petrobrás isolou uma parte de 6 km da tubulação, acionando válvulas à distância. Com a contenção, o gás e a gasolina que restavam no duto escaparam.

Contaminação e risco de explosão
Era possível sentir o cheiro forte do gás a 3 km de distância do local do acidente, após apenas duas horas do rompimento. O vento forte, na direção da capital e de Osasco, ajudou a espalhar as nuvens.Devido ao risco de explosão, a Eletropaulo cortou a energia dos bairros próximos ao vazamento.No início da noite, nos bairros Santa Cecília, em Osasco, e Mutinga (que engloba áreas de Barueri, Carapicuíba e Osasco), ainda existiam pontos com 100% de risco de haver explosão -com quantidade de gás no ar suficiente para provocar combustão.
Segundo a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), a gasolina que saiu da tubulação atingiu um córrego que deságua no rio Tietê.

Evacuação de moradores
Cerca de 2.000 pessoas que residem em quatro bairros, num raio de 2 km do acidente - Jardim Mutinga, Jardim Munhoz Júnior, Jardim Santa Cecília e Piratininga, na divisa com Osasco, tiveram de ser removidas às pressas e passaram a madrugada fora de casa por causa do alto risco de explosão.

Interdição da estrada
Os acessos para veículos foram fechados em um círculo imaginário de 6 km de largura. O Exército chegou a ficar de prontidão para ajudar na remoção das famílias.
O mesmo perigo obrigou a Polícia Rodoviária a desviar o tráfego da Castelo Branco para cidades da Grande São Paulo, causando congestionamentos. Em um dia normal, a rodovia recebe nesse trecho cerca de 100 mil veículos.

Vítimas
Segundo a Defesa Civil de Osasco, 22 pessoas passaram mal por causa do gás que vazou da tubulação da Petrobrás em Barueri e foram encaminhadas ao pronto-socorro de Mutinga. Cinco delas ficaram em observação por mais tempo por apresentarem dor de cabeça e náusea.
Funcionários do pronto-socorro informaram que a maioria dos pacientes apresentava dificuldades para respirar. Eles foram medicados e liberados em seguida.

GLP
O GLP (gás liquefeito de petróleo, o gás de cozinha), que vazou da tubulação, é inflamável, explosivo, e pode levar à morte se for inalado em grandes concentrações, principalmente em ambientes fechados.
De acordo com o pneumologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Clystenes Odir Soares Silva, mesmo em concentrações menores, o GLP causa náusea, dor de cabeça e incômodo. "Doenças respiratórias como asma e bronquite podem ser agravadas se o gás for inalado. Uma grande quantidade de GLP leva a uma deficiência de oxigenação cerebral e pode matar."
O GLP é uma mistura de butano e propano, compostos formados por hidrogênio e carbono. A substância é líquida quando mantida dentro de botijões ou tubulações, mas torna-se gasosa em contato com a atmosfera.
"Na forma de gás, o GLP é facilmente dispersado. Isso tem um lado bom, porque evita grandes concentrações do gás, que pode explodir, mas faz com que a substância alcance lugares distantes", diz a química da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara Mary Rosa Santiago Silva.
Em concentrações menores, segundo a especialista, o gás tem menor risco de entrar em combustão, mas, em ambientes fechados, é asfixiante e pode explodir por qualquer faísca ou atrito.

Indenização e reclamação
Para atender às reclamações das famílias atingidas, a Dersa montou um posto de atendimento ao lado do terminal da Petrobrás. Cerca de 200 cadastros foram preenchidos, a maioria por parte de moradores que perderam comida ou que tiveram aparelhos eletrônicos danificados com o corte de energia elétrica.

‘Risco a vizinhança, só faltou ignição para explosão, diz Cetesb
Medição feita pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) apontou alto risco de explosão em galerias próximas ao duto que foi perfurado, segundo o gerente de operações de emergência da empresa, Edson Haddad. "Em vários momentos, a concentração de gás estava altíssima em diversas áreas próximas. Bastava uma fonte de ignição para provocar um incêndio ou uma explosão. Foi uma sorte muito grande isso não ter ocorrido", disse. As medições, feitas com explosímetros (equipamentos que medem a concentração de vapor inflamável no ambiente), serviram para orientar os bombeiros no trabalho de dispersão do gás com jatos de água. O gerente da Cetesb classificou o incidente como de "extrema gravidade".

Poliduto passa por áreas populosas
Segundo o engenheiro Wong Loon, diretor da Petrobrás Transportes (Transpetro), a tubulação tem cinco metros de profundidade no ponto em que foi atingida. "Trata-se de um poliduto, uma tubulação que pode levar GLP, gasolina e óleo diesel". O duto, com 50 km de extensão e diâmetro de 14 polegadas, liga o terminal da Petrobrás que fica em Tamboré ao de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.
No momento do acidente, explicou Loon, estava sendo transportado o GLP, e em seguida já havia sido liberado um bombeamento de gasolina. Por terem diferentes densidades, os produtos não se misturam e seguem pelo mesmo cano. Segundo a Petrobrás, o gás de cozinha que era transportado no duto é produzido na refinaria da estatal em Mauá, de onde vai para o centro de distribuição de São Caetano e depois para Barueri.
Por uma questão de diferença de densidades, quando o duto se rompeu, primeiro vazou gás e depois gasolina. O gás, por ser mais leve, tende a sair primeiro.

Uma central informatizada da Petrobrás, que acompanha o oleoduto, detectou o furo no mesmo instante, segundo o engenheiro. "Interrompemos o bombeamento de gasolina e fechamos duas válvulas de bloqueio." A medida isolou um trecho de 6 km de tubulação, no meio do qual estava o vazamento.
O duto passa por áreas metropolitanas, como região de favelas em Santo André (Grande ABC).
Passando por baixo de áreas populosas, o duto, se tivesse explodido e incendiado, poderia ter repetido a tragédia de Vila Socó, em Cubatão.

Falta de coordenação
Petrobrás, Polícia Militar e prefeitura de Barueri não conseguiam entender-se sobre o que fazer com os desabrigados por conta do acidente. De acordo com a Defesa Civil do Estado e com o Corpo de Bombeiros, foram removidas cerca de 400 moradores, o que poderia resultar em um número total de 1.500 a 2 mil desalojados.

Causa do acidente
O desconhecimento do local exato onde ficava o duto também foi apontado pelo engenheiro da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/ A) Pedro da Silva, que fiscaliza a obra. No lugar, estavam sendo cravadas estacas de perfil metálico para criar um suporte para a remoção de dois dutos da Petrobrás.
A obra era necessária para permitir a construção do Rodoanel no trecho e havia sido discutida com técnicos da Petrobrás. "Onde nós cravamos a estaca, não tínhamos consciência de que havia um duto", afirmou Silva.
O engenheiro disse que uma comissão formada por Dersa, Queiroz Galvão e Petrobrás discutirá as causas do acidente.

Estimativa de vazamento de gás e gasolina
Wong Loon, diretor da Petrobrás Transportes (Transpetro) informou que o bate-estaca rompeu uma linha de 14 polegadas de diâmetro com 50 quilômetros de extensão, que traz gás liquefeito de petróleo (GLP), gasolina e óleo diesel de São Caetano para os tanques de armazenagem da Petrobrás em Barueri. "Durante cerca de três horas vazou o produto inicial (GLP) e depois, gasolina", disse. "O risco maior de explosão era quando escapava gás. Embora a gasolina também seja inflamável, o perigo de explosão é menor." Loon explicou que "as válvulas localizadas a 6 quilômetros dos pontos de vazamento foram fechadas".
A Petrobrás informou, que a perfuração do duto, causou o vazamento de 150 toneladas de gás GLP. Isso equivale a mais de 11,5 mil botijões de gás de cozinha. Segundo a empresa, não há estimativas sobre a quantidade de gasolina que vazou, mas ela teria sido "insignificante".

Petrobrás diz desconhecer falha
"Desconheço falhas de cadastro (plantas do terreno), afirmou em Barueri (Grande São Paulo) Wong Loon, diretor da Transpetro (Petrobrás Transporte S.A.), sobre a hipótese de os mapas fornecidos pela empresa à Dersa não indicarem a presença do duto danificado”.
Loon afirmou que um fiscal da Petrobrás acompanhava as obras do Rodoanel, mas que não dá para dizer quem errou."Neste momento, não tenho uma explicação para o que houve. Estamos todos concentrados em uma operação de emergência."

Mapeamento do solo desatualizado
O secretário estadual dos Transportes, disse que a Queiroz Galvão tinha cadastro das tubulações e que, antes de começar as perfurações, fez uma prospecção eletromagnética dos tubos. Os mapas da tubulação nos subsolo tem 30 anos. Por isso, a Dersa e a secretaria acham que poderia haver uma curva na tubulação não indicada nos mapas, o que teria provocado o erro que levou a perfuração do duto.

Limpeza
Foi usado um equipamento conhecido como "pig", uma espécie de esponja que é impulsionada por um forte jato d'água, mecanismo que atravessa o tubo internamente. A operação demoraria meia hora e poderia provocar a interrupção da Castelo Branco.

Multa aplicada
A Cetesb multou a construtora Queiroz Galvão em R$ 98 mil pelo vazamento de gás e gasolina em Barueri.A empresa ainda pode recorrer. A Petrobrás ainda não está livre de uma penalização. Técnicos da Cetesb farão durante a semana um relatório detalhado que pode apontar responsabilidades da estatal. Nesse caso, a empresa também seria multada, em um valor ainda a ser fixado.

Relatório Oficial Final : Laudo apontou três responsáveis por perfuração de duto
O relatório oficial apontou a Petrobrás, por meio da subsidiária Transpetro, como uma das responsáveis pelo acidente com vazamento de gás em 15 de junho, durante serviços no Rodoanel Mário Covas, no km 20 da Rodovia Castelo Branco. As outras empresas responsabilizadas são a Queiroz Galvão, executora dos trabalhos, e a empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), contratante da obra. O relatório, de uma comissão de sindicância nomeada pela Dersa, diz que a estatal, por ser encarregada de dar prévia aprovação aos trabalhos, teve responsabilidade na liberação do serviço que causou o acidente, quando um bate-estaca furou um duto da Petrobrás, causando liberação de gás.

Fonte: O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Folha de São Paulo no período de 15.06 a 29.09 de 2001.

Comentário:
Com a construção do gasoduto Bolívia-Brasil, passando nos principais centros populosos do país, região sul e sudeste, e às vezes as tubulações margeando ao longo das principais rodovias do país, estamos descobrindo o lado negro desse tipo de energia que será utilizado com insumo da matriz energética brasileira (termoelétricas) e equipamentos industriais.
Nos países em que predomina como fonte energética produtos inflamáveis (gás, óleo) os acidentes ocorrem quase todos os anos, provocando tragédias (mortes, contaminação, evacuação de população,etc).

As autoridades envolvidas com a defesa civil não estão preparadas para atuar numa emergência de desastre de grandes proporções, devido:
▪ Falta de um mapa de riscos atualizado das linhas de tubulações que passam pelo Estado, que transportam produtos perigosos,
▪ Número insuficiente de hospitais especializados em queimaduras em locais estratégico (os hospitais devem ter um plano de emergência para atuar nesse tipo de desastre, pois poderá receber inúmeras vítimas simultaneamente). Os hospitais deverão ser classificados para receberem as vítimas conforme a gravidade, a fim de evitar que um paciente com ferimentos leves seja enviado para um hospital especializado.
▪ Número insuficiente de equipes de resgate com paramédicos para primeiros socorros.
▪ O mais importante à falta de um plano de emergência para desastre em geral (elaboração, preparação e treinamento), envolvendo as autoridades responsáveis e comunidades.

Print Friendly and PDF

posted by ACCA@5:27 PM