TRINTA ANOS APÓS O PIOR ACIDENTE RADIOLÓGICO DA HISTÓRIA
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| cápsula com material radioativo que causou o desastre |
Na rua 57, região central de
Goiânia, o terreno vazio com solo concretado destoa das muitas casas em
reforma. Os moradores mais novos não sabem explicar por que não há construção
naquele espaço, que abriga apenas uma estrutura metálica enferrujada e grafites
no muro do fundo.
A única identificação do
local aparece no mundo digital: ao localizar a rua 57, o Google Maps exibe a
inscrição "Césio 137", marcando o ponto zero onde o elemento
radioativo foi liberado no ambiente e iniciou uma cadeia de contaminação.
O mapa mostra o endereço de
um antigo ferro-velho onde, em 13 de setembro de 1987, começou o maior acidente
radioativo do Brasil. Naquele domingo, sob a sombra de uma mangueira,
funcionários do ferro velho partiram, a marretadas, o cabeçote de um
equipamento usado em radioterapia.
A peça havia sido encontrada
por dois catadores num prédio em ruínas do antigo Instituto Goiano de
Radioterapia (IGR), estava abandonada ali desde meados de 1985.
Durante a desmontagem, os
catadores chegaram até a cápsula que armazenava 19 gramas de césio-137, que,
administrado dentro da máquina, emitia radiação controlada para matar células
cancerosas. Fora do recipiente de chumbo, o pó altamente solúvel e de fácil
dispersão é letal.
Cinco dias depois, a cápsula
com césio-137 chegou ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Fascinado pelo
brilho intenso emitido pelo pó no escuro, ele e a esposa logo adoeceram. Quando
recebia visita dos familiares, Devair distribuía pequenas amostras do material
que acreditava ser muito valioso. E, assim, os focos de contaminação se
espalharam.
Foi Maria Gabriela, esposa de
Devair, que desconfiou do poder maligno daquele brilho. Em 28 de setembro, ela
colocou a cápsula dentro de um saco de estopa, pegou o ônibus na companhia de
um funcionário do ferro-velho e entregou a peça na Vigilância Sanitária. A essa
altura, já corria em toda a cidade o boato de que muitos membros de uma mesma
família tinham adoecido.
No dia seguinte, um físico
que visitava a cidade desconfiou dos relatos e visitou os pacientes com um
medidor de radiação. Foi só então que Goiânia descobriu que a cidade estava há
16 dias exposta ao césio-137.
A Agência Internacional de
Energia Atômica (IAEA) classifica o caso de Goiânia como o maior acidente
radiológico do mundo pela extensão da contaminação. Casos semelhantes haviam
sido registrados na Cidade do México (1962), Argélia (1978), Marrocos (1983) e
Ciudad Juarez, também no México (1983).
Os responsáveis por abandonar
a cápsula no prédio desativado do IGR foram denunciados pelo Ministério Público
Federal em Goiás por homicídio e lesão corporal culposos em novembro de 1987. Os médicos Carlos de Figueiredo
Bezerril, Criseide Castro Dourado, Orlando Alves Teixeira, Amaurillo Monteiro
de Oliveira e o físico responsável, Flamarion Barbosa Goulart, foram condenados
nos anos 1990. Eles cumpriram pena em regime semi-aberto, à exceção de
Amaurillo. Após recorrer da sentença, obtiveram habeas corpus e prestaram um
ano de serviços comunitários. Em 1998, a pena foi extinta por decreto
presidencial.
VIDA RECLUSA
Trinta anos após o episódio
que contabilizou 6.500 pessoas com algum grau de irradiação, 249 casos com
significativa contaminação e quatro mortes quase imediatas, a memória do
acidente traz incômodo e desconforto em todas as esferas que tiveram algum
envolvimento com o caso.
Muitos dos que sobreviveram
àqueles dias de terror continuam em Goiânia. Poucos, no entanto, falam
abertamente sobre o acidente. Há quem tenha se mudado para longe para não ser
associado ao caso. Outros ainda brigam na Justiça em busca de reparação – é o
caso dos trabalhadores que atuaram na descontaminação dos pontos por onde o pó
se espalhou e na construção do depósito dos resíduos.
Sem saber inicialmente de que
se tratava de fonte radioativa, policiais, bombeiros e funcionários do
Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa), escalados por seus chefes,
isolaram as áreas, destruíram imóveis, árvores, animais de estimação, calçadas,
asfalto. Eram os dias finais da ditadura militar, e a lei da mordaça ainda
vigorava.
A poucas quadras do foco
inicial de contaminação, dona Lourdes agora vive reclusa e não quer mais falar
com a imprensa. Ela perdeu uma filha de seis anos e o marido depois do acidente.
A menina Leide das Neves foi a primeira a morrer entre os contaminados mais
graves. Ela brincou e ingeriu o pó misterioso, presente que ganhou do pai, Ivo
Alves Ferreira, falecido em 2003. Ele teve contato com o césio-137 na casa do
irmão, Devair, que morreu em 1994.
O irmão deles, Odesson Alves
Ferreira, 63 anos, carrega as marcas da radiolesão nas mãos. Quando fora
visitar os parentes que já estavam doentes, sem saber, por causa do césio, o
então motorista de ônibus tocou naquele pó. Após a infecção ele passou por uma
série de tratamentos experimentais e fundou, em dezembro de 1987, a Associação
das Vítimas do Césio 137.
"Todos nós temos
dificuldade em conviver com essa história", fala sobre as vítimas.
"Trinta anos depois, sentimos que o governo não cumpriu com sua obrigação.
É impossível conseguir os remédios que precisamos e a nossa pensão, que deveria
ser de um salário mínimo (R$ 937) segundo a lei, está desatualizada (R$
778)", diz Odesson, que teve cerca de 40 familiares contaminados.
O TRATAMENTO PÓS-ACIDENTE
Em 1988, foi criado um serviço
de saúde especialmente para o atendimento às vítimas, a Fundação Leide das
Neves. Em 2011, uma mudança na lei levou o órgão no Centro de Assistência aos
Radioacidentados (CARA) a funcionar segundo as normas do Sistema Único de Saúde
(SUS).
Os radioacidentados passam
por uma bateria anual de exames. Sobre as queixas das vítimas, Aurelio de Melo
Barbosa, da secretaria estadual de saúde, afirma que "eles recebem
medicação que está na lista básica de medicamentos do SUS".
Essa lista não inclui
diversos dos remédios receitados. Muitos pacientes dizem ter feito empréstimos
em banco para comprar a medicação. É o caso de Luisa Odet Mota dos Santos e do
marido. "Tudo o que vem com a idade, apareceu bem mais cedo na
gente", fala sobre o custo das doenças.
A recomendação para que
pacientes obtenham medicamentos de alto custo é recorrer à Defensoria Pública,
diz André Luiz de Souza, diretor do CARA. Atualmente, 28 profissionais atuam no
CARA, que diz atender cerca de 1.200 pessoas dentre vítimas diretas, filhos e netos
de radioacidentados e trabalhadores que atuaram na descontaminação.
"Se um serviço criado
especialmente para o atendimento às vítimas não cumpre sua função, então ele
não tem mais razão para existir", critica Odesson.
TRAUMAS NÃO SUPERADOS
Trinta anos após o acidente,
o trauma das vítimas ainda é evidente. A psicóloga do CARA Suzana Helou
conduziu uma pesquisa para entender o nível de superação do acidente com o
césio-137. O resultado, ao qual a DW Brasil teve acesso, será publicado num
livro.
Dos 92 pacientes vivos
acompanhados pelo CARA desde 1988, 48 aceitaram participar. A maior parte (85%)
ainda se considera vítima do acidente em Goiânia, devido à discriminação que
sofreram ou acreditam ainda sofrer por parte da população. "As pessoas
ainda têm medo da gente", respondeu um entrevistado. "Isso não passa
nunca".
Mais da metade (54%) disse
não ter nenhum projeto para o futuro. "Eles perderam casa, documentos,
móveis, isso traz sentimentos de comprometimento de identidade", comenta
Helou.
O impacto mais marcante, no
entanto, foi nas pessoas que eram crianças e adolescentes à época. "Eles
sofreram interrupções bruscas, sentiram abandono, amigos se afastaram, planos
foram interrompidos", afirma a psicóloga. Muitos se envolveram com drogas
ou se tornaram alcoólatras, nunca mais voltaram a estudar.
VIDA PÓS CONTAMINAÇÃO
RADIOATIVA
Luisa Odet Mota dos Santos e
Kardec Sebastião dos Santos hoje ajudam a cuidar dos netos. Os quatro filhos do
casal tiveram muita dificuldade para continuar os estudos. "Nenhuma escola
queria aceitar nossos filhos", diz Luisa. Eles não gostam de falar sobre o
assunto, e ainda têm medo da discriminação.
Os filhos de Odesson também não se envolvem no assunto. "Eu só fico pensando quando a gente não estiver mais aqui. Quem vai cuidar para que essa história não seja esquecida? As vidas que se perderam nunca podem ser esquecidas. Um acidente desse não pode ser esquecido para que ele nunca mais repita". Fonte: DW - Publicado 13/09/2017 Publicado 13 de setembro de 2017 Última atualização 01/04/2026
Marcadores: material radioativo

