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quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A garrafa plástica de álcool – Uma bomba incendiária em potencial

Explicando a dinâmica explosiva

O cuidado de enfermagem prestado ao paciente grande queimado, vítima da explosão da garrafa plástica de álcool líquido, foi o fator desencadeante para análise desse problema.
Na nossa atuação como enfermeiros pudemos conviver com contexto dramático, composto pela dor e o sofrimento deste tipo de paciente. A complexidade deste tratamento, que por vezes torna‑se imprevisível, face às inúmeras intercorrências que podem acontecer durante a evolução do seu quadro clínico abrange também um grande desgaste, físico e mental.

Desta forma constatamos que;
■ A queimadura extensa é um trauma catastrófico por ser uma agressão aflitiva ao paciente, nos seus aspectos psicológicos, de custos e de sofrimento para todos os envolvidos, seja o profissional, o paciente ou a sua família.
Além dos aspectos supracitados, outros autores comentam e afirmam que
■ O paciente queimado apresenta características peculiares, em decorrência do sofrimento físico, da incerteza de sua recuperação e ainda pela presença constante do fantasma do desfiguramento ao longo de sua vida

As manifestações patológicas apresentadas por um organismo vivo que foi submetido à uma explosão, decorre do impacto da onda de choque, mecanismo inicialmente descrito por Ambroise Paré no século XVI. Essas manifestações são denominadas de “blust”. Ainda segundo o mesmo autor, essas patologias inicialmente eram conhecidas dos profissionais que atuavam em conflito de guerra, mas hoje, em virtude da sua ocorrência são conhecidos de todos os profissionais que trabalham em emergência. As ondas de choque derivam de explosões ligadas a fagulhas ou incêndios”.

A partir de uma explosão, as lesões dela decorrente são de três tipos:
1 - “Blust” primário – Ação direta da onda de choque sobre o corpo.
2 - “Blust”secundário – Lesões resultantes de projéteis que atingem o organismo em decorrência da
explosão.
3 - “Blust” terciário – traumatismo cinético da própria vítima projetada contra um corpo ou superfície.

Considerando o objeto deste estudo, qual seja, o risco que a explosão da garrafa plástica de álcool líquido representa para a população, aliado à falta de ênfase veiculada pelos canais de comunicação, com relação ao seu mecanismo explosivo, podemos observar que a explosão da garrafa de álcool acarreta lesões decorrentes do “blust” primário, sendo essas conseqüências tão mais graves quanto mais próximo da explosão se encontrar o paciente, que na maioria das vezes está segurando a garrafa de plástico, que ao ser comprimida (possibilidade advinda da sua plasticidade), em direção à chama, num mecanismo de equiparação de pressão, tende a sugá‑la para o seu interior, provocando a explosão.

Neste ponto vale ressaltar, que a distância entre a vítima e a garrafa plástica de álcool líquido não interfere no perigo que ela representa, pois se o jato for ininterrupto, a 1 ou 10 metros de distância, haverá a explosão.

Porém, neste ponto, cumpre citar o atendimento a uma dona de casa, vítima de explosão da garrafa plástica de álcool líquido, que ao borrifá-lo sobre uma mesa de fórmica para limpá-la, provocou o acidente que lhe causou sérias lesões. A referida mesa estava acerca de 3 metros do fogão em uma cozinha fechada. Ocorre que o álcool, sob a forma de aerossol, ficou no ar, formando uma ponte entre a chama e a garrafa, promovendo a explosão ao sugar o fogo para dentro dela. Neste caso, mesmo não sendo direcionado diretamente à chama, o acidente aconteceu.

Outro ponto a ser observado é a relação existente entre a quantidade de álcool líquido existente dentro da garrafa e o perigo que ela representa. Por analogia seria como comparar o potencial explosivo de uma bomba, de acordo com a quantidade de pólvora contida em seu interior.

Desse modo, entender tão somente o paciente grande queimado como uma vítima de acidente tendo como agente causal, o álcool, não é o suficiente.

Há que se entender também, que uma vez submetido à onda de choque, uma das principais agressões à qual ele é submetido, é a ruptura alveolar que, conseqüentemente, induz à formação de edema alveolar, levando-o a um grave comprometimento respiratório.

Por um mecanismo de associação aos efeitos descritos podemos inferir que além desta agressão, outras decorrem pela explosão da garrafa plástica de álcool, pois há também a propagação da onda de choque em meio liquido.

Desta forma, as partes do corpo, tais como; o encéfalo, fígado, baço, rim, olho, testículo, que possuem líquido na sua constituição, ao serem afetados pela explosão, trazem ao paciente grande sofrimento, decorrente dos seus acometimentos, físico e funcional.

Ao considerarmos as estruturas das quais são compostos o corpo humano, podemos observar que as agressões decorrentes da propagação da onda de choque também afetam o meio sólido, representado pelo esqueleto, e propagam-se também no ar e meio ambiente, afetando ouvidos, pulmões e vísceras ocas.

Neste ponto é importante citar o comportamento do paciente grande queimado quando chega à emergência dos hospitais: entre os vários sinais que podem ser observados pela equipe que o atende, podemos citar a demora para responder às solicitações, o que pode ser creditado à uma surdez provocada pela onda de choque no ar e no meio ambiente.

A compreensão da dinâmica explosiva, supracitada em parágrafo anterior, nos permite, como enfermeiros, dimensionar a gravidade de que se reveste o evento da explosão de uma garrafa plástica de álcool, através dos seus efeitos no corpo humano.

Sendo assim, é possível, através do conhecimento da seqüência acima descrita, visualizar o corpo do paciente grande queimado quando chega às nossas mãos para ser cuidado, como uma vítima de um campo de guerra.

Um dos principais sinais observados durante a assistência de enfermagem ao paciente grande queimado, vítima de explosão da garrafa plástica de álcool líquido, é o seu estado de choque, expondo a sua vulnerabilidade emocional, causada pela surpresa do acidente. Além deste sinal, de acordo com a nossa prática cotidiana, outro se instala, que é a presença de sangue na ponta da sonda de aspiração traqueal, procedimento ao qual este tipo de paciente, normalmente, é submetido, em virtude da sua insuficiência respiratória, já citada anteriormente, causada não só, pela aspiração de vapor aquecido, como também, pela onda de choque decorrente do “blust” primário.

Considerando que a referência do álcool como agente causal dos acidentes que acometem a população, normalmente dão a idéia errônea de que a queimadura seria causada pelo seu contato em combustão com a pele, e não à idéia do que realmente representa, ou seja; uma bomba incendiária explodindo, observa-se este efeito a partir da superfície corporal queimada (S.C.Q.) de suas vítimas, classificado-as como grande queimado: “O paciente é considerado grande queimado a partir de um percentual acima de 20, de toda a superfície do seu corpo.

Neste ponto, vale enfatizar que a gravidade das lesões, mensurada normalmente pela unidade de superfície corporal queimada (S.C.Q.), diz respeito ao contato das chamas com o corpo. Na prática cotidiana de cuidar do paciente queimado, observa-se também, que tão importante para o diagnóstico e avaliação é a profundidade destas lesões, classificadas em lesões de primeiro, segundo e terceiro graus.

Outro fator importante a ser observado no diagnóstico do paciente grande queimado é sua área acometida pela lesão, que será tão mais grave, à medida que comprometer determinadas “áreas nobres”. Estas áreas são assim consideradas de acordo com o risco da morbi-mortalidade a que expuser o paciente: face, mãos, pés, genitália, região perianal, tórax.

Sendo assim, a gravidade das queimaduras pode ser creditada, não só à mortalidade dos pacientes por elas acometidos, mas também pela morbidade observada a partir da sua interferência nas funções das partes do corpo acima descrita e que, muitas vezes, incapacitam as suas vítimas para o trabalho e/ou para o convívio social.

As perdas; da vida, da função motora, do convívio humano, foram mencionadas e fazem parte de bibliografias consultadas, no entanto, observa‑se que nelas, não há qualquer menção relacionada à gravidade das lesões provocadas por explosões da garrafa plástica de álcool líquido, que além das queimaduras no corpo da vítima, que foram mencionadas, causam danos em sua estrutura interna, a partir da onda de choque, mecanismo apresentado anteriormente.

Fonte: Revista Escola de Enfermagem da USP - 2005

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