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segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Memória: Incêndio em discoteca em Gotemburgo


Um incêndio que se alastrou rapidamente em um salão super lotado, provocou uma tragédia em Gotemburgo, Suécia. Em 28 de outubro de 1998, um incêndio de consequências  desastrosas ocorreu em uma discoteca de Gotemburgo, na Suécia, durante uma festa do dia das bruxas. Aproximadamente 400 jovens estavam presentes na festa.

DESCRIÇÃO DO LOCAL
O salão do segundo andar, construído em concreto e blocos de alvenaria tinha 32 metros de comprimento por 9,50 m de largura e possuía várias salas, incluindo uma sala de televisão, totalmente fora da área principal.

Placas acústicas suspensas desciam do teto, que tinha por cima uma parte não combustível. A parede do corredor que levava ao salão era revestida com madeira de aproximadamente 1,20 m de altura. A composição exata do acabamento interior do salão é desconhecida, mas foi informado que existiam decorações especiais alusivas ao dia das bruxas, incluindo várias bandeiras penduradas nas paredes.

Havia uma série de oito janelas, localizadas na parede noroeste, a 2,20 m do chão, medindo 1,80 m por 0,80 m. Seis destas janelas estavam dentro do salão e duas estavam localizadas nas salas ao lado. Na parede sudoeste existiam cinco janelas similares, mas estas estavam protegidas por grades de segurança, para evitar o ingresso de intrusos.

OBSTRUÇÃO
Restos do mobiliário do salão indicaram que estes eram de material combustível sobre uma estrutura de metal. A maior parte dos móveis tinha sido retirada do salão principal, para dar mais espaço na pista de dança e alguns haviam sido guardados na escada sudeste, o que foi um erro fatal.

SAÍDAS
Havia uma saída em cada lado do salão e uma delas tinha uma porta de 0,90 m de largura, que abria em direção à saída e levava até as escadas que tinham 1,50 m de largura. A escada principal, no lado noroeste, desembocava diretamente no exterior do prédio e por ela as pessoas haviam entrado. A outra escada, no lado sudeste, desembocava em um corredor, pelo qual as pessoas deveriam ter passado, para chegar até a rua. Infelizmente esta escada estava cheia de móveis e portanto  intransponível.  Havia placas luminosas com a palavra saída em cada ponta do salão.

PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIO
O edifício não contava com um sistema de chuveiros automáticos nem com alarmes de incêndio.

TESTEMUNHAS
Os sobreviventes disseram que havia uma parede sobreposta, no caminho até o salão de entrada, que se encontrava parcialmente fechada mas tinha espaço suficiente para que três pessoas passassem por vez. Havia um palco no lado sudeste, onde o DJ (Disk Jockey) havia instalado seu equipamento.

O INCÊNDIO
Esta era uma festa particular de dia das bruxas, para estudantes de segundo grau, que havia sido organizada pela Macedonian Association. Normalmente quando um evento tem suas entradas colocadas a venda, os bombeiros são notificados para determinarem o número de pessoas que o prédio em questão suporta. Mas neste caso, os bombeiros não foram avisados mesmo que as entradas para este evento tenham sido colocadas a venda. Os sobreviventes disseram que o salão estava tão cheio, que era impossível dançar, porque as pessoas estavam "coladas" umas às outras.
Pouco antes da meia noite o DJ abriu a porta que levava até a escada do lado sudeste e a fumaça de um incêndio iniciado nesta escada entrou no salão. Não se sabe se alguém fechou novamente a porta quando descobriram o fogo.

Aparentemente não foi feito nenhum anúncio sobre o incêndio. Alguns sobreviventes que se encontravam longe do ponto onde o fogo iniciou, disseram ter sentido cheiro e visto fumaça, mas pensaram inicialmente tratar-se de fumaça de cigarros. Outros disseram que as luzes localizadas sobre o palco da discoteca, perto da porta, começaram a explodir e a cair no chão, provavelmente por causa do fogo.

AVISO AOS BOMBEIROS
Quando os bombeiros de Gothenburg receberam o telefonema informando o incêndio, o encarregado de plantão teve muita dificuldade em entender o endereço exato devido ao ruído escutado ao fundo. Quando o funcionário conseguiu entender o endereço, um caminhão tanque, um auto-escada e oito bombeiros da estação de bombeiros de Lundby localizada a 2,2 km do local, foi enviada como resposta inicial.

A medida que a unidade chegava mais perto, o oficial da estação, Harald Jansson viu fumaça clara por cima do edifício e pensou que talvez se tratasse do incêndio de uma lixeira. O motorista, Ulf Magnusson concordou dizendo que "não se tratava da fumaça negra, tipicamente vista em incêndios de edifícios". Entretanto, quando dobraram a esquina, viram que o edifício estava em chamas e Jansson se deu conta de que se tratava de um incêndio de grandes proporções. Pediu unidades adicionais, as quais já haviam sido enviadas, devido à grande quantidade de chamadas telefônicas adicionais, recebidas na sala de alarmes.

Quando o veículo entrou no estacionamento, não pôde aproximar-se do edifício devido à grande quantidade de pessoas presentes. Jansson teve que caminhar diante do veículo para fazer com que as pessoas deixassem a passagem livre e eles pudessem chegar mais perto do fogo. Quando se encontrava, mais perto, observou que muitos jovens haviam pulado das janelas do segundo andar e estavam feridos, estirados ao chão. Também havia gente no interior do edifício, nas janelas, em meio ao fogo, agora já totalmente propagado. As pessoas no interior do edifício empurravam as pessoas que estavam próximas às janelas, fazendo com que estas caíssem no chão, desde uma altura de 6,70 metros.

Mesmo que a prioridade dos bombeiros fosse entrar no prédio, não puderam colocar as escadas nas janelas no extremo noroeste do edifício por causa da quantidade de pessoas que estavam estendidas no chão debaixo das mesmas. Um veículo com escada hidráulica foi solicitado para que uma escada fosse colocada em uma das janelas.

Quando o oficial e seus bombeiros tentaram entrar no prédio pela entrada principal do extremo noroeste, encontraram a escada bloqueada por uma quantidade enorme de gente ferida que teve que ser arrastada até o exterior do prédio antes que os bombeiros pudessem continuar avançando pelas  escadas. À medida que os bombeiros efetuavam este trabalho, mais civis tentavam entrar novamente no prédio, para salvar seus amigos. Quando um bombeiro foi atingido na cabeça por uma garrafa, a polícia foi chamada para controlar as pessoas e permitir que os bombeiros pudessem realizar seu trabalho.

CORPO DE BOMBEIROS
Escada principal
 Os bombeiros de Gothenburg possuem dez estações distribuídas em uma cidade de 550.000 habitantes e responderam a 6.300 chamadas de alarmes em 1997. Existem quatro bombeiros designados para cada viatura e escada. Várias destas estações possuem uma viatura de resgate e dois médicos. Os bombeiros podem tripular uma viatura de resgate adicional se necessário.

O pessoal de resgate começou imediatamente a proceder as operações de triagem e a estabelecer prioridades de tratamento.

Enquanto isso, o pessoal do corpo de bombeiros, que havia conseguido chegar ao topo da escada, se deparou com uma parede de corpos apertados firmemente entre o chão e a parte superior da porta. Os bombeiros começaram a remover os corpos levando-os rapidamente escada abaixo em direção ao exterior do prédio. Assim que conseguiam fazer um espaço, mais gente se empurrava para fora.

Enquanto esta operação de resgate estava sendo levada a cabo, o auto-escada hidráulica colocava a escada em uma janela, no lado noroeste do edifício, e os bombeiros descarregavam água com uma mangueira manual, diretamente na estrutura do prédio, em um esforço de proteger os ocupantes e reduzir a severidade do incêndio.

Um bombeiro com máscara autônoma de respiração entrou no edifício através de uma janela pulando de uma altura de 2,20 m. Utilizando seu rádio, solicitou imediatamente uma escada curta para poder resgatar as vítimas que estavam no interior.

A medida que o bombeiro se locomovia em direção ao interior do salão, as pessoas se agarravam a ele quase tirando sua mascara. Mesmo estando escuro, com fumaça e quente no interior, o bombeiro afirmou que neste momento o fogo não era de grandes proporções. A medida que avançava mais ao interior, ele começou a observar uma luz vinda da abertura de uma porta no lado noroeste, onde os outros bombeiros estavam removendo os corpos que obstruíam a porta.

Enquanto o pessoal entrava no edifício pela escada, o caminhão tanque, que fez a resposta inicial, descarregava água diretamente na estrutura para protegê-los. Uma vez iniciado o trabalho, o operador da bomba do caminhão, Magnusson, começou a atender aos feridos que estavam ao redor do caminhão, enquanto aguardava o abastecimento de água. Com a ajuda do público presente, ele começou a transportar os feridos e a dar-lhes os primeiros socorros.

Neste momento, uma oficina de concertos de automóveis, localizada nas proximidades do edifício, foi aberta a força, para ser utilizada como local de trabalho. O encarregado do incêndio solicitou também que todas as unidades do corpo de bombeiros de Gothenburg respondessem ao incidente e que colaborassem no resgate e transporte das vítimas. Foram feitas aberturas na cerca que rodeava o edifício, para permitir que as viaturas de resgate entrassem para recolher as vítimas e saíssem imediatamente.

RESGATE DAS VÍTIMAS
 Foto:
A parede do corredor tinha 1,20 m de revestimento de madeira e plásticas acústicas que pendiam do teto. Mesmo desconhecendo a composição do acabamento interior foram mencionadas decorações alusivas ao dia das bruxas e bandeiras penduradas nas paredes

O diretor da seção de ambulâncias, Mat Kihlgreen, disse ter alertado 16 unidades de resgate da região e a equipe médica do Hospital Ostra. Segundo ele, tiveram que transportar de seis a sete vítimas por viatura de resgate, com um único responsável, tendo as vítimas que respirarem em turnos na única mascara de oxigênio existente na viatura, enquanto eram levados ao hospital. Quarenta e cinco vitimas foram transportadas no período de duas horas.

Lennart Olin, o oficial sênior que assumiu o comando do incidente, também solicitou que os ônibus urbanos fossem enviados ao lugar do incêndio para transportar os feridos com condições de locomoção. A medida que a notícia do desastre se alastrava, muitos táxis começaram a chegar ao lugar e também foram utilizados para o transporte de vítimas de menor gravidade, aos quatro hospitais da área.


BALANÇO DAS VÍTIMAS
Foto:
Estima-se que havia cerca de 400 pessoas no salão, o qual estava habilitado para um máximo de 150. A estrutura possuía uma só saída em cada lado do salão e não contava com sistema de chuveiros automáticos, nem alarmes de incêndios

Quando o fogo foi extinto, mais vinte corpos foram encontrados em uma pequena sala, no lado noroeste do edifício. Estas vítimas tinham aparentemente tentado escapar do fogo, sem êxito, através da entrada principal do lado noroeste e tentaram refugiar-se numa sala onde foram rendidos pela fumaça. Segundo Olin, os corpos formavam uma pilha de aproximadamente 0,90 m de altura.
63 pessoas, entre 14 e 21 anos de idade, morreram no incêndio, todos por inalação de fumaça e outras 213 pessoas ficaram feridas. Destas, 60 deram entrada em UTIs - Unidades de Terapia Intensiva - e 13 foram levadas para unidades especializadas em queimados na Suécia e Noruega. Além dos 60 mortos e dos 213 feridos, 60 pessoas foram resgatadas pelos bombeiros.

O QUE ACONTECEU?
O Departamento de Polícia de Gothenburg investigou o incêndio nas semanas seguintes e determinou que ele tinha sido provocado deliberadamente, na escada sudeste. Mesmo que o incêndio tenha ocorrido em uma das saídas, todas as pessoas poderiam ter saído pela outra saída se a ocupação máxima do prédio não tivesse sido excedida.

OCUPAÇÃO MÁXIMA
De acordo com a Norma NFPA 101 ®, Código de Segurança Humana ®, existem várias maneiras de calcular a ocupação máxima de uma área. O cálculo pode basear-se na superfície de uma área determinada ou na largura das saídas ou seja, das portas e escadas. O método e o componente que projetar o menor número de ocupantes será o fator limitador.

De acordo com os cálculos baseados nas dimensões do edifício, fornecidas pelo Corpo de Bombeiros de Gothenburg, o salão principal deveria ter uma ocupação de 312 pessoas, limitada por portas de 0,80 m de largura. Como 63 pessoas morreram, 213 ficaram feridas e 60 pessoas foram resgatadas, sabemos que pelo menos 336 pessoas estavam no salão e segundo algumas projeções o número chegou a 400.

EXCESSO DE PESSOAS
De acordo com o Corpo de Bombeiros de Gothenburg, o número máximo de pessoas que os bombeiros teriam permitido neste salão seria de 150 pessoas.
Provavelmente nunca se saiba o número exato de pessoas presentes no edifício mas a aglomeração parece ter sido o fator mais importante no número de vítimas. Os relatos feitos sobre o fato das pessoas estarem paradas ombro a ombro e incapazes de dançar sugere a possibilidade de que o local tenha chegado ao "ponto de engarrafamento".

EXCESSO DE PESSOAS - ENGARRAFAMENTO
Conforme Jim Lake, especialista sênior em proteção contra incêndios da NFPA, o ponto de engarrafamento ocorre quando o número de pessoas no local é tal, que estas não podem se mover por vontade própria, e dependem do movimento das pessoas que estão a sua frente. A saída principal logo tornou‑se intransponível, fazendo com que as pessoas procurassem outros meios de fuga.

Pelo tipo de construção, o Código de Segurança Humana (NFPA 101) também teria requerido um sistema de alarme de incêndio equipado com estações de alarmes manuais e dispositivos de alerta audíveis e visuais. Não teria sido exigido um sistema de chuveiros automáticos, mas sem dúvida sua presença teria mudado o trágico resultado deste incêndio.

O incêndio premeditado e a aglomeração de pessoas foram uma combinação fatal para 63 jovens, na noite do dia das bruxas de 1998 em Gothenburg na Suécia.
Esta tragédia nos ensinou muito e devemos realizar as mudanças necessárias para evitar que isto ocorra novamente em qualquer lugar do mundo.
Fonte: NFPA Journal – Setembro/Novembro de 2000 - Ed Comeau - National Fire Protection Association -  Dance Hall Fire, Gothenburg, Sweden

Vídeo
Simulação mostra a propagação do fogo

Comentário:
Nota-se que nesse incêndio as deficiências observadas na segurança contra incêndio não fogem dos padrões observados em outros incêndios de discotecas ocorridos em outras partes do mundo.
As deficiências que resultam no acidente são:
1 - Proteção ativa
■ deficiência na proteção contra incêndio (extintores, hidrantes, chuveiros automáticos, brigada de incêndio, procedimento de emergência, iluminação de emergência, etc)
■ sistema de ventilação
2 - Na segurança passiva
■ análise do projeto ( novo ou adaptação de uma edificação com suas deficiências estruturais, obsoletismo)
■ material combustível empregado
■ corredores de circulação
3 - Excesso de lotação
4 - Deficiências de fiscalização e aprovação de projetos pelos órgãos envolvidos (municipais, estaduais e Corpo de Bombeiros)
5 - Falta de coordenação dos órgãos envolvidos para aprovação do projeto

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posted by ACCA@10:47 AM