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terça-feira, abril 24, 2007

Lapsos na memória atingem até mesmo as tarefas cotidianas

Os mecanismos da memória que fazem a pessoa guardar até detalhes de um determinado dia, de uma lembrança marcante ou trágica, podem falhar em determinadas situações e levar a desfechos trágicos como o da família de Gustavo Garcia, o bebê de um ano que foi esquecido no carro pelo pai e morreu após ficar trancado por quatro horas.

Esquecimento
O sofrimento que trazem casos como o de Gustavo isola o episódio de outras histórias de esquecimento, como faltar a um compromisso ou perder o aniversário de um amigo. Mas, na verdade, as mesmas falhas podem explicar os dois casos.

Psicólogos, psiquiatras e neurologistas colheram as primeiras pistas do que ocorre no cérebro há mais de 50 anos estudando pacientes com lesões no cérebro. Foi assim que se concluiu que são cruciais para a construção ou desconstrução da memória o lobo frontal, que atua na codificação, e o hipocampo, onde são armazenados alguns tipos de memória.

Nos últimos dez anos, ficou mais fácil investigar os lapsos. Exames de imagem como a ressonância magnética permitem observar reações do cérebro durante processos de aprendizagem e memorização.

Sabe-se hoje, por exemplo, que quando dividimos a atenção ou executamos uma atividade de modo automático a região do lobo frontal não funciona adequadamente.

Piloto automático
Estudos desde o fim dos anos 80 indicam que a divisão crônica da atenção leva a falhas na memória semelhantes às causadas pelo envelhecimento. A divisão da atenção pode ocorrer principalmente nas atividades rotineiras, tão mecânicas que o cérebro não precisa de esforço para codificá-las. É nesse conhecido "piloto automático" que fatos importantes podem passar despercebidos.

Quando a atenção fica dividida ou uma atividade é executada no chamado "piloto automático", a região do lobo frontal não funciona de maneira adequada

"A gente vive um ritmo tão alucinado que bloqueia, involuntariamente, informações importantes", diz a professora Elaine Cristina Fonseca.

A "informação importante" que Elaine bloqueou no ano passado foi buscar o filho na escola. Envolvida em negociações dos professores municipais com a prefeitura durante greve do setor, ela se esqueceu de pegar o caçula. Pedro Henrique, 5, ficou esperando pela mãe por mais de duas horas, ao lado de uma funcionária do colégio.

O exemplo de Elaine contraria a idéia de que pais e mães desenvolvem laços de tons diferentes em relação à prole. Na busca por explicações para o esquecimento de crianças pelos pais, mulheres atribuem a responsabilidade ao homem.

Parte dos especialistas ouvidos não acha que homens e mulheres absorvam e armazenem informação de modo diferente. "Essas pretensas diferenças são uma tremenda bobagem. O chavão de que a mulher tem um pensamento mais holístico e o homem, unidirecional, não existe", diz o neuropsiquiatra Claudio Santos, da Universidade Federal de São Paulo.

Sete pecados
O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard (EUA) Daniel L. Schacter tem 20 anos de estudos sobre a memória e catalogou sete tipos de lapso no livro "Os Sete Pecados da Memória".

Assim como os sete pecados capitais, os sete pecados da memória são bastante freqüentes e, muitas vezes, prejudiciais. São eles:
1 - transitoriedade (enfraquecimento da memória com o passar do tempo),
2 - distração (falha de concentração),
3 - bloqueio (dificuldade em resgatar uma informação),
4 - atribuição errada (confusão entre fantasia e realidade),
5 - sugestionabilidade (falsas lembranças criadas por indução de terceiros),
6 - distorção (influência do presente no passado) e
7 - persistência (incapacidade de esquecer algo).

Tal categorização
"Exatamente como os sete pecados capitais, os da memória ocorrem com freqüência e podem ter conseqüências desastrosas", conta Schacter no livro, lançado no Brasil pela Rocco. Assim, o esquecimento Elaine vira exemplo do pecado da distração. "Isso ocorre, em parte, porque a memória é muito dependente de sinais e lembretes para recuperar informações."

O problema é quando essas pistas para a lembrança são embaralhadas pelo congestionamento de dados.

O neuropsiquiatra Cláudio dos Santos, da Unifesp, explica que não dá para guardar tudo -é preciso escolher o que vale armazenar.

O criticado piloto automático serve para que ninguém "gaste neurônios" com tarefas já assimiladas pelo cérebro. Assim, esquecer é fundamental. Para dar lugar a novas idéias e experiências.

Fonte: Folha de São Paulo - domingo, 22 de abril de 2007

Comentário
Interessante esse estudo da memória sobre erros ou esquecimentos, cuja pessoa não poderia cometer erros, mas cometeu. Seria uma falha involuntária da pessoa em determinada situação de pressão ou preocupação.
Portanto é necessário na atividade de trabalho levarmos em conta esse problema na hora de elaborarmos procedimentos de segurança, treinamento e escolha adequada do trabalhador para efetuar determinado tipo de serviço.

Como diz o artigo, a memória deve receber orientações (lembretes e sinalizações) para que possa recuperar ou processar informações importantes. Hoje as empresas padronizam as ordens de serviços, manuais de segurança, algumas com informações excessivas, cujo trabalhador dificilmente absorverá todas essas informações para efetuar o trabalhar de modo seguro, isto é, fazer a coisa certa com segurança. Lembrando que todo excesso de informações pode prejudicar o processo de recuperação de dados na memória.

Tomar cuidado com o trabalhador que tem a percepção de risco, mas acha que sabe controlar o risco, mas atua no piloto automático. Fazendo o serviço com outras atividades paralelas (conversando, prestando atenção em outras coisas, etc) ou quebrando procedimento de segurança .
Como diz no artigo; “Quando a atenção fica dividida ou uma atividade é executada no chamado "piloto automático", a região do lobo frontal não funciona de maneira adequada”.
É importante em serviços que possuem um potencial de risco elevado, a checagem redundante, isto é, a revisão das medidas de segurança adotadas. ACCA

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posted by ACCA@12:34 PM

1 Comments:

At 7:26 PM, Blogger Raquelnp said...

Por causa dos lapsos da memória, o meu neurologista pediu-me para guardar só o necessário.
Daí é que passei a escrever tudo. Porém, meu cérebro parece que ficou mais lento, ou seja, se antes eu conseguia memorizar muita coisa, hoje mal consigo me lembrar das tarefas principais do dia, e preciso escrever tudo!

 

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