Zona de Risco

Acidentes, Desastres, Riscos, Ciência e Tecnologia

quarta-feira, março 14, 2007

Álcool, Produtividade e o Trabalhador de Cana

O Cortador de Cana é um Robocop?
Obs: Robocop – é um soldado do futuro, metade máquina e metade humano

Vejamos;
Todas as manhãs, logo ao nascer do sol, músculos e tendões começam a dar movimentos a um conjunto de ossos que se movimentam misturando repetitividade com força. A postura corporal do cortador de cana é de constante flexão de tronco, e intensa utilização da musculatura dos braços e punho.
A contração abrupta e desordenada das grandes massas musculares pode originar forças de grandes intensidades que causam lesões nas estruturas do corpo, levando ao aparecimento de dores e conseqüentemente inflamações que levam o trabalhador a adoecer. Um dia de trabalho para o cortador de cana pode ser impossível de se agüentar para a maioria das pessoas.
Além da própria postura de trabalho há outros fatores que predispõem ao agravamento das lesões como: a cana deitada, que exige maior esforço muscular do funcionário, solo com presença de pedras, que acabam atritando com o facão usado pelo cortador, causando um impacto maior na mão e punho.

Muitos trabalhadores já apresentam
■ desvios posturais, ou mesmo problemas de saúde que são omitidos no momento do exame admissional;
■ muitos cortadores não sabem os limites do corpo
■ e outros não conseguem desenvolver movimentos normais das articulações, usando o corpo em bloco;
e gastando-se muita energia para desenvolver determinados movimentos.

Produtividade
Nos anos 80, o trabalhador fazia cinco toneladas de cana por dia. A mecanização da colheita o obrigou a ser mais produtivo. O cortador de cana derruba agora oito a nove toneladas por dia. Para abater toda essa cana, precisa dar 8.000 a 9. 000 golpes com seu facão (podão).
O trabalhador recebe em média R$ 2,50 a R$ 3,00, dependendo da região por tonelada de cana cortada. A cana queimada facilita o corte manual. Cortar a cana "crua" é economicamente inviável e ainda mais desumano.

Corte da cana
O trabalhador deve cortar a cana rente ao chão, encurvado. Usa roupas inadequadas, quentes, que cobrem o corpo, para que não seja ferido pelas folhas da cana (farpas). Mas se acidenta mesmo assim. Corta‑se com o facão, tem lesões por esforço repetitivo.

Trabalhador turbinado
O excesso de trabalho causa a "birola": tontura, desmaio, cãibra, convulsão. A fim de agüentar dores e cansaço, toma drogas e soluções de glicose, quando não farinha mesmo. Têm havido mais mortes por exaustão nos canaviais.
Se o cortador de cana de produtividade média trabalha no regime "5x1" (cinco dias de trabalho por um de folga), recebe quase R$ 500 por mês.
Mas, em 2021, a queimada estará proibida. A lei e a capitalização da indústria da cana reduzem rapidamente a queimada e, assim, o emprego do corta-cana. A mecanização é inevitável.
Sem a tradicional queima da lavoura, fica difícil entrar na lavoura. O trabalho do homem se torna praticamente impossível.

Salário
Cerca de 50% dos trabalhadores do Brasil ganham menos do que R$ 500,00. Algumas estatísticas, ainda imprecisas, dizem que 70% dos trabalhadores da indústria da cana têm emprego formal. No Brasil, os empregados protegidos pela lei e pela seguridade social não passam de 50% do total. Este é o retrato do lado trabalhador de cana.

Cortador padrão
Magrinho do jeito que é, Erivaldo Neves é um dos cortadores mais produtivos. “O segredo da cana não é a ligeireza. Você olha na turma aí, tem cara que dá uns dois três de mim. O problema é que eu não paro”. Erivaldo corta até 15 toneladas por dia. Tira 1.200 reais por mês e duvida da competência da máquina. "Eu acho que ela pode cortar. Elas cortam muito mesmo, mas o desperdício é pior do que o corte manual, porque fica muita cana pra trás".

Monstros mecânicos
Faróis acesos no canavial escuro do cerrado. A colheitadeira mecânica faz o trabalho de 80 homens, com produtividade de 20 t/h.. Sonho de qualquer empresário: gastar menos para produzir mais álcool e mais açúcar, 24 horas por dia.
As máquinas já fazem 35% do serviço. Ocupam o lugar de 250 mil lavradores. “Do jeito que a mecanização vem, ela vem de cima para baixo, ela não se preocupa com o caos social que ela vai causar, acho que é um impacto muito grande”, diz Antonio Lucas Filho, da Federação dos Trabalhadores Agrícolas de Goiás.

Do lado empresário
A indústria alcooleira resultou de um plano estatal de criar um setor econômico e uma tecnologia nova. O programa desenvolveu na década de 70, pela primeira vez no Brasil a integração sistemática de pesquisa científica, empresa rural e industrial.
O setor da cana participa hoje com quase 3,5% do PIB. Exporta US$ 8 bilhões. Gera toda a energia elétrica que consome e ainda vende excedentes de energia. A indústria de São Paulo contrata cientistas e engenheiros para desenvolver máquinas e equipamentos mais eficientes para as usinas de álcool.

Área plantada
No Brasil, plantam-se 4,5 milhões de hectares de cana (19% da área do Reino Unido e 8% do território francês), matéria-prima que permite a fabricação de energia natural, limpa e renovável. A cana é, em si mesma, usina de enorme eficiência: cada tonelada tem potencial energético equivalente ao de 1,2 barril de petróleo. A produção de cana de açúcar na safra de 2005/2006 foi de 387 milhoes de toneladas. A mesma cana pode ser colhida até cinco vezes, mas a cada ciclo devem ser feitos investimentos significativos para manter a produtividade.
A produtividade média da cana-de-açúcar no Brasil é de 79,29 toneladas por hectare em 2005. São Paulo destaca-se: a produtividade do Estado é de 83,54 toneladas por hectare.

Perfil da atividade
Existem em todas regiões do Estado de São Paulo mais de 11 mil produtores rurais e 137 Usinas e Destilarias, que empregam 500 mil trabalhadores rurais (produtores e usinas, que também plantam cana) e 120 mil industriários (só usinas e destilarias) em 220 municípios. São produzidos cerca de 90 milhões de toneladas de cana de açúcar e 13 bilhões de litros de álcool em 3 milhões de hectares de área cultivada. Em todo Brasil é gerado 1.000.000 de empregos diretos e indiretos.
No Brasil há 336 unidades e devem chegar a 409 até o final da safra 2012/2013. Os investidores brasileiros e estrangeiros, com tradição ou não no setor, vão aplicar US$ 14,6 bilhões nos próximos anos. Há ainda 189 consultas em andamento, tanto para construção como para ampliação de usinas.

Print Friendly and PDF

posted by ACCA@6:38 PM