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terça-feira, julho 28, 2015

Tornados em Francisco Beltrão e Mariópolis

Os ventos fortes começaram às 18h30 de segunda-feira, 13 de julho. Meia hora depois, a tempestade ficou ainda mais intensa.   

Cidades atingidas pelos tornados:  Francisco Beltrão e Mariópolis

FRANCISCO BELTRÃO
Localização e Geografia
Segundo estimativas do IBGE em julho de 2014 possui uma população de 85.486 habitantes.
Francisco Beltrão está localizado bem ao centro do Sudoeste do Paraná. Fica situado a cerca de 130 km ao Sul de Cascavel, a 290 km de Foz do Iguaçu, a quase 492 km da Capital do Estado, Curitiba, 70 km a leste da divisa com a Argentina, e cerca de 30 km ao norte da divisa com o estado de Santa Catarina. O PIB do município é de aproximadamente de R$ 1,6 bilhão. 
A área do município é de 735 km² sendo que a área urbanizada é de aproximadamente 30 km², ficando o núcleo urbano, situado na parte sudeste do município, próximo a divisa com o município de Marmeleiro, cuja área urbana encontra-se distante cerca de 5 km da cidade de Francisco Beltrão.  .
O relevo do município é bastante variável, indo de áreas praticamente planas, principalmente ao leste e ao centro, até áreas com acentuados declives, principalmente ao oeste, próximo a divisa com o município de Manfrinópolis, na chamada Serra do Jacutinga. A altitude varia entre 450 m nas partes planas ao nordeste, até 950 m nas partes altas da serra. Na área urbana a altitude predominante gira ao redor de 560 m, sendo nas partes mais baixas de 530 m e nas partes mais altas, até 670 m.
A parte urbana da cidade sofre pouca ação dos ventos, pois está localizada em uma espécie de "bacia", sendo totalmente cercada por morros com altitudes de cerca de 100 m superiores ao da área central. Deste modo o vento costuma ser de fraca intensidade, e ventos fortes só são registrados durante tempestades.

MARIÓPOLIS
Está localizado na região sudoeste do Paraná e no Sul do Brasil. Possui uma área de 230,37  km² e uma população de 6.558 habitantes distribuídos entre o perímetro rural e urbano. O PIB do município é de aproximadamente de R$ 34 milhões. 

CONFIRMADO: TORNADO
Segundo a meteorologista Sheila Paz, do Simepar (Sistema Meteorológico do Paraná), foi possível confirmar a existência do fenômeno a partir de um conjunto de informações, obtidas através de um radar em Cascavel e de fotos enviadas por moradores. O equipamento de Cascavel, em operação há um ano e meio, ajudou o Simepar a medir a intensidade das chuvas e dos ventos. “Estimamos que a velocidade do vento que atingiu o interior de Francisco Beltrão, com mais intensidade nas comunidades rurais, tenha sido de 120 km/h”, afirma ela. A confirmação foi feita pelo Simepar por volta das 11h30, de terça-feira, 14 de julho. Até então, o caso estava sendo tratado como um temporal.

Ao analisar as imagens de casas de alvenaria devastadas, veículos arrastados, animais mortos e árvores retorcidas, o Simepar confirmou que as duas localidades foram impactadas pela mesma tempestade. Contudo, como as cidades distam 70 quilômetros uma da outra, o meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, acredita, depois de analisar vídeos e fotos, que houve a incidência de dois tornados. Em alguns pontos, os ventos ultrapassaram os 200 km/h.

“Quando veículos pesados são arrastados a tamanha distância e casas de alvenaria são completamente destruídas, podemos dizer que ficou entre o F2 e o F3”, diz, citando a escala Fujita, que classifica os tipos de tornados. A estimativa da velocidade dos ventos foi feita com base em imagens dos estragos. Já em Mariópolis, os ventos teriam sido de aproximadamente 150 km/h.

NUVEM FUNIL
Um morador de Realeza, também no sudoeste, havia registrado a formação de uma nuvem funil. A nuvem tem o formato semelhante ao de um furacão, mas não toca o solo.
De acordo com o meteorologista do Instituto Simepar Samuel Braun, esse tipo de fenômeno é esperado na região por causa das condições climáticas. A nuvem é um estágio inicial de um tornando, mas, além de tocar o solo, ela tem que provocar destruição para se caracterizar um tornado. Porém, a condição meteorológica é favorável para esse tipo de evento, explicou.
Oura moradora  de Pranchita, na mesma região, também fez o registro de uma nuvem funil que quase encostou no chão. O registro foi feito por volta das 16h de segunda-feira. “Eu estava no meu trabalho, e todos aqui ficaram com medo porque o tempo estava muito feio. Graças a Deus, não causou muitos estragos aqui na região”, disse.

RELATOS DE DESTRUIÇÃO
De acordo com o capitão Eriksen Mafra, subcomandante do Corpo de Bombeiros de Francisco Beltrão, o cenário na comunidade “km 8” é de destruição. “Cinco casas destruídas, animais mortos, cavalos, galinhas. Carros e caminhões retorcidos. Árvores arrancadas”, descreve o capitão, que esteve no local. Na comunidade, 19 pessoas ficaram levemente feridas e foram levadas a hospitais da região. Equipes de bombeiros, do Exército, da Copel e da Sanepar, além da Defesa Civil e da Prefeitura de Francisco Beltrão, acompanham a ocorrência.
Estragos menores também foram registrados em outros três pontos da cidade no início da noite de segunda-feira (13). Nos bairros São Francisco, São Miguel e Cristo Rei, que ficam mais próximos do centro da cidade, mais de 50 casas foram destelhadas. No total, a Defesa Civil registrou mais de 200 pessoas afetadas pela passagem do tornado.

TESTEMUNHAS DA DESTRUIÇÃO
■A festa de aniversário de Antônio Soares, 78 anos, foi abruptamente interrompida na comunidade rural Km 8, em Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. “Começou com um vento fraco, não estava chovendo. Logo em seguida, ouvimos estalos e então a casa começou a cair”, relata o empresário Jocimar Fioreze, genro do aniversariante. O vento forte chegou por volta das 19 horas. O empresário relata que todos estavam na área da casa, se preparando para cantar os “parabéns” para o aniversariante, quando o tornado se aproximou. Colocamos as crianças embaixo de uma mesa e tudo veio abaixo. Acho que não durou oito segundos, foi tudo muito rápido. Eu estava no banheiro e, como foi a última parte da casa a cair, consegui ver por mais tempo o que estava acontecendo. Era um redemoinho de vento que ‘sugava’ o cabelo das pessoas. Minha filha foi parar longe, minha neta de 1 ano foi arrastada no meio dos escombros, mas graças a Deus não teve nenhum ferimento grave. Segundo Fioreze, a festa contava com cerca de 15 pessoas no momento em que o vento forte, com velocidade estimada em 120 km/h, passou. As violentas rajadas de vento lançaram veículos a dezenas de metros de distância, arrancaram centenas de árvores, postes, e o que mais havia pela frente.
Das pessoas da festa que ficaram feridas, apenas a sogra do empresário, Izolete Iber Soares, 65 anos, permanecia hospitalizada até a manhã de terça-feira (14). Os demais tiveram alta e foram para a casa de parentes ou amigos. “A minha avó é uma pessoa obesa, usa muletas, tem dificuldade para se locomover. Como foi arrastada pelo vento, teve uma das penas quebradas e diversas escoriações”, conta a neta Josiane Soares. Ainda no Km 8, um cão, um cavalo e diversas aves morreram. Um boi ainda não foi encontrado.
■No condomínio residencial Portal das Águas, vários estragos foram registrados. Silviane Rizzo Galina conta que, por volta das 19 horas, o vento atingiu sua residência. Na casa estavam sete pessoas, entre familiares e amigos. “Eu fui fechar o quarto e quando cheguei na área de festa, só tive tempo de me juntar a eles embaixo da mesa. Todos encolhidos, com mais dois cachorros de estimação, conseguiram se salvar, porque o teto e paredes vieram abaixo”, diz ela. Galina teve alguns arranhões na perna. Na moradia, um coelho e um cãozinho pequeno desapareceram. “Era bastante vento, depois que passou saímos apavorados na escuridão, pedindo socorro.” Além da casa dela, um chalé anexo foi arrancado por inteiro pela força dos ventos.

■ Eu estava de joelhos no sofá, olhando pela janela da frente e observando o temporal que vinha vindo, relata Volmir. E aquilo começou a piorar, a fazer um barulhão, parecia até a turbina de um avião. Então eu fechei a janela e estava andando pra cozinha, quando virei já arrancou tudo. Me escondi embaixo da caixa da porta. Fiquei aqui, enquanto caíam os pedaços de telha e forro pra todos os lados, em cima de mim, e muita água, e de repente estourou a porta de vidro, nos fundos, e o vento bateu uma porta que me acertou no braço e quebrou meu relógio. Foram minutos, a cobertura foi toda destruída. O muro derrubou inteiro. Quando vi, já tinha acalmado e só depois de um bom tempo que caiu a ficha que eu tinha perdido tudo.

SEM ENERGIA ELÉTRICA
As equipes de emergência da Copel devem concluir  até quarta-feira, 15, os reparos necessários para restabelecer na totalidade os serviços de distribuição de energia nas últimas unidades consumidoras atingidas pelo tornado. São vintes equipes de técnicos e eletricistas trabalhando na força-tarefa. No entanto, algumas moradias dependerão de reconstrução dos padrões de energia para ter o fornecimento de volta.

CAMINHO DO TORNADO
De acordo com o Simepar, noite de segunda-feira,  uma supercélula ganhou força em Bela Vista da Caroba, por volta das 18h10. A tempestade avançou por Ampere e às 18h30 chegou no oeste do município de Francisco Beltrão, com intensidade compatível a tempestade extrema. Entre 18h45 e 18h53, o mesociclone estava configurado e um tornado atingiu a comunidade do Km 8. Os ventos começaram com uma velocidade de 150 km por hora e atingiram o ápice em 250 km/h. Analisando as imagens de satélite do Google, é possível perceber que o tornado percorreu uma faixa de 7 quilômetros, quase que em linha reta, começando com maior força na área rural e chegando ao perímetro urbano da cidade com menor intensidade.

BALANÇO PARCIAL DOS DANOS EM FRANCISCO BELTRAO
■Em uma única propriedade, uma área de reflorestamento foi devastada, causando prejuízo de R$ 1,2 milhão;
■Destruição de dois aviários, causando a morte de 60 mil pintinhos e cerca de R$ 800 mil de prejuízo.
■Em uma associação de suinocultores, que mantinha um laboratório e central para inseminação artificial, o prejuízo estimado é de R$ 450 mil.
■A Copel estima em R$ 83 mil os prejuízos na rede elétrica com danos em postes e fiação.
■Danos Humanos
Pessoas afetadas – 338
Pessoas desalojadas-16
Pessoas desabrigadas – 52
Pessoas desparecidas – 0
Pessoas feridas 19
Pessoas mortas – 0
■Danos materiais
Casas danificadas – 150
Casas destruídas – 12
Fonte: Defesa Civil do Paraná

PREJUIZO PARCIAL EM FRANCISCO BELTRÃO
O valor  não é definitivo. Não foram contabilizados ainda os danos com veículos, móveis, equipamentos e eletrodomésticos. Prejuízo superior a R$ 14 milhões.

A Defesa Civil de Francisco Beltrão divulgou um resultado parcial dos prejuízos;
■Foram contabilizados danos em 80 residências, sendo que 12 foram destruídas, três estão interditadas e 30 instalações (entre casas, pavilhões e benfeitorias rurais) ainda oferecem riscos aos moradores. O engenheiro civil José Carlos Kniphoff, diretor técnico da Defesa Civil, fez vistorias nas propriedades do Km 8, região mais castigada, e nos bairros Novo Mundo, São Francisco e São Miguel.  O prejuízo aproximado é de R$ 6 milhões só com edificações (casas danificadas, destruídas e benfeitorias rurais).
■ O segundo setor mais afetado foi o reflorestamento e mata nativa. O tornado arrancou centenas de árvores nativas e de reflorestamento.  O levantamento feito pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) demonstra que os estragos atingiram 28,47 hectares de floresta secundária (estágio inicial), 51,30 ha de floresta secundária (estágio médio), 17,63 ha de floresta secundária (estágio avançado), 17 ha de área de preservação permanente, além de 4,5 ha Pinus e 3 ha de Eucalyptus.  O laudo assinado pelo engenheiro florestal José Wilson de Carvalho estima o volume de lenha perdido em 13.123 metros³ da espécie nativa, 2 mil m³ de Eucalyptus e 2.300 m³ de Pinus. Em madeira, o IAP acredita que a perda seja de 4.158 m³ de espécie nativa, 100 m³ de Eucalyptus e 3.700 m³ de Pinus. O prejuízo é R$ 1.929.120,00 só com as madeiras.
■ As perdas com animais também foram bem consideráveis. As informações apuradas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural indicam perda de 236 aves ornamentais (R$ 42.480,00), seis ovinos (R$ 2.700), um equino (R$ 2.800) e quatro bovinos (R$ 4.800). Além disso, conforme o departamento de fomento da BRF, morreram 59 mil pintainhos de 1 dia (R$ 38.900) e 3 mil frangos de corte de 21 dias (R$ 21 mil).
■ A Copel ainda não oficializou o prejuízo, mas informalmente comunicou um valor próximo de R$ 83 mil com danos na rede elétrica (postes e cabeamento).

TORNADO EM MARIÓPOLIS.
Os ventos chegaram a 150 km/h. O município de Mariópolis teve as comunidade de Gramados, Colônia Nova, Candeias e Nossa Senhora de Fátima  atingidas pelo tornado.
A Defesa Civil do município concluiu que;
■ foram atingidas 50 casas, 10 totalmente destruídas,
■ com 50 pessoas feridas e cerca de 300 desabrigadas.

TESTEMUNHA DA DESTRUIÇÃO
■Oscar Farias de Souza estava com sua família, a esposa, o filho e a nora no interior de sua casa que foi arrancada do chão. Não sobrou nada, pedaços da geladeira foram encontrados a 300 metros de onde estava a sua casa. "Foi questão de minutos, e tudo voou pelos ares, é um milagre ninguém ter se machucado gravemente", afirmou.

PREJUÍZO EM MARIÓPOLIS
Em Mariópolis, os estragos causaram um prejuízo aproximado de R$ 2,8 milhões em casas, bens privados e de uso comum e cerca de R$ 3,8 milhões em danos na agricultura e reflorestamento.

Fontes: @ZR;Jornal de Beltrão–14 a 24 /07/2015; G1–13 e 14/07/2015;Gazeta do Povo–13 e 14/07/2015 

Comentário: No Brasil o registro histórico de danos da natureza praticamente inexiste. Temos  períodos  curtos de registros  históricos da ocorrências e recorrências de desastres e achamos que é raro. E a população em geral tem a noção que o Brasil está isento dessas ocorrências ou são fenômenos recentes.
Para ter uma ideia  a população do sudoeste do Paraná em 1900 era de 3.000 pessoas. Em 1940 aumentou para 23.000 pessoas. Até a década de 1940, inexistia meios de comunicação interligando o Sudoeste ao restante do Estado foi um dos motivos que tornou essa região desconhecida e pouco povoada.
Em 1950 a população do Sudoeste do Paraná passou de 76.376 habitantes. Em 1960 passou para 230.379 habitantes. Em 2000 a população era de 472.626 pessoas. Em 2013 era 518.998 habitantes.
Hoje a população está muita mais expostas  aos impactos a fenômenos da natureza da região, agravada  pela ocupação humana e degradação ambiental. Na década de 60 estudos comprovaram que a região já foi atingida por tornados.

Artigo publicado
Rastros de tornados no sudoeste do Brasil

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posted by ACCA@3:00 AM