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domingo, julho 01, 2012

Profissionais da saúde não higienizam as mãos

Passados quase 200 anos desde que, em 1846, o médico húngaro Ignaz Phillip Semmelweis constatou que a simples prática de lavar as mãos era a melhor forma de prevenir a contaminação por bactérias, um grande número de médicos, que têm a obrigação de evitar a proliferação de doenças, não lava as mãos, pondo em risco a saúde dos pacientes. Pelo menos é isso que comprova levantamento feito este ano pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em cinco hospitais de grande porte do país. Os resultados são assustadores. A Anvisa constatou que 60% dos profissionais de saúde não higienizam as mãos antes e depois de terem contato com os pacientes.

ÁLCOOL
Muitas vezes, a baixa adesão dos profissionais ao hábito de lavar as mãos está relacionada com a grande carga de trabalho. “A Anvisa não está pedindo que a água e o sabão sejam substituídos. Uma lavagem de mãos com sabonete benfeita dura, em média, um minuto e meio. Com o álcool, o tempo passa para 15 segundos”, informa.

NÃO TÊM O HÁBITO DE LAVAR AS MÃOS
Mas mesmo com todo o esforço, a norma pode, ainda assim, passar despercebida. Uma pesquisa de 2009, feita em um hospital público de Ipatinga (MG), pela enfermeira Fernanda Mendes Santos, do Centro Universitário do Leste de Minas (Unileste), comprovou que apesar da disponibilidade dos produtos para a lavagem e da existência de cartazes explicando como lavar as mãos corretamente, os profissionais não adotaram o procedimento e passaram por lavatórios como se eles não existissem. “Fernanda sentou-se ao lado de uma pia e observou que o uso de água e sabão era mínimo. E não são só os médicos, outros trabalhadores também não têm o hábito de lavar as mãos. É um gesto indispensável, de eficácia documentada em estudos bem antigos. Num ambiente hospitalar, há bactérias multirresistentes, que podem ser transportadas de um doente para o outro”, comenta a orientadora da pesquisa, Virgínia Maria da Silva Gonçalves, professora de enfermagem e doenças transmissíveis do Unileste.

PEGOS EM FLAGRANTE
Um passeio pela área hospitalar de Belo Horizonte comprova que a falta de cuidados de higiene por parte dos profissionais de saúde da capital vai além da baixa adesão ao hábito de lavar as mãos, conforme constata o levantamento da Anvisa. Médicos, enfermeiros e técnicos de saúde saem do local de trabalho e circulam por ruas, restaurantes e lanchonetes usando jalecos com os quais atenderam pacientes ou participaram de procedimentos médicos. Profissionais das áreas de limpeza e lavanderia dos hospitais também saem à rua de uniforme e touca.

Nem mesmo a grande campanha feita para combater o vírus da influenza A (H1N1) em 2009, orientando as pessoas a lavar as mãos para evitar a transmissão da doença, foi capaz de sensibilizar os profissionais. GC, de 23 anos, estudante de medicina e estagiário do setor de enfermaria de um grande hospital de Belo Horizonte, voltou para casa, usando o jaleco e o estetoscópio no ombro. “Isso não tem problema, o jaleco é para me proteger. Já o equipamento, vou passar álcool antes do atendimento”, garantiu, afirmando ser preocupante o fato de seus colegas não lavarem as mãos antes de um procedimento médico. “Isso eu não faço.”

PERIGO: BACTÉRIAS
Para o professor do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marco Antônio Lemos Miguel, não há dúvidas: o risco existe. Marco é responsável por um estudo recente que revelou: alguns tipos de bactérias conservam-se por dias e até dois meses na peça de roupa e pelos menos 90% delas resistem no tecido durante 12 horas. “O jaleco, assim como outros uniformes de profissionais da saúde, é um problema. As bactérias dos hospitais são muito resistentes e, ao entrar em contato com pessoas suscetíveis, se tornam um perigo. Hoje em dia, é cada vez mais difícil tratar as pessoas infectadas”, destaca, lembrando que a desculpa de “estar indo para casa” não é válida.

“O risco está nesse trajeto e até na residência desse profissional, que pode estar levando infecções para os parentes.” Segundo o professor, nos restaurantes, as bactérias podem se desprender dos jalecos e ir para a comida ou até mesmo ao lugar onde sentou o profissional. A pesquisa de Marco motivou alterações nas leis. “Hoje, sair do trabalho com as vestimentas ou equipamentos hospitalares é proibido por portaria no Ministério do Trabalho. A Anvisa também tem uma norma que proíbe esse comportamento”, informa.

Viviane Rosado, enfermeira da Comissão de Controle de Infecções do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG), diz que a falta de adesão à lavagem de mãos entre os profissionais de saúde é comum. “Alguns alegam falta de tempo. Outros dizem ter irritação na pele. E outros confundem, acham que usar as luvas elimina a necessidade do procedimento. No HC, quando há campanhas de conscientização, ocorre uma alta da adesão. Afixamos cartazes, enviamos e-mails e alertamos para a importância de lavar as mãos. Mas, depois, eles relaxam.”

DISCUSSÃO ANTIGA
A polêmica dos uniformes dos trabalhadores de saúde fora do ambiente de trabalho é antiga. Enquanto muitos especialistas afirmam não haver provas do risco da prática, outros garantem que o mau hábito é perigoso para a população e os pacientes. “Não há evidências que comprovem que isso seja um perigo para as infecções hospitalares. Mas é algo de muito mau gosto”, defende o professor de pediatria da Faculdade de Ciências Médicas e ouvidor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Ewaldo Aggrippino. Já o infectologista Estevão Urbano afirma que ainda não se tem a real certeza do impacto que isso causa. Porém, condena a prática: “ é anti-higiênico.”

Fonte: Estado de Minas, 29 de agosto de 2010, Correio Braziliense, 30 de agosto de 2010
Vídeo:
Muito interessante o vídeo. Em apoio da estratégia de conformidade de procedimento de higienização das mãos, a equipe de Controle de Infecção  do hospital Penn State Hershey Medical Center criou este clipe que demonstra como é fácil para os trabalhadores de saúde espalhar bactérias e vírus, entre outros profissionais de saúde, pacientes e meio ambiente de assistência ao paciente. A verdade é que inconscientemente não espalhamos micróbios, mas todos nós sabemos que eles existem e como são fáceis de viajar. Mas a prática constante de lavar as mãos ou desinfecção antes / depois de contato com o paciente (e antes / depois do contato com qualquer superfície no ambiente de centro de saúde) acontece em média nacional, apenas 50% do tempo nos EUA. Resultados semelhantes foram demonstrados em muitos outros países.

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posted by ACCA@4:04 PM