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segunda-feira, novembro 14, 2011

Parte 2: Acidentes de trabalho dizimam famílias

Oficinas e comércios são os que mais provocam acidentes de trabalho

No último dia do mês de maio deste ano, numa casa muito humilde em Santo Antônio do Descoberto (GO), o despertador tocou mais uma vez às 4h30. João Alves da Cruz Júnior, 38 anos, acordou, arrumou-se silenciosamente e foi correndo para o ponto de ônibus. Às 7h30, estava na obra de um prédio em Águas Claras. Tomou o café da manhã oferecido pela construtora com os companheiros de trabalho e foi para o batente. Estava animado naquele dia. Não via a hora de receber o salário de R$ 600 para fazer as compras do supermercado para a mulher, Maria Sileide, 35, e os quatro filhos — Patrick e Pablo, gêmeos de 8 anos, Pablício, 5, e Priscila, 2 — que deixou em casa ainda dormindo.

Antes que o sol caísse naquele dia e ele enchesse a despensa, João Cruz, pernambucano de Salgueiro, estaria morto. Ele despencou às 11h16 do quarto andar de uma obra em Águas Claras da construtora A&A enquanto montava um andaime. Morreu na hora. Depois de 10 anos juntos, Maria Sileide se viu sozinha com as quatro crianças na casa onde moram de favor. Não trabalhava, por vontade do marido, para cuidar do lar e dos filhos. O salário de João era a única renda da família.

Agora, ela está à espera da pensão do INSS para encher as caixas e se mudar para Anápolis, onde moram duas irmãs. Por enquanto, tem recebido R$ 600 da construtora e uma cesta básica. “Já avisaram que vão suspender quando sair a pensão”, conta. Na carteira, o salário do operário era de R$ 605 brutos. “Mas ele recebia R$ 300 por fora”, diz ela.

Em Anápolis, Maria Sileide tentará educar os meninos com a ajuda das irmãs. Enquanto espera ansiosa o benefício do INSS, pois teme ficar sem dinheiro a qualquer momento, ela anda preocupada com Pablício, que se tornou agressivo. “Está teimoso e respondão. Não quer ir para aula”, relata, chateada. Os gêmeos ficaram mais calados desde então. O momento mais difícil, conta, tem sido quando o relógio bate 19h. Meia hora depois era certo que o pai entraria em casa. “O difícil é acreditar. Sempre fica a esperança de que ele vai abrir a porta e que tudo o que passou foi apenas um pesadelo”, deseja. Mas a realidade reservou a Maria o destino de criar os quatro filhos pequenos sem o pai por perto.

LEVANTANDO PAREDES
Locomotiva do atual crescimento econômico, a construção civil é a atividade que mais mata trabalhadores.
■ Em 2009, últimos dados disponíveis, 395 operários morreram levantando paredes. Na contramão dos indicadores de acidentes no país, que apontam redução, na construção, as ocorrências crescem a cada ano.
■ Em 2007, foram 36,5 mil casos registrados pela Previdência em todo o país.
■ Em 2008, saltaram para 52,8 mil e, em 2010, já tinham alcançado 54,6 mil. A explicação da indústria para o aumento dos acidentes é a maior quantidade de obras no país.

CAMPEÃ DE ACIDENTES NO PAÍS.- SETOR DE SERVIÇOS
Apesar dos números negativos da construção civil, desde 2009, a indústria em geral deixou o posto de campeã de acidentes no país. Impulsionado pelo crescimento econômico, e responsável pela maior parte das vagas geradas nos últimos anos, o setor de serviços assumiu a liderança entre os trabalhadores que mais se acidentam, com 340.681 ocorrências em 2009 e 331.895 em 2010. A indústria registrou 321.171 e 307.620 casos, respectivamente.

■ Os estabelecimentos de revendas de carros e oficinas mecânicas são os responsáveis pelo maior número de acidentes na área de serviços — um total de 95,5 mil no ano passado.
■ Em seguida, vêm as atividades de armazenagem e transporte de mercadorias, com 51.934 ocorrências, que também é a segunda colocada em número de mortes.

IRREGULARIDADES
Zilda Valentino dos Santos, 37 anos, não acreditou na notícia que passava na tevê de sua casa, em Planaltina de Goiás. Seu companheiro de quase 20 anos, Lourival Leite de Moraes, 46, estava entre as três vítimas do soterramento ocorrido na obra do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (UnB) em 20 de julho deste ano. Quatro meses antes, o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil havia denunciado à Delegacia Regional do Trabalho irregularidades nos andaimes e falta de material de segurança.

Da noite para o dia, a vida de Zilda e dos filhos, Vinícius, 13, e Iara, 8, desestruturou-se. Ela trabalha como auxiliar de serviços gerais num hospital na Asa Sul, noite sim, noite não. Iara fica com uns parentes. Mas não tem lugar para o menino. O jeito foi pagar um vizinho para dormir na casa com Vinícius. Essa situação não agrada a mãe. Por ora, é o que pode fazer. Antes, ela saía tranquila para o trabalho, pois o marido ficava com as crianças. Agora, convive com a ausência dele e a preocupação com os filhos.

Lourival não está mais presente, mas tudo na casa tem o seu dedo. Acostumado com obras, era ele quem fazia os reparos. Zilda não faz mais coisas simples sem ele, como as compras de alimentos do mês, uma festa para a família. Ela passou a adquirir tudo picado, quando precisa. A vida para os Moraes perdeu a graça.

O QUE MAIS MATA
Atividades com maior número de óbitos no país em 2009
■Construção – 395
■Transporte e armazenagem - 379
■ Serviços prestados a empresas – 199
■Comercio varejista – 246
■Agropecuária – 187
■Produtos alimentares e bebidas – 165
■Comércio por atacado – 122
■ Comércio de veículos e combustíveis - 61

O QUE MAIS FERE
Atividades com maior numero de acidentes em geral, incluídos óbitos em 2010
■Comercio e reparação de veículos automotores – 50.589
■Saúde e serviços sociais – 42.580
■Produtos alimentícios e bebidas – 42.068
■Construção civil – 36.379
■Transporte, armazenagem e correios – 29.671
■Serviços prestados a empresas – 18.888
■Fabricação de veículos e equipamentos de transporte – 17.372

PROFISSIONAIS MAIS ATINGIDOS EM 2010
■Trabalhadores do setor de serviço – 58.075
■Trabalhadores de funções transversais - 57.218
■Trabalhadores da indústria extrativa e construção civil – 41.111
■Trabalhadores da transformação de metais – 38.959
■Trabalhadores na exploração agropecuária – 32.228
■Escriturários – 26.565
■Técnicos de nível médio de ciências biológicas, bioquímicas, da saúde – 25.643
Obs:
Os dados não incluem os acidentes motivados por doença ocupacional, trajeto de ida e volta ao trabalho.
Operadores de robôs, de veículos controlados remotamente, condutores de equipamento de elevação e movimentação de cargas Fonte: Ministério da Previdência Social

Fonte: Correio Braziliense- 6 de novembro de 2011

Comentário:
As qualificações das pessoas para a prevenção de acidentes devem ser levadas em consideração no preparo e na execução de qualquer tarefa.

Os trabalhadores são em sua maioria procedentes da área rural, principalmente da região nordeste do país.
O que esses trabalhadores têm em comum:
a) pouca oferta de emprego na região de origem;
b) más condições de vida no local de origem;
c) procura de melhores salários.
d) baixa escolaridade

Pesquisa realizada pela Sinduscon do Paraná
■Escolaridade – Nenhuma – 13,50%
■Fundamental, até 4ª série – 65,70%
■Fundamental, 5ª a 8ª série – 18,83%
■Ensino médio, 1ª a 3ª série – 1,97%

O número de acidentes é grande em conseqüência do pouco treinamento que recebem, principalmente em relação à segurança do trabalho, agravado pelo fato de terem baixo nível de aprendizado escolar formal.
A baixa escolaridade na construção civil causa muita preocupação, uma vez que a falta de conhecimento básico é um dos fatores preponderantes da ineficácia na execução de tarefas, muitas vezes simples, mas que exigem o mínimo de conhecimento.

A finalidade da escolarização é exercitar a parte cognitiva - com conhecimentos, habilidades e informações para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.
A escolarização desenvolve habilidades motoras, funções cognitivas, habilidades sensoriais, memória-atenção, aspectos sócio – afetivos, aspectos histórico – pessoais, que são extremamente importantes para execução de tarefas.
Além disso, devemos levar em consideração outros fatores que interagem com o fator humano para provocar acidentes
1) Falta de uso de equipamentos e procedimentos de segurança e resistência dos funcionários às normas e conivência de mestres e encarregados.
2) Necessidade de treinamento que requer altos investimentos. Os custos de segurança são relativamente altos para serem absorvidos pelo consumidor, pois vão-se refletir no valor final da obra.
3) Baixa conscientização de segurança dos empresários e empregados. A cultura do empregado brasileiro que não dá valor à vida e corre risco simplesmente, por
considerar ser uma fatalidade. Falta de perspectiva de futuro.
4) Há muitas exigências burocráticas e não práticas. Não são contínuas, são prolixas – demoram muito para dar resultados –, algumas exigências beirando o absurdo – falta coerência com a realidade.
5) Falta de uma fiscalização mais atuante e rígida.
6) Questões de nível sócio-econômico-cultural, ou seja, salário do trabalhador da construção civil, como em muitos outros setores, é baixo. No entanto, o setor é muito visado com relação a esta questão, por ser considerado tecnologicamente atrasado
Fonte: Estratégia de Prevenção dos Acidentes de Trabalho na Construção Civil: Uma abordagem integrada construída a partir das perspectivas de diferentes atores sociais Ane Lise Pereira Da Costa Dalcul

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posted by ACCA@6:06 AM