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terça-feira, fevereiro 15, 2011

A maior enchente ainda está por vir

Essa foi a manchete do jornal a Voz da Serra de Nova Friburgo, de autoria de Raphael L. de S. Jaccoud, publicado em 10 de janeiro de 2007. Parece que o autor acertou o desastre. Transcrevo a matéria integral que aponta os problemas e as autoridades vêem os problemas, mas não enxergam as soluções.

A nossa história registra que, pouco depois da fundação da vila, a pequenina Nova Friburgo sofreu, terrivelmente, com uma enchente que a assolou, muito embora os colonos tivessem aberto, por determinação das autoridades, a vala de proteção, nos fundos dos terrenos da Rua Direita, lado par da atual Praça Getúlio Vargas, até hoje existente, mesmo estando bastante assoreada. Naquela época foi, também, aberto um canal, agora capeado, ligando aquela região, a partir da parte alta da Rua Farinha Filho, passando pela Dante Laginestra e indo ao Rio Bengalas, que a Telerj, ao tornar subterrâneos seus cabos, obliterou ponderável parcela de sua área de vazão, na esquina com a Praça, ao lado do Edifício Elias Caputo, o que motiva, nos dias de hoje, grandes alagamentos por ocasião de chuvas intensas.

No fim do século 19 e início do século 20, a Câmara Municipal – então, também, órgão executivo – num esforço sem par, realizou a retificação do Bengalas, no trecho, hoje, junto às Avenidas Galdino do Valle e Comte Bittencourt. O prefeito César Guinle, nos anos 40, dragou e retificou o rio, que era repleto de meandros, até Conselheiro Paulino, e Heródoto, ao abrir o eixo rodoviário, disciplinou suas margens, até Duas Pedras, ao criar a Avenida Costa e Silva. Não me recordo de outro trabalho de envergadura que tenha sido realizado para melhorar a calha do rio, a não ser nos últimos anos, quando o governo estadual viu-se obrigado a reparar uma asneira sem conta, perpetrada pela administração municipal de então.

Ao ser aberta a Avenida Roberto Silveira, o estado a desenvolveu sempre em cotas superiores a 1,50 metro, em relação à maior enchente já observada, porque “a maior enchente ainda está por vir...” A Prefeitura, sem atentar para isso, permitiu edificações na margem esquerda do rio, abaixo da cota referida, bem como permitiu que se realizassem construções na margem direita, nos terrenos situados além da Roberto Silveira, como é o caso da antiga sede da Apae, que está, agora, sendo completamente reformulada, à custa de muito esforço e muito dinheiro. E esta é, sem dúvida, a única solução para livrar os demais lotes e construções existentes, em igual condição, de cheias futuras. Não vejo outra.

E as construções situadas junto às encostas ou ao longo das mesmas? E as ruas desenvolvidas nos taludes? São, também, “cochilos” do “santo chaveiro”?

É sabido que em ciclos de, aproximadamente, sete a doze anos, abrem-se as comportas do céu. Por quê? Não sei. A Bíblia já fala nisso, no célebre episódio de José, no Egito, sobre “os sete anos de vacas gordas e os sete anos de vacas magras”.

Há alguns anos atrás, no fim da década de setenta, em dois dias alternados e de chuvas copiosas, morreram, acidentadas, por volta de sessenta pessoas. E, me parece, nunca se chegou a um número exato. A tragédia, é certo, aconteceu, vem acontecendo e voltará a acontecer. Quando?Ninguém sabe. Mas há muito que passou da hora de o poder público exercer uma fiscalização efetiva, honesta, competente e diuturna, sobre a localização de loteamentos e construções, e esquecer que “o Brasil é um país de todos”, uma espécie de “casa da mãe Joana”, onde todos mandam e ninguém obedece.

Fonte: A Voz da Serra – 10 de janeiro de 2007

Comentário

Dados históricos

03/02/2008 – Chuva excessiva - O deslizamento de terras, que resultou na morte de nove pessoas, e o alagamento registrado no bairro Madame Machado em Itaipava, distrito de Petrópolis, na madrugada de domingo representam a situação mais grave, na região, desde a enchente de 1988. Choveu 135 milímetros em apenas meia hora em Itaipava, dez vezes a mais que em Petrópolis, onde choveu 13 milímetros. Muitas encostas deslizaram e várias casas desabaram com a força da chuva. Pelo menos nove pessoas morreram e 12 ficaram feridas após deslizamentos de terra. 1850 pessoas tiveram de deixar as suas casas.

05/01/2007 – Cinco dias de chuva em Nova Friburgo
Segundo a Defesa Civil, 1.086 pessoas estavam desabrigadas e 1.729 desalojadas. Onze morreram.

19/01/2005 – Temporal em Nova Friburgo, rio Bengalas transbordou

21/01/2004 – Temporal em Petrópolis. Os rios Quitandinha e Piabanha transbordaram --17 ruas ficaram interditadas e outras 17, alagadas. No total, 65 pessoas que estão desabrigadas foram levadas para escolas municipais e outras 50 foram provisoriamente alojadas em casas de parentes.

11/01/2003 – Petrópolis - Em menos de uma hora de chuva forte, 17 pessoas morreram. As águas dos rios danificaram o piso de várias ruas da cidade

23/12/2001 – Temporal em Petrópolis que durou 15 horas, provocou deslizamento de terra, com 45 mortos

03/01/2000 - Na região serrana, as cidades de Petrópolis e Nova Friburgo também tiveram problemas por causa da chuva. Em algumas ruas, a água chegou até a cintura dos pedestres e vários carros tiveram que ser empurrados. Ocorreram ainda deslizamentos de terra, sem vítimas. Teresópolis- Quatro das vítimas. Houve desmoronamento de encostas.

Em 1999, uma enxurrada deixou 41 mortos na Região Serrana. No ano de 2000, foram 22 vítimas fatais em Petrópolis, Teresópolis e Casimiro de Abreu. No ano seguinte, 60 mortes, a maioria delas ocorridas em Petrópolis, o que provocou intensa discussão entre autoridades estaduais e municipais. Em dezembro de 2003, novas inundações deixaram 36 mortos, 870 desalojados e 823 desabrigados na região.

05/01/1992 - Temporal que durou 9 horas. Em Teresópolis, sete pessoas morreram soterradas com o deslizamento de uma barreira sobre as casas que moravam, no Morro do Perpétuo. Em Petrópolis, nos distritos de Itaipava e Nogueira, dois deslizamentos de terra destruíram três casas, matando outras seis pessoas.

Em fevereiro de 1988 - Petrópolis - 134 pessoas morreram soterradas por deslizamentos, desabamentos ou levadas pelas águas.
A tragédia começou com duas fortes pancadas de água, seguidas de vários dias de chuva fina e persistente. Bairros inteiros estiveram sob ameaça de desabamento.

26/02/1987 – Enchentes - Petrópolis, Teresópolis- 171 vítimas fatais em Petrópolis

Pelos registros de ocorrências históricas, a região serrana sempre foi cenário de enchente, inundação, deslizamento de terra e morte. Existe um ciclo que se repete, entra ano, sai ano, com menor ou maior intensidade em função da ocupação irregular. Os erros do passado se repetem e poderiam ser prevenidos no futuro. Mas a história de acidentes demonstra que tais acidentes se repetem após um breve período. As lições são esquecidas. Essa é a realidade.

Existe na região serrana uma incompatibilidade entre a densidade demográfica elevada (641.000 habitantes) diante da geografia de risco. Não há como solucionar esse problema. Na década de 60 a região serrana não tinha 273.000 habitantes, praticamente dobrou 2,35 o número de habitantes, ocupando mais espaços da geografia de risco. Podemos simular um cenário que cada habitante impermeabiliza 50 m2, então, teremos 32 km2 de área impermeável ou degradada, ou ocupada em locais potencialmente perigosos na geografia de risco. .

Na década de 60, Nova Friburgo tinha 70.145 habitantes, hoje conforme IBGE tem 182.016 habitantes. Essa diferença de acréscimo de 111.871 habitantes necessita mais moradias, infraestrutura, o que acarreta maior expansão da área urbana invadindo ainda mais a área de geografia de risco da região. É a geografia humana sempre crescente em disputa com a geografia de risco.

Em termos práticos equivalem a 28.000 moradias ou 2 milhões de área impermeabilizada. A prefeitura tem registrado 78.000 imóveis (construções e terrenos) para pagamento de IPTU. A expansão da cidade atingiu mais encostas e fundo de vale. Os fatores para o desastre estavam presentes; expansão nas encostas, crescimento da cidade, desmatamento e a chuva excessiva foi o propelente dessa destruição.
A natureza é interessante, ela sinaliza que algo está errado, avisa e depois provoca o desastre. A natureza não tem objetivo, mas segue suas próprias leis.
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posted by ACCA@12:44 PM