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terça-feira, junho 22, 2010

Ônibus pega fogo e deixa vários feridos

Um ônibus do transporte coletivo urbano, da empresa Cotista, pegou fogo por volta das 16h30min, 9 de janeiro de 2006, na rua 19 de fevereiro, no centro de Rio Grande, a 320 km de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Cerca de 50 passageiros estavam no interior do veículo.

Foto-Pedestres quebram vidros e ajudam os passageiros a saírem pelas janelas
O ônibus, que fazia a linha Carreiros e iria até o bairro Castelo Branco, havia saído da praça Tamandaré e pegou fogo após andar menos de 100 metros.

COMO FOI O ACIDENTE
■ O ônibus da empresa União Cotista sai do centro de Rio Grande com destino aos bairros Castelo Branco I e II, Cohab 4 e Santa Rosa
■ Ainda no Centro, na Rua 19 de Fevereiro, o motorista Alexandre Hernandes sente o tecido das calças grudando nas pernas e vê o fogo se alastrando
■ Uma lata de thinner , colocada sob o banco do motorista, entra em combustão
■ O motorista Hernandes abre as portas e grita para que os passageiros saiam
■ Os passageiros correm para os fundos do ônibus, tentando evitar as chamas na frente
■ Populares quebram as vidraças do lado de fora, para ajudar a saída dos passageiros
■ Peritos concluem que a lata de thinner (pertencente à empresa de ônibus) é a causa do sinistro

DESESPERO PARA SAIR DO ÔNIBUS
De acordo com o segurança Luis Fernando Flores, que estava no ônibus, o veículo começou a incendiar de repente e o motorista gritou que estava pegando fogo, momento em que os passageiros entraram em pânico. Ele pediu que eles ficassem calmos e tentou abrir a janela de emergência, mas não conseguiu. Em seguida, ele e outros passageiros quebraram alguns vidros. O motorista abriu a porta do veículo, mas, segundo Flores, a maioria saiu pelas janelas. Populares que passavam pelo local também ajudaram a quebrar os vidros para que as pessoas saíssem. "Foi tudo muito rápido. O fogo começou na parte da frente e se alastrou em seguida", disse Flores.

INÍCIO DO FOGO
Segundo relato dos passageiros, o fogo teria começado na frente do veículo e se alastrado rapidamente. Ao perceber o incêndio, o motorista conseguiu abrir as duas portas, mas as saídas eram insuficientes.

ALASTRAMENTO DO FOGO
Segundo os bombeiros, o fogo se espalhou com rapidez a partir do momento em que os vidros foram quebrados, pois permitiu a entrada de mais oxigênio no veículo.

VÍTIMAS
Cerca de 27 passageiros foram atendidos 27 pessoas foram atendidas na Santa Casa, com queimaduras, cortes e machucados, ficaram em observação no pronto-socorro. .Quatro deles tiveram queimaduras graves, o motorista e três passageiros, foram atendidos no bloco cirúrgico da Santa Casa. Um dos casos mais graves foi de uma menina, de 13 anos, que teve em torno de 30% do corpo queimado, segundo informações do médico proprietário da clínica de pronto-atendimento em que ela recebeu os primeiros socorros, Sandro Goulart Terra

INQUÉRITO POLICIAL
A Polícia Civil deverá instaurar inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu o incêndio. A delegada Vanessa Pitrez de Aguiar Corrêa, do plantão da Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), informou que os policiais da 4ª DP - distrito que está a cargo da investigação do caso, deverão averiguar as causas do fogo, para descobrir se foi culposo (não‑intencional) ou doloso (criminoso). Uma lata de thinner foi encontrada próximo do local onde teria iniciado as chamas, conforme testemunhas, atrás do assento do motorista.
A delegada declarou também que os profissionais do Instituto Geral de Perícias (IGP) efetuaram a perícia no local do incêndio. Em seguida , o ônibus será transferido para o depósito do Detran-RS, onde deverá ser submetido à nova perícia por um engenheiro mecânico do IGP. Esse perito, segundo a delegada, irá vistoriar o veículo com o objetivo de avaliar se houve falha mecânica. Além disso, os passageiros, na medida em que tiveram alta do hospital, deverão ser ouvidos pela polícia.
A delegada afirmou que haverá uma investigação para averiguar as responsabilidades penais: se houve imperícia, negligência ou imprudência.

LAUDO PRELIMINAR
De acordo com peritos, a causa do fogo foi a combustão de um galão de thinner, solvente inflamável, que pertencia à própria empresa dona do ônibus, a União Cotista, e era transportado atrás do banco do motorista.

O ÔNIBUS TRANSPORTAVA UMA LATA DE THINNER
O motorista recebeu o galão ao iniciar a viagem, a pouco mais de 100 m do local do incêndio, e deveria entregá-lo na empresa. O solvente pertencia à empresa, esclareceu o delegado titular da 4ª. Delegacia de Polícia de Rio Grande, Elione Luiz Lopes, depois de ouvir formalmente as primeiras nove testemunhas.
O delegado também conversou informalmente com o motorista Alexandre Muniz, que está internado em estado grave.
Durante a conversa ele confirmou que o solvente pertencia à empresa. Como o solvente resultou no incêndio, segundo ele, somente será esclarecido no relatório final da perícia: Ainda desconhecemos o que concorreu para a combustão, esclareceu ele.

LAUDO DA CAUSA DO INCÊNDIO
Em 19 de fevereiro, o Centro de Microscopia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontou que houve um curto-circuito entre a lata de solvente, a chave elétrica geral do ônibus e o assoalho, também de metal.
O professor Luis Frederico Dick concluiu que a lata de thinner, encontrada atrás do banco do motorista, entrou em contato com o sistema elétrico do veículo e, junto ao piso do ônibus, criou um efeito chamado "arco de faísca". O assoalho de metal serviu como pólo negativo, a chave de cobre, como pólo positivo, e a lata de ferro fechou o curto-circuito, explicou.
O processo acabou por derreter a lata e liberou o solvente, altamente inflamável. O produto, com a ajuda da faísca, agiu como um maçarico, alastrando o fogo. O laudo foi encaminhado para a Polícia Civil de Rio Grande.

BALANÇO DAS VÍTIMAS – HOSPITALIZAÇÃO
Faz um mês, duas das quatro vítimas que tiveram queimaduras graves permanecem internadas. A adolescente Bruna Corrêa Moreira, 13 anos, que teve 30% do corpo queimado, continua internada na UTI Pediátrica do HPS de Porto Alegre. O motorista do coletivo, Alexandre Hernandes está na unidade São Camilo II, da Santa Casa de Rio Grande. As outras duas passageiras que estavam hospitalizadas na Santa Casa, receberam alta em 9 de fevereiro.
Em 20 de fevereiro, a adolescente Bruna Corrêa, 13 anos, deixou o Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre, após 42 dias de recuperação. A adolescente voltou para casa, onde continuará o tratamento das queimaduras sofridas.

ADOLESCENTE PASSOU POR SEIS CIRURGIAS
Cirurgião plástico no HPS, Ricardo Arnt disse que Bruna foi submetida a seis intervenções para recompor a pele queimada. Quase 30% do corpo, principalmente as costas e os braços, foram atingidos. Nos próximos dois anos, ela terá de usar malhas de compressão, para firmar as partes que sofreram enxertos. Arnt considerou "excelente" a recuperação de Bruna.

CAUSA DA GRAVIDADE DA QUEIMADURA
A adolescente estava sentada no meio do ônibus, ao lado direito, na companhia da tia. Desmaiou com a fumaça e as queimaduras, teve de ser socorrida em dois momentos. Primeiro, pelo motorista, que não teve forças para retirá-la do local e depois, por um desconhecido que se arrojou entre as chamas e retirou a menina entre as chamas.
Em 22 de fevereiro, após 43 dias internato o motorista do ônibus, Alexandre Muniz Hernandez, recebeu alta da Santa Casa, ainda com as marcas das queimaduras sofridas, principalmente nos braços, nas costas, no rosto e nas pernas. As queimaduras nos braços e nas costas foram de 2º grau.

INDICIAMENTO - POLÍCIA INDICIOU POR INCÊNDIO CULPOSO
Em 1 de fevereiro, a investigação comandada pelo delegado de Polícia Civil do Rio Grande, Elione Lopes, concluiu que houve crime de incêndio culposo. Foram indiciados, o motorista, Alexandre Hernandes, o fiscal, Jorge Alberto Pacheco, a responsável pelo setor de compras da Cotista, Cláudia Silveira, e o sócio-gerente, Norli Norberto Camilo.
O delegado entendeu que os quatro indiciados "lidaram com imprudência e negligência". O motorista e o fiscal por não terem se recusado a transportar o material, "criando desnecessariamente o perigo e não tendo o devido cuidado no trato com a lata de solvente". A responsável pelo setor de compras e o sócio-gerente por permitirem que se criasse o sistema de entregas na praça central e o posterior envio do material pelos coletivos para a empresa, o que já havia ocorrido em outras oportunidades.
Lopes observou que esta prática contraria a legislação que rege o transporte coletivo municipal (Lei 5.602), que veda o transporte de material inflamável. As quatro pessoas responsabilizadas foram indiciadas no artigo 250, parágrafo 2º, combinado com o artigo 258 do Código Penal Brasileiro, ou seja, incêndio culposo qualificado. Se forem condenados pela Justiça, os indiciados poderão sofrer pena que varia de seis meses a dois anos de prisão.

O QUE É THINNER
É uma composição de vários solventes capaz de diluir componentes e revestimentos. Tem ampla utilização em tintas e alto poder de solvência. É usado também como desengraxante e para limpeza
Em altas temperaturas, o thinner libera vapores e, com uma faísca, entra em combustão. O produto não é capaz de pegar fogo sozinho, apenas com o calor. Necessita de uma faísca para entrar em combustão e pode até causar explosões
Qualquer solvente em altas temperaturas libera vapores. Se estiver em um ambiente fechado, como um veículo, pode pegar fogo, bastando que uma pequena faísca atinja o vapor (não precisa atingir o produto em si)
Uma peça metálica (como uma fivela de sapato) que venha a provocar uma faísca ao bater em algo pode ser suficiente para começar o fogo se houver vapor concentrado no ambiente
O transporte deste tipo de substância tem de ser feito seguindo normas de segurança
Fonte: Dimitrios Samios, professor de Fisicoquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Controle de Qualidade dos Combustíveis do Rio Grande do Sul

Comentários:
Esse um bom exemplo como o risco infiltra-se em locais tão impossíveis, esperando apenas as condições ideais para materializar-se.
A temperatura média da semana em que houve o acidente na cidade era de 37o C.
Como a característica do thinner depende da composição de vários solventes e de seu preço de mercado. O seu ponto de fulgor depende da composição dessa mistura e varia da mais simples a especial;
O ponto de Fulgor em Vaso Fechado é importante porque permite avaliar o risco do thinner inflamar‑se ao ser submetido à elevação de temperatura em condição de confinamento (lata fechada)
As condições ambientais estavam propícias para o thinner inflamar-se; temperatura externa (ambiente, 37o C) e temperatura interna do ônibus (mais de 37o C, lata próximo ao motor) e faltando apenas a fonte de ignição.

Fontes: Jornal Agora – Rio Grande/RS e Zero Hora - Porto Alegre/RS, no período de 10 de janeiro a 23 de fevereiro de 2006

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posted by ACCA@9:49 AM