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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Máquina mortífera – Trânsito e Feriados

Comentário
Com a chegada do feriadão do carnaval, uma batalha silenciosa é travada nas estradas e ruas brasileiras, o duelo entre motoristas de carros, motos e pedestres. Alguns deles perecerão ou seus acompanhantes, principalmente familiares ou amigos ou desconhecidos e outros levarão para sempre as seqüelas, dores e fotografias virtuais dos seus entes queridos. É um grito ou clamor silencioso, que passa desapercebido pelas autoridades públicas. No país, 800 pessoas devem morrer segundo estimativa do SOS Estradas - Programa de Segurança nas Estradas no feriadão, até a meia-noite do dia 24. Na guerra do Iraque, os americanos perdem em média 3 soldados por dia ou na guerra do Vietnã os americanos perderam 50.000 soldados no período de dez anos, enquanto na guerra do trânsito, perdem a vida quase 42.000 brasileiros por ano (incluindo as mortes de vítimas em estados graves em convalescenças). O transito brasileiro é uma fábrica de encomenda contínua de mortes, vítimas, seqüelas e sonhos perdidos. ACCA

Se ouvissem o clamor que se eleva das enfermarias de hospitais, os motoristas gaúchos pensariam melhor antes de cometer qualquer imprudência no trânsito durante o feriadão de Carnaval – que deixou um saldo de pelo menos 26 mortos no Estado no ano passado.
Nos hospitais de Pronto Socorro (HPS) e Cristo Redentor na Capital, as vítimas da violência sobre o asfalto ocupam a maior parte dos leitos nas alas de politraumatizados. No HPS, costumam corresponder a pelo menos 80% das vítimas de múltiplas fraturas.
Na quinta-feira, 16 de fevereiro, à tarde, a sala prevista para atender 21 pacientes já contabilizava 30, com quatro macas tendo de ocupar o corredor por falta de espaço.

O temor dos funcionários é de que a situação fique ainda pior em razão dos acidentes que se multiplicam nesta época do ano, estimulados principalmente pela combinação fatal entre álcool, direção e imprudência.

Hoje, além de pernas e braços dilacerados pela ferocidade do trânsito, sobre cada leito ocupado por um sobrevivente há uma história dramática a servir de exemplo. Mas de nada adiantarão as advertências se não houver condutores e pedestres dispostos a ouvi-las.

Leia, os relatos de José Roberto Gonçalves, Ídolo Romano Queiroz, Ari Domingos Cemin e André Bonfim. Quatro vítimas do tráfego.

O último olhar - José Roberto Gonçalves
Desde 18 de janeiro, a mesma visão assombra as noites do guarda-costas José Roberto Gonçalves, 32 anos: ele acabou de bater seu Tipo contra um Xsara na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. Preso às ferragens, ele olha para trás, onde o filho de nove meses viajava no colo da cunhada. Todas as noites, José Roberto relembra o olhar do pequeno Luan nesse momento e não consegue dormir.

Naquela manhã, a família havia acordado cedo para levar Luan a uma consulta no Hospital Conceição. Depois de um casamento de nove anos, dois abortos naturais e uma longa luta para ter um bebê, José Roberto e a mulher, Patrícia, cercavam o filho de cuidados. José encheu a banheira, lavou Luan e saiu para a consulta com a família.

A viagem durou minutos. O guarda-costas viu um carro prateado vindo em sua direção. Olhou para o lado e percebeu uma parada de ônibus cheia de gente. Evitou invadir a parada, mas não conseguiu se safar do choque contra o automóvel. Conforme a Polícia Civil, a carteira do outro motorista estava vencida. Zonzo, José Roberto ouviu uma voz de mulher gritando do lado de fora:

- O seguro vai pagar tudo. O seguro paga.
Foi quando olhou para trás. Percebeu que o filho, machucado, fitava seus olhos. Tentou se desvencilhar das ferragens, mas estava preso. Tentou acordar a mulher, ao seu lado, mas ela estava desmaiada. Vencendo a dor, se esticou e conseguiu retirar o menino dos braços da cunhada, desfalecida.

- Eu vi que ele estava mal - recorda o guarda-costas.
Luan morreu pouco depois. Dele, José Roberto guarda a última foto, tirada no aparelho celular, as lembranças do último banho, as roupas que ficaram guardadas para quando o pequeno voltasse para casa e o último olhar de Luan para o pai.

Reza contra a dor - Ari Cemin
Sobre o travesseiro do motorista Ari Cemin, 60 anos, em um dos leitos do HPS, repousa com ele um pequeno crucifixo. É neste objeto que Cemin busca forças para enfrentar o drama vivido desde uma manhã no final de janeiro. Reza para para diminuir as dores.
Como funcionário de uma empresa de entregas, viajava pela BR-116 nos arredores de Tapes quando outro carro teria invadido sua pista. A força do impacto esmagou suas duas pernas contra as ferragens.

- Me tirem daqui. Me tirem daqui - implorou aos primeiros que vieram oferecer socorro.
Hoje, quase um mês depois, ainda não sabe quando poderá voltar a andar ou retomar o trabalho.
- Faz um mês que estou nessa posição. É terrível - afirma.

As duas pernas foram quebradas em inúmeros lugares, incluindo fêmur, perônio, tíbia e tornozelo. Os pés tiveram de ser praticamente reconstruídos cirurgicamente. Por isso, apela aos motoristas gaúchos:

- Eu queria estar vivendo, trabalhando, realizando meus planos. Estou aqui, preso por não sei quanto tempo. Quem vai pegar a estrada devia pensar nas conseqüências, não andar acima do limite de velocidade, não beber. Isso é respeitar a vida - suplica.

Perna esfacelada - Ídolo Queiroz
Um simples flerte com a imprudência valeu ao motorista de caminhão Ídolo Queiroz, 50 anos, pelo menos dois meses em um leito do HPS, oito meses com pinos atravessados na perna e a dúvida sobre que seqüelas poderão apresentar depois de recuperado.

A fim de buscar um comprador para a moto de um dos filhos, Queiroz foi com a família a um tradicional ponto de rachas no Lami, na zona sul da Capital, quinta-feira passada. Como lá costumam se encontrar muitos motociclistas, pensou em fazer negócio mais rapidamente. Quase encontrou a morte. Quando se preparava para estacionar, quatro motos em alta velocidade vieram em sua direção. Uma delas, fora de controle, o atropelou.

- Por sorte, minha mulher, que está grávida, havia descido da moto alguns segundos antes. Minha perna ficou esfacelada - conta.

Por um segundo - André Bonfim
Um intervalo de um segundo fez a diferença entre a vida e a morte de André Bonfim, 17 anos, na tarde de 26 de janeiro. Ele voltava do serviço em uma fábrica de Sapiranga quando sua bicicleta topou com um caminhão. Em um primeiro momento, ainda conseguiu desviar. Em seguida, o outro motorista fez uma curva brusca para a esquerda.
André estava na direção da roda do veículo quando saltou da bicicleta. Ainda assim, o pesado caminhão passou por cima de seu pé.

- Se eu tivesse esperado mais um segundo, um segundo só, o caminhão tinha me acertado em cheio - recorda o adolescente.

Agora, espera por resultados de exames e avaliações médicas para saber quando poderá voltar a andar, trabalhar e aproveitar a juventude.

- Disseram para mim que o motorista do caminhão havia saído de um bar. Acho que o mais importante para quem vai sair no Carnaval é não beber.

Estudo da Polícia Rodoviária Federal aponta que as falhas humanas respondem pela maior parte dos acidentes ao longo do ano
■ Falta de atenção: 31,11%
■ Excesso de velocidade: 8,55%
■ Não manter distância segura: 7,27%
■ Desobediência à sinalização: 4,10%
■ Falha mecânica: 3,30%
■ Ultrapassagem indevida: 3,19%
■ Defeito na via: 2,70%
■ Sono: 1,78%
Fonte: Zero Hora - 16 de fevereiro de 2007

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